sexta-feira, janeiro 29, 2010

Marketing ou estupidez?

Mesmo antes de sequer se saber como se iria chamar, já o novo gadget da Apple andava, pelas mais diversas razões, a ser mastigado e, em alguns casos cuspido, pelas bocas do mundo.

Inicialmente falou-se em iTablet ou iSlate, nomes engraçados mas poucochinhos para Steve Jobs e sus muchachos (não há mulheres no Marketing da Apple, parece-me). Então, após aturado brainstorming, supõe-se, a Apple decidiu que tinham de arranjar um nome original mas facilmente identificável com a imagem corporate da empresa, que simultâneamente fosse um tiro certeiro num público ainda relativamente pouco dado a estas inovações - as mulheres. Vai daí, pensaram, investigaram... o que é que as mulheres modernas conhecem, identificam, valorizam... não é política, não é automóveis, não é educação, deixa lá ver... isso mesmo, higiene íntima! iPad. Perfeito.
É claro que, escassos minutos após a apresentação nos media internacionais, já havia enorme sururu e o tão aguardado gadget já respondia descontraídamente pelo nome de iTampon. Faz sentido... maçã - pecado original - castigo bíblico.
Genial!
Cá para mim o a malta do Marketing está para a Apple como o Mário Soares para a ópera no S.Carlos: vão lá mas só dormem.

Se houvesse alguém competente naquela empresa, os senhores ter-se-iam lembrado do nome certo para este produto:
Supostamente o iPad é um mini computador com telemóvel e mp3, que também dá para ver filmes, ler livros e o diabo a sete. Até pode ser giro de usar, mas é mais uma coisa para ter: não substitui um PC porque lhe faltam algumas funcionalidades. Não substitui um telemóvel, pois não tem câmara. Não se substiui a um televisor e, muito menos a um livro e não tem a qualidade de uma aparelhagem de som.
Agora vejam bem: o que é que é vendido como substituto de tachos, panelas, varinha mágica, balança e o diabo a sete, mas obriga-nos a ter uma cozinha toda equipada na mesma, com forno e fritadeira e máquina de lavar loiça e frigorífico? Qual é o gadget que existe em quase todas as casas, que as mulheres conhecem, valorizam e identificam, mas neste caso, os homens também usam e adoram?
Exacto.
O iPad devia chamar-se iBimby.

Não me ouvem...

terça-feira, janeiro 26, 2010

Carta aberta

Exmos. Senhores Aprovadores de Anúncios de Rádio,
Começo por me desculpar pelo atrevimento da reclamação, pois que sou completamente leiga em matéria de eficácia publicitária (como aliás, em quase todas as restantes matérias, mas tenho gosto por opinar).
É como mãe, consumidora de rádio e de seguros que aqui me apresento hoje, com o fito de tecer um breve comentário a uma coisa que já me anda a irritar há uns dias: falo de um anúncio radiofónico que pretende vender um produto qualquer do ACP que dá direito a médico em casa por pouquíssimo dinheiro.
Para quem ainda não teve o desprazer, aqui vai uma breve súmula (passo a redundância):
Uma senhora meio tontinha nota num repente que o seu menino, uma criança presume-se, arde pura e simplesmente em febre. E que faz ela? Chama uma ambulância? Mete-o na banheira? Dá-lhe uma aspirina? Não, nada disso. Pede-lhe ajuda. Ao próprio, sim. Mas como quem fala com um bebé de meses.
Vai daí ele ajuda solícito, despachado e bem disposto, oferecendo informação sobre o produto em questão, atitude que a mãezinha agradece prontamente mas num tom que mais parece um engate.

