Para mim escrever e falar é mais ou menos como vestir-me – faço-o todos os dias e como acho que fica melhor, mas não sou muito amiga de regras.
Ainda assim esforço-me para fazer ambas as coisas com alguma correcção - dar erros a escrever ou a falar é semelhante a vestir mal: um jornalista que apareça na televisão com um casaco metalizado e uma gravata de cetim com aplicações cintilantes, para além de parecer o Herman José vai desviar a atenção do espectador daquilo que interessa mesmo, as notícias que está a dar. O mesmo se passa com as palavras. Se as dizemos ou escrevemos incorrectamente corremos o risco de o conteúdo se perder no meio da confusão.
Não sei se será porque se lê cada vez menos, segundo consta, ou porque o negócio da moda cada vez movimenta balúrdios maiores, mas a verdade é que a cada dia as pessoas se vestem melhor, mas falam pior. E, se acho lindamente que vistam bem, chateia-me muito que se fale mal.
Chateia-me, entre outros motivos, porque todos aprendemos em pequenos a ter respeito pelos velhos e a tratá-los bem, o que torna incompreensível a forma como se tem vindo a violentar de forma vil e impune a desgraçada da nossa velhinha língua – e já nem menciono aquela trampa daquele acordo ortográfico que nos quer fazer passar a escrever em brasilês. Se querem que passemos a escrever noutra língua, então que seja a do país que nos está a anexar: Espanha.
Falo aqui de outra formas de maus tratos sem lei que as regule, portanto, ninguém que as proíba:
(estes são apenas uns exemplozitos, sim? Sem ofensa nem presunção)
#1
A estrangeiração:
Consiste em substituir, por vezes sem critério que o justifique, algumas palavras de uma frase por outras em inglês ou inglesado, numa tentativa de dar uma aparência altamente técnica e especializada a um discurso banal ou que se quer propositadamente incompreensível.
Muito comum dentro das empresas, principalmente ao nível dos quadros médios e superiores viciados em gadgets e telemóveis topo de gama, que vão (ou não surpreendiam se fossem) para a praia de sapatos de vela com meias e portátil à tiracolo.
Por exemplo:
- Envia-me aí um meeting request para falarmos do benchmarking e depois broadcasta os resultados. Não te esqueças de fazer backup do portfolio.
- Vou googlar para ver se encontro um link que relacione a informação com os vossos inputs e depois dou-vos feedback.
#2
A baralhamentalização:
Consiste em atirar para o meio de um discurso que decorre com aparente normalidade, uma palavra que não tem nada a ver com nada, mas cuja sonoridade é semelhante à da palavra correcta.
É praticada no quotidiano por pessoas adultas com distracção crónica ou que gostavam de saber falar com palavras caras - mas não se ajeitam.
Por exemplo:
- Agora que já expus os meus argumentos, tirem vocês as vossas próprias inalações.
- Tenho aqui uma ideia que gostaria de vincular na comunicação social...
#3
A erroortografioralização:
Trata-se de ofender determinados vocábulos de forma sistemática e por vezes, consciente.
Verifica-se tanto na escrita como na oralidade, tanto em adultos como em crianças, tanto em pessoas instruídas como em analfabetos e parece que não há maneira de resolver o problema, já que persiste há bué.
Acontece em todo o lado, mesmo onde menos se espera e os exemplos são tantos que não há espaço para os listar.
Por exemplo.
- Ontro dia vi-te na rua.
- Há-dem ver como é!
- Vou c’a mulher ao cinema.
- Não hesiste ninguém como tu!
#4
A exageramentalização:
Esta tradição é mais oral, uma vez que ao escrever a pessoa está mais concentrada. Acontece geralmente quando se pretende enfatizar uma ideia ou conceito e não se presta atenção ao que se está a dizer.
Não escolhe cargo, instrução nem condição social, sendo um fenómeno género Trivial Pursuit – dos 7 aos 77.
- Na grande maior parte das vezes...
- Geralmente vou sempre à frente...
- Tenho uma amiga minha...
- Há duzentos anos atrás....
#5
A smsamentação:
Este é um fenómeno exclusivo da escrita e o que mais me perturba. Começou por grassar entre os jovens que por não terem dinheiro se tornaram fanáticos dos sms’s, mas posteriormente alargou-se às gerações com idade para terem juízo.
Consiste em substituir os “cês” por “kapas” “os” por “us” e suprimir do texto quase todas as vogais, todos os acentos e toda a pontuação. O resultado traduz-se num amontoado de letras que temos de ler alto para vagamente compreendermos o que significa.
Por exemplo:
- Mae posso jntr m csa d Joana
- Tou cm drs d brriga
- El dz k sim
A nossa língua é famosa no mundo inteiro por ser antiquíssima, rica, complexa, bela, musical e poética. Foi utilizada para escrever das mais belas obras literárias de sempre, para exprimir ideias de grandes pensadores, para cantar canções que se tornaram marcos da nossa história. Mas a malta de cá decidiu que não presta. E decidiu matá-la.
