quarta-feira, julho 19, 2006

São os homens que não servem para nada ou as mulheres é que centralizam tudo?

Exemplo:
Um casal, na casa dos 30, com filhos, empregos e vida social. Esse casal, num certo fim de semana, tem uma festa. Trata-se de um evento normal, pode ser um aniversário. Não é um casamento nem um baptizado, é apenas a celebração informal de um aniversário de um amigo(a). Pormenor: sem crianças.
A questão coloca-se assim, deste modo simples e linear.

Agora vamos introduzir aqui mais um dado: o amigo(a) é afinal a irmã dele. Única irmã. Mas é a cunhada quem recebe o convite.

É de noite, o Pedro e a Cristina estão sentados lado a lado no sofá da sala, onde assistem a um episódio da série preferida dele.

- Pedro, a Nicas telefonou-me hoje. Temos a festa dela no dia 24.
- Festa de?
- Anos. A tua irmã faz anos no dia 22 mas faz a festa no dia 24 que é o Sábado seguinte.
- Ah. Ok. Depois lembra-me, mais perto do dia. Ainda falta muito tempo.
- Lembro-te? Porquê? Não consegues lembrar-te sozinho?
- Custa-te muito? Então não lembres.
- Não é que me custe, mas faz-me confusão que não saibas quando é que a tua irmã faz anos, é só isso.
- E por acaso eu tenho de saber as datas todas de cor? Tenho isso na minha agenda, no dia vejo. Qual é o drama?
- Ah sim? E é claro que no dia vês. Não precisas de pensar nisso antes. Tens aqui a empregada que trata de tudo não é? Então e se eu também decidir tratar de tudo no próprio dia? Quanto é que apostas que não vamos à festa?
-Não vamos? Mas a festa é da minha irmã. Eu vou.
- Então importas-te de pensar comigo, se faz favor? Não podemos levar os miúdos, temos de decidir com quem é que eles ficam e isso tem de ser tratado com tempo. Nesse dia a Joana tem a festinha da Madalena, por isso não dá jeito ficarem com a minha mãe que não tem carro para a levar. Se calhar era melhor ficarem com os teus pais.
- Claro. E os meus pais são motoristas da menina, não? Não vai à festa, pronto, não morre por causa disso.
- Coitada dela, anda toda entusiasmada porque este ano parece que vão organizar uma aula de hip hop na piscina. Não fala noutra coisa há que tempos. Eu gostava que ela fosse. Então vamos nós pô-la lá e pedimos aos teus pais para irem buscá-la, pode ser?
- E vão sair de casa de propósito? É igual. Pede a alguém que a traga da festa.
- Pois, sim. Não podemos pedir aos teus pais que a transportem porque não são motoristas, mas podemos pedir a uma mãe qualquer, que eu não conheço de parte nenhuma, para andar às voltas que isso já não tem mal nenhum. Deixa lá que eu trato disso. Vou lá eu.
- Então vai.
- E já agora, a festa vai ser no casino. Se os teus pais ficarem com eles, podes levar a cama do Manelinho e o resto das coisas para lá logo de manhã? Queria ver se ia ao cabeleireiro, mas dou cabo do cabelo se andar a transportar as coisas. Assim à hora levávamos só os miudos e o resto já lá estava.
- Vais ao cabeleireiro fazer o quê? Está óptimo o teu cabelo. Até gosto mais dele assim do que todo penteadinho. E isso não tem lógica nenhuma. Quando levarmos os miúdos levamos as coisas deles, evidentemente.
- Não quero. Quero sair de casa fresca e arranjada, sem ter de andar a passear caixas com sopa, caminhas, brinquedos, roupas, fraldas, etc. E vou acabar por dar cabo das unhas, ainda por cima. Eu levo lá as coisas quando sair para o cabeleireiro. Caso encerrado. E o que será que ela quer pelos anos? Quando é que podes ir ter comigo à hora de almoço para vermos isso?
- Deixa estar que eu trato disso.
- Tratas? Quando? Nunca? Pensas que eu não te conheço? No próprio dia lembras-te de repente que não compraste nada e eu que me lixe com a logística dos miúdos porque tu piras-te bem a propósito e só voltas à hora da festa. Achas que eu sou parva ou que ando a dormir? Eu compro o presente esta semana e fica o caso tratado. E então, ligas à tua mãe a sber se ela pode ficar com eles?
- Depois ligo.
- Quando?
- Depois.
- Depois pode ser muito em cima da hora e a tua mãe não poder. Ainda nos lixamos com isso. Liga agora.
- Agora já é tarde.
- Tarde? São dez da noite.
- A minha mãe deita-se cedo.
- Tão cedo?
- Sim, porquê? Agora não pode? Tu não deixas? Será que também és tu que vais decidir quando é que a minha mãe vai dormir?
- Então pronto, ligas amanhã?
- Ligo quando me apetecer.
- Ainda acabamos por não ir à festa por causa disso. Porra. Eu ligo amanhã para a tua mãe. Casmurro!
- Chata.
- Preguiçoso.
- CHATA!
- Chato és tu. Não tenho pachorra para te aturar. Fazes cá tanta falta como uma pandeireta num velório.