Meus senhores, isto está tudo mal.Eu cá não sei se têm filhos a caminhar para a adolescência, mas se têm e falam com eles como a senhora do anúncio, deixem-me dizer-lhes que estão tramados - antes que dêem conta vão ter os petizes a mexer os vossos miolos com uma batedeira eléctrica sem que isso vos retire o sorriso apatetado da cara.Por outro lado, se não têm filhos, também me parece que não conhecem ninguém que os tenha. Nem passam por nenhuma criança no caminho para o emprego, no metro, no supermercado ou na pastelaria lá do bairro. E digo isto porque, se tivessem dispendido algum do vosso precioso tempo na observação do comportamento de um desses modernos bebés de boxers QuickSilver, saberiam tão bem como eu que:
a) uma mãe que se dirige ao filho com a frase “Pedrinho, estás a arder em febre o que é que eu hei-de fazer?” na minha modesta opinião, dá nas subtâncias ilícitas. E bem.
Cá para nós, pessoas normais, mesmo que a mãe esteja praticamente em apoplexia nervosa, se tiver que pedir ajuda não será concerteza ao filho delirante de febre.
Pessoal, há pediatras e convém que os filhos tenham um que os acompanhe. Se este não estiver disponível podem ligar à linha Saúde 24. Ao marido, vá, ou às vossas próprias mães. Liguem a uma amiga, tia, irmã. Liguem à vizinha do lado se tiver que ser, agora, pedir ajuda à própria criança que “arde em febre” é um bocado puxado.
No caso de não se tratar de uma criança, mas de um adolescente (no anúncio isso não fica claro – o rapaz é muito versado nas coisas da vida, mas a mãe trata-o como a um recém nascido), passa-se o mesmo, com a diferença apenas de que falar com ele como se fosse tonto ainda é mais ridículo.
b) Mesmo que num arremedo de ficção científica isso acontecesse, uma criança a arder em febre geralmente não responde de forma enérgica, como quem é apanhado no caminho entre uma partida de ténis e uma ida ao cinema: “ chama o médico do ACP”. Resposta assim talvez indicasse uma de duas situações: ou o menino já se tinha abarbatado aos mesmos comprimidos que deixaram a mãe naquele estado ou, mais realísticamente, não estava nada a arder – era só uma febrita - e a mãe é uma saloia exagerada.
c) No instante em que a supostamente moribunda criança profere as palavras milagrosas “chama o médico do ACP”, a mãezinha vê-se a braços com uma não menos divina avalancha de memória – num repente, ele é número de telefone, ele é preço, ele é horários, ele é tudo a resvalar por ela acima.
d) Ainda assim, o pior de tudo é o final, quando a mãe se dirige ao filho dengosa e titubeante como quem se insinua ao borracho de vinte e cinco aninhos que acabou de lhe mudar o pneu na berma da estrada:“Obrigada Pedrinho!”
Blharrrrghhhh!

Meus senhores, eu já disse e não sei como se faz um anúncio que funcione, mas uma coisa sei: assim não é.Diz-me o bom senso que se eu quiser fazer um bom spot de rádio, não devo fazer desfilar algumas frases desconchavadas sobre um produto, proferidas por um adulto que não acredita nele e por uma criança que nem sabe de que é que está a falar.
(impressão minha ou isto é que é o significado de demagogia?)

E pronto. Agora fico à espera da notificação do tribunal.

Nota: não garanto que as frases do anúncio sejam exactamente estas, hoje em dia a minha memória está tão boa como os meus conhecimentos técnicos sobre publicidade.

sexta-feira, janeiro 22, 2010

A nós, os putos que somos. Tchim, tchim.

Lembro-me de a minha mãe fazer trinta e dois anos. Foi a Milão com o meu pai e trouxe de lá o rosto perfeito imortalizado num quadro a carvão que ainda deve iluminar alguma parede lá de casa.
Lembro-me de o meu pai fazer quarenta anos. Alguém lhe ofereceu um porta-chaves que dizia “life beggins at 40” e a minha mãe ficou fula.
Lembro-me de achar que eles eram velhos. Quando falavam de um amigo ou conhecido "ainda novo", com quarenta e poucos, lembro-me que ria e gozava – novo?
Lembro-me de eles falarem de coisas e sitios que já não existiam e de eu achar isso deprimente.

