segunda-feira, outubro 03, 2011

Nome cientifico II - Homo Doméstico

Reino: Animalia
Classe: Mammalia
Género: Homo Sapiens Sapiens
Família: Hominidae
Espécie: Primata bípede
Sub espécie: Homo Sapiens Sapiens Doméstico - Macho

Distribuição

Esta espécie tem fraca distribuição geográfica. Sendo nativa da Europa, existe também nas Américas e na Ásia. Só pode ser encontrada em grandes cidades e zonas urbanas com grande densidade populacional. Vive em grupos de pequenas dimensões.

Características Físicas:

O corpo do Homo Doméstico é elegante e musculado. A cabeça é pequena e redonda, com a maioria dos exemplares a apresentarem ausência total de cabelo. Na fronte apresenta uma excrescência denominada “óculos escuros” ou óculos graduados”, consoante se encontra no interior ou no exterior de edificios. Possui mãos e pés longos, suaves e desprovidos de cutícula. Um Homo Doméstico adulto pode medir entre 1,75m e 1,95m. O seu peso pode variar entre os 75 e os 90 kg, mas poderá ser muito inferior, dependendo da dieta. O Homo Doméstico apresenta quase sempre uma zona abdominal extremamente definida denominada "six pack".

Uma das principais características desta espécie é o masochismo. Este manifesta-se de várias formas, sendo a principal, o arrancamento integral dos pelos corporais com tiras de cera.

Hábitos alimentares

O Homo Doméstico come muito pouco. É um animal omnívoro, se bem que manifesta grande preferência por peixe cru, vegetais com nomes estrangeiros e tudo o que tenha a palavra gourmet na designação. Alimenta-se precisamente de duas em duas horas, sabe como utilizar grande variedade de talheres e come arroz com pauzinhos. A sua dieta inclui igualmente pequenas quantidades de champanhe, sangrias leves, sumos naturais temperados com gengibre e quantidades moderadas de cocaína. O consumo exagerado desta última tem no Homo Doméstico o efeito de o fazer sentir-se poderoso e invencível, comportamento que o priva do sono, originando agressividade e enfartes de miocárdio.

Comportamento

O Homo Doméstico é de comportamento muito sociável, mas em casa reúne-se em grupos de dois ou três elementos. Nestes grupos geralmente não existem crias, ou existem em reduzidas porções, mas as fêmeas são bem toleradas.

O Homo Doméstico é dotado de um vocabulário escasso, constituído por apenas algumas palavras em português, como noite, alergia, tema, moda e dinheiro e mais meia dúzia em línguas estrangeiras – shampoo, performance, timing, gourmet, Bluetooth, design, internet, style e uma quantidade bastante considerável de apelidos e nomes de medicamentos.

O Homo Doméstico interage com outros Homo Domésticos fundamentalmente através de utensílios sofisticados denominados gadgets e respira artificialmente através de um mecanismo inserido na orelha, chamado auricular, privado do qual entra em estado vegetativo.

Quotidiano

O Homo Doméstico habita exclusivamente zonas urbanas com elevada densidade populacional, para que possa facilmente ver e ser visto. É geralmente muito ativo e move-se exclusivamente em ambientes com duas características fundamentais: serem da moda e terem ar condicionado (AC). Assim, o indivíduo passa o dia no AC do escritório da moda, de onde sai para o AC do automóvel da moda, de onde sai para o AC do ginásio da moda, de onde sai de novo para o AC do automóvel da moda no qual se dirige ao AC do apartamento da moda, onde se fecha para tomar um duche numa casa de banho da moda, vestir-se com roupa da moda e sair para o AC de um restaurante da moda, de casa de um amigo da moda, de um teatro da moda ou de uma exposição da moda.

