terça-feira, outubro 02, 2007

A mãe galinha ganfou uma bochecha do rabo da sua mais nova, ainda nem 3 completos. Gorducha e apetitosa a bochechinha! Olhou a filha como quem morde e
- Ai, ai que coisa mais fôfa, posso comer?

Ela, nitidamente uma terceira, levanta o sobrolho direito e

- Não, não podes!

- Vá láááá... - a mãe insistente, apelando à caridade , quase a rastejar - estou cheia de fome.

O sobrolho não se desviou nem um milímetro. Olhou para a mãezinha que mantinha aquela expressão de deleite absolutamente ridícula para quem observa, mas que desperta uma solidariedade estranha em quem já passou por ela, e disparou com o "j" dos seus ainda nem 3 aninhos:

- Na cojinha podes comer À VONTADE!

quinta-feira, julho 26, 2007

Lógica

Dentro do carro passavam perto de uma escola pública. A mãe comentou com eles que se estudassem numa escola do estado seria naquela.

Ela, 8 anos – O que é uma escola pública?
Mãe – É uma escola do estado, onde não se paga nada.
Ela – E porque é que nós não andamos cá?
Mãe – Porque estas escolas fecham muito cedo, são boas é para quem não trabalha.

Muda-se o tema de conversa, o sobrinho também no carro comenta que os avós estão reformados.

Ela –O que é reformados?
Ele, 9 anos – É quando as pessoas deixam de trabalhar.
Ela- E com que idade as pessoas se reformam?
Ele- Acho que é aos 65 anos.

Ela pensa por uns segundos, e com uma cotovelada satisfeita para o primo:

- Já viste? Quando a minha mãe tiver 65 anos eu já posso andar numa escola pública.

quarta-feira, maio 23, 2007

Solução de emergência

O rapazinho de 6 anos prepara-se para passar a sua primeira noite em casa de um amigo. A mãezinha, galinha até dizer chega, briefa o seu menino com insistência, o medo de fazer má figura a toldar-lhe a razão.
Depois de chamadas de atenção de vária ordem, desde o políticamente correcto “se não gostares de alguma coisa que te derem para comer dizes que não aprecias e perguntas se podes comer menos, não dizes que não gostas, que não é bonito”, ao sacramental “não te esqueças de lavar os dentes e de lavar bem a escova a seguir” até ao hiper galináceo “não embirres com o teu amigo, mas não o deixes fazer de ti gato sapato”, veio a fase de revisão da matéria dada. Perguntas várias, respostas correctas. Até...
Mãezinha:
- E se te derem para comer alguma coisa que não gostes?
E ele fica quieto, olhos em alvo, fitando o infinito, como quem pensa demoradamente no assunto. E dispara:
- Então (todas as suas frases começam por então), finjo que comi e deito para debaixo da mesa.