Agora vamos supor que quem recebe o telefonema é ele:

É de noite, o Pedro e a Cristina estão sentados lado a lado no sofá da sala, onde assistem a um episódio da série preferida dele. O Pedro pergunta:

- Que horas são?
- Dez da noite, porquê?
- Eh, pá, esqueci-me! Hoje é a festa da minha irmã. Tenho de ir. Até logo.
- ???

quinta-feira, julho 13, 2006

Tratar a vida

-Bem malta, vou andando.
-Não vás já. Aguenta mais um bocado. O Manel ainda vem cá ter.
- Não, vou andando, ainda tenho que fazer.
- São quase 3 da manhã.
- Tenho coisas para tratar.
- De que é que vais tratar a esta hora?
- Vou tratar a minha vida.
- Deixem-na lá. Se ela quer ir embora, vai. Já está com as paranóias.
- Exacto. Vou. Beijinhos e até amanhã.
- Queres boleia?
- Não, não, deixa estar. É só um bocadinho, vou a pé.

Saio do restaurante bafiento para uma noite límpida e fresca. Enquanto caminho inspiro com força, prendo o ar por um bocado e depois deixo-o sair todo de uma vez. Três, quatro vezes seguidas. Desde miúda que faço isto, é como rodopiar. Com a tontura os objectos dançam, o cérebro baralha-se, tudo muda. Mas por um momento apenas. O momento em que saio do meu corpo e me vejo de longe, em que me sinto maior que eu. É apenas ilusão, eu sei. Preciso de mais que exercícios respiratórios para tratar a minha vida.

Tratar. Ora aí está uma boa palavra.Trata-se uma doença, trata-se uma ferida, um assunto, uma picada de insecto. Trata-se o que nos incomoda, o que nos ocupa o tempo, o que queremos despachar. Vou mesmo tratar a minha vida.

Subo os doze andares que separam o meu mini apartamento do chão. O elevador continua sem luz, hoje não me importo. Estou animada com a perspectiva.
Olho para a minha casa como se fosse a primeira vez, às vezes temos de fazer este exercício. A vida cega-nos, também por isso temos de tratá-la.
Deixamos de ver a nossa casa, os nossos amigos, a família, o trabalho, de nos ver a nós. Avançamos sobre as coisas como quem anda pela auto-estrada, sem apreciar o caminho. De vez em quando temos de tomar a estrada nacional, parar nos lugares típicos, comer devagar, ouvir os outros.
A mim ninguém me ouve. Se calhar ouve, mas não escuta.
Respondem-me, mas na realidade não sabem a quê. Tenho tanta gente à minha volta, muitos insistem que me conhecem, mas não.
Eu não existo.
Por isso ninguém me vê.
Cada um olha para mim como quer, como dá jeito, como aprendeu. Eu sou apenas uma imagem. E não há solidão maior.
Olho para a minha casa. Fui eu que a fiz, mas não sou eu. É um reflexo na água, distorcido. De mim? Nem por isso. Talvez da minha vida, da minha educação, de tudo o que pensei que devia ser. Tudo está como é suposto. Sofás em L - estimados; mesa no meio - arrumada; tapete por baixo - limpo; estante com livros - organizada; cortinas nas janelas - engomadas.
Mas eu não sou como devia. E estou cansada de tentar.
Reparo num quadro encostado e levanto-o. Avanço para a parede para o pendurar, mas de repente não me apetece. Se vou tratar a minha vida é melhor começar já. Não quero pendurar o quadro ali, nem sequer gosto muito dele. É um óleo antigo, presente de curso dos meus pais. Nele, uma mulher ainda jovem e elegante aproxima-se de uma casa no meio de um bosque ou jardim. A cabeça da mulher pende ligeiramente para a frente, como quem olha o chão para não tropeçar. Pela luz percebe-se que a cena se passa durante o dia, mas é tudo tão sombrio, tão abandonado que me entristece.
Não. Não vou pendurá-lo na parede da minha sala. Aí é onde ele “devia” estar.
Afinal não vou pendurá-lo sequer, não gosto dele, não o quero em minha casa, faz-me infeliz.
Agarro no quadro e atiro com ele para longe. Sabe-me bem. Pego-lhe de novo e começo a bater com ele. Contra tudo o que aparece. Portas, móveis, paredes, chão. Sinto-me tomada por uma espécie de felicidade histérica. Piso-o, espezinho-o, desfaço-o. Abandono-o. Desenfreada começo a varrer tudo, arranco cortinados e espalho os farrapos, atiro cadeiras, entorno armários, cómodas, prateleiras. Sinto-me livre, livre!
Rodopio com uma garrafa na mão e deixo o liquido pastoso escorrer. Por mim abaixo, pelas paredes acima. Sou livre. Faço o que me apetece, não tenho de explicar nem temer, não vou fingir mais. Estou a tratar a minha vida. Rio às gargalhadas.