Quando perante uma fêmea esteticamente equilibrada - torax desenvolvido ainda que artificialmente, penugem bem aparada, dentição completa e pedigree - é enérgico e simpático, charmoso e disponível para boa conversa. Para proteger a pele dos efeitos da radiação solar e dos gases tóxicos que caracterizam as zonas que habita, nos raros momentos em que se expõe ao ar livre cobre-se com espessas camadas de cremes cujo preço nunca se situa abaixo dos três digitos. De noite, quando fica no loft, gosta de ver séries de culto ou ouvir música eclética, sozinho ou acompanhado por outros machos e fêmeas, com as quais partilha conselhos de beleza e juventude. Uma das características mais curiosas do Homo Doméstico é a sua dissimulada fixação por futebol. Quando não vai ao estádio, onde possui lugar cativo em nome de um tio, finge desinteresse pelos jogos a que assiste em série no televisor da moda, sentado de pernas traçadas no sofá da moda, envolto no mais sepulcral silêncio. Mesmo quando não está a ver televisão, o Homo Doméstico segura firmemente o comando da tv na mão direita enquanto com a esquerda procede discretamente à chamada “cossação da genitália”, hábito que enfurece as fêmeas mas relativamente ao qual elas simulam indiferença.

Quando defeca, o macho lê, geralmente revistas ou jornais sobre economia, política, futebol ou beleza, desde que escritos em inglês e que tenham aplicações para Ipad. Este hábito faz com que o ato se prolongue por vários minutos, libertando-o assim com legitimidade, do maior número possível de tarefas domésticas, que finge estar sempre disponível para efetuar. Por outro lado, ele é grande apreciador do ruído característico dos gases que liberta e que lhe provocam gargalhadas solitárias. O Homo Doméstico nutre também uma extraordinária vaidade pelo seu próprio pénis, que considera sempre maior e mais belo que o dos restantes habitantes do planeta.


Reprodução

A reprodução do Homo Doméstico inicia-se apenas depois dos 35 anos. Ocorre entre de Janeiro e Julho, quando os machos adultos solitários procuram fêmeas recetivas. O ritual da busca chama-se “engate”, é bastante simples e ocorre maioritariamente nas horas de expediente, que é onde passa a maior parte do tempo. Ao encontrar uma fêmea que lhe agrade, o macho Doméstico aproxima-se, lança-lhe um piropo subtil e, por vezes, convida-a para um pequeno-almoço de trabalho. Quando está muito interessado, envia sms e mensagens no Facebook, gestos que, por vezes, irritam outros machos e originam lutas verbais ferozes, com artigos publicados em revistas e por vezes, mesmo em jornais. Se o “engate” ocorrer fora da hora de expediente poderá gerar de forma quase automática um ato sexual, mas este só em honrosas exceções culminará em reprodução. Esta, entre Homo Domésticos, dá-se geralmente, por inseminação artificial, já que o horror às DST impede que aconteça de outra forma.



Ocasionalmente o Homo Doméstico demonstra inclinação por praticar “engate” com outro Homo Doméstico. Nesta situação os restantes machos do grupo congratulam-no por ter "saído do armário" e acolhem imediatamente o elemento mais recente, tratando-o respeitosamente por Homo Sexual ou gay. Todavia, quando na intimidade, referem-se por vezes a estes últimos de forma depreciativa, como larilas ou panisgas.



A gestação dura cerca de 240 dias, com os nascimentos a ocorrerem em qualquer altura do ano, desde que marcados previamente. As fêmeas têm entre uma e duas crias, que pertencem metade à mãe, metade a uma outra mulher denominada “empregada” ou “babá”. Durante este período o Homo Doméstico altera ligeiramente os seus hábitos - torna-se mais caseiro, aumenta o consumo de videos pornográficos no Ipad e comunica no Facebook que “estão grávidos”, apesar de apenas muito raramente agir em conformidade.

A maturidade sexual do macho é alcançada cerca dos 40 anos, embora ele viva convencido de a ter atingido aos sete. O tempo de vida médio do Homo Doméstico é de cerca de 80 anos em cativeiro.

quinta-feira, setembro 29, 2011

Nome científico: Homo Selvagem

Reino: Animalia
Classe: Mammalia
Género: Homo Sapiens Sapiens
Família: Hominidae
Espécie: Primata bípede
Sub espécie: Homo Sapiens Sapiens Selvagem - Macho
Distribuição
Esta espécie tem ampla distribuição geográfica, sendo nativa da Europa, Ásia e Norte de África. Mais recentemente foi introduzida nas Américas e na Oceania. Hoje, já só pode ser encontrada em liberdade nos rios e pântanos do continente africano, principalmente nas zonas mais húmidas e meridionais. Vive em grupos, que podem atingir os milhares de indivíduos.