quarta-feira, março 28, 2007

It takes only two minutes and a lighter

Ele entrou na esplanada e sentou-se numa mesa. Pousou o jornal, acendeu um cigarro e esperou para ser atendido. Olhou à volta distraído. A esplanada encontrava-se bastante cheia – um velho de chapéu a ler um livro, uma família submersa em refrigerantes e gelados, uma miúda de óculos a estudar e, numa mesa próxima, um casal que lhe chamou a atenção. A mulher, de frente para ele, escutava com interesse o homem, de costas, que falava animadamente..
Observou-a. De onde estava conseguia vê-la bem. Era uma bela mulher – trinta e poucos, cabelos longos com reflexos de sol ensonado, blusa preta bem fornecida, calças de ganga, sapatos de salto. Elegante.
Viu que ela tinha reparado nele e fingiu-se muito atento ao jornal pousado à sua frente. Olhou de novo, disposto a iniciar um qualquer jogo barato de sedução infantil. Ela ignorou-o, concentrando-se de novo na conversa com o companheiro. A empregada aproximou-se e ele pediu uma caipirinha. Quando voltou a procurar com o olhar a mulher da mesa em frente, reparou com espanto que ela se aproximava.
Chegou perto dele, parou e curvou-se para a frente (mais, bastante mais do que o necessário), de forma que a blusa leve, de cetim, se afastou do seu corpo, deixando antever a curva do seio e um pedaço de soutien negro. Descontraída, perguntou-lhe:
- Tem lume?
Ele não conseguiu evitar e olhou. Olhou descaradamente. Ela não esboçou nem um gesto para se compôr, apenas segurou o cabelo comprido com uma das mãos, enquanto com a outra prendia um cigarro nos lábios sensuais.
Desconcertado por ter sido tão óbvio, começou a apalpar-se à procura do isqueiro. Bolso da frente da esquerda, bolso da frente da direita, bolso de trás da esquerda...ela pareceu levemente aborrecida e olhou em volta provavelmente em busca de algum outro fumador. Ele comentou:
- Ainda agora acendi um cigarro, o isqueiro tem de andar por aqui algures...
Ela voltou-se de novo para ele e sorriu, trocista, do nervoso que ele não conseguia disfarçar – e que aumentava a cada segundo pelo facto de ela ter consciência disso mesmo. Olhou para o peito dele, ao qual a camisa branca começava a colar-se (aperceber-se disso provocou-lhe uma descarga de adrenalina que só piorou o seu estado) e sorriu de novo, apontando com o queixo na direcção do bolso.
Ele levou a mão ao local indicado por ela e retirou o isqueiro que aproximou do cigarro dela. Mas tinha as mãos tão transpiradas e trémulas, que não conseguiu acendê-lo.
Ela avançou a mão como que a pedir para deixá-la tentar. Não tirou os olhos dos dele, uns olhos verdes, transparentes, brilhantes, intensos. Ele deixou-a retirar o isqueiro, ela roçou ao de leve, a mão na dele. O toque da pele fresca e macia dela na extremidade húmida e transtornada dele causou-lhe o efeito de um choque eléctrico que começou na base da cabeça percorreu-lhe o corpo até aos calcanhares, deixando-o excitado como um adolescente.
Ela reparou e deu-lho a entender com um breve sorriso dos olhos verdes, enquanto acendia o cigarro. Inspirou com força certificando-se de que estava bem aceso e avançou a mão de novo para lhe devolver o isqueiro, mas antes de ele conseguir segurá-lo, ela deixou-o cair no chão.
Imediatamente ele saltou da cadeira e acocorou-se para o apanhar. Ela só reagiu um terço de segundo mais tarde, o suficiente para que quando se curvou na descida ele já viesse na subida. No encontro a cara dele tocou apenas ao de leve na blusa preta de cetim que lhe cobria os seios atrevidos, um ligeiríssimo roçagar da epiderme em brasa dele no cetim fresco e ondulante da blusa dela. E, naquela fracção de tempo em que se encararam, paralisados, uma golfada de perfume, calor e excitação atingiu-o como uma bofetada; toldou-lhe a razão, embruteceu-lhe os sentidos e deixou-o completamente louco.
Ela agradeceu com uma discreta inclinação da cabeça loira e voltou-se lentamente para regressar ao seu lugar.
Ele continuava extasiado, ainda sem ser capaz de compreender o que tinha acontecido ali, e ficou, ébrio de feromonas, a vê-la afastar-se, o movimento ondulante e perfeito das ancas de alguém que tem perfeita consciência de estar a ser observada.
E foi quando ele reparou no reflexo.
Do bolso de trás das calças de ganga justas e bamboleantes, espreitava desconcertante um isqueiro prateado.

terça-feira, março 27, 2007

O segredo de um casamento longo e feliz...é preciso dizer?

Há por essa internet fora um sem número de textos, mais ou menos engraçados, mais ou menos inteligentes, que definem o casamento como o fim da vida sexual dos casais. Não podia estar menos de acordo. Assim parece, de facto. Mas nem tudo o que luz é ouro...

Há aqui duas coisas que gostaria de deixar claras desde já:
1 - ninguém casa para ter sexo
2 - o ser humano preza a estabilidade acima de tudo.

