Ela, sete anos. Dentro do carro, entre dois suspiros:
- Ai mãe, hoje estou tão desconsolada...
- Estás filha? E porque é que estás desconsolada?
(silêncio)
- Mãe, o que é desconsolada?
Para mulheres chatas, para mulheres que acham que são chatas, para mulheres que acham que os homens as acham umas chatas, para homens chatos, para homens que acham as mulheres umas chatas, para mulheres que acham os homens uns chatos porque as acham umas chatas... Para toda a gente, portanto.
quinta-feira, novembro 30, 2006
segunda-feira, novembro 27, 2006
Crianças...
Ele, cinco anos , deitado na cama, quase a dormir:
- Ó mãããe, como é que se aprende?
- A ouvir com muita atenção e a treinar muito.
- E como é que eles metem fechaduras nas portas?
- Então, com parafusos, puxadores e uma máquina de fazer buracos, como a do pai.
- E como é que as adultas engravidam?
- Ora, só quando são muito crescidos, quando já são marido e mulher, os adultos dão muitos beijinhos e depois vai uma sementinha para a barriga da mulher.
- De que cor?
- Não sei, deve ser transparente, é muito pequenina.
- E depois como é que crescem os braços e as pernas aos bebés?
- Crescem, à medida que o tempo passa, e depois o bebé nasce já todo completo.
- E como é que ele toma banho dentro da barriga? A mãe bebe o champô?
- ...
- Ó mãããe, como é que se aprende?
- A ouvir com muita atenção e a treinar muito.
- E como é que eles metem fechaduras nas portas?
- Então, com parafusos, puxadores e uma máquina de fazer buracos, como a do pai.
- E como é que as adultas engravidam?
- Ora, só quando são muito crescidos, quando já são marido e mulher, os adultos dão muitos beijinhos e depois vai uma sementinha para a barriga da mulher.
- De que cor?
- Não sei, deve ser transparente, é muito pequenina.
- E depois como é que crescem os braços e as pernas aos bebés?
- Crescem, à medida que o tempo passa, e depois o bebé nasce já todo completo.
- E como é que ele toma banho dentro da barriga? A mãe bebe o champô?
- ...
sexta-feira, novembro 24, 2006
Direito de resposta
"o homem (propositadamente com letra minúscula) é vítima e agente, ao mesmo tempo, de um sistema social ocidental milenar".
Hã, hã. Sim, sim. Pois.
Amigo Bud (wiser considero inadequado),
Em relação a isto tenho a dizer duas coisas:
Uma - Vítima é a pessoa perseguida, injustiçada, sacrificada, desgraçada, ludibriada por ou ao serviço dos interesses de alguém. Se o homem é vítima de alguma coisa, é apenas de si próprio. A maioria dos homens são uns bananas (excepção feita a meia dúzia de casos), indolentes, moles, passivos e desinteressados. Pior e maior erro, substimam-nos constantemente.
A outra é - Homens, se as vossas mulheres são insuportáveis e vos dão cabo do juizo, a culpa é certamente vossa.
E tenho dito!
Hã, hã. Sim, sim. Pois.
Amigo Bud (wiser considero inadequado),
Em relação a isto tenho a dizer duas coisas:
Uma - Vítima é a pessoa perseguida, injustiçada, sacrificada, desgraçada, ludibriada por ou ao serviço dos interesses de alguém. Se o homem é vítima de alguma coisa, é apenas de si próprio. A maioria dos homens são uns bananas (excepção feita a meia dúzia de casos), indolentes, moles, passivos e desinteressados. Pior e maior erro, substimam-nos constantemente.
A outra é - Homens, se as vossas mulheres são insuportáveis e vos dão cabo do juizo, a culpa é certamente vossa.
E tenho dito!
terça-feira, novembro 07, 2006
Nós NÃO SOMOS CHATAS!
São umas chuvosas quatro da tarde de um Domingo qualquer. Já que vão ficar por casa, Cristina decide fazer umas limpezas. Pedro não está interessado no programa. A Formula 1 está a começar, é o Grande Prémio de despedida do Schumacher, as arrumações que esperem.
Pois sim, mas não pode ser. A casa está um nojo, não é limpa desde que a Rosa foi para a terra, há uma semana. E não é todos os Domingos que se apanham os dois sem crianças numa tarde horrível, perfeita para essas tarefas. Não tarda estão os três de volta e depois é que ninguém consegue fazer nada.
Cristina decide começar na mesma. Arranca desenfreada e areja a casa, faz as camas, pendura as toalhas de rosto no toalheiro, as de banho no aquecedor. Sacode os tapetes, bate as almofadas, apanha a roupa para lavar, dobra a que está apenas desarrumada. Recolhe alguns brinquedos, limpa o pó aos quartos e lava as casas de banho. Terminada a zona de dormir, Cristina dirige-se à cozinha, furiosa com a visão do marido impassível esparramado pelo sofá.
De repente a loiça que sai da máquina parece ter a mesma opinião que ela, pratos batem uns contra os outros a caminho do armário, copos chocalham contra os que já estão arrumados,
talheres parecem saltar para dentro da gaveta, mas de vez em quando desiquilibram-se e espalham-se no chão com estardalhaço.
- Cristina, o que é que estás a fazer? – pergunta Pedro sem mexer nem uma pestana.
- Nada – responde ela - O que é que achas?
- Senta-te aqui um bocado.
- Oh sim, claro. E isto faz-se sozinho. Se me ajudasses eu depois até me sentava, mas agora não posso.
Pedro distrai-se com um percalço do seu piloto favorito. Um furo, parece.
Cristina continua nas suas limpezas. Agora aspira. Aspira tudo, primeiro a cozinha, o corredor e depois a sala. Estranho, há ali qualquer coisa agarrada ao chão, mesmo em frente do televisor, que parece não sair. Cristina insiste, insiste, aspira, aspira, até que o marido perde a cabeça.
- Desculpa lá, mas tens que vir fazer isso agora?
- E queres que eu faça quando, quando os miúdos chegarem?
- Mas não aspiraste já o suficiente?
- Não. Se limpo é para ficar bem limpo.
- Deixa estar. Eu já faço isso. Senta-te aqui e já acabamos isso os dois.
- Pensas que eu não te conheço? Se depender de ti vivemos num chiqueiro, no meio do esterco absoluto. E para além de não ser higiénico, não foi assim que eu fui educada e é um mau exemplo para os miúdos. Mas deixa-te estar. Eu faço. Eu faço tudo. Longe de mim perturbar o senhor barão. Deixe-me só recordar sua alteza porque é que eu me recuso a despedir a Rosa. Aqui está um bom exemplo do que seria se eu a mandasse embora. Eu é que não ando a dormir, meu amigo. Já bem basta ter de aturar isto quando ela vai de férias.
- Porra que é chata, caraças. Diz lá então o que é que queres que eu faça.
Pedro levanta-se e desliga o televisor.
- Eu não quero que tu faças nada, não percebeste ainda? Se tu quiseres fazes, se não vai-te lixar.
- Diz lá, eu quero fazer. Estou ansioso!
- Há roupa para estender e roupa estendida para dobrar e passar a ferro. É preciso meter a loiça na máquina, lavar o chão da cozinha e a casa de banho da entrada. Mais nada, o resto já eu fiz.
Cristina senta-se no sofá anteriormente ocupado pelo real traseiro do marido. Pega numa revista e recosta-se. Pedro avança para o estendal e começa a dobrar a roupa toda. Cristina levanta-se imediatamente e vai beber um copo de água.
- Pedro, a roupa não é toda para dobra, há aí coisas que têm de ser passadas.
- Que coisas? Para além das minhas camisas não há nada que precise de ser passado.
- Então não há? Achas que vou guardar nas gavetas pijamas que parecem panos de chão?
- E que mal é que tem, não podes dormir com um pijama amarrotado?
- E os miúdos, vão para a escola assim?
- Que mal tem? Endireita-se com a mão, olha.
- Não quero as coisas nas minhas gavetas, na minha casa, nesse estado, pronto. E as meias são para juntar aos pares. Se metes tudo ao molho nunca mais usas duas meias iguais.
Cristina bufa desesperada.