Canso-me. Páro diante da janela e observo o reflexo que ela devolve. Aquela sou eu?
Dispo-me. Uma peça de cada vez, sem tirar os olhos do reflexo que me repete, até à nudez completa. Odeio o meu corpo, mete-me nojo.
Sempre o odiei, mas nunca ninguém compreendeu. Respondiam sempre - as minhas irmãs, as minhas amigas - que era um corpo invejável, que tinha mamas em quantidade e rabo em forma, quem dera a tanta gente, que eu não tinha razão nenhuma. Até se irritavam.
Mas o meu corpo não me pertence. Como a minha casa e a minha vida, o meu corpo não me diz nada. É falador, simpático, sorri para quem vai atrás, atira-se sobre quem está de frente. É expansivo, tem necessidades, pede atenção.
Eu não. Sou calada, encolhida, seca, insignificante. Não gosto dele, e ele não gosta de mim. Não me obedece, não me respeita, faz coisas que eu não quero fazer, fala de coisas que eu não quero falar.
Vou tratar a minha vida, por isso vou tratar o meu corpo. Não quero o que não me pertence.

A imagem à minha frente desvanece-se à medida que o vidro se afasta para o lado. No seu lugar surge a noite fresca e límpida que me trouxe. Chego-me à varanda e apoio-me no parapeito. Um arrepio percorre-me.

Penso em cada luz acesa. Pode ser uma casa, dentro dela estarão pessoas. Pode ser um carro, e transporta alguém. Pode ser um prédio, e nele morar muita gente. Essas pessoas serão todas diferentes, muitas delas cobardes, em menor número os felizes mas, quase nenhuns serão verdadeiros. Como eu.
Quantas dessas pessoas terão alguma vez tido a coragem de tratar a sua vida? Quantas dessas pessoas terão tido a franqueza de enfrentar o seu fracasso?
Subo para o muro da varanda. 12 andares separam a minha carne do chão. Separo as pernas e os braços. Inspiro fundo, com força. Sustenho o ar por um bocado e depois deixo-o sair todo de uma vez. Duas, três, quatro vezes.
Quantas pessoas estarão neste momento a peparar-se para fazer o que eu vou fazer? Quantas, das que pensam conhecer-me, sequer suspeitam?
Finalmente a verdade. Pela primeira vez na vida faço algo em que acredito.
A tontura. Fecho os olhos, atiro a cabeça para trás e o corpo para a frente.
Sou livre, faço o que quero e o que quero, é voar.


Cristina desliga o computador e encosta-se para trás na cadeira. Fecha os olhos e estica-se com força.
Pedro chama do quarto
– então, não te deitas?
- estou a acabar. É só tratar uma coisa.

Cristina levanta-se e despe, peça por peça, a roupa que tem vestida.

segunda-feira, julho 10, 2006

Mudam as moscas...