Há um monte de coisas que se alteram com o casamento, nomeadamente o local onde o sexo é praticado. Se na adolescência qualquer sítio serve, desde o hall do prédio de casa da avó, ao automóvel embaciado na estrada do Guincho, depois de dar o nó há uma tendência mórbida para o praticar sempre e invariavelmente na cama. Claro que há um monte de desculpas que podemos dar, os filhos, a interna, os vizinhos, blá, blá, blá, mas isso não muda nada.
Este facto, por si só, não teria grande interesse, dado que há uma infinidade de actos altamente estimulantes, susceptíveis de serem praticados no leito conjugal, mas se lhe juntarmos a hora, então está tudo estragado. Com o casamento, o sexo passa a ser praticado na cama, à hora de ir para a cama.
Isto sim, é devastador para a relação. Para começar e se acontecer torna tudo insuportávelmente previsível. Cama igual a sexo 3 vezes por semana, às 23 horas, ele por cima, ela por baixo, devagarinho, baixinho, poucochinho. Olha os meninos, olha a mãezinha, olha a porteira, já está?
Portanto, aparentemente aqui passaria a ficha tecnica da relação, os créditos finais. Mas, na realidade, pode ser apenas o começo.
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É certo e sabido que as pessoas casam cada vez mais tarde. Isso também não teria grande interesse, não fora o problema da conservação. Há uns anos, ao juntar o seu destino ao de outra pessoa, a maior parte das mulheres era muito jovem e pretendia apenas constituir uma família e viver feliz para sempre. As alterações no corpo por consequência de gravidezes e os efeitos do envelhecimento vinham no pacote, e isso incomodava pouco, poucas mulheres e poucos homens.
Mas tudo mudou, e agora, as mulheres já compreenderam que o casamento não é garantia nenhuma de nada, e que a sociedade tende a valorizar cada vez mais o aspecto fisico, por isso têm aprendido a acautelar-se. Enquanto assistimos passivamente à engorda dos nossos homens, pouco vaidosos e muito latinos, sem nos importarmos, eles, à medida que envelhecem só querem bola, amigos, uma mulher que não cheteie e babarem-se para cima de umas bombocas (boneca de aspecto plastificado constituída por chocolate por fora e espuma por dentro).
A mulher de bigode que casava para garantir o futuro e não se separava por não poder, morreu. A abertura das mentalidades tornou naturais as relações entre pessoas mais velhas e outras mais novas, entre pessoas do mesmo sexo, entre pessoas casadas, divorciadas, etc. E isto, veio alterar verdadeiramente o estado de coisas. Hoje, ao casar, ninguém está a garantir o seu futuro, está a hipotecá-lo. E paga uma prestação pesada e diária em rugas, flacidez e cabelos brancos, às vezes para chegar a uma certa altura e perder tudo na mesma. Tudo em nome de uma certa estabilidade que não nos habituamos a não ter.
Então, as mulheres aprenderam a prevenir-se, garantindo que teriam um casamento longo e feliz, sem juros.
E isto, que aqui descrevo, é a imagem perfeita e acabada de um casamento de sucesso.

Marido e mulher desligam a televisão, dobram as mantinhas, calçam os chinelos e levantam-se do sofá para irem deitar-se.
Ele: chega ao quarto, despe-se, atira a roupa para cima da cadeira, veste o pijaminha, lava os dentes e deita-se.
- Boa noite, querida.
E adormece.
Ela: chega ao quarto, despe-se na casa de banho, separa a roupa para lavar e dobra a restante, prende o cabelo, lava a cara, seca-a, retira os restos de maquilhagem com desmaquilhante, passa novamente água na cara, seca-a, espalha o tónico, coloca o contorno de olhos, lava os dentes, toma as vitaminas do cabelo, as de beta-caroteno e a pílula, bochecha com o elixir e coloca o creme de rosto. Espalha o da celulite nas coxas e ventre, fricciona bem por 5 minutos, passa o creme refirmante de seios e aguarda também que absorva. Veste o pijama. Sai da casa de banho, põe no cesto a roupa para lavar e a restante arruma no roupeiro. Volta à casa de banho onde sentada, coloca creme hidratante nos pés e calça uma espécie de meias. Finalmente, passa o creme hidratante nas mãos e ainda a massaja-las dirige-se para a cama.
Obviamente, nesta altura o marido já vai no segundo sono.