À pancada.
Ainda assim esforço-me para fazer ambas as coisas com alguma correcção - dar erros a escrever ou a falar é semelhante a vestir mal: um jornalista que apareça na televisão com um casaco metalizado e uma gravata de cetim com aplicações cintilantes, para além de parecer o Herman José vai desviar a atenção do espectador daquilo que interessa mesmo, as notícias que está a dar. O mesmo se passa com as palavras. Se as dizemos ou escrevemos incorrectamente corremos o risco de o conteúdo se perder no meio da confusão.
Não sei se será porque se lê cada vez menos, segundo consta, ou porque o negócio da moda cada vez movimenta balúrdios maiores, mas a verdade é que a cada dia as pessoas se vestem melhor, mas falam pior. E, se acho lindamente que vistam bem, chateia-me muito que se fale mal.
Chateia-me, entre outros motivos, porque todos aprendemos em pequenos a ter respeito pelos velhos e a tratá-los bem, o que torna incompreensível a forma como se tem vindo a violentar de forma vil e impune a desgraçada da nossa velhinha língua – e já nem menciono aquela trampa daquele acordo ortográfico que nos quer fazer passar a escrever em brasilês. Se querem que passemos a escrever noutra língua, então que seja a do país que nos está a anexar: Espanha.
Falo aqui de outra formas de maus tratos sem lei que as regule, portanto, ninguém que as proíba:
(estes são apenas uns exemplozitos, sim? Sem ofensa nem presunção)
#1
A estrangeiração:
Consiste em substituir, por vezes sem critério que o justifique, algumas palavras de uma frase por outras em inglês ou inglesado, numa tentativa de dar uma aparência altamente técnica e especializada a um discurso banal ou que se quer propositadamente incompreensível.
Muito comum dentro das empresas, principalmente ao nível dos quadros médios e superiores viciados em gadgets e telemóveis topo de gama, que vão (ou não surpreendiam se fossem) para a praia de sapatos de vela com meias e portátil à tiracolo.
Por exemplo:
- Envia-me aí um meeting request para falarmos do benchmarking e depois broadcasta os resultados. Não te esqueças de fazer backup do portfolio.
- Vou googlar para ver se encontro um link que relacione a informação com os vossos inputs e depois dou-vos feedback.
#2
A baralhamentalização:
Consiste em atirar para o meio de um discurso que decorre com aparente normalidade, uma palavra que não tem nada a ver com nada, mas cuja sonoridade é semelhante à da palavra correcta.
É praticada no quotidiano por pessoas adultas com distracção crónica ou que gostavam de saber falar com palavras caras - mas não se ajeitam.
Por exemplo:
- Agora que já expus os meus argumentos, tirem vocês as vossas próprias inalações.
- Tenho aqui uma ideia que gostaria de vincular na comunicação social...
#3
A erroortografioralização:
Trata-se de ofender determinados vocábulos de forma sistemática e por vezes, consciente.
Verifica-se tanto na escrita como na oralidade, tanto em adultos como em crianças, tanto em pessoas instruídas como em analfabetos e parece que não há maneira de resolver o problema, já que persiste há bué.
Acontece em todo o lado, mesmo onde menos se espera e os exemplos são tantos que não há espaço para os listar.
Por exemplo.
- Ontro dia vi-te na rua.
- Há-dem ver como é!
- Vou c’a mulher ao cinema.
- Não hesiste ninguém como tu!
#4
A exageramentalização:
Esta tradição é mais oral, uma vez que ao escrever a pessoa está mais concentrada. Acontece geralmente quando se pretende enfatizar uma ideia ou conceito e não se presta atenção ao que se está a dizer.
Não escolhe cargo, instrução nem condição social, sendo um fenómeno género Trivial Pursuit – dos 7 aos 77.
- Na grande maior parte das vezes...
- Geralmente vou sempre à frente...
- Tenho uma amiga minha...
- Há duzentos anos atrás....
#5
A smsamentação:
Este é um fenómeno exclusivo da escrita e o que mais me perturba. Começou por grassar entre os jovens que por não terem dinheiro se tornaram fanáticos dos sms’s, mas posteriormente alargou-se às gerações com idade para terem juízo.
Consiste em substituir os “cês” por “kapas” “os” por “us” e suprimir do texto quase todas as vogais, todos os acentos e toda a pontuação. O resultado traduz-se num amontoado de letras que temos de ler alto para vagamente compreendermos o que significa.
Por exemplo:
- Mae posso jntr m csa d Joana
- Tou cm drs d brriga
- El dz k sim
A nossa língua é famosa no mundo inteiro por ser antiquíssima, rica, complexa, bela, musical e poética. Foi utilizada para escrever das mais belas obras literárias de sempre, para exprimir ideias de grandes pensadores, para cantar canções que se tornaram marcos da nossa história. Mas a malta de cá decidiu que não presta. E decidiu matá-la.
À pancada.

2 comentários:
Muito perspicaz, como sempre. Cinco estrelas.
Obrigada!
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