Empurro a chave contra a fechadura. Um jeitinho e... já está. Dentro de casa atiro várias vezes com a porta até fechar. Largo as chaves na mesa da entrada e o computador em cima de um caixote de cartão – a Cristina não gosta que se ponha nada em cima da mesa. Descalço os sapatos. Largo a gravata e os botões de punho, desaperto o colarinho e arregaço as mangas da camisa.
Entro na cozinha, tiro o pacote de leite do frigorífico e bebo duas goladas. Faço um pão com manteiga e vou para a sala. Ligo a televisão, sento-me, ajeito as almofadas, encosto-me, estico-me.
Reparo que há qualquer coisa diferente. Não sei ao certo, mas sinto uma calma esquisita, um silêncio. Chamo pela Cristina mas ninguém responde.
Estranho, a esta hora ela já costuma estar em casa. Aliás, a esta hora, num dia normal, já eu estou com vontade de sair outra vez. A Cristina está sempre aos berros. Se ela soubesse como são os meus dias andava de joelhos para me agradecer a vida que tem, mas não, só sabe é chatear-me com merdas que não interessam a ninguém. É a fechadura, os sapatos, a roupa, o caraças. É porque bebo leite do pacote e é um nojo e tenho de dar o exemplo senão qualquer dia temos filhos e anda tudo a fazer a mesma porcaria cá em casa, porque utilizei a mesma faca para abrir o pão e barrar a manteiga e não pode ser, há facas para tudo, porque estou a comer na sala e nem um prato trouxe e vou encher tudo de migalhas e depois os empregados que limpem. Chata. Ela podia já ter percebido que eu depois faço. Mas não, tem de ser quando a madame entende.
Já deixei de sonhar com o dia em que eu entro em casa e lá está ela, lingerie preta, saltos altos, sorriso sedutor. Disponível.
Isso é uma coisa que pura e simplesmente não acontece num casamento. Pelo menos no meu não acontece. Lingerie nem a vejo, não sei como é. Sexo, ultimamente só em noites de festa ou casamentos: bebemos uns copos, dançamos e a coisa lá desencrava.
Agarro no comando e começo a saltar canais. Notícias, porcarias, séries de médicos, futebol. Páro no futebol. Agradeço intimamente ao motivo que reteve a Cristina. Onde será que ela anda? No supermercado, talvez. Um grande bem haja para ela.
Sinto-me bem e acabo por adormecer.

*****

Estou ajoelhada à porta, a mala despejada no chão, uma ilha no meio do caos. Qual será a reacção dele? Tenho a sensação de que a chave desapareceu só para me irritar. Como sempre acontece, enfim ela surge, reluzente no fundo da mala, como quem sorri a dizer – então não me vias? Estive sempre aqui. Estou nervosa e reparo nisso quando a minha mão faz a chave chocalhar contra a fechadura. Endireito-me, dou um toque no cabelo, passo as mãos pela cara.
Empurro a chave com força. Praguejo intimamente ao verificar que o Pedro continua a não a ter oleado. De facto, se não sou eu a tratar de tudo não há nada que apareça feito.
Não vou pensar nisso agora.
Com um jeitinho fecho a porta por dentro. Imediatamente a presença dele atinge-me como uma explosão. Chaves a arranhar a cómoda inglesa, pasta em cima da caixa do candeeiro, no mesmo sitio desde há sei lá quantos meses, sapatos, gravata, botões de punho, tudo espalhado. Espreito para a sala. O Pedro dorme no sofá com a respiração forte a fazer ondas no mar de migalhas que o envolve, a televisão sintonizada na Sport TV. Entro na cozinha sabendo já o que vou encontrar. Sem espanto nem fúria guardo o leite, meto a faca do pão na máquina, limpo a bancada com um pano húmido. Hoje não me apetece discutir. Aliás, tenho a impressão de que nem hoje nem nunca mais. Desisto de discutir.
Tenho pensado muito e principalmente conversado imenso. Na realidade, todas as mulheres se queixam do mesmo, da natureza dos homens. Fazem pouco, desarrumam tudo, não ouvem nada. Mas agora vejo as coisas com mais clareza e percebo que é inútil tentar mudar o meu marido. Os homens são mesmo todos iguais, um bocado como as crianças – temos de falar com calma, dizer apenas uma coisa de cada vez, não mandar, não gritar, não repetir. Ou não conseguimos nada deles. É deixá-los fazer o que querem, da forma que entendem. É sermos tão básicas quanto eles. É falar menos e rir mais. Eles gostam de ter graça, que nós lhes achemos graça.
Vou ao quarto, ponho a mala em cima da cadeira, arrumo o casaco no armário.
Estou mesmo convicta, hoje não me vou aborrecer. Visto a lingerie preta novinha à estreia, meias de liga, sapatos altos, maquilhagem ligeira, cabelo apanhado, perfume suave. Quantas vezes o Pedro já falou nisto? Continuo nervosa. Faço uma depilação sumária com a lâmina de barbear dele, dou um jeito nas sobrancelhas, não resisto a uma borbulha que fica marcada. Bolas!