Portanto, assim é, de facto. O casamento parece acabar com a vida sexual do casal. Mas na realidade, em muitos casos é responsável pelo seu início, de facto. Tanto um como outro, deixaram de ver o casamento como uma hipoteca, mas como uma parceria; dois amigos que unem esforços para obter um futuro risonho e estável. Eles, são unânimes em concordar que uma aliança no dedo é como iman para as bombocas desta vida, sucesso garantido. Sentem-se uns garanhões, andam felizes e contentes e chegam a casa apenas a pensar em comida e sofá. Não fazem perguntas, nem se questionam.
Elas, tratam-se bem, andam frescas e sorridentes, e principalmente fazem tudo para não hostilizar o marido. Como são organizadas lavam, passam, arrumam, cozinham, transportam e ainda têm tempo para sair. Não fazem perguntas porque não gostam de mentiras.
E assim mantém-se incólumes para os solteiros fresquinhos que as acham lindas e experientes, não lhes dão trabalho e não estão lá à hora de deitar...
É assim que se vive na maior paz e harmonia, com sexo variado e toneladas da almejada estabilidade.
Resumindo e concluíndo: o segredo de um casamento longo e feliz...
É preciso dizer?

segunda-feira, março 26, 2007

Tento ver se percebo onde é que o fim começou...

Tudo corria bem. Éramos felizes como poucos, havia química entre nós. Casámos, tivemos filhos...Alto! É capaz de ter sido aqui.
Os filhos. Só quem não os tem é que acha que um filho pode salvar um casamento. Pelo contrário, não os ter também não ajuda em situação de crise, pela ausência de compromisso. Quero com isto dizer que os filhos, apesar de, na maior parte dos casos, não contribuírem para uma melhoria da relação do casal, contribuem para um projecto de vida, uma aposta que se faz e que nunca se quer perder. Não há quem aprecie um falhanço. O que acontece é que os filhos desviam a atenção dos pais de si próprios. Há uma certa tendência para desvalorizar os problemas quando dar-lhes importância pode significar arranjar problemas mais complexos ainda - como uma separação - e as questões práticas e logísticas que se arrastam com ela. Então os problemas crescem, avolumam-se, não são resolvidos, são ignorados, desviados para compromissos sociais, programas com amigos, com filhos, com amigos dos filhos. Os casais deixam de se olhar, e depois deixam de saber como voltar a fazê-lo.

Bem, mas dizia eu, casámos, tivemos filhos, crescemos profissionalmente ... Calma! Se calhar foi aqui!
Falta de tempo livre. Quando duas pessoas passam o dia inteiro a trabalhar chegam ao fim do dia inevitavelmente cansadas e com pouca paciência, qualquer pergunta trivial pode originar uma resposta agressiva e não raras vezes daí nasce uma monumental discussão. Frequentemente os pais tentam poupar as crianças a esses filmes, pelo que optam por calar, deixar para depois. E isso é o nó na mangueira – vai inchando, inchando, inchando, até que rebenta. E aí, tudo o que a rodeia fica inundado e irremediavelmete estragado, incluíndo a própria mangueira. Mas a falta de tempo até poderia ser compensada de muitas formas, mas há sempre um elemento do casal que não tem pachorra. É assim em todo o lado, com toda a gente. Há sempre uma pessoa que vive virada para fora enquanto a outra se vira cada vez mais para dentro. O homem,vulgarmente mais disperso e infantil (sem depreciar) muitas vezes tem necessidade de abstrair das responsabilidades do quotidiano, da casa, do trabalho, dos filhos, das contas. Frequentemente acusa a mulher de ser demasiado séria (muitas vezes é verdade) e responsável. Tem de sair, de se divertir, de espairecer, e com isso, deixa cada vez menos tempo livre para regar as flores todas do seu jardim, deitando água em apenas algumas. Mas antes de murcharem de vez, as flores ainda lutam por umas gotinhas, empurram-se, atacam-se. Mas a água não chega mesmo para todas, por isso algumas acabam fatalmente por morrer. E marido e mulher passam a viver no pior de todos os cenários, como dois estranhos que por um acaso partilham o mesmo espaço.

