quinta-feira, março 31, 2011

Uma casa na Pradaria


Apesar de ter perfeita consciência de ser parte de uma geração absolutamente fabulosa e pioneira em muitas das coisas que hoje fazem já parte da memória coletiva do país, espanto-me de todas as vezes que descubro que partilho algumas dessas memórias com pessoas que não conheço.
Diariamente oiço nem que seja uma das edições da Caderneta de Cromos, portanto, é natural que aconteça isto com alguma frequência.
Há, contudo, memórias que julgamos serem exclusivamente nossas - um cartaz na rua, uma cena de um filme, uma frase que nos dirigem – e que temos a certezinha absoluta que passou completamente ao lado de qualquer outro ser vivo à face do planeta.
O caso deu-se hoje de manhã. Um dos cromos de hoje era sobre a série “Uma casa na pradaria”. Até aqui, tudo bem, quem não se lembra do genérico em que elas vinham a correr pela pradaria fora, de toucas e saias e botas e sorrisos? Quem não se lembra da cabana de madeira onde a família era tão feliz, mesmo apesar de não terem televisão, nem telefone, nem sequer torneiras?
Como nós também somos três raparigas a analogia era direta: a L. era a Mary, a mais velha e responsável. Para mais, eram ambas muito parecidas com os cabelos loiros e fartos, os olhos azuis muito claros e a atitude de mãezinha um bocado irritante. A B. era a Carrie, a mais pequenina. Também estas duas se pareciam bastante, com os cabelos castanhos escorridos, uma franja muito lisa a cobrir metade dos olhos azuis e as birras típicas de irmã mais nova. Finalmente, e por mera exclusão de partes, eu era a Laura. Mas só mesmo por sermos ambas a irmã do meio e nunca me ter ocorrido perguntar ao meu irmão mais velho se não queria trocar comigo – ele passava a ser a Laura e eu o cavalo (estou a gozar, ele não era o cavalo – nunca nos ocorreu). Laura e eu não tínhamos nada, mas nada mesmo, em comum. Talvez os dentes, assim meio saídos, vá. De resto, ela tinha cabelo comprido e eu curto, ela era ruiva e eu castanha, ela era agitada e rebelde e eu uma alforreca catatónica. Enquanto a Laura corria alegremente pradaria fora com as longas tranças a brilhar como riachos ao sol, a única coisa em mim que corria eram os pensamentos e a única que brilhava era o aparelho nos dentes, já que o meu cabelo era tão sedoso como as cerdas de uma vassoura de galhos, e tão fácil de entrançar como estes. Mas isso não me entristecia, pois não era a Laura quem eu queria ser. Ela era demasiadamente ruiva, arrapazada e sardenta, demasiadamente Pipi das Meias Altas, para meu gosto. Quem eu secretamente desejava mais do que tudo ser, era a Mary. Linda, linda, perfeita, suave, crescida, determinada, feminina e até um bocadinho irritante. A Mary.
É aqui que entra a minha memória secreta partilhada com o Markl. Tal como ele, apesar de guardar boas memórias da série, não guardei detalhes. Não me lembro sequer da história de um episódio. Mas uma coisa ficou gravada para sempre na minha memória e fez com que essas recordações deixassem um travo amargo definitivo nas papilas gustativas da minha infância – a cena em que a minha adorada Mary, a minha irmã mais velha tanto na série como na vida real, a minha heroína forte, responsável e autoconfiante, acorda completamente cega.
O monumental glaciar da nossa fragilidade assim despejado sobre a lava incandescente do Eyjafjallajokull criativo da criança Marta, teve exatamente o efeito esperado – transformou-a em rocha sólida. Bem, talvez não em rocha, mas pelo menos numa pedra pomes grandinha, assim pelo tamanho de uma carcaça ou até maiorzinha, tipo pão saloio.
E eu nunca mais vi a série com os mesmos olhos.
E tantos anos depois descubro que, no mesmo dia, há mesma hora, algures em Benfica, outra criança era vergastada pelo cavalo marinho da Vida e transformada num pequeno seixo redondo, de óculos e collants. Para não mais se esquecer.

E achei piada.

terça-feira, março 29, 2011

Donas de Casa Desesperadas


Tenho vivido ingenuamente convencida que as donas de casa desesperadas são mulheres remediadas, amarfanhadas pela vida que, divididas entre o T2 com varanda, os meninos, o estafermo e o trabalho, nunca têm vagar para ir ao shopping arranjar as sobrancelhas. Trintonas azedas que passam meses sem jantar num restaurante, semanas sem ver as amigas, dias sem uma conversa que não envolva futebol nem doenças. Esposas desditosas que aturam maridos abrutalhados, egoístas, balofos e chatos, em nome da estabilidade ou da família – conceitos tão extraordinários para eles como física quântica ou renda de bilros. Mulheres para quem aparelhos de fitness são esfregonas, frigideiras, estendais ou aspiradores. Mães rijas que fogem do bêbado do rés do chão e do fiscal da EDP, que pedem ao filho para esconder as sabrinas, antes que o pai o rebente todo com o cinto que lá em casa não entram paneleiros.

