segunda-feira, março 26, 2007

Tento ver se percebo onde é que o fim começou...

Tudo corria bem. Éramos felizes como poucos, havia química entre nós. Casámos, tivemos filhos...Alto! É capaz de ter sido aqui.
Os filhos. Só quem não os tem é que acha que um filho pode salvar um casamento. Pelo contrário, não os ter também não ajuda em situação de crise, pela ausência de compromisso. Quero com isto dizer que os filhos, apesar de, na maior parte dos casos, não contribuírem para uma melhoria da relação do casal, contribuem para um projecto de vida, uma aposta que se faz e que nunca se quer perder. Não há quem aprecie um falhanço. O que acontece é que os filhos desviam a atenção dos pais de si próprios. Há uma certa tendência para desvalorizar os problemas quando dar-lhes importância pode significar arranjar problemas mais complexos ainda - como uma separação - e as questões práticas e logísticas que se arrastam com ela. Então os problemas crescem, avolumam-se, não são resolvidos, são ignorados, desviados para compromissos sociais, programas com amigos, com filhos, com amigos dos filhos. Os casais deixam de se olhar, e depois deixam de saber como voltar a fazê-lo.

Bem, mas dizia eu, casámos, tivemos filhos, crescemos profissionalmente ... Calma! Se calhar foi aqui!
Falta de tempo livre. Quando duas pessoas passam o dia inteiro a trabalhar chegam ao fim do dia inevitavelmente cansadas e com pouca paciência, qualquer pergunta trivial pode originar uma resposta agressiva e não raras vezes daí nasce uma monumental discussão. Frequentemente os pais tentam poupar as crianças a esses filmes, pelo que optam por calar, deixar para depois. E isso é o nó na mangueira – vai inchando, inchando, inchando, até que rebenta. E aí, tudo o que a rodeia fica inundado e irremediavelmete estragado, incluíndo a própria mangueira. Mas a falta de tempo até poderia ser compensada de muitas formas, mas há sempre um elemento do casal que não tem pachorra. É assim em todo o lado, com toda a gente. Há sempre uma pessoa que vive virada para fora enquanto a outra se vira cada vez mais para dentro. O homem,vulgarmente mais disperso e infantil (sem depreciar) muitas vezes tem necessidade de abstrair das responsabilidades do quotidiano, da casa, do trabalho, dos filhos, das contas. Frequentemente acusa a mulher de ser demasiado séria (muitas vezes é verdade) e responsável. Tem de sair, de se divertir, de espairecer, e com isso, deixa cada vez menos tempo livre para regar as flores todas do seu jardim, deitando água em apenas algumas. Mas antes de murcharem de vez, as flores ainda lutam por umas gotinhas, empurram-se, atacam-se. Mas a água não chega mesmo para todas, por isso algumas acabam fatalmente por morrer. E marido e mulher passam a viver no pior de todos os cenários, como dois estranhos que por um acaso partilham o mesmo espaço.

Mas continuando, casámos, tivemos filhos, crescemos profissionalmente, construímos uma vida em comum....Pára, pára, pára! Acho que é isto, foi aqui!
Quando duas pessoas se juntam para começar uma vida há certas coisas que mais ou menos explícitamente, ficam acordadas. Uma delas é, qual dos elementos do casal vai investir na carreira. Frequentemente é o homem que o faz, ficando para a mulher a gestão do quotidiano da casa, dos filhos e da sua própria vida profissional. Como todas as obras complexas de engenharia civil, o desiquilibrio tem de ser uma ilusão. Se for real, o edificio mais tarde ou mais cedo, acaba por ruir. Ora, quando um dos elementos do casal, em nome do sucesso futuro, de uma carreira fulgurante ou de dinheiro ao final do mês, começa a viver exclusivamente de e para o seu trabalho, estamos perante um prédio no qual se constroem as paredes antes das fundações.
Deixa de haver diálogo, companheirismo, uma simples noite passada a ver um filme. A química, a amizade, o sexo, tudo isso tem de ser alimentado. É a tal coisa dos olhos que não vêem, coração que não sente. Mas, para agravar a situação, há um momento de tomada de consciência por parte do elemento do casal que trabalha menos fora, em que tudo é posto em causa. Esse elemento, vulgarmente a mulher, perante o desmoronar eminente do casamento entra em stress. Afinal, para que o marido possa investir todo o seu tempo no trabalho, tudo o resto é assegurado por ela: desde os transportes das crianças às refeições, passando pelos presentes para levarem às festas dos amigos até à indumentária para a festa do final de ano. Mas no caso de se separarem o que é que ela tem? Nada. De facto e na realidade, ela não tem nada. Tem um empregozeco mal pago, muitas vezes nem isso. Toma consciência de que não construíram uma vida deles, mas uma vida dele e dos filhos, na qual ela fez o papel da governanta. Ao entrar em stress a mulher fica muitas vezes amargurada, azeda, agressiva, o que precipita o fim. E aí, todos os seus receios se confirmam: a governanta acaba despedida, muitas vezes trocada por uma mulher a dias menos competente mas mais fresca, os filhos afastam-se porque não têm pachorra para uma mãe infeliz e rezingona, a família toma partido do desgraçado que trabalha tanto e ainda tem de aturar a chata...e ela compreende que esta coisa de construírem uma vida em comum é uma grande treta. O que se constrói é a vida de um deles, apoiada na do outro – que nunca lhe dá o valor que ela merece.

Mas, dizia eu, casámos, tivemos filhos, crescemos profissionalmente, construímos uma vida a dois. Tal como começamos a morrer no dia em que nascemos, mas o fim anunciado não nos impede de nos alimentarmos, também uma relação começa a acabar no dia em que se inicia, o que não significa que se fique logo ali, desnutrida.
Tudo isto pode dar o mote para destruir um casamento, é verdade, mas todos sabemos que problemas existem. Todos sabemos que não há mares de rosas, e mesmo que houvesse está na nossa natureza achá-los aborrecidos. E isso faz-nos evoluir.
De todos os animais o homem é único que sente insatisfação. Há que fazer dessa inimiga aliada, e em vez de a deixarmos vencer-nos, crescer com ela, melhorar com ela e aprender com ela.
Somos lutadores por definição, não baixamos os braços perante as ameaças e na maioria dos casos não gostamos de perder. Lutamos, lutamos, lutamos até ao fim.
Por isso, acho que sei afinal que o nosso casamento começou a morrer no dia em que nos casámos, só não sabia que seria tão dificil enterrá-lo.

2 comentários:

Anónimo disse...

Mais uma vez, fantástico. Não nos dês intervalos tão prolongados. Bjs
SRC

me disse...

ok. Prometo! ;-)