Mas continuando, casámos, tivemos filhos, crescemos profissionalmente, construímos uma vida em comum....Pára, pára, pára! Acho que é isto, foi aqui!
Quando duas pessoas se juntam para começar uma vida há certas coisas que mais ou menos explícitamente, ficam acordadas. Uma delas é, qual dos elementos do casal vai investir na carreira. Frequentemente é o homem que o faz, ficando para a mulher a gestão do quotidiano da casa, dos filhos e da sua própria vida profissional. Como todas as obras complexas de engenharia civil, o desiquilibrio tem de ser uma ilusão. Se for real, o edificio mais tarde ou mais cedo, acaba por ruir. Ora, quando um dos elementos do casal, em nome do sucesso futuro, de uma carreira fulgurante ou de dinheiro ao final do mês, começa a viver exclusivamente de e para o seu trabalho, estamos perante um prédio no qual se constroem as paredes antes das fundações.
Deixa de haver diálogo, companheirismo, uma simples noite passada a ver um filme. A química, a amizade, o sexo, tudo isso tem de ser alimentado. É a tal coisa dos olhos que não vêem, coração que não sente. Mas, para agravar a situação, há um momento de tomada de consciência por parte do elemento do casal que trabalha menos fora, em que tudo é posto em causa. Esse elemento, vulgarmente a mulher, perante o desmoronar eminente do casamento entra em stress. Afinal, para que o marido possa investir todo o seu tempo no trabalho, tudo o resto é assegurado por ela: desde os transportes das crianças às refeições, passando pelos presentes para levarem às festas dos amigos até à indumentária para a festa do final de ano. Mas no caso de se separarem o que é que ela tem? Nada. De facto e na realidade, ela não tem nada. Tem um empregozeco mal pago, muitas vezes nem isso. Toma consciência de que não construíram uma vida deles, mas uma vida dele e dos filhos, na qual ela fez o papel da governanta. Ao entrar em stress a mulher fica muitas vezes amargurada, azeda, agressiva, o que precipita o fim. E aí, todos os seus receios se confirmam: a governanta acaba despedida, muitas vezes trocada por uma mulher a dias menos competente mas mais fresca, os filhos afastam-se porque não têm pachorra para uma mãe infeliz e rezingona, a família toma partido do desgraçado que trabalha tanto e ainda tem de aturar a chata...e ela compreende que esta coisa de construírem uma vida em comum é uma grande treta. O que se constrói é a vida de um deles, apoiada na do outro – que nunca lhe dá o valor que ela merece.

Mas, dizia eu, casámos, tivemos filhos, crescemos profissionalmente, construímos uma vida a dois. Tal como começamos a morrer no dia em que nascemos, mas o fim anunciado não nos impede de nos alimentarmos, também uma relação começa a acabar no dia em que se inicia, o que não significa que se fique logo ali, desnutrida.
Tudo isto pode dar o mote para destruir um casamento, é verdade, mas todos sabemos que problemas existem. Todos sabemos que não há mares de rosas, e mesmo que houvesse está na nossa natureza achá-los aborrecidos. E isso faz-nos evoluir.
De todos os animais o homem é único que sente insatisfação. Há que fazer dessa inimiga aliada, e em vez de a deixarmos vencer-nos, crescer com ela, melhorar com ela e aprender com ela.
Somos lutadores por definição, não baixamos os braços perante as ameaças e na maioria dos casos não gostamos de perder. Lutamos, lutamos, lutamos até ao fim.
Por isso, acho que sei afinal que o nosso casamento começou a morrer no dia em que nos casámos, só não sabia que seria tão dificil enterrá-lo.

sexta-feira, março 23, 2007

Água mentirosa

É uma daquelas pessoas que apregoa ser uma torneira aberta, de água clara e transparente, que corre sempre a direito na direcção do ralo. Aí dá uma volta, duas, e depois continua o caminho que programou, cristalina e verdadeira. Uma água tão abundante e disponível que te diz – anda, bebe-me – e tu acreditas que cumprirá com a promessa implícita: a de matar a tua sede. Desconfortável, hesitante, sem copo à mão, seguras nos cabelos e debruças-te. Lanças-lhe a boca para beber um pouco. Só que, assim que te sente no seu caminho, escorrega, esquiva-se, envolve-te, passa-te por cima, pelo lado. Por momentos pensas que sim, que bebeste água verdadeira, que saciou a tua sede, mas que ao mesmo tempo fizeste a tua parte: ajudaste-a a compreender o seu caminho - que não é necessária ou somente o esgoto, que não tem de andar sempre em frente, que nos percursos também há curvas e obstáculos. Há poucas coisas tão belas como observar um curso de água - salta, ressalta, faz espuma, revolta-se, acalma e recomeça. Mas no seu percurso, alimenta faunas, floras, populações. E, mesmo que altere o seu trajecto, que se atrase, que se desvie, não deixa nunca de ser o que é.
Mas ao largares a torneira desta água mentirosa, quando procuras a saciedade e não a encontras, olhas o espelho e constatas que apenas estás molhada. Só isso. Apenas um orvalho à volta dos lábios, um pingo na bochecha, outro na orelha, gotículas que rápidamente secas com as costas da mão, com a manga da camisola. E a tua boca está ainda mais seca do que antes, e tu, sem saberes porquê, continuas com sede. E por muito que te digam que o chá também serve, tu respondes sempre – quero água. A água é que mata a sede. E tornas a abrir a torneira na esperança de que desta vez, a promessa de água que sai, seja verdadeira e vá direitinha à tua garganta sequiosa.