- Porra que tenho eu que fazer tudo! Deixa lá que eu faço isto, mete a loiça na máquina, então.
Pedro, com maus modos e pior vontade, faz o que lhe diz a mulher e dirige-se para a sala.
- Pedro, os tachos têm de ser lavados à mão, senão ficam na mesma. Estes que estavam aqui já saíram sujos na máquina anterior.
- Deixa estar, são lavados outra vez, pode ser que fiquem melhores.
- Mas assim a loiça do jantar não cabe e vamos ter de fazer outra máquina. E gasta muita água.
- Estás preocupada com a água que a máquina gasta, mas lavas o lixo que é para reciclar.
- Claro, senão fica a cheirar mal.
- Se o despejares não fica.
- E se o lavares eu não preciso de estar sempre a despejá-lo.
- Tu?
- Sim, eu. Há quanto tempo não tiras um saco do caixote?
- Tiro sempre.
- Deixa-me rir. Vai mas é limpar a casa de banho em vez de estares a dizer disparates.
- Pára de me dar ordens.
- Se não as der tu não fazes nada...
Quando acabou de dobrar a roupa Cristina lavou o chão da cozinha e foi espreitar que tal se safava o marido nas limpezas.
Ficou horrorizada.
- Estás doido? Tu por acaso estás a limpar a retrete com o esfregão da loiça?
- E qual é o mal? Tem detergente, e sabes para que é que serve o detergente? Para desinfectar, imagina tu.
- Porco! Que nojo. Achas que eu agora vou limpar a mesa da cozinha com o mesmo pano que serviu para esfregar a tua merda? Realmente és mais útil na sala. Pira-te daqui (parece anormal, porra!). Vai, se faz favor, buscar o pano azul que está na prateleira pequena do armário da cozinha. E com cuidado que eu acabei de lavar o chão.
Pedro atira com o pano que tinha na mão pelos ares e logo por azar este cai dentro da sanita.
Cristina lança-lhe um olhar furibundo e range os dentes para se conter, enquanto ele se dirige à cozinha. Assim que ele coloca o pézinho calçado em cima do seu chão acabadinho de esterilizar, Cristina descontrola-se e desata aos berros.
Pedro agarra na chave e avança para a porta.
- Estás louca. É só o que te digo, estás completamente louca e queres que eu enlouqueça também.
- Onde é que vais?
- Buscar os miúdos. Entretanto vê lá se te acalmas.
Sai e atira a porta com brutalidade.
Cristina olha para o chão e vê bocadinhos de estuque espalhados por todo o lado. Abre a porta e sai atrás dele.
Pois sim, mas não pode ser. A casa está um nojo, não é limpa desde que a Rosa foi para a terra, há uma semana. E não é todos os Domingos que se apanham os dois sem crianças numa tarde horrível, perfeita para essas tarefas. Não tarda estão os três de volta e depois é que ninguém consegue fazer nada.
Cristina decide começar na mesma. Arranca desenfreada e areja a casa, faz as camas, pendura as toalhas de rosto no toalheiro, as de banho no aquecedor. Sacode os tapetes, bate as almofadas, apanha a roupa para lavar, dobra a que está apenas desarrumada. Recolhe alguns brinquedos, limpa o pó aos quartos e lava as casas de banho. Terminada a zona de dormir, Cristina dirige-se à cozinha, furiosa com a visão do marido impassível esparramado pelo sofá.
De repente a loiça que sai da máquina parece ter a mesma opinião que ela, pratos batem uns contra os outros a caminho do armário, copos chocalham contra os que já estão arrumados,
talheres parecem saltar para dentro da gaveta, mas de vez em quando desiquilibram-se e espalham-se no chão com estardalhaço.
- Cristina, o que é que estás a fazer? – pergunta Pedro sem mexer nem uma pestana.
- Nada – responde ela - O que é que achas?
- Senta-te aqui um bocado.
- Oh sim, claro. E isto faz-se sozinho. Se me ajudasses eu depois até me sentava, mas agora não posso.
Pedro distrai-se com um percalço do seu piloto favorito. Um furo, parece.
Cristina continua nas suas limpezas. Agora aspira. Aspira tudo, primeiro a cozinha, o corredor e depois a sala. Estranho, há ali qualquer coisa agarrada ao chão, mesmo em frente do televisor, que parece não sair. Cristina insiste, insiste, aspira, aspira, até que o marido perde a cabeça.
- Desculpa lá, mas tens que vir fazer isso agora?
- E queres que eu faça quando, quando os miúdos chegarem?
- Mas não aspiraste já o suficiente?
- Não. Se limpo é para ficar bem limpo.
- Deixa estar. Eu já faço isso. Senta-te aqui e já acabamos isso os dois.
- Pensas que eu não te conheço? Se depender de ti vivemos num chiqueiro, no meio do esterco absoluto. E para além de não ser higiénico, não foi assim que eu fui educada e é um mau exemplo para os miúdos. Mas deixa-te estar. Eu faço. Eu faço tudo. Longe de mim perturbar o senhor barão. Deixe-me só recordar sua alteza porque é que eu me recuso a despedir a Rosa. Aqui está um bom exemplo do que seria se eu a mandasse embora. Eu é que não ando a dormir, meu amigo. Já bem basta ter de aturar isto quando ela vai de férias.
- Porra que é chata, caraças. Diz lá então o que é que queres que eu faça.
Pedro levanta-se e desliga o televisor.
- Eu não quero que tu faças nada, não percebeste ainda? Se tu quiseres fazes, se não vai-te lixar.
- Diz lá, eu quero fazer. Estou ansioso!
- Há roupa para estender e roupa estendida para dobrar e passar a ferro. É preciso meter a loiça na máquina, lavar o chão da cozinha e a casa de banho da entrada. Mais nada, o resto já eu fiz.
Cristina senta-se no sofá anteriormente ocupado pelo real traseiro do marido. Pega numa revista e recosta-se. Pedro avança para o estendal e começa a dobrar a roupa toda. Cristina levanta-se imediatamente e vai beber um copo de água.
- Pedro, a roupa não é toda para dobra, há aí coisas que têm de ser passadas.
- Que coisas? Para além das minhas camisas não há nada que precise de ser passado.
- Então não há? Achas que vou guardar nas gavetas pijamas que parecem panos de chão?
- E que mal é que tem, não podes dormir com um pijama amarrotado?
- E os miúdos, vão para a escola assim?
- Que mal tem? Endireita-se com a mão, olha.
- Não quero as coisas nas minhas gavetas, na minha casa, nesse estado, pronto. E as meias são para juntar aos pares. Se metes tudo ao molho nunca mais usas duas meias iguais.
Cristina bufa desesperada.
- Porra que tenho eu que fazer tudo! Deixa lá que eu faço isto, mete a loiça na máquina, então.
Pedro, com maus modos e pior vontade, faz o que lhe diz a mulher e dirige-se para a sala.
- Pedro, os tachos têm de ser lavados à mão, senão ficam na mesma. Estes que estavam aqui já saíram sujos na máquina anterior.
- Deixa estar, são lavados outra vez, pode ser que fiquem melhores.
- Mas assim a loiça do jantar não cabe e vamos ter de fazer outra máquina. E gasta muita água.
- Estás preocupada com a água que a máquina gasta, mas lavas o lixo que é para reciclar.
- Claro, senão fica a cheirar mal.
- Se o despejares não fica.
- E se o lavares eu não preciso de estar sempre a despejá-lo.
- Tu?
- Sim, eu. Há quanto tempo não tiras um saco do caixote?
- Tiro sempre.
- Deixa-me rir. Vai mas é limpar a casa de banho em vez de estares a dizer disparates.
- Pára de me dar ordens.
- Se não as der tu não fazes nada...
Quando acabou de dobrar a roupa Cristina lavou o chão da cozinha e foi espreitar que tal se safava o marido nas limpezas.
Ficou horrorizada.
- Estás doido? Tu por acaso estás a limpar a retrete com o esfregão da loiça?
- E qual é o mal? Tem detergente, e sabes para que é que serve o detergente? Para desinfectar, imagina tu.