Características Fisicas:
O corpo do Homo Selvagem é robusto, com pernas relativamente curtas. Apesar do cérebro diminuto, tem uma cabeça grande e arredondada, sem cabelo no topo, com olhos pequenos e juntos. Um Homo Selvagem adulto pode medir em média entre 1,50m e 1,70m. O seu peso médio pode variar entre os 80 e os 120 kg, mas poderá ir até aos 250K, dependendo da dieta. A grande barriga característica do Homo Selvagem adulto é constituída por vários pneus unidos entre si por pele coberta de pelos escuros, encaracolados e espessos. Na Europa os exemplares do norte tendem a ser mais pesados que os do sul. As orelhas e o nariz são providos de enormes pelos que se projetam para fora e crescem continuamente. O macho dominante ostenta geralmente uma tira espessa de pelos sobre o lábio superior, chamada bigode.

Hábitos alimentares
O Homo Selvagem passa grande parte do dia em busca de comida que consome em grandes quantidades. É um animal omnívoro, com preferência por matéria animal como carne de vaca ou de porco. No entanto também consome outros alimentos como feijão, batata, pão, tremoços e caracóis. A sua dieta inclui igualmente grandes quantidades de cerveja e vinho tinto, assim como bagaceiras e aguardentes. O consumo exagerado destes líquidos tem no Homo Selvagem um efeito denominado bebedeira, que origina comportamentos agressivos e faz com que passe muitas noites a dormir no sofá ou na prisão.

Comportamento
O Homo Selvagem é de comportamento pouco sociável e bastante territorialista. Reúne-se em grupos patriarcais, normalmente com três a cinco elementos, formados pelas fêmeas e crias, embora possam ser encontrados grupos superiores a vinte indivíduos. A fêmea fica sempre um pouco afastada do grupo e é ela que se encarrega da sobrevivência dos restantes elementos. Os jovens machos, chamados chungas, vivem na periferia do grupo.
O grunhido do Homo Selvagem chama-se arroto.

Quotidiano
O Homo Selvagem prefere zonas rurais ou urbanas desde que com baixa densidade populacional, para que possa facilmente controlar o quotidiano dos vários elementos do grupo. É geralmente sedentário e descansa grande parte do dia. Aparentemente tranquilo quando se encontra dentro de casa, onde se sente em total segurança, pode transformar-se numa verdadeira besta quando sai dela. Tudo o que encontrar pelo caminho será arrasado por impropérios e, por vezes, gestos obscenos. De noite gosta de recolher cedo para passar horas defronte do televisor, sozinho ou com outros machos desde que rodeado do mais completo silêncio, a ver todos os jogos de futebol, que analisa com alma de treinador e contra os quais berra e pragueja. Durante este tempo segura firmemente o comando da tv na mão direita e com a esquerda ocupa-se de um dos hábitos que caracterizam melhor o Homo Selvagem e que nenhum cientista conseguiu ainda compreender: a chamada cossação da genitália, hábito que enfurece especialmente as fêmeas e que podem inclusivamente levá-las a proferir algum ruído no decorrer das transmissões do jogo. Neste caso o macho geralmente torna-se agressivo e pode mesmo chegar a dar-lhe um par de chapadas.
Quando defeca, o macho lê revistas ou jornais sobre futebol. Este hábito faz com que o ato se prolongue por largos minutos, libertando-o assim da inteação com os restantes elementos do grupo. Por outro lado, ele aprecia extraordinariamente o ruído característico dos gases que liberta, ao ponto de soltar sonoras gargalhadas de cada vez que o escuta, mesmo quando se encontra sozinho.
Como não tem predadores naturais, o único perigo para o Homo Selvagem advém da sua própria espécie. São muito frequentes as quezílias entre estes animais, que podem mesmo culminar na morte de um deles.

Reprodução
Na Europa o tempo de reprodução vai de Janeiro a Janeiro, quando os machos adultos solitários procuram fêmeas recetivas. O ritual da busca chama-se “engate” e é bastante complexo e primitivo. Ao encontrar uma fêmea que lhe agrade, o macho Homo Selvagem persegue-a, lança-lhe piropos vulgares e, por vezes, escarra-lhe para os pés. Quando o interesse é grande, aproxima-se e roça a sua genitália nos quadris da fêmea, gesto que, por vezes, irrita outros machos e dá origem a lutas ferozes, das quais quase sempre saem ambos feridos.
Em alguns casos o Homo Selvagem fica confuso e sente inclinação por praticar “engate” com outro Homo Selvagem. Nesta situação os restantes machos do grupo expulsam aqueles e dão-lhes o nome de “panasca” ou “paneleiro de merda”.