quarta-feira, março 21, 2007

Dia do Pai

Ela, sete aninhos, acabadinha de aprender as maravilhas da escrita.
Postal de dia do Pai:

"Querido Pai,
Tu és muito amável e fazes boas sopas, mas devias pôr um pouco mais de sal e não te enganares nos ingredientes."

terça-feira, janeiro 23, 2007

Episódio II

A cena da janela tinha sido verdadeiramente memorável. Uma peixeirada triste com a consequência inevitável de um corte de relações entre ela e a vizinha. E entre ela e o marido, também.
Depois de se confrontar com a asneira que a mulher tinha acabado de fazer, à chegada à varanda, Pedro desatou numa gritaria louca, onde descontrolada, desiquilibrada e irresponsável foram os epítetos mais suaves que lhe dirigiu.
E por muito que Cristina clamasse que tinha sido um acidente, nada o amansou. Entretanto a vizinha irrompeu-lhes pelo jardim para se juntar ao festival de agressões, o que foi mais dramático ainda. A senhora, dos seus 70 anos, vivia sozinha e tinha sido acordada pelo rebentamento do vidro. E estava muito perturbada. Apresentou-se então com a gadelha cinzenta em riste e o punho eriçado a sair de um roupão quase desfeito, certamente a reviver os gloriosos tempos de luta estudantil. Tinha resolvido, a senhora, beber uns goles de “qualquer coisa que lhe acalmasse os nervos” antes de ir pedir satisfações. Ora, eram nove horas da manhã, a vizinha estaria certamente em jejum de uma noite. O corpo, carente e desidratado, reagiu mal e a senhora trazia, portanto, uma valente bebedeira.
Cristina, por sua vez, encontrava-se muito nervosa. Começara por se atrasar imenso para o o encontro com as amigas, mas se fosse só isso, tudo bem. Só que depois a fúria por o marido não acudir ao filho que chorava, a queda na varanda, o vidro partido, a discussão com Pedro e, finalmente, uma velha bêbeda entrar-lhe pela casa dentro a insultá-la, foram impulsos eléctricos a mais. Assim que a vizinha começou a desbobinar os impropérios que o alcool não censurou, Cristina teve um ataque de riso tão violento, convulsivo e hormonal, que acabou num inevitável ataque de choro igualmente abrupto, espasmódico e descontrolado.
Pior. O marido que já antes considerava que ela precisava de um internamento urgente, tomou partido da velhota alcoolizada e o nível da conversa afundou-se de vez.
No início, depois de acalmar a risota, Cristina deitou água na fervura, tentou alertar o marido para o facto de a esposa ser ela, por isso ser mais lógico que ele ficasse do seu lado, que estavam ali os filhos e tal. Tentou chamar a senhora à razão, explicou-lhe que fazia melhor em tomar um chá e meter-se na cama, que naquelas condições não fazia ali nada de útil.
Estava a ser-lhe difícil manter o controlo, até porque Cristina tinha um incomodativo mau feitio que não precisava de muito rastilho para explodir. Mas ao ver que nada surtia efeito sobre os seus adversários, cessou de lutar contra si mesma e deixou-se ir. E aí é que foram elas.
De tal maneira foi a triste cena que acabou com uma Cristina lavada em lágrimas acocorada no meio da relva, enquanto o marido controlado levava uma vizinha apopléctica e alcoolizada em braços, de regresso a casa.
Quando voltou à sua, Pedro regozijou-se por aquilo não ter acontecido em sua casa, estava feliz por tê-la intacta e bem estimada.
Com um desejo tão forte de sentir outra vez que estava tudo normal, Pedro não reparou que estilhaços era o que mais havia à sua volta. Pedaços, fragmentos, havia-os por todo o lado. Os do seu casamento.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

É um homem do Norte...