E agora, tenho trinta e seis, muitos dos meus amigos já têm ou fazem em breve quarenta. E acho que somos giros, divertidos e, principalmente, acho que somos novos.

Atentemos por breves instantes nas mudanças que se operaram, não em nós, mas na nossa terra, nos últimos anos:

A A5, os Mac Donald’s, as Zaras, o Cascais Shopping, o Cascais Villa, o BCP, o Miragem, as Sacolinhas, a Loja das Meias, a Marina, os Cachorros, a Casa da Guia, a Telepizza – que hoje são marcos da nossa terra – nada disso existia quando éramos putos.

Não existia Lidl, nem Minipreço, nem Continente, nem Pingo Doce. Só Pão de Açucar e era um.
Não existiam 10 salas Lusomundo, mais 5 Castello Lopes, mais 5 Cinemacity.
Os Bombeiros eram no centro de Cascais.
A Farmácia Cordeiro era pequena.
O Tribunal era ao pé da estação.
O Guincho não tinha ninguém.
Tínhamos nós os Croissants.
As ruas eram sujas.

Mesmo assim existia o Juliana’s, o Palm Beach, o Yuppie, o News.
A Praça de Toiros, o liceu da Pampilheira, o Dramático, o Ok, o Estoril Sol.
O Oxford e o Miramar.

Cascais era verde e azul e areia e o único transito que tinha era o das nossas bicicletas e carrinhos de rolamentos.
E tinha estradas esburacadas. E crianças à solta. E pessoas a passear a cavalo.
E não tinha quinhentos condomínios nem milhões de habitantes e toda a gente se conhecia.

Agora sim, vê-se: a nossa terra mudou, e nós com ela. Afinal os anos passaram mesmo, nós é que não demos por isso.

Se eu disser a alguém desta geração:
“ Entras em Cascais pelo Estoril Sol, nas traseiras da estação, antes do parque de estacionamento viras à esquerda para o Hotel Nau, aí viras à direita para a Cidabela, passas o cruzamento em frente e começas a subir a rua da Nova Rede, passas à frente do Oxford e viras logo ali à direita, para o ginásio dos Columbófilos”.
Quem é que não está a ver per-fei-ta-men-te o caminho?

Exacto. Vou ali num instante meter a cabeça fora da janela e fechá-la com força. Talvez demore um bocadinho, não estranhem.

quinta-feira, janeiro 21, 2010

Chego ao meu trabalho quase sempre depois da hora. Venho bem disposta, quase como quem volta para casa. Bebo um café, às vezes fumo um cigarro e subo até ao segundo andar.
Atravesso o piso inteiro até ao meu lugar, no cantinho, mesmo ao lado da janela. É lá que está a minha mesa cinzenta, familiar e desarrumada.
No caminho cumprimento toda a gente, quase todos pelo nome (tempos houve em que eram mesmo todos).
Sento-me e num gesto automático mexo o rato para acordar o monitor. Sei que o computador estará ligado, temos um acordo que nos poupa cinco minutos todas as manhãs – o primeiro a chegar liga tudo. Nunca fui eu.

Gosto da minha mesa. Agrada-me segurança que me transmite.
É de frente para ela que passo cerca de oito horas todos os dias. E tanto que já passámos as duas!
Quando aqui me sentei pela primeira vez tinha pouco mais de vinte anos, vivia em casa dos meus pais, não tinha dinheiro, nem passaporte, nem carro, nem namorado.
Tinha o futuro inteiro.

Foi aqui que brindámos ao meu exame de condução, ao final do meu curso, ao meu primeiro carro.
Nesta mesa dormi pedaços de noites perdidas, chorei a morte de um amigo, o fim de um amor, a morte de um avô, de uma avó, de um par de colegas.