A gestação dura cerca de 280 dias, com os nascimentos a ocorrerem em qualquer altura do ano. As fêmeas têm entre uma e duas crias, que pertencem exclusivamente à mãe. Durante este período o Homo Selvagem altera ligeiramente os seus hábitos, tornando-se menos caseiro, um pouco mais sociável para com as outras fêmeas, aumentando o consumo de cerveja e o visionamento de filmes pornográficos.
O desmame das crias macho ocorre geralmente por volta dos 35-40 anos, mas por vezes não chega a ocorrer.
A maturidade sexual é alcançada cerca dos 30 anos, ainda que, nos dias de hoje, nem sempre aconteça. O tempo de vida médio do Homo Selvagem é de cerca de 75 anos em cativeiro.
O Homo Selvagem, a par com o javali, é o único animal mamífero que, devidamente estimulado, pode ejacular depois de morto.

quarta-feira, setembro 21, 2011

É por estas e outras que este país está na merda!

Há uns meses estavamos sem ninguém que nos arranjasse o jardim. Falaram-me de um jardineiro, contactei-o e pedi um orçamento para o deixar impecavel. Precisava pronto no fim de semana, por isso adjudiquei sem discutir. O senhor não cumpriu o prazo nem o resultado andou sequer perto do que lhe tinha sido pedido.

Precisei de um serralheiro para me arranjar umas janelas. Foi lá um, fez o orçamento, eu adjudiquei e ele nunca mais apareceu. Foi lá outro, nem sequer chegou a enviar orçamento.

Precisei de alguém para me arranjar a máquina da roupa. Dos três contactos que me deram, o único que me atendeu o telefone (os outros não atenderam nem devolveram a chamada) recusou ir de Carnaxide a Cascais fazer o trabalho. Note-se que eu nem lhe disse qual era a avaria.

Quis inscrever uma das minhas filhas na natação. Era obrigatório fazer uma aula experimental para aferir o nível. Liguei para marcar. Não podia, tinha de ser presencial. Perguntei porquê. Porque sim, foi a resposta. Expliquei que tenho três filhos, trabalho o dia todo, cada um deles pratica uma actividade e era complicado para mim ir lá de propósito só para marcar a aula, que então iria tentar outro sitio. Está bem, respondeu o senhor.

Numa conversa recente com uma rapariga nova, com licenciatura, salário, casa e homem unido de facto, ela disse-me em três minutos, três pedidos diferentes que tinha feito ao estado, e conseguido: subsidio de apoio à maternidade por ser mãe solteira, apoio na escola por ter baixos rendimentos e baixa médica para poder ir à praia. Tudo fraudulento. E só destas conheço mais dois casos. Tudo mentira.

Estes são apenas alguns dos exemplos que me ocorreram em cinco minutos.

A triste realidade é que são estas pessoas que passam os dias nas televisões a reclamar da falta de apoios do estado, do desemprego, das más condições de vida, da troika, dos políticos, da chuva e de tudo. São estes porque quem realmente precisa não anda na rua a reclamar, faz pela vida, tem outras preocupações. Trabalho não falta por aqui, por Lisboa, pelas cidades, pelas zonas urbanas. Pode não ser o mais glamouroso ou bem remunerado, pode não ter o melhor horário, pode envolver sacrificios, mas é mais digno que viver na pendura, além de ser a corda que pode puxar por uma melhoria de vida. Trabalho não falta, por aqui. Falta é quem o queira fazer.

No interior do país é que não há. Nas terras onde fecham fábricas todos os dias e, por muito que se procure, não há mesmo trabalho e a única solução é muitas vezes largar a família e sair do país sem nada a não ser um punhado de esperança em cada algibeira. Mas curiosamente também é nessas zonas que há maior empreendedorismo, que se arregaça as mangas e se vai à luta.

É muito fácil fazer birras e lamentar o que á nossa vida poderia ter sido mas não foi. Mas a verdade é que até os vigaristas, para serem bem sucedidos, trabalham que se fartam.

