quinta-feira, janeiro 14, 2010

O Tuga

Todos os dias oiço comentários depreciativos ou jocosos em relação ao português típico: que é invejoso, mesquinho, forreta, imprestável, pouco civilizado, desonesto e mandrião.
O mais engraçado é que as pessoas referem-se ao Tuga como quem fala de uma espécie de animal selvagem ou praga abjecta que se reproduz alarvemente nos esgotos onde repousa depois dos raids selváticos que faz sobre a civilização, que somos nós.

Pois que atire a primeira pedra aquele que que nunca invejou a namorada do bonitão lá da escola, que nunca fingiu uma cólica para não ter de arrumar a cozinha, que nunca se abotoou com o troco errado na pastelaria lá do bairro, que nunca inventou uma avaria no carro para se baldar ao aniversário da sogra.
Que se levante de um salto aquele que nunca colou uma pastilha elástica debaixo da cadeira do escritório, que nunca gamou sombrinhas de chocolate na mercearia do Sr. Lino, que dá sempre prioridade aos peões nas passadeiras, que nunca experimentou vinte vezes seguidas a massa do bolo de chocolate com o mesmo dedo da mesma mão.

Pois eu digo, como maior orgulho: o Tuga tem características únicas e maravilhosas.
Vejamos:
O Tuga é solícito e adora ajudar o próximo:
Não haverá muitos países em que seja tão simples arranjar um emprego, quando se conhece bem o empregador. Ou em que os funcionários de uma empresa piquem sistemáticamente o ponto uns pelos outros tanto à entrada como à saída, ou em que se consiga uma consulta no médico com rapidez proporcional ao grau de amizade que se mantém com a senhora que faz as marcações.

O Tuga é poupadinho:
Aproveita quando vai jantar com os amigos para pedir o prato mais caro - a dividir por todos não pesa a ninguém; vai sempre à boleia com o vizinho, já que ele leva o carro todos os dias; come o ensopado de borrego até não restar nada e depois limpa o que fica no bigode com um bocado de pão, que depois também come; vai a doze supermercados diferentes para comprar o que está em promoção em cada um e ignora olímpicamente o que gasta em combustivel no caminho.

O Tuga tem a família sempre ao dispôr:
Tem um cunhado mecânico que poderia ter arranjado o carro praticamente de borla, se tivesse sabido a tempo; uma irmã que trabalha em casa de um actor e que poderia ter arranjado bilhetes para os U2, se tivesse sabido a tempo; um primo no ramo dos electrodomésticos que, se tivesse sabido, poderia ter arranjado um desconto simpático; uma nora hospedeira de terra que poderia ter conseguido um upgrade, se tivesse sabido a horas.

É claro que há sempre os retorcidos, os graxistas, os aldrabões. Mas esses são poucos e actuam áreas específicas como o voluntariado.
Afinal quem é que pode confiar numa pessoa que diáriamente se desloca a uma ou várias instituições degradadas e sem recursos, apenas com o objectivo de ajudar os que lá se encontram internados e sem pedir nada em troca?
Quem é que não desconfia de um vizinho que telefona religiosamente todos os dias a avisar que o cão anda a perseguir as galinhas dele mas ainda não o envenenou, nem lá foi espancar o dono, nem sequer pragueja para o aparelho?
Como é que é possível não suspeitarmos do carácter de bombeiros e gente dessa, que arrisca a própria vida para salvar a de outros que nem conhece, ainda lhe chamam incompetente e nem sequer é pago por isso?
O que vale é que são poucos.
Se eu fosse agora fazer uma música sobre isto seria assim:

“Imita os sacanas, é o que dá dinheiro
Foge do bonzinho, deve ser paneleiro
Ser decente não tráz vantagem real
Serás Tuga em Portugal
Ou serás português, mas no estrangeiro"

É, há mesmo gente que não interessa nada.

2 comentários:

Amaarelo disse...

Mercearia do Sr Lino...Humm ... Guilty

me disse...

Mesmo?