A verdade é esta: Donas de Casa Desesperadas são fêmeas sofisticadas, sensuais, magras e corrosivas que embrulham os dias em atividades tão diversas como arranjar intrigas, arranjar problemas ou arranjar amantes na vilazinha amorosa onde fingem habitar moradias tão amplas e arrumadas que até em ficção são improváveis. Jovens e luzidias mulheres, sempre prontas para tardes espirituosas de conversa salpicada por um humor acutilante e inteligente. Quarentonas bem resolvidas e casadas com machos charmosos, educados, sensíveis e cooperantes, com vidas sexuais intensas, divertidas e apaixonadas, tão frequentes na vida real como Big Bangs. Raparigas de cabelos tão brilhantes e bem tratados como os dentes, que se movimentam graciosas e desempoeiradas numa comunidade eclética onde coexistem sem preconceitos nem tabus velhos e novos, abastados e arranjados, falsos e autênticos, infiéis e descomprometidos, crédulos, espertalhões, criminosos e libertinos. Todos na mesma vila, cada um com o seu passado, cada um com o seu segredo.

Donas de Casa Desesperadas é, afinal, uma das melhores séries que passam na televisão.

E agora que já estou mais contente por não fazer parte desse coletivo assustador de galinhas lindas, ricas e espertas resta-me aguardar ansiosamente pelo próximo episódio. Se tenho estado à espera, agora posso desesperar. É já hoje!

sexta-feira, março 18, 2011

Blondie


Ontem era dia de ir à cidade. Tinha reunião em lisboa e lá fui. No decorrer desse encontro notei que a minha interlocutora tinha alterado ligeiramente a cor do cabelo e comentei que estava muito gira.

Logo ela se apressou a explicar que tinha sido no cabeleireiro logo ali em baixo, rapariga competente, Graça de sua graça. Para eu ir e chamar por ela.

Saí da reunião e lá fui. Apesar de ser hora de almoço não estava muito cheio e Graça estava disponível.

Expliquei que pretendia apenas iluminar o tom do meu cabelo, estava baço e sem vida. A rapariga acenou. Que sim, que sim, que sabia exactamente o que eu queria.

E, vai daí, agarra-se a mim como se disso dependesse a própria vida.

Faço aqui um parentesis para explicar uma coisa: apesar de já andar desconfiada, só ontem a realidade se abateu sobre mim com uma violência cataclísmica: sou mesmo saloia. Uma provínciana. Pois que ontem realizei, com algum pesar, confesso, que nunca na minha vida tinha posto os pés num cabeleireiro da capital.

Mas vá, adiante.

A rapariga agarra-se-me aos cabelos a mexer, a mexer e eu ali em nervos, que não tenho paciencia nenhuma para aquela imobilidade toda e só me apetece é fumar e comer e tenho comichão na cabeça. Entre um artigo de fundo na Flash e uma monografia que analiso na Lux vou observando o que ela estará a tramar ali pelas bandas da caixinha dos pirolitos. Reparo com surpresa que em Lisboa, por exemplo, já não usam pratas para fazer nuances, usam uma espécie de tecido esponjoso que faz lembrar esferovite translúcida e tem um nome em inglês. Aliás, já nem nuances chamam àquilo, a palavra agora é contrastes.

Não sei se será do nome, mas os contrastes demoram muito mais tempo a abrir que as nuances, caraças! Estive tanto tempo sentada que cheguei a temer que o meu traseiro outrora mole, mas por estes dias um autêntico pudim, derretesse cadeira abaixo.

Por fim, lá a Graça deu um ar da sua graça, para impedir uma desgraça.

Tirou os papelotes muuuuuuito devagaaaar, colocou um creme não sei de quê e começou a cortar. Com uma máquina. Quando ouvi o som quase saltei da cadeira (na verdade saltei mesmo, mas não se deu por isso porque o meu rabo não se mexeu), não fosse ela achar que tinha ficado tão mal que não havia outro remédio a não ser rapar. Mas parece que é mesmo assim - mais modernices da capital, concerteza.

No final a obra da Graça não foi cara e não ficou nenhuma desgraça, acho eu. Mas de cada vez que passo num espelho pergunto-me: porque é que o Roberto Leal não me larga?

quarta-feira, março 09, 2011

Beyblade

Na Austrália há gafanhotos, no Brasil há formigas, na Ásia há serpentes, em Espanha há espanhóis. Por cá, a praga do momento chama-se Beyblade.

Beyblades são uns piões pequenos e plásticos que infestaram as nossas vidas. Ao contrário dos piões de madeira da nossa infância, autênticas obras de artesanato fiável e resistente, estes são uma espécie de crias de pião em plástico e metal. Como os nossos filhos – pequenos, rápidos e todos tecnológicos. Só que, enquanto para lançar um pião dos nossos era preciso um doutoramento ou, em alternativa, licença de porte de arma, estes míni piões até têm uma seta a apontar o sitio onde o lançador se encaixa, não vá a criança ficar traumatizada por não conseguir. Vai daí, como qualquer aselha consegue pôr aquilo a rodar, não precisando para isso de mais que um par de braços e outro de mãos, todos os petizes querem um. E como há alguns vinte e sete modelos diferentes, cada uma com a sua lâmina, boquilha, roda de fusão e mais não sei quê, as crianças precisam absolutamente de vários.