Se não fosse esta atitude de encosto, de exigência permanente e desresponsabilização total por parte de quem poderia ajudar a aliviar a carga, se calhar havia mais para quem realmente precisa. Havia tudo: trabalho, serviços, apoios, respeito... tudo.

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quinta-feira, abril 28, 2011

Insolências Pascais

A Verinha tem seis anos e parece um anjinho. É uma criatura doce e cheia de mimo, de cachos loiros a emolurar uma carinha redondinha e rosada onde cintilam duas lagoas azuladas. Uma ternurinha. Quase sempre. Não fora a influência nefasta que o convívio com os pré adolescentes lá de casa tem exercido sobre ela e que a faz comportar-se como se tivesse aqueles catorze anos a precisar de um par de estalos que todas nós já tivemos - umas há mais tempo que as outras, eu, por exemplo foi há dois ou três anitos apenas.

Nessas alturas, em que a jovem insolente brota de dentro dela sem aviso, a surpresa faz com que não consiga manter-me séria, o que não contribui nada para impôr algum respeito.

Este Domingo, sentados à mesa da Páscoa, vejo pelo canto do olho a Verinha sentada na sua cadeira, de pés em cima do assento, caracóis loiros a escorrer-lhe pelas pernas abaixo, a analisar a crosta de uma esfoladela recente no joelho.

Aproximo-me dela e pergunto o que se passa. Ela levanta a cabeça e olha-me com uma sombra de tristeza nos berlindes azuis:

- Mãe, a crosta partiu-se e está a ver-se carne na minha ferida.

Faço um ar incrédulo e pergunto retoricamente enquanto me dobro sobre ela para ver melhor:

- Carne?

Ela volta a baixar a atenção para o joelho:

- Não. É arroz, queres ver?

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quinta-feira, março 31, 2011

Uma casa na Pradaria


Apesar de ter perfeita consciência de ser parte de uma geração absolutamente fabulosa e pioneira em muitas das coisas que hoje fazem já parte da memória coletiva do país, espanto-me de todas as vezes que descubro que partilho algumas dessas memórias com pessoas que não conheço.
Diariamente oiço nem que seja uma das edições da Caderneta de Cromos, portanto, é natural que aconteça isto com alguma frequência.
Há, contudo, memórias que julgamos serem exclusivamente nossas - um cartaz na rua, uma cena de um filme, uma frase que nos dirigem – e que temos a certezinha absoluta que passou completamente ao lado de qualquer outro ser vivo à face do planeta.
O caso deu-se hoje de manhã. Um dos cromos de hoje era sobre a série “Uma casa na pradaria”. Até aqui, tudo bem, quem não se lembra do genérico em que elas vinham a correr pela pradaria fora, de toucas e saias e botas e sorrisos? Quem não se lembra da cabana de madeira onde a família era tão feliz, mesmo apesar de não terem televisão, nem telefone, nem sequer torneiras?
Como nós também somos três raparigas a analogia era direta: a L. era a Mary, a mais velha e responsável. Para mais, eram ambas muito parecidas com os cabelos loiros e fartos, os olhos azuis muito claros e a atitude de mãezinha um bocado irritante. A B. era a Carrie, a mais pequenina. Também estas duas se pareciam bastante, com os cabelos castanhos escorridos, uma franja muito lisa a cobrir metade dos olhos azuis e as birras típicas de irmã mais nova. Finalmente, e por mera exclusão de partes, eu era a Laura. Mas só mesmo por sermos ambas a irmã do meio e nunca me ter ocorrido perguntar ao meu irmão mais velho se não queria trocar comigo – ele passava a ser a Laura e eu o cavalo (estou a gozar, ele não era o cavalo – nunca nos ocorreu). Laura e eu não tínhamos nada, mas nada mesmo, em comum. Talvez os dentes, assim meio saídos, vá. De resto, ela tinha cabelo comprido e eu curto, ela era ruiva e eu castanha, ela era agitada e rebelde e eu uma alforreca catatónica. Enquanto a Laura corria alegremente pradaria fora com as longas tranças a brilhar como riachos ao sol, a única coisa em mim que corria eram os pensamentos e a única que brilhava era o aparelho nos dentes, já que o meu cabelo era tão sedoso como as cerdas de uma vassoura de galhos, e tão fácil de entrançar como estes. Mas isso não me entristecia, pois não era a Laura quem eu queria ser. Ela era demasiadamente ruiva, arrapazada e sardenta, demasiadamente Pipi das Meias Altas, para meu gosto. Quem eu secretamente desejava mais do que tudo ser, era a Mary. Linda, linda, perfeita, suave, crescida, determinada, feminina e até um bocadinho irritante. A Mary.
É aqui que entra a minha memória secreta partilhada com o Markl. Tal como ele, apesar de guardar boas memórias da série, não guardei detalhes. Não me lembro sequer da história de um episódio. Mas uma coisa ficou gravada para sempre na minha memória e fez com que essas recordações deixassem um travo amargo definitivo nas papilas gustativas da minha infância – a cena em que a minha adorada Mary, a minha irmã mais velha tanto na série como na vida real, a minha heroína forte, responsável e autoconfiante, acorda completamente cega.
O monumental glaciar da nossa fragilidade assim despejado sobre a lava incandescente do Eyjafjallajokull criativo da criança Marta, teve exatamente o efeito esperado – transformou-a em rocha sólida. Bem, talvez não em rocha, mas pelo menos numa pedra pomes grandinha, assim pelo tamanho de uma carcaça ou até maiorzinha, tipo pão saloio.
E eu nunca mais vi a série com os mesmos olhos.
E tantos anos depois descubro que, no mesmo dia, há mesma hora, algures em Benfica, outra criança era vergastada pelo cavalo marinho da Vida e transformada num pequeno seixo redondo, de óculos e collants. Para não mais se esquecer.

