Tenho imensas qualidades, aliás, toda eu sou práticamente só qualidades, como todos aqueles que me conhecem bem sabem, mas uma delas, talvez a mais vantajosa para a minha vida, é que sou muito pragmática. Vejo as coisas como são, tento agir em conformidade e geralmente não perco tempo a pensar no que deveriam ser.
Neste caso específico o que acontece exactamente é que há pessoas. E que essas pessoas gostam de outras pessoas. E têm relações entre si. E que essas relações são todas semelhantes na sua essência – os casais apaixonam-se, coabitam, zangam-se, reconciliam-se, sofrem e indignam-se como toda a gente. Sejam eles que tipo de casais forem – brancos, mistos, negros, velhos, internacionais, deficientes, homossexuais ou hetero.
Pessoalmente não sou fã do casamento enquanto instituição – pelo-me sinceramente pela festa, adoro tirar o mofo do trapinho, comer bem, beber melhor, rever amigos e dançar musicas foleiras até desabar exausta e com os pés encardidos – mas não acredito que o papel passado traga vantagens significativas a uma relação. Na verdade, as únicas que reconheço no casamento são as mesmíssimas que hoje os homossexuais pedem para si: direitos sucessórios, pensões, baixas de assistência à família, visitas hospitalares...
Bolas, se eu me apaixonar por outra mulher e decidirmos partilhar a nossa vida como casal, com amor e respeito uma pela outra, por que raio de carga de água é que não posso visitá-la no hospital se ela ficar doente, por que razão não poderá ela ficar com a casa que construímos e partilhamos durante a nossa vida, por que motivo não poderemos ser uma família?
Sim, porque se é certo que não acredito no casamento, não há nada em que acredite mais do que na família.
O Filipe e eu vivemos juntos há quase treze anos e o mais perto que estivemos de casar foi quando decidimos brincar às comédias românticas numa cerimónia bonita e sentimental que oferecemos a nós próprios em Las Vegas. E somos muito felizes. Temos três filhos lindos e vivemos em paz com a vida. Tanto eu como ele somos vidrados nas nossas próprias famílias e temos relações próximas com elas. Portanto, não será o matrimónio que que une ou desune as famílias, é o amor e o respeito que existe entre os seus elementos. E isso não há papel, contrato ou registo que ensine.
É por estes motivos, que, quando ponho os olhos e os ouvidos nos argumentos absolutamente arcaicos e hipócritas que por aí grassam, proferidos por personalidades que inclusivamente já foram infiéis no casamento ou já mantiveram ou mantéem relações homossexuais, só me apetece é ganir.
Quando leio pessoas cultas e pelas quais tenho respeito intelectual irem contra o casamento gay apoiadas em motivos conservadores que vão desde o conceito de casamento pressupôr a procriação ou o facto de casamento ser obrigatóriamente a união entre dois elementos de sexos diferentes, dá-me vómitos. Num mundo perfeito não haveria sofrimento, as famílias seriam todas funcionais e toda a gente teria emprego e viveria feliz e contente. Mas lá está, o Mundo está longe da perfeição só que é nele que temos de viver, apesar de tudo. Há muitos documentos que pregam a igualdade entre raças e credos, que obrigam a tratar os idosos com dignidade, que protegem as crianças acima de tudo. E todos os dias assistimos paulatinamente à violação repetida dessas normativas sem que se oiçam vozes discordantes, sem que alguém se insurja.
Eu vejo o que acontece e o que acontece, de facto, é que há tanto casamentos hetero sem descendência como relações informais com filhos; tanto casais casadíssimos que se agridem brutalmente como casais casadíssimos que se adoram durante uma vida. E todos estes podem escolher casar, não casar, divorciar-se ou continuar como lhes der mais jeito. Mas também há os casais de cidadãos homossexuais que se amam e respeitam. E que também gostavam de poder escolher. Mas não podem, devido a um mísero detalhe – não é por terem antecedentes criminosos agressivos, nem problemas psiquiátricos graves, nem por serem desonestos, manipuladores ou bêbados, esses casam à vontade – é pelo que gostam de fazer na intimidade. Dá vontade de rir.
Não gosto especialmente do Sócrates, que fique claro, mas há uma coisinha que eu gostava imenso que alguém me explicasse: se o casamento gay já estava nos planos do PS e o país deu a vitória a Sócrates, parece-me que não deveria haver discussão. Esperem! Parece que há cerca de 90.000 cidadãos que pretendem referendar essa lei pois entendem que têm de ter voto na matéria.
O aborto é uma questão de saúde pública, morrem pessoas, muitas pessoas por causa disso todos os anos. E referendou-se. E foi tudo para a praia fazendo com que a consulta não fosse vinculativa. E acabou por se referendar de novo, gastando duas vezes o dinheiro que tanta falta faz ao país.
O casamento homossexual não é uma questão de saúde pública, é uma questão de igualdade social.
Gostaria de fazer um pequeno questionário aos 90.000 cidadãos indignados:
1) Afinal o que é que têm a ver com isso?
2) Em que é que o casamento entre pessoas do mesmo sexo aquece ou arrefece a vossa vidinha?
3) Exactamente o que é que acham que vos dá o direito de opinar sobre a vida privada dos outros?
Tenho cá uma ideia. Se calhar devíamos começar a referendar outras coisas fracturantes: o castigo exemplar que merecem os maridos que agridem as mulheres, quem abandona os seus velhos ou os pais que ignoram ostensivamente os filhos, que não os ouvem e não os aceitam?
Deixem-se de falsos moralismos e hipócrisias antiquadas e preocupem-se antes com as vossas verdades e com a forma como vivem e tratam as vossas famílias. E deixem os outros viver a vida deles longe de preconceitos fúteis e sem sentido.
Tenho dito!
1 comentário:
e quem fala assim nao é gago. gostei e apoio!
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