Fez este Sábado 11 anos que nós entramos pela primeira vez, ansiosos e expectantes, nessa montanha russa que é a maternidade.
Fez este Sábado 11 anos que vivi pela primeira vez os momentos mais arrebatadores e intensos que uma mulher pode experimentar nesta vida.
Fez este Sábado 11 anos que tive pela primeira vez vontade de enfiar um ferro incandescente pela goela de alguém abaixo.
Eram 08.50H da manhã quando na Maternidade Alfredo da Costa se escutou um choro de recém nascido. Para eles, mais um, para mim, o som mais bonito que já ouvi – o choro da minha primeira filha, rápido, sentido, vigoroso, indicador número um de saúde do bebé.
A assistir ao parto estavamos apenas nós os dois, uma parteira e uma anestesista com a tromba mais antipática de todos os tempos, provavelmente danada por ter sido arrancada à sua sesta nocturna para fazer um trabalho tão menor como dar uma epidural a uma grávida que nem sequer ia fazer uma cesariana.
Assim que a Teresinha chorou o Filipe saiu da sala para dar a boa notícia à legião de familiares que se encontrava na sala de espera, a parteira foi chamar a doutora e, enquanto isso eu quedei-me embevecida a olhar para a minha princesa, ainda sem crer no milagre que acabava de viver (ou começava a viver).
A certa altura, entre lágrimas emocionadas, mais a falar com os meus botões do que com alguém em especial, perguntei na direcção daquela besta, a anestesista, já que no momento não estava lá mais ninguém: é linda, não é? Ao que a mula respondeu como quem vomita: ...hum... tem a cabeça um bocadinho em forma de bala.
Como toda a gente que já passou por isso, isto de ter filhos não é fácil. Muito menos quando se trata do primeiro.
Numa primeira gravidez cada dia é uma experiência intensa, cada acontecimento inesperado rapidamente se transforma numa angústia feroz. Num momento tudo é lindo e romântico e no outro a vida é toda ela um horror. Estamos hormonais, com frequência gordas – que era o meu caso, uma vaca com mais dezoito quilos em cima, distribuidos equitativamente entre as nádegas e as beiças – e imensamente sensíveis. Tudo o que queremos é mimo, atenção, e que o obstetra nos dê a importância que daria se a grávida fosse da família do Cristiano Ronaldo. Além disso, durante os últimos meses o nosso discernimento oscila entre o desejo fútilmente secreto de conseguirmos respirar nas nossas calças de ganga uma semana depois de a criança nascer, sem rebentar o fecho e o pavor de ficarmos para todo o sempre assim, como estamos naquele momento.
Era exactamente nesse estado que eu me encontrava, acrescentando ainda o facto de estar fisica e emocionalmente exausta, após seis horas de intenso trabalho de parto.
Seria assim tão dificil para aquela hiena acéfala ter respondido apenas que sim, mesmo que nem um sorrisinho me desse? Cabra infame. Não saberia ela, que trabalha numa maternidade, que nunca, mas nunca se é sincera para uma mãe? A minha filha era linda sim. Era perfeita. E perfeitos eram cada arranhão que tinha nas bochechas vermelhuscas, o pequeno angioma na sobrancelha direita, a boquinha minúscula inchada como um biquinho amoroso e sim, a cabecita em forma de bala, ou de martelo ou do que fosse.
Era minha filha, perfeita como só os filhos são para as mães – pois só nós temos a capacidade de ver apenas o que queremos, como e quando queremos, independentemente daquilo que os outros pensem ou digam. É a isso que chamamos “amor incondicional”. Amor esse que espantosamente cresce a cada dia que passa, mesmo quando já estamos convencidos de que não pode crescer mais.
Agora, onze anos depois, tenho uma filha mais velha, linda e perfeita, a entrar na adolescência. Precoce, como agora é tudo na vida deles. E que, felizmente para todos nós, amo absoluta e incondicionalmente desde a primeira vez que a vi.
Só assim se explica os cinco amigos a dormirem em tendas lá em casa, depois de um jantarinho apenas para os trinta e tal elementos da família mais chegada – cinco quilos de carne, três sacos de lixo com garrafas, quatro máquinas de loiça e um frigorífico vazio - que acabou já passava das duas da madrugada e durante grande parte do qual assistimos primeiro aos berros da final da Champions, e depois aos berros do Elton John em directo do Rock in Rio, sem que eu tenha tido vontade de agredir alguém.
Sim, finalmente percebo a utilidade desses sentimentos.
Parabéns filhota e obrigada a todos por terem ido. Adoramos!
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