terça-feira, maio 11, 2010

Cada um é pró que nasce!

Desde o berço que toda a gente, começando pela mãe e acabando na vizinha do 3º esquerdo, decide prever o nosso futuro e descobrir a nossa real e genuína vocação.Há os que nascem com o dom de inventar, o de dançar, o de ser trafulha, poeta, criador de moda, motorista, arquitecto, médico... enfim, há dons para todos os gostos. Também há aqueles que, não tendo nenhuma capacidade que se veja têm uma família próxima que os venera e neles vê verdadeiros Einsteins, autênticos Gagarins, genuínos Baryshnikovs - mas sem a parte do talento. E há aqueles que passam o tempo à procura mas não encontram nada ou encontram quando já pouco podem fazer. Tenho passado a minha vida, como todos os que não foram bafejados pela fortuna de saber que queriam cantar desde os quatro anos, em busca daquilo que é verdadeiramente o meu âmago, da real identidade da minha alma. Em criança diziam-me que a minha área seria a publicidade, o jornalismo, qualquer coisa relacionada com a mirabolante capacidade - que aliás mantenho - de massacrar com opiniões ou perguntas qualquer alminha que me dê trela, seja ele conhecido ou perfeito incógnito. Em boa verdade é-me relativamente indiferente, desde que o interlocutor tenha pelo menos uma orelha.Mas a realidade é que tenho andado por baixo das varandas da vida sem no entanto conseguir ser atingida, e muito menos esmagada, por esse grande vaso que é o momento da revelação.Até ontem. E foi uma maçada.Quem fez o favor de me presentear com a iluminação foi um senhor de maus fígados, capaz de parar o mundo com um espirro. Chama-se Eyjafjallajokull e é um verdadeiro vulcão. Pois que, por causa dele vi-me presa com umas amigas num aeroporto. É claro que a incerteza quanto ao regresso nos causou ansiedade e isso faz mal, toda a gente sabe. Causa rugas, faz-nos roer as unhas, enfim, uma chatice. Portanto, como estávamos um nadinha nervosas tivemos de chatear um bocadinho, muita gente. E lá conseguimos que nos encaixassem num voo.Acontece que nesse voo só havia lugares em executiva, pelo que os senhores, amorosos, fizeram o favor de nos presentear com um upgradezito simpático.Depois de aguardarmos alguns momentos numa sala Vip, com direito a café, chá, sumos de tudo, bolachinhas, aperitivos, internet grátis, ar condicionado e sossego, acabamos por embarcar rumo a casa.Viemos então de perna esticada para a frente e costas confortavelmente inclinadas para trás, ora beberricando um suminho de tomate temperado, ora petiscando uma maravilhosa e suculenta vitela estufada que pudemos escolher a la carte, tudo servido em loiça de loiça e talheres do material de que são os talheres. Eu sou uma pessoa que sofre nos aviões. Doem-me os ouvidos, incham-me as pernas, um horror. Pois ontem, nada. Aterramos na maior, sem entupimentos nem edemas, sem nervos nem barulho.E foi aí que descobri. Se pudesse nunca mais me apanhavam da segunda fila para trás, nunca mais sentava o meu real traseiro numa sala de embarque atulhada, nunca mais comia uma sande em prato de plástico, nunca mais gastava uma hora no trânsito para ir trabalhar, nunca mais aspirava, nunca mais pagava nada a prestações, nunca mais ficava numa fila. Dou-me mal.Descobri que nasci para ser rica. Só que não sou. Uma maçada, de facto. É o mal de ter descoberto tarde. Podia ter sido à nascença, não?

1 comentário:

Ulisses Martins disse...

O Eyjafjallajokull tem sido realmente uma grande chatice. Ainda pondero se marco ou não as férias para longe. Se correrem mal as coisas, pode ser um terrível pesadelo.
Também já tive essa sorte de ir parar à classe executiva e é realmente outro campeonato.