terça-feira, janeiro 26, 2010

Carta aberta

Exmos. Senhores Aprovadores de Anúncios de Rádio,
Começo por me desculpar pelo atrevimento da reclamação, pois que sou completamente leiga em matéria de eficácia publicitária (como aliás, em quase todas as restantes matérias, mas tenho gosto por opinar).
É como mãe, consumidora de rádio e de seguros que aqui me apresento hoje, com o fito de tecer um breve comentário a uma coisa que já me anda a irritar há uns dias: falo de um anúncio radiofónico que pretende vender um produto qualquer do ACP que dá direito a médico em casa por pouquíssimo dinheiro.
Para quem ainda não teve o desprazer, aqui vai uma breve súmula (passo a redundância):
Uma senhora meio tontinha nota num repente que o seu menino, uma criança presume-se, arde pura e simplesmente em febre. E que faz ela? Chama uma ambulância? Mete-o na banheira? Dá-lhe uma aspirina? Não, nada disso. Pede-lhe ajuda. Ao próprio, sim. Mas como quem fala com um bebé de meses.
Vai daí ele ajuda solícito, despachado e bem disposto, oferecendo informação sobre o produto em questão, atitude que a mãezinha agradece prontamente mas num tom que mais parece um engate.

Meus senhores, isto está tudo mal.Eu cá não sei se têm filhos a caminhar para a adolescência, mas se têm e falam com eles como a senhora do anúncio, deixem-me dizer-lhes que estão tramados - antes que dêem conta vão ter os petizes a mexer os vossos miolos com uma batedeira eléctrica sem que isso vos retire o sorriso apatetado da cara.Por outro lado, se não têm filhos, também me parece que não conhecem ninguém que os tenha. Nem passam por nenhuma criança no caminho para o emprego, no metro, no supermercado ou na pastelaria lá do bairro. E digo isto porque, se tivessem dispendido algum do vosso precioso tempo na observação do comportamento de um desses modernos bebés de boxers QuickSilver, saberiam tão bem como eu que:
a) uma mãe que se dirige ao filho com a frase “Pedrinho, estás a arder em febre o que é que eu hei-de fazer?” na minha modesta opinião, dá nas subtâncias ilícitas. E bem.
Cá para nós, pessoas normais, mesmo que a mãe esteja praticamente em apoplexia nervosa, se tiver que pedir ajuda não será concerteza ao filho delirante de febre.
Pessoal, há pediatras e convém que os filhos tenham um que os acompanhe. Se este não estiver disponível podem ligar à linha Saúde 24. Ao marido, vá, ou às vossas próprias mães. Liguem a uma amiga, tia, irmã. Liguem à vizinha do lado se tiver que ser, agora, pedir ajuda à própria criança que “arde em febre” é um bocado puxado.
No caso de não se tratar de uma criança, mas de um adolescente (no anúncio isso não fica claro – o rapaz é muito versado nas coisas da vida, mas a mãe trata-o como a um recém nascido), passa-se o mesmo, com a diferença apenas de que falar com ele como se fosse tonto ainda é mais ridículo.
b) Mesmo que num arremedo de ficção científica isso acontecesse, uma criança a arder em febre geralmente não responde de forma enérgica, como quem é apanhado no caminho entre uma partida de ténis e uma ida ao cinema: “ chama o médico do ACP”. Resposta assim talvez indicasse uma de duas situações: ou o menino já se tinha abarbatado aos mesmos comprimidos que deixaram a mãe naquele estado ou, mais realísticamente, não estava nada a arder – era só uma febrita - e a mãe é uma saloia exagerada.
c) No instante em que a supostamente moribunda criança profere as palavras milagrosas “chama o médico do ACP”, a mãezinha vê-se a braços com uma não menos divina avalancha de memória – num repente, ele é número de telefone, ele é preço, ele é horários, ele é tudo a resvalar por ela acima.
d) Ainda assim, o pior de tudo é o final, quando a mãe se dirige ao filho dengosa e titubeante como quem se insinua ao borracho de vinte e cinco aninhos que acabou de lhe mudar o pneu na berma da estrada:“Obrigada Pedrinho!”
Blharrrrghhhh!

Meus senhores, eu já disse e não sei como se faz um anúncio que funcione, mas uma coisa sei: assim não é.Diz-me o bom senso que se eu quiser fazer um bom spot de rádio, não devo fazer desfilar algumas frases desconchavadas sobre um produto, proferidas por um adulto que não acredita nele e por uma criança que nem sabe de que é que está a falar.
(impressão minha ou isto é que é o significado de demagogia?)

E pronto. Agora fico à espera da notificação do tribunal.

Nota: não garanto que as frases do anúncio sejam exactamente estas, hoje em dia a minha memória está tão boa como os meus conhecimentos técnicos sobre publicidade.

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