- Porco! Que nojo. Achas que eu agora vou limpar a mesa da cozinha com o mesmo pano que serviu para esfregar a tua merda? Realmente és mais útil na sala. Pira-te daqui (parece anormal, porra!). Vai, se faz favor, buscar o pano azul que está na prateleira pequena do armário da cozinha. E com cuidado que eu acabei de lavar o chão.
Pedro atira com o pano que tinha na mão pelos ares e logo por azar este cai dentro da sanita.
Cristina lança-lhe um olhar furibundo e range os dentes para se conter, enquanto ele se dirige à cozinha. Assim que ele coloca o pézinho calçado em cima do seu chão acabadinho de esterilizar, Cristina descontrola-se e desata aos berros.
Pedro agarra na chave e avança para a porta.
- Estás louca. É só o que te digo, estás completamente louca e queres que eu enlouqueça também.
- Onde é que vais?
- Buscar os miúdos. Entretanto vê lá se te acalmas.
Sai e atira a porta com brutalidade.
Cristina olha para o chão e vê bocadinhos de estuque espalhados por todo o lado. Abre a porta e sai atrás dele.
segunda-feira, outubro 23, 2006
Perguntas, perguntas...
São 9 da manhã. O Paulo e a Constança preparam-se para sair de casa.
- Até logo – diz ela – a que horas vens hoje?
- Até logo - responde ele – Ah, é verdade, hoje não venho jantar.
- Não? Porquê?
- Afinal a despedida de solteiro do Nuno é em Madrid. Vamos hoje à tarde e voltamos amanhã.
- E é assim? Vais para Madrid e avisas dessa maneira?
- E como é que queres que eu avise?
- Se eu não tivesse perguntado, se calhar nem dizias nada e aparecias aqui amanhã...era como estavas a pensar fazer?
- Estás parva? Claro que não, eu ia avisar.
- Ias mesmo? Quando, logo à noite, quando eu reparasse que não tinhas voltado para casa?
- Mas desculpa lá, qual é o teu problema, posso saber? Agora não posso ir a uma despedida de solteiro?
- Podes, mas também podes fazer as coisas de outra maneira. Qual é a necessidade de irem para Madrid? Não podem jantar em Lisboa, como as pessoas normais?
- Tu tens cá uma lata. E nem sabes tu a sorte que tens. O Francisco queria ir para Praga, vê lá.
- Uau! Que sorte a minha! Como o Francisco é um esfomeado e quer ir às putas a Praga, eu tenho que me considerar uma sortuda por o meu marido ser muito decente e só querer ir às putas de Madrid. Desculpa lá a injustiça.
- Qual ir às putas qual quê! Passaste-te? Vamos só sair à noite, é preciso fazer um bicho de sete cabeças? E eu bem tentei convencê-los a ficar cá, não me apetece nada ir.
- Estás a querer convencer-me de que vão não sei quantos galfarros esfomeados para Madrid a uma despedida de solteiro, e não te apetece ir? E que não vão nem a um bar de strip-tease? Então vão onde, visitar a Catedral de Almudena?
-E se formos, qual é o mal? É só para curtir!
- Ah, é só para curtir, não tem mal nenhum...Para já, se não estivesses com peso na consciência já me tinhas avisado antes, ou também vais dizer que combinaram há bocado, tipo durante a noite?
- Por acaso só acertámos ontem ao fim do dia, mas esqueci-me de te dizer, bolas. Agora tenho que dizer tudo?
- Não, não tens. Se achas que é dar explicações demais, então ficamos assim. A partir de agora cada um faz o que lhe apetece, quando lhe dá na gana, e não tem de dizer nada ao outro. E vamos ver onde é que isto vai parar.
- Mas que exagero é esse agora?
- Exagero? Só estou a proceder da mesma forma que tu. Vou telefonar à Maria, para saber como é com a despedida de solteira dela. Se calhar vou propôr uma ida a um bar de strip- tease masculino. Nunca fui a nenhum, sempre tenho achado que não são sitios para uma mulher casada frequentar, mas como o meu marido discorda...
- Agora vingas-te, é? Que infantil!
- Eu? Vingo-me de quê? É normalísimo. 20 mulheres juntam-se para ir a uma despedida de solteira, por isso têm que ir a um sitio onde haja homens disponíveis para abandalhar. É assim que deve ser e não tem mal nenhum. Se calhar até vamos a Sevilha, deve ser mais animado e ninguém nos conhece.
- E que mal é que tem encontrarem pessoas conhecidas?
- Explica-me tu porque é que têm que ir para Madrid. Tencionam fazer lá alguma coisa que em Lisboa não possam fazer?
- Já te disse que vamos só sair!
- Nós também.
- É diferente. E é perigoso. Já viram o risco que correm?
- Diferente? Risco? Nah!
- Risco sim. Um monte de raparigas sozinhas por aí é um chamariz. Porque é que não se juntam cá em casa para jantar? Bem mais divertido e económico.
- (gargalhada) Olha, passou-se! Cá em casa? E que graça tem isso?
- Mas o objectivo não é passarem um bocado todas juntas?
- Sim, sim, claro. E vestimos pijaminhas e pantufas enquanto esperamos pacientes e bem comportadas que os nossos homens machões regressem ao lar. Espera aí!
- Só estou a zelar pelo teu bem estar, mais nada...
- Deixa lá, nós arranjamos uns grandalhões para nos protegerem, não te preocupes. Desculpa lá, é impressão minha ou estás a ver se me convences a não ir?
- Eu? Não, estás doida? Tu fazes o que quiseres. Queres ir para Sevilha, para a China ou para o raio que te parta, então vai.
- Pois vou.
- Então vai.
- Já disse que vou.
- Eu depois telefono.
- Deixa estar, não é preciso.
- Então não telefono.
- Não telefones.
- Até logo.
- Adeuzinho e boa viagem.
(São ou não são todos iguais?)
- Até logo – diz ela – a que horas vens hoje?
- Até logo - responde ele – Ah, é verdade, hoje não venho jantar.
- Não? Porquê?
- Afinal a despedida de solteiro do Nuno é em Madrid. Vamos hoje à tarde e voltamos amanhã.
- E é assim? Vais para Madrid e avisas dessa maneira?
- E como é que queres que eu avise?
- Se eu não tivesse perguntado, se calhar nem dizias nada e aparecias aqui amanhã...era como estavas a pensar fazer?
- Estás parva? Claro que não, eu ia avisar.
- Ias mesmo? Quando, logo à noite, quando eu reparasse que não tinhas voltado para casa?
- Mas desculpa lá, qual é o teu problema, posso saber? Agora não posso ir a uma despedida de solteiro?
- Podes, mas também podes fazer as coisas de outra maneira. Qual é a necessidade de irem para Madrid? Não podem jantar em Lisboa, como as pessoas normais?
- Tu tens cá uma lata. E nem sabes tu a sorte que tens. O Francisco queria ir para Praga, vê lá.
- Uau! Que sorte a minha! Como o Francisco é um esfomeado e quer ir às putas a Praga, eu tenho que me considerar uma sortuda por o meu marido ser muito decente e só querer ir às putas de Madrid. Desculpa lá a injustiça.
- Qual ir às putas qual quê! Passaste-te? Vamos só sair à noite, é preciso fazer um bicho de sete cabeças? E eu bem tentei convencê-los a ficar cá, não me apetece nada ir.
- Estás a querer convencer-me de que vão não sei quantos galfarros esfomeados para Madrid a uma despedida de solteiro, e não te apetece ir? E que não vão nem a um bar de strip-tease? Então vão onde, visitar a Catedral de Almudena?
-E se formos, qual é o mal? É só para curtir!
- Ah, é só para curtir, não tem mal nenhum...Para já, se não estivesses com peso na consciência já me tinhas avisado antes, ou também vais dizer que combinaram há bocado, tipo durante a noite?
- Por acaso só acertámos ontem ao fim do dia, mas esqueci-me de te dizer, bolas. Agora tenho que dizer tudo?
- Não, não tens. Se achas que é dar explicações demais, então ficamos assim. A partir de agora cada um faz o que lhe apetece, quando lhe dá na gana, e não tem de dizer nada ao outro. E vamos ver onde é que isto vai parar.
- Mas que exagero é esse agora?
