Há várias explicações para a existência do Dia das Mentiras. A mais palusível diz que a brincadeira surgiu em França onde, desde o inicio do século XVI, se festejava o Ano Novo no dia 25 de Março, por coíncidir com a chegada da Primavera. As festas duravam uma semana e terminavam no dia 01 de Abril, data oficial de entrada no novo ano.
Depois da adopção do calendário gregoriano, decretou-se que o ano novo seria comemorado no primeiro de Janeiro. Alguns franceses não gramaram da mudança e continuaram a seguir o calendário antigo, festejando o Ano Novo a 1 de Abril. Grupos de gozadores passaram então a ridicularizá-los, a enviar presentes esquisitos e convites para festas que não existiam. A tradição evoluiu até ao que vemos hoje.
Eu acho uma anormalidade. Não faz sentido nenhum um dia das petas, ninguém acredita em nada do que lhe dizem, anda meio mundo a desconfiar da outra metade e as conversas tornam-se completamente repetitivas.
Por exemplo, no ano passado (ou há dois anos?), aproveitando o facto de o primo Tiago ir ficar em casa sozinho com a empregada, o Vasquinho pediu para lá ir passar o dia com ele. A meio do dia liga-me a cunhada ligeiramente enervada a dizer que tinha recebido um telefonema relatando que os príncipes estavam civilizadamente a jogar à pedrada no jardim – nada mais normal - quando um calhauzito mais atrevidote passou a vedação por cima e assentou mesmo no vidro da frente de um jipe que passava, partindo-o. Claro que eu não acreditei, óbvio. E foi o cabo dos trabalhos para ela me convencer: É tanga, dizia eu, não é nada, dizia ela, e eu dizia mas achas que sou parva? E ela respondia que sim, que achava, mas que era verdade na mesma. E eu dahhh e ela, é mesmo verdade, e a dona do carro está fula.
Aparentemente a conversa dela com a empregada deve ter sido semelhante, mas sem a parte do estás parva. Mesmo assim, no caminho para casa dela, acalentei secretamente o desejo de ter sido redondamente enganada.
Sem sorte.
Portanto, o dia das Mentiras podia acabar.
Útil, útil seria fazer aqui umas alteraçõezitas, que muito significariam para todas nós:
Facto: as mulheres são mais que os homens, pelo que é crucial que andem felizes ou a vida deles pode ser um inferno.
Facto: É absolutamente indiferente em que dia começa o ano. Desde que toda a gente saiba em que dia é, qualquer um é bom.
Sugestão: (vejam bem isto que é lindo!) Passava-se o Reveillon de novo para 01 de Abril, acabando-se com isto das petas e deixava-se o 01 de Janeiro livre para uma iniciativa muito mais importante: o Dia Internacional da Luta Contra a Celulite. Isso sim, seria uma iniciativa louvável. Em vez de perder tempo e gastar neurónios que tanta falta lhe faz com mentiras que toda a gente descobre em menos de nada, a Comunicação Social passaria a divulgar na mesma proporção dicas para o extermínio de celulites e todos os tipos de gorduras localizadas, mas com a devida antecedência relativamente ao Verão (daí o dia 01 de Janeiro). Mais, os conselhos dados seriam de aplicação imediata e milagrosa nas nossas ancas, nádegas e barrigas, mediante a mera verbalização de uma palavra passe que nesse dia chegava a cada mulher através de sms para o seu telemóvel. Se isto acontecesse, se num dia apenas todas as asneiras e exageros cometidos durante um ano desaparecessem milagrosamente para darem lugar a massa muscular firme e delgada, se não tivéssemos de nos mergulhar em cremes, loções, massagens, comprimidos e auto-bronzeadores durante metade do ano, tenho para mim que poderiam acabar com os dias da Mãe, da Mulher e dos aniversários de todas nós, que ninguém se ralava muito. E ainda podiam fazer uma ligação de TGV Luz-Alvalade, patrulhar a foz do Tejo com submarinos alemães ou oferecer bilhetes de avião no metro em hora de ponta que, poucas de nós se incomodariam. Só de imaginar a vida perfeita, a autoestima perfeita, o Verão perfeito...
Sim, o Mundo podia ser um sitio muito melhor para viver!
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