Ele entrou na esplanada e sentou-se numa mesa. Pousou o jornal, acendeu um cigarro e esperou para ser atendido. Olhou à volta distraído. A esplanada encontrava-se bastante cheia – um velho de chapéu a ler um livro, uma família submersa em refrigerantes e gelados, uma miúda de óculos a estudar e, numa mesa próxima, um casal que lhe chamou a atenção. A mulher, de frente para ele, escutava com interesse o homem, de costas, que falava animadamente..
Observou-a. De onde estava conseguia vê-la bem. Era uma bela mulher – trinta e poucos, cabelos longos com reflexos de sol ensonado, blusa preta bem fornecida, calças de ganga, sapatos de salto. Elegante.
Viu que ela tinha reparado nele e fingiu-se muito atento ao jornal pousado à sua frente. Olhou de novo, disposto a iniciar um qualquer jogo barato de sedução infantil. Ela ignorou-o, concentrando-se de novo na conversa com o companheiro. A empregada aproximou-se e ele pediu uma caipirinha. Quando voltou a procurar com o olhar a mulher da mesa em frente, reparou com espanto que ela se aproximava.
Chegou perto dele, parou e curvou-se para a frente (mais, bastante mais do que o necessário), de forma que a blusa leve, de cetim, se afastou do seu corpo, deixando antever a curva do seio e um pedaço de soutien negro. Descontraída, perguntou-lhe:
- Tem lume?
Ele não conseguiu evitar e olhou. Olhou descaradamente. Ela não esboçou nem um gesto para se compôr, apenas segurou o cabelo comprido com uma das mãos, enquanto com a outra prendia um cigarro nos lábios sensuais.
Desconcertado por ter sido tão óbvio, começou a apalpar-se à procura do isqueiro. Bolso da frente da esquerda, bolso da frente da direita, bolso de trás da esquerda...ela pareceu levemente aborrecida e olhou em volta provavelmente em busca de algum outro fumador. Ele comentou:
- Ainda agora acendi um cigarro, o isqueiro tem de andar por aqui algures...
Ela voltou-se de novo para ele e sorriu, trocista, do nervoso que ele não conseguia disfarçar – e que aumentava a cada segundo pelo facto de ela ter consciência disso mesmo. Olhou para o peito dele, ao qual a camisa branca começava a colar-se (aperceber-se disso provocou-lhe uma descarga de adrenalina que só piorou o seu estado) e sorriu de novo, apontando com o queixo na direcção do bolso.
Ele levou a mão ao local indicado por ela e retirou o isqueiro que aproximou do cigarro dela. Mas tinha as mãos tão transpiradas e trémulas, que não conseguiu acendê-lo.
Ela avançou a mão como que a pedir para deixá-la tentar. Não tirou os olhos dos dele, uns olhos verdes, transparentes, brilhantes, intensos. Ele deixou-a retirar o isqueiro, ela roçou ao de leve, a mão na dele. O toque da pele fresca e macia dela na extremidade húmida e transtornada dele causou-lhe o efeito de um choque eléctrico que começou na base da cabeça percorreu-lhe o corpo até aos calcanhares, deixando-o excitado como um adolescente.
Ela reparou e deu-lho a entender com um breve sorriso dos olhos verdes, enquanto acendia o cigarro. Inspirou com força certificando-se de que estava bem aceso e avançou a mão de novo para lhe devolver o isqueiro, mas antes de ele conseguir segurá-lo, ela deixou-o cair no chão.
Imediatamente ele saltou da cadeira e acocorou-se para o apanhar. Ela só reagiu um terço de segundo mais tarde, o suficiente para que quando se curvou na descida ele já viesse na subida. No encontro a cara dele tocou apenas ao de leve na blusa preta de cetim que lhe cobria os seios atrevidos, um ligeiríssimo roçagar da epiderme em brasa dele no cetim fresco e ondulante da blusa dela. E, naquela fracção de tempo em que se encararam, paralisados, uma golfada de perfume, calor e excitação atingiu-o como uma bofetada; toldou-lhe a razão, embruteceu-lhe os sentidos e deixou-o completamente louco.
Ela agradeceu com uma discreta inclinação da cabeça loira e voltou-se lentamente para regressar ao seu lugar.
Ele continuava extasiado, ainda sem ser capaz de compreender o que tinha acontecido ali, e ficou, ébrio de feromonas, a vê-la afastar-se, o movimento ondulante e perfeito das ancas de alguém que tem perfeita consciência de estar a ser observada.
E foi quando ele reparou no reflexo.
Do bolso de trás das calças de ganga justas e bamboleantes, espreitava desconcertante um isqueiro prateado.
2 comentários:
Marta, desde já mto obrigada pela visita.
Depois, clap, clap, escreves maravilhosamente bem. Este, o do casamento, eu sei lá, adorei!
e poara além de babyblogs adoro aqueles que me fazem crescer as saudades de um bom livro. Parabéns.
Depois um dia saberemos mais uma de outra (se é que de mim por aqui ainda há algo a descobrir:)) Beijinhos e bem hajas mais a tua prol. Vai aparecendo que tentarei fazer o mesmo.
Fantástico, como sempre... Não me surpreende. Fiquei cheia de vontade de ler o resto tudo de seguida, mas agora não dá. Fica para mais logo. Já te acrescentei aos meus favoritos. PARABÉNS. Bjs. Maria Sic
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