- Exagero? Só estou a proceder da mesma forma que tu. Vou telefonar à Maria, para saber como é com a despedida de solteira dela. Se calhar vou propôr uma ida a um bar de strip- tease masculino. Nunca fui a nenhum, sempre tenho achado que não são sitios para uma mulher casada frequentar, mas como o meu marido discorda...
- Agora vingas-te, é? Que infantil!
- Eu? Vingo-me de quê? É normalísimo. 20 mulheres juntam-se para ir a uma despedida de solteira, por isso têm que ir a um sitio onde haja homens disponíveis para abandalhar. É assim que deve ser e não tem mal nenhum. Se calhar até vamos a Sevilha, deve ser mais animado e ninguém nos conhece.
- E que mal é que tem encontrarem pessoas conhecidas?
- Explica-me tu porque é que têm que ir para Madrid. Tencionam fazer lá alguma coisa que em Lisboa não possam fazer?
- Já te disse que vamos só sair!
- Nós também.
- É diferente. E é perigoso. Já viram o risco que correm?
- Diferente? Risco? Nah!
- Risco sim. Um monte de raparigas sozinhas por aí é um chamariz. Porque é que não se juntam cá em casa para jantar? Bem mais divertido e económico.
- (gargalhada) Olha, passou-se! Cá em casa? E que graça tem isso?
- Mas o objectivo não é passarem um bocado todas juntas?
- Sim, sim, claro. E vestimos pijaminhas e pantufas enquanto esperamos pacientes e bem comportadas que os nossos homens machões regressem ao lar. Espera aí!
- Só estou a zelar pelo teu bem estar, mais nada...
- Deixa lá, nós arranjamos uns grandalhões para nos protegerem, não te preocupes. Desculpa lá, é impressão minha ou estás a ver se me convences a não ir?
- Eu? Não, estás doida? Tu fazes o que quiseres. Queres ir para Sevilha, para a China ou para o raio que te parta, então vai.
- Pois vou.
- Então vai.
- Já disse que vou.
- Eu depois telefono.
- Deixa estar, não é preciso.
- Então não telefono.
- Não telefones.
- Até logo.
- Adeuzinho e boa viagem.
(São ou não são todos iguais?)
sexta-feira, outubro 20, 2006
Estados de espírito
Ele:
- Mãe, como é que os motores andam?
Mãe, sorridente:
- Não sei filho, isso é daquelas coisas que se calhar é melhor perguntares ao Pai...
Ele:
- Então como é que as luzes se acendem?
Mãe, hesitante:
- Não sei, essa é outra das coisas que o Pai é que deve saber...
Ele:
- Não sabes NADA?
Mãe, ligeiramente irritada:
- Sei, sei muitas coisas, até, mas não sei de motores nem de electricidade.
Ele:
- E sabes de olhos?
Mãe, com ponta de esperança:
- De olhos sou capaz de saber alguma coisa...
Ele:
- Então como é que os olhos vêem a vista?
(Arrrgggghhhhh!!!!)
- Mãe, como é que os motores andam?
Mãe, sorridente:
- Não sei filho, isso é daquelas coisas que se calhar é melhor perguntares ao Pai...
Ele:
- Então como é que as luzes se acendem?
Mãe, hesitante:
- Não sei, essa é outra das coisas que o Pai é que deve saber...
Ele:
- Não sabes NADA?
Mãe, ligeiramente irritada:
- Sei, sei muitas coisas, até, mas não sei de motores nem de electricidade.
Ele:
- E sabes de olhos?
Mãe, com ponta de esperança:
- De olhos sou capaz de saber alguma coisa...
Ele:
- Então como é que os olhos vêem a vista?
(Arrrgggghhhhh!!!!)
quinta-feira, outubro 19, 2006
As crianças são um espectáculo.
Estavam os cinco sentados à mesa de um restaurante no Algarve (este detalhe tem a sua importância).
Ele tem 5 anos.
Ele:
- Ó mãe, como é que se chama aquele bicho onde a mana andava no Algarve?
A mãe a pensar depressa, que bicho? Que Algarve? Ah! Será que ele quer dizer Marrocos?
E tenta.
- Marrocos, filho?
Ele, com um gesto displicente da mãozinha ainda gorducha:
- Isso, Marrocos. Como é que se chamava o bicho onde a mana andava?
- Camelo.
Ele, satisfeito:
- Isso mesmo. Quero aquela sobremesa que é de camelo.
- Baba de camelo? Muito bem, come tudo depressa e com boas maneiras e à sobremesa podes pedir o que quiseres.
E assim foi. Comeu depressa, sem porcarias, com maneiras de gente e tudo. Assim que acabou, ainda nem tinha pousado os talheres, atirou:
- Já posso pedir a bosta de camelo?
Pela cara da mãe deve ter percebido que tinha dito qualquer coisa mal, então, hesitante, de sorriso amarelado corrigiu:
- Não é bosta...
E triunfante:
- É gosma. Gosma de camelo. Já posso pedir?
Ele tem 5 anos.
Ele:
- Ó mãe, como é que se chama aquele bicho onde a mana andava no Algarve?
A mãe a pensar depressa, que bicho? Que Algarve? Ah! Será que ele quer dizer Marrocos?
E tenta.
- Marrocos, filho?
Ele, com um gesto displicente da mãozinha ainda gorducha:
- Isso, Marrocos. Como é que se chamava o bicho onde a mana andava?
- Camelo.
Ele, satisfeito:
- Isso mesmo. Quero aquela sobremesa que é de camelo.
- Baba de camelo? Muito bem, come tudo depressa e com boas maneiras e à sobremesa podes pedir o que quiseres.
E assim foi. Comeu depressa, sem porcarias, com maneiras de gente e tudo. Assim que acabou, ainda nem tinha pousado os talheres, atirou:
- Já posso pedir a bosta de camelo?
Pela cara da mãe deve ter percebido que tinha dito qualquer coisa mal, então, hesitante, de sorriso amarelado corrigiu:
- Não é bosta...
E triunfante:
- É gosma. Gosma de camelo. Já posso pedir?
quinta-feira, agosto 17, 2006
Queres que me descreva?
Queres que me descreva? Não vale a pena, não vais ficar a conhecer-me melhor por isso. Pelo contrário, até podes não querer conhecer-me de todo. Insistes? Está bem, vais ver que tenho razão.
Vou dizer-te algumas coisas, o regular: que não sou alta nem baixa, passei já dos 30 e tenho o cabelo curto e escuro o que me dá um aspecto franzino. Que sou professora. Que uso óculos graduados e não gosto de saltos altos. Acho que é isto. Chega para descrever uma pessoa. Chega até para se formar uma opinião, não é?
Posso tentar adivinhar como me imaginas. Magra, tímida, circunspecta, pálida e solteira. O corte de cabelo poderá ser arrapazado a combinar com o conjunto.
Mas e se agora eu acrescentar que já tive dois casos com dois alunos?
Pois se calhar já me atribuis uma índole mais duvidosa, um corte de cabelo mais moderno, uma mini-saia. Os óculos serão certamente mais leves do que antes. Um decote, imaginas-me com um decote? Agora talvez sim, e bem recheado, mas antes imaginavas-me sem peito, aposto.
Ou imaginas que que dou aulas sim, mas não a putos do liceu. Ensino inglês comercial a executivos de topo, por exemplo.
Aí já muda tudo de figura. Agora já não sou uma docente comilona disfarçada de freira mas uma profissional dura, meio masculina e sem grande vida pessoal, que dá umas quecas mais para encher o tempo que para preencher a vida. Ou uma mãe dedicada e esposa competente, licenciada em germânicas e católica praticante?
E se eu te disser agora que tenho uma tatuagem?
Aposto que já me imaginas mais radical. Tenta lá perceber onde tenho eu a tatuagem. E o que tenho eu tatuado?
Agora serei uma vanguardista de cabelo oleoso, óculos pretos e piercing na língua, ou uma cabra de saia reduzida, camisa transparente e escorpião no fundo das costas. Qual delas?
Se calhar vais imaginar que tenho tatuado no seio esquerdo, mesmo sobre o coração, um N de Nuno, um filho que perdi há anos. Ou uma estrela no tornozelo direito, uma parvoíce que fiz na adolescência e ainda não tive coragem de tirar.