Vou acordá-lo. Ele já está desperto mas ainda sem ter dado pela minha chegada. Não faz perguntas, aproveita simplesmente.
Enfim, a surpresa surpreende, os nervos desaparecem, é tudo muito romântico, estamos bem e sintonizados. Depois, enrolamos-nos um no outro, ficamos só assim, a olhar o vazio, a respirar a vida que afinal às vezes é calma. Penso como gosto dele, como tudo pode ser diferente se houver vontade. O Pedro levanta-se e vai à cozinha. Estou esfomeada e fico a sonhar com o que aí vem. Morangos e champagne? Talvez umas tostas de queijo e banana...
Ele volta satisfeito com duas sandwuiches de carne assada e dois batidos de morango. Penso no trabalho que esta refeição ainda me vai dar, mas não digo nada, estou positiva.
Encostamos-nos um ao outro e comemos com prazer.
Sinto-me imensamente curiosa por saber em que altura vai o Pedro decidir arrumar tudo o que deixou espalhado, mais o que fez na cozinha, mas aguento e não pergunto. Terá de ser ele a decidir. Conversamos como há muito não fazíamos, trocamos carícias e fazemos juras de amor eterno.
Algum tempo depois decidimos ir dormir. Vou sem olhar para trás. E ele também.

Na manhã seguinte acordamos sorridentes. O Pedro despacha-se rápidamente e sai de casa. Eu tenho tempo, vou tomar o pequeno-almoço. Saio do quarto, olho à volta. Como que anestesiada vou até à cozinha. E não me surpreendo. Nem me zango. Limito-me a sentar-me numa cadeira, esconder a cara nas mãos, e chorar.

Uma história sobre um cão e um menino

Era uma vez um menino muito querido e que se portava sempre muito bem. Esse menino tinha um sonho: ter um cão. Acontece que ele vivia com a avó velhinha e ela não lhe dava um porque não podia tomar conta dele. Por muito que o menino dissesse que tomaria conta do bicho, a velhota não acreditava e mantinha-se irredutível.

Um dia o menino ia para a escola quando ouviu na beira do caminho uma espécie de gemido. Procurou para ver o que seria e, debaixo de um monte de ervas encontrou um cachorrinho que tremia muito assustado. Comoveu-se, e mesmo sabendo que a avó não queria, decidiu levar o animal para casa.

Decidiu nesse dia ser responsável por esse bichinho e que ele seria sempre a sua prioridade em tudo. Mesmo contra os avisos da senhora prometeu alimentá-lo, brincar com ele, passeá-lo, dar-lhe banho, enfim tomar conta dele. E o cachorro feliz, depressa se transformou num lindo cão, barulhento e brincalhão como são os cães. Foram tempos muito felizes para os dois. Pasavam o tempo todo juntos sempre no maior companheirismo e amizade. Nunca se separavam um do outro.

Mas o tempo foi passando e chegou o Verão. E com ele chegaram os convites para férias e temporadas com os primos e os amigos. Era a época do ano de que o menino mais gostava. Praia e diversão todo o dia durante semanas e semanas. Mas com o Verão chegou também o problema do cão. O que havia de lhe fazer? Não podia levá-lo para as férias e em casa também não podia ficar. Pensou, pensou, pensou e decidiu agarrar nas suas poupanças e meter o cão num canil.

Nesse dia a avó chamou-lhe a atenção – Olha, um animal não é uma coisa que se deixe por aí de qualquer maneira. Ele está muito habituado a ti e vai reagir mal.
- Não vai nada. Ele é esperto e eu não posso deixar de ir nas minhas férias por causa dele.
E assim fez. E foi bom porque apesar de o ter deixado prostrado e com aquela carinha de abandono e de no regresso ter encontrado o animal ofendido, a crise depressa lhe passou e voltaram a ser os bons amigos de sempre. Mas mais convites vieram e a todos o menino queria atender: era o fim de semana em casa do amigo e ia o cão para casa do primo A; era a festa na quinta distante do amigo B e era o cão atirado para o canil de novo e assim por diante. No regresso ele compensava sempre o cachorro pelas suas ausências, mas de facto de cada vez o menino menos paciência tinha para dedicar ao seu animal que o adorava e sofria com estas mudanças.