A esta mesa chegaram os meus primeiros e maravilhosos ramos de flores, o assumir do meu verdadeiro amor.
Aqui comemorei a minha primeira gravidez. Todas as nossas primeiras gravidezes. E segundas. E, em um ou dois casos, terceiras.
Nesta mesa dei murros. Pontapés. Chorei mais e outras vezes. Zanguei-me. Sorri. Ri-me desbragadamente. Cantei. Cantámos.
Nesta mesa pasmei com a queda das Torres, com o tsunami, Atocha, New Orleans... com a força monumental da natureza e do ódio dos homens pelos homens.
Aqui, mudei de casa – quatro vezes. Baptizei os meus filhos, tratei-lhes mazelas, falei com professores, médicos, pais de amigos, avós. Organizei festas, escrevi cartas.
Escutei novidades, dei novidades.
Discuti.
Abracei causas, abracei pessoas, fui solidária.
Assisti à primeira saída com uma sensação estranha.
E depois tantos saíram, outros entraram e mais saíram e cresci e compreendi que a vida continua para todos.
Aprendi a mexer num computador, a enviar e-mails, a usar a internet.
Aqui, celebrámos casamentos, reconciliações, outros casamentos.
Consolámos divórcios.
Assistimos a outras mudanças. Torci por todas, rejubilei pelas que tiveram sucesso, sofri por algumas que não.
Fiz amigos.
Iludi-me.
Desiludi-me. Desiludi.
Cresci. Crescemos.
Vimos os nossos filhos crescerem.
Aprendi a ser mais paciente, tolerante, a controlar-me, a não me levar muito a sério. A não levar a vida a sério. A não lamentar.
Testemunhei milagres. Comovi-me com a bondade, com a força do empenho, com a pujança do desejo.

A esta mesa assustei-me, preocupei-me, angustiei-me, recebi más notícias.
Celebrei, ri, diverti-me. Diverti.
Trabalhei muito.
Revoltei-me.
Recebi boas notícias. Vi receberem más. Animei.
Ajudei quem pude, como pude.
Aprendi muito do que sei. Cresci até ao que sou.

Gosto da minha mesa.
Não é apenas uma peça de mobiliário velha e nua. É um pedaço de mim. Trago-a entranhada na carne, diluída no sangue, impregnada na alma.
Já passaram quinze anos. São tantos como os que tenho de vida adulta.
É uma vida.

quarta-feira, janeiro 20, 2010

Juro...

... que se mais alguém, num raio de 75 quilómetros à minha volta, se atrever a "falar do tema", "discutir um tema", "abordar um tema" ou pior, disser a frase "tenho aqui um ou dois temas para ver contigo", eu passo-me dos carretos e enfio-lhe o indicador e o dedo médio da mão esquerda pelos olhos abaixo com tanta força que a sua cabeça vai ficar a parecer uma nuca com mamas.
Há tantas palavrinhas no Português. Tantas!

terça-feira, janeiro 19, 2010

De onde vem a sementinha, afinal?

No dia 27 de Dezembro nasceu uma filha à minha irmã Bárbara, o que faz com que me tenha nascido uma sobrinha, logo, uma prima aos meus filhos. Fomos então ao hospital visitá-las, como ditam as regras (apesar de eu ser contra).
No regresso a casa, como de costume, elevei bem alto o som dos Black Eyed Peas e cantava eu a plenos pulmões quando o ruído característico de uma discussão se elevou acima da minha extraordinária prestação musical. Baixei o som e tentei perceber o que se passava.
Vasco, 8 anos:
- Ó mãe, a Vera está a dizer que para nascerem bebés vai uma sementinha para dentro da barriga!
Vera, 5 anos:
- E vai, ó estúpido!
Vasco: - Vai nadaaaaa. A sementinha JÁ ESTÁ dentro da barriga.
Perdida de riso, dei razão à Vera, que a sementinha ia de facto para dentro da barriga, senão como é que as senhoras faziam, quando decidiam ter um bebé gritavam à sementinha para começar a crescer ou como é que era? Isto deve tê-lo feito pensar, mas ainda assim não fazia sentido para ele.
Vera, condescendente: - Vês? Eu disse-teeeee! Eu sei!
Vasco, sem ceder: - Vai como, ó parva? Engole-se a sementinha, por acaso?
Aí já estava eu quase a ter uma apoplexia de tanto conter o riso.
Vera, triunfante:
- Nããão. Abre-se a barriga, põe-se a sementinha e fecha-se a barriga. Burro!