Posso dizer-te que adoro viajar, mas aí vais ficar na dúvida: será que gosto de destinos exóticos e selvagens ou serei uma aficcionada de grandes metrópoles e visitas culturais? Adoro praia, mas sou praticante de naturismo ou uso um fato de banho gigantesco e fora de moda? Que gosto de arte, mas de esculura, cinema, música ou pintura? Dos impressionistas ou dos cubistas? Pop ou rock, música clássica ou de câmara? Woody Allen ou Fellinni?
Posso dizer-te que gosto de uma música do Roger Waters, o que não significa que seja uma fã. Gosto apenas de uma música que ilustra uma fase da minha vida que me é muito querida. E que fase é essa? Uma paixão fulminante, a viagem de finalistas, o dia em que tirei a carta de condução?
Posso dizer-te tantas coisas, já viste? Mas nunca será suficiente.
A cada coisa que eu te disser vai corresponder uma imagem que tu constróis na tua cabeça, uma opinião que fazes a meu respeito, um sentimento que te aproxima ou afasta de mim. Não posso fazer isso. E não posso dizer-te tudo. Um ser humano é indescritível porque complexo demais.
Tu tens necessidade de tornar coerentes os teus pensamentos com os teus preconceitos, porque te disseram que se andei com alunos sou prevertida tu nem queres saber de que estudantes se trata, porque se te digo que sou loira e alta e magra e gira imaginas-me parva, futil, egoísta e burra. Porque se te digo que sou freira pensas que devo ser gorda, velha e recalcada, ou talvez se eu empregar o termo noviça já imagines uma rapariga infeliz e traumatizada. Porque se te falo em tatuagem devo ser esquisita, porque se te conto que de vez em quando apanho umas bebedeiras e flirto com uns rapazes serei certamente uma pêga.
Se te dou uma descrição minha há sempre coisas que ficam por dizer e essas podem ser as mais importantes.
Podes não querer conhecer-me depois de me conheceres, é legítimo e eu respeito, ou podes querer conhecer-me cada vez melhor, mas decidires isso antes, apenas porque leste algumas palavras que escrevi sobre mim... sinceramente, não concordo. Ninguém sabe falar de si e nenhum de nós se vê com os olhos dos outros.
Dás-me agora razão?
Vou dizer-te algumas coisas, o regular: que não sou alta nem baixa, passei já dos 30 e tenho o cabelo curto e escuro o que me dá um aspecto franzino. Que sou professora. Que uso óculos graduados e não gosto de saltos altos. Acho que é isto. Chega para descrever uma pessoa. Chega até para se formar uma opinião, não é?
Posso tentar adivinhar como me imaginas. Magra, tímida, circunspecta, pálida e solteira. O corte de cabelo poderá ser arrapazado a combinar com o conjunto.
Mas e se agora eu acrescentar que já tive dois casos com dois alunos?
Pois se calhar já me atribuis uma índole mais duvidosa, um corte de cabelo mais moderno, uma mini-saia. Os óculos serão certamente mais leves do que antes. Um decote, imaginas-me com um decote? Agora talvez sim, e bem recheado, mas antes imaginavas-me sem peito, aposto.
Ou imaginas que que dou aulas sim, mas não a putos do liceu. Ensino inglês comercial a executivos de topo, por exemplo.
Aí já muda tudo de figura. Agora já não sou uma docente comilona disfarçada de freira mas uma profissional dura, meio masculina e sem grande vida pessoal, que dá umas quecas mais para encher o tempo que para preencher a vida. Ou uma mãe dedicada e esposa competente, licenciada em germânicas e católica praticante?
E se eu te disser agora que tenho uma tatuagem?
Aposto que já me imaginas mais radical. Tenta lá perceber onde tenho eu a tatuagem. E o que tenho eu tatuado?
Agora serei uma vanguardista de cabelo oleoso, óculos pretos e piercing na língua, ou uma cabra de saia reduzida, camisa transparente e escorpião no fundo das costas. Qual delas?
Se calhar vais imaginar que tenho tatuado no seio esquerdo, mesmo sobre o coração, um N de Nuno, um filho que perdi há anos. Ou uma estrela no tornozelo direito, uma parvoíce que fiz na adolescência e ainda não tive coragem de tirar.
Posso dizer-te que adoro viajar, mas aí vais ficar na dúvida: será que gosto de destinos exóticos e selvagens ou serei uma aficcionada de grandes metrópoles e visitas culturais? Adoro praia, mas sou praticante de naturismo ou uso um fato de banho gigantesco e fora de moda? Que gosto de arte, mas de esculura, cinema, música ou pintura? Dos impressionistas ou dos cubistas? Pop ou rock, música clássica ou de câmara? Woody Allen ou Fellinni?
Posso dizer-te que gosto de uma música do Roger Waters, o que não significa que seja uma fã. Gosto apenas de uma música que ilustra uma fase da minha vida que me é muito querida. E que fase é essa? Uma paixão fulminante, a viagem de finalistas, o dia em que tirei a carta de condução?
Posso dizer-te tantas coisas, já viste? Mas nunca será suficiente.
A cada coisa que eu te disser vai corresponder uma imagem que tu constróis na tua cabeça, uma opinião que fazes a meu respeito, um sentimento que te aproxima ou afasta de mim. Não posso fazer isso. E não posso dizer-te tudo. Um ser humano é indescritível porque complexo demais.
Tu tens necessidade de tornar coerentes os teus pensamentos com os teus preconceitos, porque te disseram que se andei com alunos sou prevertida tu nem queres saber de que estudantes se trata, porque se te digo que sou loira e alta e magra e gira imaginas-me parva, futil, egoísta e burra. Porque se te digo que sou freira pensas que devo ser gorda, velha e recalcada, ou talvez se eu empregar o termo noviça já imagines uma rapariga infeliz e traumatizada. Porque se te falo em tatuagem devo ser esquisita, porque se te conto que de vez em quando apanho umas bebedeiras e flirto com uns rapazes serei certamente uma pêga.
Se te dou uma descrição minha há sempre coisas que ficam por dizer e essas podem ser as mais importantes.
Podes não querer conhecer-me depois de me conheceres, é legítimo e eu respeito, ou podes querer conhecer-me cada vez melhor, mas decidires isso antes, apenas porque leste algumas palavras que escrevi sobre mim... sinceramente, não concordo. Ninguém sabe falar de si e nenhum de nós se vê com os olhos dos outros.
Dás-me agora razão?
quarta-feira, agosto 16, 2006
Férias doces férias...
Abro a custo os olhos que não querem, resistem. Lentamente foco o raio de luz que entra pela cortina entreaberta. Tento perceber, mais para acordar a mente que pelo rigor cientifico do estudo, que horas serão: o raio que espreita é difuso - ou é muito cedo ou temos um céu cheio de nuvens. Se a primeira hipótese me agrada bastante, já da segunda não posso dizer o mesmo. Estamos em Agosto, de férias algures na costa alentejana, onde não há rigorosamente nada para fazer que não seja ir à praia. Ora se estiver mau tempo temos um problema que será, como entreter 3 crianças num dia de chuva em nenhures. Ponho o ouvido à escuta. Não se ouve nada. Se os miúdos ainda dormem então a primeira hipótese deve ser a mais provável. Do meu lado direito o Pedro ressona. A teoria da hora volta a ganhar. Muito cedo ainda. Ao longe escuto o canto de um galo. Definitivamente devem ser umas sete da manhã. Perfeito. É hoje.
Levanto-me de um salto com o projecto para levar a cabo nas próximas horas, antes de a casa acordar, a fervilhar dentro de mim. Todos os dias tenho tentado fazer isto e ainda não consegui. É hoje mesmo.
Primeiro tomar um pequeno almoço opíparo na varanda, sentada para variar, ofuscada pelo reflexo do Sol no mar quieto, o aroma inigualável das manhãs de Verão e a melodia cadente das ondas pequenas da maré vaza a atafulharem-me os sentidos. A seguir, estender a pernas sobre a cadeira em frente, abrir o meu Salto Mortal tão procurado mas só agora reeditado, e ler. Ler durante hora e meia, com o silêncio completo, rigorosamente absoluto a soar como música para os meus ouvidos. Tiro da gaveta do armário um bikini que trago à luz do dia para ver se combina a parte de cima com a de baixo, uns calções e um top branco de alças. Esgueiro-me do quarto e visto-me à pressa na casa de banho. O tempo desperdiçado tem de ser mínimo.
