Lembro-me de a minha mãe fazer trinta e dois anos. Foi a Milão com o meu pai e trouxe de lá o rosto perfeito imortalizado num quadro a carvão que ainda deve iluminar alguma parede lá de casa.
Lembro-me de o meu pai fazer quarenta anos. Alguém lhe ofereceu um porta-chaves que dizia “life beggins at 40” e a minha mãe ficou fula.
Lembro-me de achar que eles eram velhos. Quando falavam de um amigo ou conhecido "ainda novo", com quarenta e poucos, lembro-me que ria e gozava – novo?
Lembro-me de eles falarem de coisas e sitios que já não existiam e de eu achar isso deprimente.
E agora, tenho trinta e seis, muitos dos meus amigos já têm ou fazem em breve quarenta. E acho que somos giros, divertidos e, principalmente, acho que somos novos.
Atentemos por breves instantes nas mudanças que se operaram, não em nós, mas na nossa terra, nos últimos anos:
A A5, os Mac Donald’s, as Zaras, o Cascais Shopping, o Cascais Villa, o BCP, o Miragem, as Sacolinhas, a Loja das Meias, a Marina, os Cachorros, a Casa da Guia, a Telepizza – que hoje são marcos da nossa terra – nada disso existia quando éramos putos.
Não existia Lidl, nem Minipreço, nem Continente, nem Pingo Doce. Só Pão de Açucar e era um.
Não existiam 10 salas Lusomundo, mais 5 Castello Lopes, mais 5 Cinemacity.
Os Bombeiros eram no centro de Cascais.
A Farmácia Cordeiro era pequena.
O Tribunal era ao pé da estação.
O Guincho não tinha ninguém.
Tínhamos nós os Croissants.
As ruas eram sujas.
Mesmo assim existia o Juliana’s, o Palm Beach, o Yuppie, o News.
A Praça de Toiros, o liceu da Pampilheira, o Dramático, o Ok, o Estoril Sol.
O Oxford e o Miramar.
Cascais era verde e azul e areia e o único transito que tinha era o das nossas bicicletas e carrinhos de rolamentos.
E tinha estradas esburacadas. E crianças à solta. E pessoas a passear a cavalo.
E não tinha quinhentos condomínios nem milhões de habitantes e toda a gente se conhecia.
Agora sim, vê-se: a nossa terra mudou, e nós com ela. Afinal os anos passaram mesmo, nós é que não demos por isso.
Se eu disser a alguém desta geração:
“ Entras em Cascais pelo Estoril Sol, nas traseiras da estação, antes do parque de estacionamento viras à esquerda para o Hotel Nau, aí viras à direita para a Cidabela, passas o cruzamento em frente e começas a subir a rua da Nova Rede, passas à frente do Oxford e viras logo ali à direita, para o ginásio dos Columbófilos”.
Quem é que não está a ver per-fei-ta-men-te o caminho?
Exacto. Vou ali num instante meter a cabeça fora da janela e fechá-la com força. Talvez demore um bocadinho, não estranhem.
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