Confusões

Aqui há uns tempos o Vasco comeu uma canja na escola, na qual tinham posto fígado. Ele detestou e comunicou-me que NUNCA MAIS comia canja na vida dele. Eu respondi que ele não tinha nada que se preocupar porque eu não costumo pôr visceras na comida, mas ele manteve-se irredutível.
Há uns dias a Teresa pediu-me para fazer canja para o jantar. Imediatamente o Vasco desatou a choramingar que não queria. Eu não me lembrava do fígado, então perguntei-lhe qual era o problema, ao que ele respondeu:
- Já disse que odeio testículos!

quinta-feira, janeiro 14, 2010

O Tuga

Todos os dias oiço comentários depreciativos ou jocosos em relação ao português típico: que é invejoso, mesquinho, forreta, imprestável, pouco civilizado, desonesto e mandrião.
O mais engraçado é que as pessoas referem-se ao Tuga como quem fala de uma espécie de animal selvagem ou praga abjecta que se reproduz alarvemente nos esgotos onde repousa depois dos raids selváticos que faz sobre a civilização, que somos nós.

Pois que atire a primeira pedra aquele que que nunca invejou a namorada do bonitão lá da escola, que nunca fingiu uma cólica para não ter de arrumar a cozinha, que nunca se abotoou com o troco errado na pastelaria lá do bairro, que nunca inventou uma avaria no carro para se baldar ao aniversário da sogra.
Que se levante de um salto aquele que nunca colou uma pastilha elástica debaixo da cadeira do escritório, que nunca gamou sombrinhas de chocolate na mercearia do Sr. Lino, que dá sempre prioridade aos peões nas passadeiras, que nunca experimentou vinte vezes seguidas a massa do bolo de chocolate com o mesmo dedo da mesma mão.

Pois eu digo, como maior orgulho: o Tuga tem características únicas e maravilhosas.
Vejamos:
O Tuga é solícito e adora ajudar o próximo:
Não haverá muitos países em que seja tão simples arranjar um emprego, quando se conhece bem o empregador. Ou em que os funcionários de uma empresa piquem sistemáticamente o ponto uns pelos outros tanto à entrada como à saída, ou em que se consiga uma consulta no médico com rapidez proporcional ao grau de amizade que se mantém com a senhora que faz as marcações.

O Tuga é poupadinho:
Aproveita quando vai jantar com os amigos para pedir o prato mais caro - a dividir por todos não pesa a ninguém; vai sempre à boleia com o vizinho, já que ele leva o carro todos os dias; come o ensopado de borrego até não restar nada e depois limpa o que fica no bigode com um bocado de pão, que depois também come; vai a doze supermercados diferentes para comprar o que está em promoção em cada um e ignora olímpicamente o que gasta em combustivel no caminho.

O Tuga tem a família sempre ao dispôr:
Tem um cunhado mecânico que poderia ter arranjado o carro praticamente de borla, se tivesse sabido a tempo; uma irmã que trabalha em casa de um actor e que poderia ter arranjado bilhetes para os U2, se tivesse sabido a tempo; um primo no ramo dos electrodomésticos que, se tivesse sabido, poderia ter arranjado um desconto simpático; uma nora hospedeira de terra que poderia ter conseguido um upgrade, se tivesse sabido a horas.