Na cozinha descubro desconsolada que não há pão. Nem leite, bolas. Procuro o telemovel para me certificar das horas, pode ser que a mercearia já esteja a funcionar. Afinal são 08:00h...oh não...talvez se me despachar... Não encontro os meus chinelos de praia por isso levo os do Pedro que estão na varanda. São tamanho 44 mas para o que é, chega.Vou numa corrida.
Acabo por demorar mais do que queria, aproveito para trazer outras coisas de que precisamos: papel higienico, cenouras, ovos, leite com chocolate, iogurtes, garrafões de água, cigarros.
08:35h quando regresso. Começo a perder a esperança. Aspiro um prato de cereais em pé, debruçada sobre o lava-loiças. Quando termino largo-o lá dentro e corro para a varanda. No caminho oiço a Joaninha a choramingar no quarto, sinal de que acordou e quer o biberão. Ainda olho de relance, através da janela o livro pousado em cima da mesinha de metal branco descascado, mas dirijo-me antes ao quarto deles.
Tiro a minha bonequinha da cama, encho-a de mimos e beijinhos e vamos as duas fazer o bibon. Deito-a ainda muito ensonada no sofá a beber o seu leitinho e disponho-me a ir buscar o livro para ficar ali ao pé dela a ler. Ligeira alteração de planos, ainda assim quase satisfatória.
Assim que me levanto aparecem outros dois bonecos de olhos e bocas inchadas a cheirar a cama e a fome.
Mudo novamente de direcção e faço um prato de cereais para cada um: Chocapic para a Madalena e Estrelitas para o Tomás. Com eles sentadinhos à mesa, a Joaninha quase a adormecer outra vez no sofá, talvez consiga sentar-me durante 5 minutos...
Quase corro para a varanda, quase me atiro para a cadeira trémula, quase rasgo o livro à procura da página onde ia – é evidente que alguém achou giro brincar com o marcador. Digo quase, porque não chego a concretizar. Á porta da cozinha sou interceptada pelo elemento malcheiroso em falta – o Pedro, e, se bem que tento com afinco fugir-lhe, não consigo. O Pedro sabe ser muito persuasivo quando quer alguma coisa, e choraminga como ninguém. Que não lhe ligo nenhuma, que só penso em estar sozinha a ler, que não quero estar com ele e com os miúdos, está bem, que vai sozinho para a praia com eles para eu ficar em paz, se tenho assim tanto tempo livre para desperdiçar as férias, vamos meninos que a mãe precisa de sossego e connosco não consegue...E eles, vá lá mãe, vem connosco para a praia, vááááá lááá, ou então ficamos cá nós contigo...
Bem, é de tal ordem que eu desisto mesmo. Resumindo, o Pedro tem a dor de barriga matinal (ainda terá outra a seguir ao jantar) e fecha-se na casa de banho e eu acabo a fazer sandes, preparar a fruta, a água fresca, os iogurtes e sumos e colheres e guardanapos e ovos cozidos. E sempre a com a música de fundo trocada, em lugar da desejada melodia calmante do mar invade-me o ruido desesperante e esganiçado dela, ó mãe não quero desses, quero os de chocolate, e ele, mas de chocolate já comeste muitos eu só comi um e agora este é para mim, e ela mas não comeste mais porque não quiseste, e ele, mas eu esqueci-me e quando vi tu já tinhas comido todos, e ela azareeee, e ele estúpida e eu um tabefe a cada um e o de chocolate no lixo.
E mais uma vez o meu plano sai furado, o todo anula a parte, o grupo vence o indivíduo, a fera desiste da presa.
Amanhã vou ver se consigo acordar às 6.
Levanto-me de um salto com o projecto para levar a cabo nas próximas horas, antes de a casa acordar, a fervilhar dentro de mim. Todos os dias tenho tentado fazer isto e ainda não consegui. É hoje mesmo.
Primeiro tomar um pequeno almoço opíparo na varanda, sentada para variar, ofuscada pelo reflexo do Sol no mar quieto, o aroma inigualável das manhãs de Verão e a melodia cadente das ondas pequenas da maré vaza a atafulharem-me os sentidos. A seguir, estender a pernas sobre a cadeira em frente, abrir o meu Salto Mortal tão procurado mas só agora reeditado, e ler. Ler durante hora e meia, com o silêncio completo, rigorosamente absoluto a soar como música para os meus ouvidos. Tiro da gaveta do armário um bikini que trago à luz do dia para ver se combina a parte de cima com a de baixo, uns calções e um top branco de alças. Esgueiro-me do quarto e visto-me à pressa na casa de banho. O tempo desperdiçado tem de ser mínimo.
Na cozinha descubro desconsolada que não há pão. Nem leite, bolas. Procuro o telemovel para me certificar das horas, pode ser que a mercearia já esteja a funcionar. Afinal são 08:00h...oh não...talvez se me despachar... Não encontro os meus chinelos de praia por isso levo os do Pedro que estão na varanda. São tamanho 44 mas para o que é, chega.Vou numa corrida.
Acabo por demorar mais do que queria, aproveito para trazer outras coisas de que precisamos: papel higienico, cenouras, ovos, leite com chocolate, iogurtes, garrafões de água, cigarros.
08:35h quando regresso. Começo a perder a esperança. Aspiro um prato de cereais em pé, debruçada sobre o lava-loiças. Quando termino largo-o lá dentro e corro para a varanda. No caminho oiço a Joaninha a choramingar no quarto, sinal de que acordou e quer o biberão. Ainda olho de relance, através da janela o livro pousado em cima da mesinha de metal branco descascado, mas dirijo-me antes ao quarto deles.
Tiro a minha bonequinha da cama, encho-a de mimos e beijinhos e vamos as duas fazer o bibon. Deito-a ainda muito ensonada no sofá a beber o seu leitinho e disponho-me a ir buscar o livro para ficar ali ao pé dela a ler. Ligeira alteração de planos, ainda assim quase satisfatória.
Assim que me levanto aparecem outros dois bonecos de olhos e bocas inchadas a cheirar a cama e a fome.
Mudo novamente de direcção e faço um prato de cereais para cada um: Chocapic para a Madalena e Estrelitas para o Tomás. Com eles sentadinhos à mesa, a Joaninha quase a adormecer outra vez no sofá, talvez consiga sentar-me durante 5 minutos...
Quase corro para a varanda, quase me atiro para a cadeira trémula, quase rasgo o livro à procura da página onde ia – é evidente que alguém achou giro brincar com o marcador. Digo quase, porque não chego a concretizar. Á porta da cozinha sou interceptada pelo elemento malcheiroso em falta – o Pedro, e, se bem que tento com afinco fugir-lhe, não consigo. O Pedro sabe ser muito persuasivo quando quer alguma coisa, e choraminga como ninguém. Que não lhe ligo nenhuma, que só penso em estar sozinha a ler, que não quero estar com ele e com os miúdos, está bem, que vai sozinho para a praia com eles para eu ficar em paz, se tenho assim tanto tempo livre para desperdiçar as férias, vamos meninos que a mãe precisa de sossego e connosco não consegue...E eles, vá lá mãe, vem connosco para a praia, vááááá lááá, ou então ficamos cá nós contigo...
Bem, é de tal ordem que eu desisto mesmo. Resumindo, o Pedro tem a dor de barriga matinal (ainda terá outra a seguir ao jantar) e fecha-se na casa de banho e eu acabo a fazer sandes, preparar a fruta, a água fresca, os iogurtes e sumos e colheres e guardanapos e ovos cozidos. E sempre a com a música de fundo trocada, em lugar da desejada melodia calmante do mar invade-me o ruido desesperante e esganiçado dela, ó mãe não quero desses, quero os de chocolate, e ele, mas de chocolate já comeste muitos eu só comi um e agora este é para mim, e ela mas não comeste mais porque não quiseste, e ele, mas eu esqueci-me e quando vi tu já tinhas comido todos, e ela azareeee, e ele estúpida e eu um tabefe a cada um e o de chocolate no lixo.