E achei piada.

terça-feira, março 29, 2011

Donas de Casa Desesperadas


Tenho vivido ingenuamente convencida que as donas de casa desesperadas são mulheres remediadas, amarfanhadas pela vida que, divididas entre o T2 com varanda, os meninos, o estafermo e o trabalho, nunca têm vagar para ir ao shopping arranjar as sobrancelhas. Trintonas azedas que passam meses sem jantar num restaurante, semanas sem ver as amigas, dias sem uma conversa que não envolva futebol nem doenças. Esposas desditosas que aturam maridos abrutalhados, egoístas, balofos e chatos, em nome da estabilidade ou da família – conceitos tão extraordinários para eles como física quântica ou renda de bilros. Mulheres para quem aparelhos de fitness são esfregonas, frigideiras, estendais ou aspiradores. Mães rijas que fogem do bêbado do rés do chão e do fiscal da EDP, que pedem ao filho para esconder as sabrinas, antes que o pai o rebente todo com o cinto que lá em casa não entram paneleiros.

A verdade é esta: Donas de Casa Desesperadas são fêmeas sofisticadas, sensuais, magras e corrosivas que embrulham os dias em atividades tão diversas como arranjar intrigas, arranjar problemas ou arranjar amantes na vilazinha amorosa onde fingem habitar moradias tão amplas e arrumadas que até em ficção são improváveis. Jovens e luzidias mulheres, sempre prontas para tardes espirituosas de conversa salpicada por um humor acutilante e inteligente. Quarentonas bem resolvidas e casadas com machos charmosos, educados, sensíveis e cooperantes, com vidas sexuais intensas, divertidas e apaixonadas, tão frequentes na vida real como Big Bangs. Raparigas de cabelos tão brilhantes e bem tratados como os dentes, que se movimentam graciosas e desempoeiradas numa comunidade eclética onde coexistem sem preconceitos nem tabus velhos e novos, abastados e arranjados, falsos e autênticos, infiéis e descomprometidos, crédulos, espertalhões, criminosos e libertinos. Todos na mesma vila, cada um com o seu passado, cada um com o seu segredo.

Donas de Casa Desesperadas é, afinal, uma das melhores séries que passam na televisão.

E agora que já estou mais contente por não fazer parte desse coletivo assustador de galinhas lindas, ricas e espertas resta-me aguardar ansiosamente pelo próximo episódio. Se tenho estado à espera, agora posso desesperar. É já hoje!

sexta-feira, março 18, 2011

Blondie


Ontem era dia de ir à cidade. Tinha reunião em lisboa e lá fui. No decorrer desse encontro notei que a minha interlocutora tinha alterado ligeiramente a cor do cabelo e comentei que estava muito gira.