Ora os senhores que importam isto, ou os fabricantes, ou lá quem trata de colocar o produto nas lojas, não devem ter a noção do estado emocional em que andam a deixar os nossos pequenos junkies. Desde novembro que só aparecem alguns Beyblades, apenas em algumas lojas e somente quando calha, o que, os deixa em permanente desespero, quais drogados a ressacar.

Pois, aqui há dias, o meu filho alertou-me para a iminência da chegada desses pequenos infernos barulhentos ao Toys ‘R Us, divulgada por um amigo da escola que o terá alegadamente ouvido à sua mãe e suplicou-me que me deslocasse lá para ver se, finalmente, conseguia a Fénix ou o Aquário.

Desconfio que os nossos pais nunca fariam isto, mas lá fui eu.

Nove da matina, passo pela porta. Fechada.

Omessa! – penso. Mas isto não é como o Continente? Pois não é mesmo, abre apenas às dez. Estaciono. Ligo o rádio. Pego no crochet.

Espero.

De quando em vez levanto a cabeça para ver as horas e olhar em volta. Nove e oito, nove e dezanove, nove e vinte e dois, nove e trinta e sete.

Olho para a porta e quase bato com a cabeça no teto do carro. À porta da loja encontram-se seguramente umas cinquenta pessoas. Saio apressada a juntar-me à horda, receosa que me esta me esmague e roube os piões do meu menino. Estão sete graus, está vento e eu de cabelo molhado. Ao meu lado está uma mãe de cabelo molhado também. Sorrimos, cúmplices, e amarfanhamo-nos mais para dentro da gola dos nossos casacos.

O tuga, já o tenho dito várias vezes, é um povo giro. Está ali tudo bem disposto, as pessoas falam umas com as outras, veem-se caras simpáticas e sorrisos amistosos. Mas a cada minuto que passa vão-se encostando mais ao vidro da porta, observando como quem não quer a coisa: eu cheguei antes, eu estou aqui há mais de quinze minutos, eu já cá vim dezoito vezes. E eu a pensar, perdão, meus senhores, mas quem chegou antes fui eu. Na boa. Espero.

Do lado direito está um septuagenário, careca e sorridente, que nos fala da sua aposentação de oficial de marinha de guerra, da esposa que está a arruinar a farda de gala para fazer uma máscara para a neta mais velha que é muito arrapazada e é para ela que leva os beyblades, já a mais nova é uma princesinha, um doce de menina.

Oiço uma senhora, com vincado sotaque do norte, observar que a filha que vive em Denver não sabe o que são Beyblades. Mais atrás, uma outra concorda, que a sobrinha da Califórnia também nunca ouviu falar. Já um rapaz magrinho defende que isso é normal, pois é uma moda só da Europa. Uma senhora minúscula diz que não, que esteve em Colónia e também não sabem o que isso é. O rapaz faz aquela expressão condescendente de quem pensa: daahhh, tal como eu disse, só na Europa é que há.

Nesta altura a rapariga de cabelo molhado estremece e comenta que está gelada. Logo a senhora à minha frente afirma que tem ali o marido, pois encoste-se a ele, na pior das hipóteses podem servir para isso, não? Que não, que o rapaz ao lado dela é só um amigo, o marido já se pirou há uns anos e ela nunca mais quis saber de homens para nada.

Mesmo junto à porta está uma senhora com bom ar, avó. Ao olhar para ela não lhe dou mais de sessenta anos mas depressa concluo que isso não é possível, pois em dois minutos já sei que ela tem um filho de quarenta e nove que está com uma grande gripe e ela foi sozinha de carro daqui para o Ribatejo onde ele vive só para tomar conta dele, já que a nora, essa egoísta, não pode. Diz que tem de trabalhar, vejam só. Na mão segura um papel onde apontou com todo o detalhe a descrição dos Beyblades que os netos pediram e vai acrescentando que dali não sai sem aquilo que quer. Sou rija, diz ela. E eu observo que deve ser, sim, pois estão sete graus e ela está de saia e sapatos abertos, sem meias. E para provar o que diz lá conta ao auditório, que a esta altura já vai em perto de uma centena, que na idade dela não há muita gente que fizesse o que ela fez na véspera, pois desmontou dois móveis e uma cama e montou tudo noutra divisão, sozinha. Que a rijeza lhe vem de um hábito que mantém há quarenta e três anos – um dente de alho esmagado com um copo de água morna, todos os dias antes do pequeno almoço. A rapariga ao lado dela, ao ouvir isto faz um trejeito enojado ao que a senhora responde logo com um bafo para cima de nós: cheiro mal? Não cheiro!

As portas abrem-se e já não sorrimos, já não somos todos amigos. Corremos que nem danados, aos encontrões e pisadelas, com um objectivo firme e comum, nem que para isso tenhamos de andar ao estalo com as avózinhas todas: Beyblade.

Gosto tanto disto! É que gosto mesmo. E três já cá cantam.




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