Pouco a pouco o bicho foi-se habituando a andar sozinho. Saía de casa de manhã e voltava apenas de noite. O menino sabia que ele voltava sempre, por isso nem se preocupava em saber o que fazia ele durante o dia, o que comia nem por onde andava. Sabia apenas que ao cair do dia o cão voltava sempre. E o menino achava graça a esta nova relação. Não tinha de estar sempre a pensar no que fazer ao animal porque ele não parava em casa e não dava trabalho nenhum à avó, e como passava o tempo todo sujo nem sequer valia a pena dar-lhe banho e muito menos levá-lo a passear. Era o melhor dos mundos – Nos dias frios de Inverno, sempre que lhe apetecia ficar por casa, lá ficava o seu amigo fiel, deitado no chão a aquecer-lhe os pés, sempre sedento de alguma atenção. Assim que o tempo melhorava lá iam os dois para a rua - às vezes juntos, às vezes cada um para seu lado, sem compromisso nenhum. E o animal já nem gania quando o menino o deixava em casa nem estava sempre a pedir-lhe atenção. De tal maneira que em pouco tempo até passou a dormir no jardim. Afinal já era crescido para dormir numa caminha dentro de casa.

Certo dia, ao pôr do sol o cão não voltou para casa como era hábito. O menino entrou em desespero: o cachorro nunca fizera isto. Sem saber onde ir foi para a rua a ver se o via. Depois de procurar toda a noite voltou para casa de braços caídos e coração nas mãos. Ao cabo de muitos dias e alguns anúncios descobriu o cão em casa de um vizinho.

O vizinho era um pouco mais velho que ele próprio e ao abrir a porta trazia o animal ao colo. Ao fazer o gesto de lhe pegar para o levar, o cão assustou-se e com uma feroz rosnadela a acompanhar deu-lhe uma valente dentada na mão. O menino de tão surpreendido nem sentiu a dor. Afinal a dor no coração era maior.

O vizinho pediu muitas desculpas e que ele tentasse entender – o cão e ele eram muito amigos. Passavam juntos tardes e tardes de brincadeira desde há muitos meses. Era inclusivamente lá em casa que ele comia durante o dia e até tinha uma caminha para dormir a sesta. O rapaz nem sabia que o animal tinha dono...
Há uns dias o cão tinha sido atropelado ali perto. Como não tinha coleira e o vizinho não sabia se pertencia a alguém nem se preocupou em procurar e recolheu-o na sua casa. Tratou-o, mimou-o e ficaram ainda mais amigos.

Agora, ao fim destes dias, parece que ele já não queria voltar...

Manhã submersa

Dou mais uma volta enquanto acabo de ouvir o Nuno Markl na Comercial. Adoro ouvir o Nuno Markl logo de manhã. Deixa-me bem disposta não só porque tem um sentido de humor discreto e inteligente, mas porque admiro as pessoas que conseguem levantar-se para começar a trabalhar às 6 da madrugada. Páro em segunda fila e desespero por um momento até conseguir inventar uma frincha onde enfiar o meu Golf novinho. Finalmente encaixo-o numa curva, entre um bloco de cimento e uma Ford Galaxy. Saio do carro, finto um dejecto, enfrento o prédio opulento, volto a trás para verificar se o carro está fechado. Tomo mentalmente nota para não me esquecer de procurar o comando. Entro no escritório, bom dia à esquerda e à direita, tentando acalmar o cabelo ainda húmido e evitar assim a formação da “nuvem” que me dá um aspecto no mínimo desfocado - que raio, pareço uma doida!.
Atravesso o corredor fervilhante. Dentro do elevador olho para o espelho e tomo consciência de que estou uma lástima, para não variar. Os olhos ainda inchados, a pele a precisar de praia, o cabelo loiro “quase até à raiz”. - À chegada ao 2º já vai enrolado num nó porque senão já pareço uma peruca de arame. Chego ao meu lugar mais apresentável, acho eu.
Pouso a mala aberta enquanto murmuro um bom dia discreto. A mala cai, apanho-a do chão duvidoso, sacudo-a vagamente, observo por um instante e com espanto crescente, a indescritível montanha de tralha espalhada à minha volta. Catálogo de roupa de criança a aguardar tempo de antena, conta do telemóvel (nem sei se já está paga), segundo aviso da conta do gás, notificação das finanças com data de há um mês, talões de multibanco, o pincel de um batôn que não sei onde anda. Enfim, o elástico favorito desaparecido há séculos, isqueiro, uma mola partida, a carteira também ela a precisar de limpeza, agenda electrónica sem bateria há semanas. Tudo amarfanhado e velho, abundanetemente regado a migalhas de tabaco. Comando, nem vê-lo. Atiro a tralha de novo para dentro da mala enquanto faço uma nota mental para não me esquecer de a arrumar à noite. Fico irritada comigo mesma por chutar tudo para depois e juro, mas juro com convicção que de hoje não passa. Pouso a mala de novo, mas desta vez fechada, e finalmente sento-me, respiro fundo e olho à volta. Faço sempre isto. Assim que me sento olho à volta. Não sei bem para quê mas deve ser para constatar mais uma vez que fui a última a chegar.