E mais uma vez o meu plano sai furado, o todo anula a parte, o grupo vence o indivíduo, a fera desiste da presa.
Amanhã vou ver se consigo acordar às 6.
quarta-feira, julho 19, 2006
São os homens que não servem para nada ou as mulheres é que centralizam tudo?
Exemplo:
Um casal, na casa dos 30, com filhos, empregos e vida social. Esse casal, num certo fim de semana, tem uma festa. Trata-se de um evento normal, pode ser um aniversário. Não é um casamento nem um baptizado, é apenas a celebração informal de um aniversário de um amigo(a). Pormenor: sem crianças.
A questão coloca-se assim, deste modo simples e linear.
Agora vamos introduzir aqui mais um dado: o amigo(a) é afinal a irmã dele. Única irmã. Mas é a cunhada quem recebe o convite.
É de noite, o Pedro e a Cristina estão sentados lado a lado no sofá da sala, onde assistem a um episódio da série preferida dele.
- Pedro, a Nicas telefonou-me hoje. Temos a festa dela no dia 24.
- Festa de?
- Anos. A tua irmã faz anos no dia 22 mas faz a festa no dia 24 que é o Sábado seguinte.
- Ah. Ok. Depois lembra-me, mais perto do dia. Ainda falta muito tempo.
- Lembro-te? Porquê? Não consegues lembrar-te sozinho?
- Custa-te muito? Então não lembres.
- Não é que me custe, mas faz-me confusão que não saibas quando é que a tua irmã faz anos, é só isso.
- E por acaso eu tenho de saber as datas todas de cor? Tenho isso na minha agenda, no dia vejo. Qual é o drama?
- Ah sim? E é claro que no dia vês. Não precisas de pensar nisso antes. Tens aqui a empregada que trata de tudo não é? Então e se eu também decidir tratar de tudo no próprio dia? Quanto é que apostas que não vamos à festa?
-Não vamos? Mas a festa é da minha irmã. Eu vou.
- Então importas-te de pensar comigo, se faz favor? Não podemos levar os miúdos, temos de decidir com quem é que eles ficam e isso tem de ser tratado com tempo. Nesse dia a Joana tem a festinha da Madalena, por isso não dá jeito ficarem com a minha mãe que não tem carro para a levar. Se calhar era melhor ficarem com os teus pais.
- Claro. E os meus pais são motoristas da menina, não? Não vai à festa, pronto, não morre por causa disso.
- Coitada dela, anda toda entusiasmada porque este ano parece que vão organizar uma aula de hip hop na piscina. Não fala noutra coisa há que tempos. Eu gostava que ela fosse. Então vamos nós pô-la lá e pedimos aos teus pais para irem buscá-la, pode ser?
- E vão sair de casa de propósito? É igual. Pede a alguém que a traga da festa.
- Pois, sim. Não podemos pedir aos teus pais que a transportem porque não são motoristas, mas podemos pedir a uma mãe qualquer, que eu não conheço de parte nenhuma, para andar às voltas que isso já não tem mal nenhum. Deixa lá que eu trato disso. Vou lá eu.
- Então vai.
- E já agora, a festa vai ser no casino. Se os teus pais ficarem com eles, podes levar a cama do Manelinho e o resto das coisas para lá logo de manhã? Queria ver se ia ao cabeleireiro, mas dou cabo do cabelo se andar a transportar as coisas. Assim à hora levávamos só os miudos e o resto já lá estava.
- Vais ao cabeleireiro fazer o quê? Está óptimo o teu cabelo. Até gosto mais dele assim do que todo penteadinho. E isso não tem lógica nenhuma. Quando levarmos os miúdos levamos as coisas deles, evidentemente.
- Não quero. Quero sair de casa fresca e arranjada, sem ter de andar a passear caixas com sopa, caminhas, brinquedos, roupas, fraldas, etc. E vou acabar por dar cabo das unhas, ainda por cima. Eu levo lá as coisas quando sair para o cabeleireiro. Caso encerrado. E o que será que ela quer pelos anos? Quando é que podes ir ter comigo à hora de almoço para vermos isso?
- Deixa estar que eu trato disso.
- Tratas? Quando? Nunca? Pensas que eu não te conheço? No próprio dia lembras-te de repente que não compraste nada e eu que me lixe com a logística dos miúdos porque tu piras-te bem a propósito e só voltas à hora da festa. Achas que eu sou parva ou que ando a dormir? Eu compro o presente esta semana e fica o caso tratado. E então, ligas à tua mãe a sber se ela pode ficar com eles?
- Depois ligo.
- Quando?
- Depois.
- Depois pode ser muito em cima da hora e a tua mãe não poder. Ainda nos lixamos com isso. Liga agora.
- Agora já é tarde.
- Tarde? São dez da noite.
- A minha mãe deita-se cedo.
- Tão cedo?
- Sim, porquê? Agora não pode? Tu não deixas? Será que também és tu que vais decidir quando é que a minha mãe vai dormir?
- Então pronto, ligas amanhã?
- Ligo quando me apetecer.
- Ainda acabamos por não ir à festa por causa disso. Porra. Eu ligo amanhã para a tua mãe. Casmurro!
- Chata.
- Preguiçoso.
- CHATA!
- Chato és tu. Não tenho pachorra para te aturar. Fazes cá tanta falta como uma pandeireta num velório.
Agora vamos supor que quem recebe o telefonema é ele:
É de noite, o Pedro e a Cristina estão sentados lado a lado no sofá da sala, onde assistem a um episódio da série preferida dele. O Pedro pergunta:
- Que horas são?
- Dez da noite, porquê?
- Eh, pá, esqueci-me! Hoje é a festa da minha irmã. Tenho de ir. Até logo.
- ???
Um casal, na casa dos 30, com filhos, empregos e vida social. Esse casal, num certo fim de semana, tem uma festa. Trata-se de um evento normal, pode ser um aniversário. Não é um casamento nem um baptizado, é apenas a celebração informal de um aniversário de um amigo(a). Pormenor: sem crianças.
A questão coloca-se assim, deste modo simples e linear.
Agora vamos introduzir aqui mais um dado: o amigo(a) é afinal a irmã dele. Única irmã. Mas é a cunhada quem recebe o convite.
É de noite, o Pedro e a Cristina estão sentados lado a lado no sofá da sala, onde assistem a um episódio da série preferida dele.
- Pedro, a Nicas telefonou-me hoje. Temos a festa dela no dia 24.
- Festa de?
- Anos. A tua irmã faz anos no dia 22 mas faz a festa no dia 24 que é o Sábado seguinte.
- Ah. Ok. Depois lembra-me, mais perto do dia. Ainda falta muito tempo.
- Lembro-te? Porquê? Não consegues lembrar-te sozinho?
- Custa-te muito? Então não lembres.
- Não é que me custe, mas faz-me confusão que não saibas quando é que a tua irmã faz anos, é só isso.
- E por acaso eu tenho de saber as datas todas de cor? Tenho isso na minha agenda, no dia vejo. Qual é o drama?
- Ah sim? E é claro que no dia vês. Não precisas de pensar nisso antes. Tens aqui a empregada que trata de tudo não é? Então e se eu também decidir tratar de tudo no próprio dia? Quanto é que apostas que não vamos à festa?
-Não vamos? Mas a festa é da minha irmã. Eu vou.
- Então importas-te de pensar comigo, se faz favor? Não podemos levar os miúdos, temos de decidir com quem é que eles ficam e isso tem de ser tratado com tempo. Nesse dia a Joana tem a festinha da Madalena, por isso não dá jeito ficarem com a minha mãe que não tem carro para a levar. Se calhar era melhor ficarem com os teus pais.
- Claro. E os meus pais são motoristas da menina, não? Não vai à festa, pronto, não morre por causa disso.
- Coitada dela, anda toda entusiasmada porque este ano parece que vão organizar uma aula de hip hop na piscina. Não fala noutra coisa há que tempos. Eu gostava que ela fosse. Então vamos nós pô-la lá e pedimos aos teus pais para irem buscá-la, pode ser?
