Chego ao meu trabalho quase sempre depois da hora. Venho bem disposta, quase como quem volta para casa. Bebo um café, às vezes fumo um cigarro e subo até ao segundo andar.
Atravesso o piso inteiro até ao meu lugar, no cantinho, mesmo ao lado da janela. É lá que está a minha mesa cinzenta, familiar e desarrumada.
No caminho cumprimento toda a gente, quase todos pelo nome (tempos houve em que eram mesmo todos).
Sento-me e num gesto automático mexo o rato para acordar o monitor. Sei que o computador estará ligado, temos um acordo que nos poupa cinco minutos todas as manhãs – o primeiro a chegar liga tudo. Nunca fui eu.
Gosto da minha mesa. Agrada-me segurança que me transmite.
É de frente para ela que passo cerca de oito horas todos os dias. E tanto que já passámos as duas!
Quando aqui me sentei pela primeira vez tinha pouco mais de vinte anos, vivia em casa dos meus pais, não tinha dinheiro, nem passaporte, nem carro, nem namorado.
Tinha o futuro inteiro.
Foi aqui que brindámos ao meu exame de condução, ao final do meu curso, ao meu primeiro carro.
Nesta mesa dormi pedaços de noites perdidas, chorei a morte de um amigo, o fim de um amor, a morte de um avô, de uma avó, de um par de colegas.
A esta mesa chegaram os meus primeiros e maravilhosos ramos de flores, o assumir do meu verdadeiro amor.
Aqui comemorei a minha primeira gravidez. Todas as nossas primeiras gravidezes. E segundas. E, em um ou dois casos, terceiras.
Nesta mesa dei murros. Pontapés. Chorei mais e outras vezes. Zanguei-me. Sorri. Ri-me desbragadamente. Cantei. Cantámos.
Nesta mesa pasmei com a queda das Torres, com o tsunami, Atocha, New Orleans... com a força monumental da natureza e do ódio dos homens pelos homens.
Aqui, mudei de casa – quatro vezes. Baptizei os meus filhos, tratei-lhes mazelas, falei com professores, médicos, pais de amigos, avós. Organizei festas, escrevi cartas.
Escutei novidades, dei novidades.
Discuti.
Abracei causas, abracei pessoas, fui solidária.
Assisti à primeira saída com uma sensação estranha.
E depois tantos saíram, outros entraram e mais saíram e cresci e compreendi que a vida continua para todos.
Aprendi a mexer num computador, a enviar e-mails, a usar a internet.
Aqui, celebrámos casamentos, reconciliações, outros casamentos.
Consolámos divórcios.
Assistimos a outras mudanças. Torci por todas, rejubilei pelas que tiveram sucesso, sofri por algumas que não.
Fiz amigos.
Iludi-me.
Desiludi-me. Desiludi.
Cresci. Crescemos.
Vimos os nossos filhos crescerem.
Aprendi a ser mais paciente, tolerante, a controlar-me, a não me levar muito a sério. A não levar a vida a sério. A não lamentar.
Testemunhei milagres. Comovi-me com a bondade, com a força do empenho, com a pujança do desejo.
A esta mesa assustei-me, preocupei-me, angustiei-me, recebi más notícias.
Celebrei, ri, diverti-me. Diverti.
Trabalhei muito.
Revoltei-me.
Recebi boas notícias. Vi receberem más. Animei.
Ajudei quem pude, como pude.
Aprendi muito do que sei. Cresci até ao que sou.
Gosto da minha mesa.
Não é apenas uma peça de mobiliário velha e nua. É um pedaço de mim. Trago-a entranhada na carne, diluída no sangue, impregnada na alma.
Já passaram quinze anos. São tantos como os que tenho de vida adulta.
É uma vida.
1 comentário:
São as memórias e os objectos, que adoramos, que fazem de nós o que somos. É bom ter algo importante e que nos desperta sentimentos e nos transporta, como um portal do tempo. Porque o tempo, esse, é o que já existiu e o que existirá, tudo intersectado num ponto, que é o momento actual.
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