Logo ela se apressou a explicar que tinha sido no cabeleireiro logo ali em baixo, rapariga competente, Graça de sua graça. Para eu ir e chamar por ela.

Saí da reunião e lá fui. Apesar de ser hora de almoço não estava muito cheio e Graça estava disponível.

Expliquei que pretendia apenas iluminar o tom do meu cabelo, estava baço e sem vida. A rapariga acenou. Que sim, que sim, que sabia exactamente o que eu queria.

E, vai daí, agarra-se a mim como se disso dependesse a própria vida.

Faço aqui um parentesis para explicar uma coisa: apesar de já andar desconfiada, só ontem a realidade se abateu sobre mim com uma violência cataclísmica: sou mesmo saloia. Uma provínciana. Pois que ontem realizei, com algum pesar, confesso, que nunca na minha vida tinha posto os pés num cabeleireiro da capital.

Mas vá, adiante.

A rapariga agarra-se-me aos cabelos a mexer, a mexer e eu ali em nervos, que não tenho paciencia nenhuma para aquela imobilidade toda e só me apetece é fumar e comer e tenho comichão na cabeça. Entre um artigo de fundo na Flash e uma monografia que analiso na Lux vou observando o que ela estará a tramar ali pelas bandas da caixinha dos pirolitos. Reparo com surpresa que em Lisboa, por exemplo, já não usam pratas para fazer nuances, usam uma espécie de tecido esponjoso que faz lembrar esferovite translúcida e tem um nome em inglês. Aliás, já nem nuances chamam àquilo, a palavra agora é contrastes.

Não sei se será do nome, mas os contrastes demoram muito mais tempo a abrir que as nuances, caraças! Estive tanto tempo sentada que cheguei a temer que o meu traseiro outrora mole, mas por estes dias um autêntico pudim, derretesse cadeira abaixo.

Por fim, lá a Graça deu um ar da sua graça, para impedir uma desgraça.

Tirou os papelotes muuuuuuito devagaaaar, colocou um creme não sei de quê e começou a cortar. Com uma máquina. Quando ouvi o som quase saltei da cadeira (na verdade saltei mesmo, mas não se deu por isso porque o meu rabo não se mexeu), não fosse ela achar que tinha ficado tão mal que não havia outro remédio a não ser rapar. Mas parece que é mesmo assim - mais modernices da capital, concerteza.

No final a obra da Graça não foi cara e não ficou nenhuma desgraça, acho eu. Mas de cada vez que passo num espelho pergunto-me: porque é que o Roberto Leal não me larga?

quarta-feira, março 09, 2011

Beyblade

Na Austrália há gafanhotos, no Brasil há formigas, na Ásia há serpentes, em Espanha há espanhóis. Por cá, a praga do momento chama-se Beyblade.

Beyblades são uns piões pequenos e plásticos que infestaram as nossas vidas. Ao contrário dos piões de madeira da nossa infância, autênticas obras de artesanato fiável e resistente, estes são uma espécie de crias de pião em plástico e metal. Como os nossos filhos – pequenos, rápidos e todos tecnológicos. Só que, enquanto para lançar um pião dos nossos era preciso um doutoramento ou, em alternativa, licença de porte de arma, estes míni piões até têm uma seta a apontar o sitio onde o lançador se encaixa, não vá a criança ficar traumatizada por não conseguir. Vai daí, como qualquer aselha consegue pôr aquilo a rodar, não precisando para isso de mais que um par de braços e outro de mãos, todos os petizes querem um. E como há alguns vinte e sete modelos diferentes, cada uma com a sua lâmina, boquilha, roda de fusão e mais não sei quê, as crianças precisam absolutamente de vários.

Ora os senhores que importam isto, ou os fabricantes, ou lá quem trata de colocar o produto nas lojas, não devem ter a noção do estado emocional em que andam a deixar os nossos pequenos junkies. Desde novembro que só aparecem alguns Beyblades, apenas em algumas lojas e somente quando calha, o que, os deixa em permanente desespero, quais drogados a ressacar.

Pois, aqui há dias, o meu filho alertou-me para a iminência da chegada desses pequenos infernos barulhentos ao Toys ‘R Us, divulgada por um amigo da escola que o terá alegadamente ouvido à sua mãe e suplicou-me que me deslocasse lá para ver se, finalmente, conseguia a Fénix ou o Aquário.