É claro que há sempre os retorcidos, os graxistas, os aldrabões. Mas esses são poucos e actuam áreas específicas como o voluntariado.
Afinal quem é que pode confiar numa pessoa que diáriamente se desloca a uma ou várias instituições degradadas e sem recursos, apenas com o objectivo de ajudar os que lá se encontram internados e sem pedir nada em troca?
Quem é que não desconfia de um vizinho que telefona religiosamente todos os dias a avisar que o cão anda a perseguir as galinhas dele mas ainda não o envenenou, nem lá foi espancar o dono, nem sequer pragueja para o aparelho?
Como é que é possível não suspeitarmos do carácter de bombeiros e gente dessa, que arrisca a própria vida para salvar a de outros que nem conhece, ainda lhe chamam incompetente e nem sequer é pago por isso?
O que vale é que são poucos.
Se eu fosse agora fazer uma música sobre isto seria assim:

“Imita os sacanas, é o que dá dinheiro
Foge do bonzinho, deve ser paneleiro
Ser decente não tráz vantagem real
Serás Tuga em Portugal
Ou serás português, mas no estrangeiro"

É, há mesmo gente que não interessa nada.

quarta-feira, janeiro 13, 2010

A sorte é um filme a cores, mas um filme sobre andebol

Hoje anda aí na página do “Tralhas da vida” um enorme sururu sobre a sorte e o que é necessário para a atrair como um íman. Para mim, antes de mais, vontade.
Concordo em absoluto com a Xica – “a sorte é um filme a cores”, mas um filme sobre andebol.
Eu explico: num jogo de andebol – ou em qualquer outro em que seja legal segurar o esférico - se estiver de costas para a bola não consigo apanhá-la (no meu caso nem que a coloquem com todo o cuidado directamente nas minhas mãos, mas isso é outra história), sendo que a bola tanto pode ser a sorte como o azar.
Se formos destemidos e lutarmos pela jogada pode ser que consigamos marcar golo, mas ao contrário, se nos colocarmos na defensiva, encolhidos, temerosos, o mais provável é levarmos com uma bolada bem assente no meio das sobrancelhas.
Portanto, recebemos aquilo que estamos de mão estendida para receber. Ora, se estivermos sempre de costas para o azar e de frente para a sorte, é natural que esta nos caia nas mãos mais frequentemente, apesar de não nos livrarmos de levar com uma bolada de azar na nuca, de vez e quando. Tudo depende da pontaria de quem atira e da nossa capacidade de nos esquivarmos.

