É uma daquelas pessoas que apregoa ser uma torneira aberta, de água clara e transparente, que corre sempre a direito na direcção do ralo. Aí dá uma volta, duas, e depois continua o caminho que programou, cristalina e verdadeira. Uma água tão abundante e disponível que te diz – anda, bebe-me – e tu acreditas que cumprirá com a promessa implícita: a de matar a tua sede. Desconfortável, hesitante, sem copo à mão, seguras nos cabelos e debruças-te. Lanças-lhe a boca para beber um pouco. Só que, assim que te sente no seu caminho, escorrega, esquiva-se, envolve-te, passa-te por cima, pelo lado. Por momentos pensas que sim, que bebeste água verdadeira, que saciou a tua sede, mas que ao mesmo tempo fizeste a tua parte: ajudaste-a a compreender o seu caminho - que não é necessária ou somente o esgoto, que não tem de andar sempre em frente, que nos percursos também há curvas e obstáculos. Há poucas coisas tão belas como observar um curso de água - salta, ressalta, faz espuma, revolta-se, acalma e recomeça. Mas no seu percurso, alimenta faunas, floras, populações. E, mesmo que altere o seu trajecto, que se atrase, que se desvie, não deixa nunca de ser o que é.
Mas ao largares a torneira desta água mentirosa, quando procuras a saciedade e não a encontras, olhas o espelho e constatas que apenas estás molhada. Só isso. Apenas um orvalho à volta dos lábios, um pingo na bochecha, outro na orelha, gotículas que rápidamente secas com as costas da mão, com a manga da camisola. E a tua boca está ainda mais seca do que antes, e tu, sem saberes porquê, continuas com sede. E por muito que te digam que o chá também serve, tu respondes sempre – quero água. A água é que mata a sede. E tornas a abrir a torneira na esperança de que desta vez, a promessa de água que sai, seja verdadeira e vá direitinha à tua garganta sequiosa.
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