Desconfio que os nossos pais nunca fariam isto, mas lá fui eu.

Nove da matina, passo pela porta. Fechada.

Omessa! – penso. Mas isto não é como o Continente? Pois não é mesmo, abre apenas às dez. Estaciono. Ligo o rádio. Pego no crochet.

Espero.

De quando em vez levanto a cabeça para ver as horas e olhar em volta. Nove e oito, nove e dezanove, nove e vinte e dois, nove e trinta e sete.

Olho para a porta e quase bato com a cabeça no teto do carro. À porta da loja encontram-se seguramente umas cinquenta pessoas. Saio apressada a juntar-me à horda, receosa que me esta me esmague e roube os piões do meu menino. Estão sete graus, está vento e eu de cabelo molhado. Ao meu lado está uma mãe de cabelo molhado também. Sorrimos, cúmplices, e amarfanhamo-nos mais para dentro da gola dos nossos casacos.

O tuga, já o tenho dito várias vezes, é um povo giro. Está ali tudo bem disposto, as pessoas falam umas com as outras, veem-se caras simpáticas e sorrisos amistosos. Mas a cada minuto que passa vão-se encostando mais ao vidro da porta, observando como quem não quer a coisa: eu cheguei antes, eu estou aqui há mais de quinze minutos, eu já cá vim dezoito vezes. E eu a pensar, perdão, meus senhores, mas quem chegou antes fui eu. Na boa. Espero.

Do lado direito está um septuagenário, careca e sorridente, que nos fala da sua aposentação de oficial de marinha de guerra, da esposa que está a arruinar a farda de gala para fazer uma máscara para a neta mais velha que é muito arrapazada e é para ela que leva os beyblades, já a mais nova é uma princesinha, um doce de menina.

Oiço uma senhora, com vincado sotaque do norte, observar que a filha que vive em Denver não sabe o que são Beyblades. Mais atrás, uma outra concorda, que a sobrinha da Califórnia também nunca ouviu falar. Já um rapaz magrinho defende que isso é normal, pois é uma moda só da Europa. Uma senhora minúscula diz que não, que esteve em Colónia e também não sabem o que isso é. O rapaz faz aquela expressão condescendente de quem pensa: daahhh, tal como eu disse, só na Europa é que há.

Nesta altura a rapariga de cabelo molhado estremece e comenta que está gelada. Logo a senhora à minha frente afirma que tem ali o marido, pois encoste-se a ele, na pior das hipóteses podem servir para isso, não? Que não, que o rapaz ao lado dela é só um amigo, o marido já se pirou há uns anos e ela nunca mais quis saber de homens para nada.

Mesmo junto à porta está uma senhora com bom ar, avó. Ao olhar para ela não lhe dou mais de sessenta anos mas depressa concluo que isso não é possível, pois em dois minutos já sei que ela tem um filho de quarenta e nove que está com uma grande gripe e ela foi sozinha de carro daqui para o Ribatejo onde ele vive só para tomar conta dele, já que a nora, essa egoísta, não pode. Diz que tem de trabalhar, vejam só. Na mão segura um papel onde apontou com todo o detalhe a descrição dos Beyblades que os netos pediram e vai acrescentando que dali não sai sem aquilo que quer. Sou rija, diz ela. E eu observo que deve ser, sim, pois estão sete graus e ela está de saia e sapatos abertos, sem meias. E para provar o que diz lá conta ao auditório, que a esta altura já vai em perto de uma centena, que na idade dela não há muita gente que fizesse o que ela fez na véspera, pois desmontou dois móveis e uma cama e montou tudo noutra divisão, sozinha. Que a rijeza lhe vem de um hábito que mantém há quarenta e três anos – um dente de alho esmagado com um copo de água morna, todos os dias antes do pequeno almoço. A rapariga ao lado dela, ao ouvir isto faz um trejeito enojado ao que a senhora responde logo com um bafo para cima de nós: cheiro mal? Não cheiro!

As portas abrem-se e já não sorrimos, já não somos todos amigos. Corremos que nem danados, aos encontrões e pisadelas, com um objectivo firme e comum, nem que para isso tenhamos de andar ao estalo com as avózinhas todas: Beyblade.

Gosto tanto disto! É que gosto mesmo. E três já cá cantam.




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