sexta-feira, janeiro 08, 2010

Manifesto um bocadinho radical a bem do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Tenho imensas qualidades, aliás, toda eu sou práticamente só qualidades, como todos aqueles que me conhecem bem sabem, mas uma delas, talvez a mais vantajosa para a minha vida, é que sou muito pragmática. Vejo as coisas como são, tento agir em conformidade e geralmente não perco tempo a pensar no que deveriam ser.
Neste caso específico o que acontece exactamente é que há pessoas. E que essas pessoas gostam de outras pessoas. E têm relações entre si. E que essas relações são todas semelhantes na sua essência – os casais apaixonam-se, coabitam, zangam-se, reconciliam-se, sofrem e indignam-se como toda a gente. Sejam eles que tipo de casais forem – brancos, mistos, negros, velhos, internacionais, deficientes, homossexuais ou hetero.
Pessoalmente não sou fã do casamento enquanto instituição – pelo-me sinceramente pela festa, adoro tirar o mofo do trapinho, comer bem, beber melhor, rever amigos e dançar musicas foleiras até desabar exausta e com os pés encardidos – mas não acredito que o papel passado traga vantagens significativas a uma relação. Na verdade, as únicas que reconheço no casamento são as mesmíssimas que hoje os homossexuais pedem para si: direitos sucessórios, pensões, baixas de assistência à família, visitas hospitalares...
Bolas, se eu me apaixonar por outra mulher e decidirmos partilhar a nossa vida como casal, com amor e respeito uma pela outra, por que raio de carga de água é que não posso visitá-la no hospital se ela ficar doente, por que razão não poderá ela ficar com a casa que construímos e partilhamos durante a nossa vida, por que motivo não poderemos ser uma família?
Sim, porque se é certo que não acredito no casamento, não há nada em que acredite mais do que na família.
O Filipe e eu vivemos juntos há quase treze anos e o mais perto que estivemos de casar foi quando decidimos brincar às comédias românticas numa cerimónia bonita e sentimental que oferecemos a nós próprios em Las Vegas. E somos muito felizes. Temos três filhos lindos e vivemos em paz com a vida. Tanto eu como ele somos vidrados nas nossas próprias famílias e temos relações próximas com elas. Portanto, não será o matrimónio que que une ou desune as famílias, é o amor e o respeito que existe entre os seus elementos. E isso não há papel, contrato ou registo que ensine.
É por estes motivos, que, quando ponho os olhos e os ouvidos nos argumentos absolutamente arcaicos e hipócritas que por aí grassam, proferidos por personalidades que inclusivamente já foram infiéis no casamento ou já mantiveram ou mantéem relações homossexuais, só me apetece é ganir.
Quando leio pessoas cultas e pelas quais tenho respeito intelectual irem contra o casamento gay apoiadas em motivos conservadores que vão desde o conceito de casamento pressupôr a procriação ou o facto de casamento ser obrigatóriamente a união entre dois elementos de sexos diferentes, dá-me vómitos. Num mundo perfeito não haveria sofrimento, as famílias seriam todas funcionais e toda a gente teria emprego e viveria feliz e contente. Mas lá está, o Mundo está longe da perfeição só que é nele que temos de viver, apesar de tudo. Há muitos documentos que pregam a igualdade entre raças e credos, que obrigam a tratar os idosos com dignidade, que protegem as crianças acima de tudo. E todos os dias assistimos paulatinamente à violação repetida dessas normativas sem que se oiçam vozes discordantes, sem que alguém se insurja.
Eu vejo o que acontece e o que acontece, de facto, é que há tanto casamentos hetero sem descendência como relações informais com filhos; tanto casais casadíssimos que se agridem brutalmente como casais casadíssimos que se adoram durante uma vida. E todos estes podem escolher casar, não casar, divorciar-se ou continuar como lhes der mais jeito. Mas também há os casais de cidadãos homossexuais que se amam e respeitam. E que também gostavam de poder escolher. Mas não podem, devido a um mísero detalhe – não é por terem antecedentes criminosos agressivos, nem problemas psiquiátricos graves, nem por serem desonestos, manipuladores ou bêbados, esses casam à vontade – é pelo que gostam de fazer na intimidade. Dá vontade de rir.
Não gosto especialmente do Sócrates, que fique claro, mas há uma coisinha que eu gostava imenso que alguém me explicasse: se o casamento gay já estava nos planos do PS e o país deu a vitória a Sócrates, parece-me que não deveria haver discussão. Esperem! Parece que há cerca de 90.000 cidadãos que pretendem referendar essa lei pois entendem que têm de ter voto na matéria.
O aborto é uma questão de saúde pública, morrem pessoas, muitas pessoas por causa disso todos os anos. E referendou-se. E foi tudo para a praia fazendo com que a consulta não fosse vinculativa. E acabou por se referendar de novo, gastando duas vezes o dinheiro que tanta falta faz ao país.
O casamento homossexual não é uma questão de saúde pública, é uma questão de igualdade social.
Gostaria de fazer um pequeno questionário aos 90.000 cidadãos indignados:
1) Afinal o que é que têm a ver com isso?
2) Em que é que o casamento entre pessoas do mesmo sexo aquece ou arrefece a vossa vidinha?
3) Exactamente o que é que acham que vos dá o direito de opinar sobre a vida privada dos outros?
Tenho cá uma ideia. Se calhar devíamos começar a referendar outras coisas fracturantes: o castigo exemplar que merecem os maridos que agridem as mulheres, quem abandona os seus velhos ou os pais que ignoram ostensivamente os filhos, que não os ouvem e não os aceitam?
Deixem-se de falsos moralismos e hipócrisias antiquadas e preocupem-se antes com as vossas verdades e com a forma como vivem e tratam as vossas famílias. E deixem os outros viver a vida deles longe de preconceitos fúteis e sem sentido.
Tenho dito!