Sentadinhos à mesa de um restaurante, os três petizes e sua mãezinha.
Petiza espertinha de 7 anos:
- Ò mãããeee, a Verinha está a tirar grões de arroz do meu prato!
Mãezinha paciente:
- Deixa-a lá, se já tivesses acabado de comer ela não estava a mexer no teu prato. E não é grões, é grãos que se diz. E quando se fala de arroz até acho mais correcto dizer bago, grão é assim mais redondinho..(nem sei se isto é assim, mas pareceu-me bem, na altura).
Petiza espertinha de 7 anos:
- Desculpa lá Mãe, mas nem é bago, é baga que se diz!

Neste momento, o petiz do meio, aluado, despassarado, etéreo, considerou pertinente envolver-se na conversa:
Petiz aluado de 5 anos:
- Eu sei o que é uma baga...
Mãezinha paciente, já de sorriso a tremelicar no canto da boca, imaginando o que se seguiria:
- Então, diz lá o que é.
Petiz aluado de 5 anos:
- É quando há muita gente para entrar num sitio mas os lugares não chegam para todos.

É ou não é um homem do norte?

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Episódio I

Já estava atrasada e corria de um lado para o outro. Enquanto enfiava coisas na mala ia entoando uma ladaínha sem interlocutor: pijama, creme de dia, desmaquilhante, se calhar levo o creme de noite também, e o de corpo, pode apetecer-me depois do banho...secador, escova de cabelo, de dentes, de sobrancelhas..não esta não é preciso. Calças de ganga. Não, de algodão. De algodão, são mais cómodas que as de ganga e no carro faz diferença. É melhor levar mais umas, nunca se sabe...
De repente Cristina parou o que estava a fazer para se colocar à escuta. Primeiro incerta, mas depois absolutamente segura do que tinha ouvido - um dos filhos chorava no jardim. Aguentou alguns segundos, a ver se o marido socorria a criança, mas como não observava movimentações nesse sentido decidiu ir ela própria ver o que se passava.
Nervosa por estar cada vez mais atrasada, Cristina resolveu sair para o jardim pelo janelão da sala. Exasperou-se ao ver um monte de almofadas à volta de um monte de bonecos, mesmo em frente à passagem. A praguejar um pouco mais alto do que devia, levantou a perna direita para passar por cima do obstáculo e saltar directamente para a varanda, mas desiquilibrou-se e acabou por aterrar com força mas sem firmeza. Imediatamente sentiu o pé fugir-lhe. Para não se espalhar em esparregata agarrou-se ao cortinado e, com um puxão, saltou para a frente, numa tentativa desesperada de juntar o pé esquerdo ao outro. Não mediu a força de impulso e viu-se práticamente a voar janela fora, para finalmente se estatelar no chão ao lado da criança que agora ria a bandeiras despregadas.
Atordoada, sentou-se e olhou à volta em busca do culpado. Depressa os seus olhos, ainda ofuscados pelo brilho do sol da manhã, encontraram o que procuravam: encostado à parede, encarando-a como que a desafiá-la, estava um patim. Um patim, porra! Pequeno, azul e prateado, novinho em folha.
Louca de fúria, Cristina levantou-se, agarrou no aparelho assassino e juntando todas as suas forças, atirou-o tão longe quanto conseguiu. Arrependeu-se tarde demais. Um baque seco, a explosão, um segundo... e o grito estridente de uma mulher. Os seus receios estavam confirmados.
Pedro aproximou-se, de passo lento e mãos nos bolsos, do local onde Cristina e o filho mais velho se encontravam estarrecidos a olhar para a frente.
Para uma janela de um apartamento no prédio em frente.
- O que é que se passa aqu...? – as palavras de Pedro congelaram, tal como tudo o resto, aliás, quando foi atingido pelo que tinha acontecido. Dava a ideia de ter passado um anjo anestesista que tinha salpicado aquelas três almas com pózinhos mágicos de parar o tempo. Dois adultos e uma criança, absolutamente estáticos apoiados no rebordo de uma varanda, de olhos e bocas escancarados, a tentar compreender a dimensão dos estragos.
No prédio da frente, a janela trucidada continuava lá, não desaparecia como se não quisesse fazer a vontade de Cristina de que tudo fosse apenas um pesadelo.
Pouco depois o feitiço quebrou-se e, do interior da moribunda janela, surgiu uma cabeça de mulher, desgrenhada, surpreendida e furiosa, que lançava dardos em chama pelas pálpebras intumescidas de quem acabou de ser acordada.(continua)