Mãe é tudo

Em criança, quando me perguntavam pela profissão da minha Mãe eu respondia
- Doméstica.
Se me perguntavam ,o que é isso, eu respondia de imediato:
- Não faz nada.


************

Quando eu e os meus irmãos andavamos na escola não almoçavamos lá como a maioria das outras crianças. Porque a nossa mãe não fazia nada íamos sempre almoçar a casa. E não gostávamos. Em casa comia-se muitas vezes peixe, salada, sopas, frutas. Sobremesas só em dias de festa e refrigerantes idem. Uma seca.
Era durante essas horas que a minha mãe que não fazia nada, cosia um botão, trocava uma camisola, substituia o lápis partido, desenhava com mercúrio uma maçã num joelho esfolado.
Chegávamos da escola a meio da tarde. A minha mãe estava em casa para nos receber. Era a hora de nos ajudar com os trabalhos de casa e de se certificar de que não faltava nada para o dia seguinte. Nunca nenhum de nós soube qual era a sensação de não levar as sapatilhas no dia de ginástica ou de ter de explicar à professora a falta de um compasso. Nunca aconteceu ir à despensa e constatar que não havia bolachas, leite, farinha, fita cola, tira nódoas, panos de pó. Queríamos fazer um cozinhado e não faltava nada. Muitas vezes, só o dinheiro para se vestir de novo ou fazer férias faltava. E nós não dávamos por isso.
Porque a minha mãe não fazia nada.

Na escola eram famosas as nossas máscaras. Em Carnavais consecutivos, sem gastar um tostão, a minha mãe colocava-nos no podium dos concursos. Recortava, colava, acrescentava, cosia, pintava, remendava. E aturava. Porque não fazia nada.

Cresci sem jamais pôr em causa a evidência de que a minha mãe estaria sempre lá : nas festas da escola, da ginástica, do judo, do ballet; nas reuniões de pais, nas chegadas de passeios, nas partidas para férias, no último dia de escola, na primeira menstruação . Nunca questionei que uma mãe soubesse tudo. A minha sabia. Sempre com a mesma segurança foi fada dos dentes, costureira, médica, psicóloga, monstro, veterinária, electricista, professora, jardineira, encenadora.

Cresci sem dar valor a detalhes como os cheiros da minha casa. O óleo de cedro, os roupeiros primorosos, o café fresco, as toalhas de banho, a cama lavada, são aromas que ainda consigo sentir quando lá entro.
Cresci com a certeza de que qualquer coisa, pouco utilizada que seja, estará sempre limpa à frente, por trás, debaixo e entre.
Cresci numa casa onde era banal ser a minha mãe a tratar as mazelas - fisicas e psíquicas - dos nossos amigos. Certamente foi ela, muitas vezes, a única que os ajudou, também a eles. Que ouviu, apoiou e tratou todos quantos precisaram.
Era sempre ela quem levantava os estores para nos acordar e quem apagava as luzes quando já todos dormiam de noite. Mas não fazia nada.
Como não fazia nada, a minha mãe via de facto os filhos quando olhava para nós. Com um olhar apenas, a minha mãe percebia. Não perguntava, lia. Não castigava, apelava. Fazia-se desentendida, deixava passar o que não merecia o esforço. Deixou-nos ser crianças enquanto pode e fez-nos crescer quando chegou a hora. Não nos julgava e não nos comparava. Não fazia nada.


Cresci habituada a vê-la chorar. Mais. Cresci habituada a vê-la perdoar.
Nunca perdi tempo a pensar que uma mãe perdoa tudo aos filhos, esquece tudo pelos filhos, recomeça sempre pelos filhos, mas sofre infinitamente mais por eles.

Carnavais

- Inês, chega! Pára com isso! Assim não conseguimos sair de casa, filha. Tens de escolher só uma e depressa. Não tarda estamos tão atrasados que mais vale ficarmos em casa, é isso que queres, querida? Tira daí a mão Joana, vais estragar a mesa, bolas! Inês, veste-te lá e vai ver onde é que andam os teus irmãos. Estamos tão atrasados, Cristo! Qualquer dia sou despedida e depois quero ver. Mascaram-se mas é para irem andar às esmolas!

Madalena corre do quarto para a sala, para a cozinha, para a casa de banho, de novo para a cozinha, de volta ao quarto. Enfia as calças pretas, a camisola de gola alta, o blazer de veludo. Relanceia um olhar pelo espelho e pensando nas palavras da irmã, sorri para si. Hippie? Quem lhe dera! Isso era dantes. Agora era apenas uma mãe/mulher/profissional a tentar fazer o possível. Amarra o cabelo num rabo de cavalo apressado, engole o resto do iogurte e continua.
– Francisco, despacha-te com isso, caramba, são só cereais! E de manhã não há playstation. Quantas vezes é que eu tenho de dizer as mesmas coisas, criaturas? Lavaste os dentes? Inês, o que é isso, filha? Não, querida, não é um rabo de cavalo e não não estás como eu. Isso mais parece o rabo de uma doninha irritada. Dá cá que eu faço como deve ser. Assim. Que boneca, vê lá ao espelho. Igualzinha à mãe, agora sim.
O Tomás? Tomááás! Estás aqui, gordo? Dá cá que a mãe aperta. Sim querido, o Homem Aranha também usa ténis. Sim, e também usa capa de chuva quando chove como hoje, claro. Não, amor. Capacete não, vai lá arrumar isso. Diooooogoooooo! Alguém viu o Pai? Ainda está na casa de banho?

- Diogo, importas-te? Será que o senhor barão pode levantar o rabinho do trono e dar uma ajudinha antes que me dê uma coisa?
- Calma, general, estou a acabar. Já não se pode vir à casa de banho em paz?
- Quando tens quatro crianças para entregar mascaradas na escola daqui a vinte e cinco minutos, não, não podes. Vês-me por acaso sentada na sala a ler uma revista? Pois é. Mexe-te! Vá lá!
- Disseste quatro? A Joaninha também vai mascarada, coitadinha?
- Coitadinha porquê? Está tão feliz vestida de flor. Está farta de dançar. Anda lá ver. O Francisco é que me deixa doente. Tens de falar com ele. Não larga a porcaria da playstation, parece um bicho. E nem queria vestir o fato, depois da trabalheira que eu tive. Obriguei-o, olha. Está tão giro de Zorro, todo charmoso.
- Aquele é que ainda nos vai dar dores de cabeça. Sabes que...
Mas Madalena já tinha desaparecido.
Pouco depois volta a meter a cabeça pela porta da casa de banho.
- Podes levá-los tu?
- Eu? Nem penses, já devia estar numa reunião.
- Tem piada. Tem mesmo graça. Estás há horas sentado na retrete a ler uma revista, e quando eu te peço uma coisa, por uma vez, dizes logo que não podes. Logo hoje que tenho a apresentação para fazer, é que vou chegar atrasada. Claro porque os filhos são só meus, não é? As responsabilidades são só minhas. Até parece que os fiz sozinha.
- Lá vens tu com a treta da conversa. Não é nada disso. Estou atrasado para uma reunião, mais nada. Se fosse outro dia eu ia. Vou amanhã. Hoje não.
- Então também vou fazer isso. Hoje não posso ir levá-los. Ficam em casa, pronto. Tomam conta uns dos outros. É assim? Estou atrasada, Diogo. A Inês já mudou quinhentas vezes de roupa, porque a fada não tem chapéu e a bailarina não pode ir de botas e mais sei lá eu o quê. O Francisco está feito parvo agarrado à maquineta e ainda nem sequer lhe fiz o bigode, a Joana anda a pintar a sala com as canetas de feltro e o Tomás passeia-se calmamente com o teu capacete enfiado. Há roupa espalhada por toda a casa e a cozinha está um pandemónio. Podes colaborar, ou não?
Diogo entra na sala a bater com os pés com muita força no chão de madeira. Arqueia os braços, enche o peito de ar e muito direito, com o sorriso mal disfarçado pela careta feroz, berra:
– Praças! Atenção! Revista!
Em menos de nada a fada enfia um gorro de Pai Natal, o Zorro aparece de bigode pintado a caneta de feltro e o capacete desaparece engolido pelo caos.
Perdido de riso, Diogo coloca-se ao lado dos filhos.
– Sentido! Peito para fora! Barriga para dentro! Continência! – E depois, voltando-se para a mulher:
- Como vê, senhora generala, é tudo muito simples. Os seus soldados estão prontos e sem stress nenhum. Não estamos, companheiros? Do resto trata-se depois.
Companhia! Marche!
Agora, mãe, podes calçar uns sapatos, ou vais de chinelos?