- E vão sair de casa de propósito? É igual. Pede a alguém que a traga da festa.
- Pois, sim. Não podemos pedir aos teus pais que a transportem porque não são motoristas, mas podemos pedir a uma mãe qualquer, que eu não conheço de parte nenhuma, para andar às voltas que isso já não tem mal nenhum. Deixa lá que eu trato disso. Vou lá eu.
- Então vai.
- E já agora, a festa vai ser no casino. Se os teus pais ficarem com eles, podes levar a cama do Manelinho e o resto das coisas para lá logo de manhã? Queria ver se ia ao cabeleireiro, mas dou cabo do cabelo se andar a transportar as coisas. Assim à hora levávamos só os miudos e o resto já lá estava.
- Vais ao cabeleireiro fazer o quê? Está óptimo o teu cabelo. Até gosto mais dele assim do que todo penteadinho. E isso não tem lógica nenhuma. Quando levarmos os miúdos levamos as coisas deles, evidentemente.
- Não quero. Quero sair de casa fresca e arranjada, sem ter de andar a passear caixas com sopa, caminhas, brinquedos, roupas, fraldas, etc. E vou acabar por dar cabo das unhas, ainda por cima. Eu levo lá as coisas quando sair para o cabeleireiro. Caso encerrado. E o que será que ela quer pelos anos? Quando é que podes ir ter comigo à hora de almoço para vermos isso?
- Deixa estar que eu trato disso.
- Tratas? Quando? Nunca? Pensas que eu não te conheço? No próprio dia lembras-te de repente que não compraste nada e eu que me lixe com a logística dos miúdos porque tu piras-te bem a propósito e só voltas à hora da festa. Achas que eu sou parva ou que ando a dormir? Eu compro o presente esta semana e fica o caso tratado. E então, ligas à tua mãe a sber se ela pode ficar com eles?
- Depois ligo.
- Quando?
- Depois.
- Depois pode ser muito em cima da hora e a tua mãe não poder. Ainda nos lixamos com isso. Liga agora.
- Agora já é tarde.
- Tarde? São dez da noite.
- A minha mãe deita-se cedo.
- Tão cedo?
- Sim, porquê? Agora não pode? Tu não deixas? Será que também és tu que vais decidir quando é que a minha mãe vai dormir?
- Então pronto, ligas amanhã?
- Ligo quando me apetecer.
- Ainda acabamos por não ir à festa por causa disso. Porra. Eu ligo amanhã para a tua mãe. Casmurro!
- Chata.
- Preguiçoso.
- CHATA!
- Chato és tu. Não tenho pachorra para te aturar. Fazes cá tanta falta como uma pandeireta num velório.
Agora vamos supor que quem recebe o telefonema é ele:
É de noite, o Pedro e a Cristina estão sentados lado a lado no sofá da sala, onde assistem a um episódio da série preferida dele. O Pedro pergunta:
- Que horas são?
- Dez da noite, porquê?
- Eh, pá, esqueci-me! Hoje é a festa da minha irmã. Tenho de ir. Até logo.
- ???
quinta-feira, julho 13, 2006
Tratar a vida
-Bem malta, vou andando.
-Não vás já. Aguenta mais um bocado. O Manel ainda vem cá ter.
- Não, vou andando, ainda tenho que fazer.
- São quase 3 da manhã.
- Tenho coisas para tratar.
- De que é que vais tratar a esta hora?
- Vou tratar a minha vida.
- Deixem-na lá. Se ela quer ir embora, vai. Já está com as paranóias.
- Exacto. Vou. Beijinhos e até amanhã.
- Queres boleia?
- Não, não, deixa estar. É só um bocadinho, vou a pé.
Saio do restaurante bafiento para uma noite límpida e fresca. Enquanto caminho inspiro com força, prendo o ar por um bocado e depois deixo-o sair todo de uma vez. Três, quatro vezes seguidas. Desde miúda que faço isto, é como rodopiar. Com a tontura os objectos dançam, o cérebro baralha-se, tudo muda. Mas por um momento apenas. O momento em que saio do meu corpo e me vejo de longe, em que me sinto maior que eu. É apenas ilusão, eu sei. Preciso de mais que exercícios respiratórios para tratar a minha vida.
Tratar. Ora aí está uma boa palavra.Trata-se uma doença, trata-se uma ferida, um assunto, uma picada de insecto. Trata-se o que nos incomoda, o que nos ocupa o tempo, o que queremos despachar. Vou mesmo tratar a minha vida.
Subo os doze andares que separam o meu mini apartamento do chão. O elevador continua sem luz, hoje não me importo. Estou animada com a perspectiva.
Olho para a minha casa como se fosse a primeira vez, às vezes temos de fazer este exercício. A vida cega-nos, também por isso temos de tratá-la.
Deixamos de ver a nossa casa, os nossos amigos, a família, o trabalho, de nos ver a nós. Avançamos sobre as coisas como quem anda pela auto-estrada, sem apreciar o caminho. De vez em quando temos de tomar a estrada nacional, parar nos lugares típicos, comer devagar, ouvir os outros.
A mim ninguém me ouve. Se calhar ouve, mas não escuta.
Respondem-me, mas na realidade não sabem a quê. Tenho tanta gente à minha volta, muitos insistem que me conhecem, mas não.
Eu não existo.
Por isso ninguém me vê.
Cada um olha para mim como quer, como dá jeito, como aprendeu. Eu sou apenas uma imagem. E não há solidão maior.
Olho para a minha casa. Fui eu que a fiz, mas não sou eu. É um reflexo na água, distorcido. De mim? Nem por isso. Talvez da minha vida, da minha educação, de tudo o que pensei que devia ser. Tudo está como é suposto. Sofás em L - estimados; mesa no meio - arrumada; tapete por baixo - limpo; estante com livros - organizada; cortinas nas janelas - engomadas.
Mas eu não sou como devia. E estou cansada de tentar.
Reparo num quadro encostado e levanto-o. Avanço para a parede para o pendurar, mas de repente não me apetece. Se vou tratar a minha vida é melhor começar já. Não quero pendurar o quadro ali, nem sequer gosto muito dele. É um óleo antigo, presente de curso dos meus pais. Nele, uma mulher ainda jovem e elegante aproxima-se de uma casa no meio de um bosque ou jardim. A cabeça da mulher pende ligeiramente para a frente, como quem olha o chão para não tropeçar. Pela luz percebe-se que a cena se passa durante o dia, mas é tudo tão sombrio, tão abandonado que me entristece.
Não. Não vou pendurá-lo na parede da minha sala. Aí é onde ele “devia” estar.
Afinal não vou pendurá-lo sequer, não gosto dele, não o quero em minha casa, faz-me infeliz.
Agarro no quadro e atiro com ele para longe. Sabe-me bem. Pego-lhe de novo e começo a bater com ele. Contra tudo o que aparece. Portas, móveis, paredes, chão. Sinto-me tomada por uma espécie de felicidade histérica. Piso-o, espezinho-o, desfaço-o. Abandono-o. Desenfreada começo a varrer tudo, arranco cortinados e espalho os farrapos, atiro cadeiras, entorno armários, cómodas, prateleiras. Sinto-me livre, livre!
Rodopio com uma garrafa na mão e deixo o liquido pastoso escorrer. Por mim abaixo, pelas paredes acima. Sou livre. Faço o que me apetece, não tenho de explicar nem temer, não vou fingir mais. Estou a tratar a minha vida. Rio às gargalhadas.
Canso-me. Páro diante da janela e observo o reflexo que ela devolve. Aquela sou eu?
Dispo-me. Uma peça de cada vez, sem tirar os olhos do reflexo que me repete, até à nudez completa. Odeio o meu corpo, mete-me nojo.
Sempre o odiei, mas nunca ninguém compreendeu. Respondiam sempre - as minhas irmãs, as minhas amigas - que era um corpo invejável, que tinha mamas em quantidade e rabo em forma, quem dera a tanta gente, que eu não tinha razão nenhuma. Até se irritavam.
Mas o meu corpo não me pertence. Como a minha casa e a minha vida, o meu corpo não me diz nada. É falador, simpático, sorri para quem vai atrás, atira-se sobre quem está de frente. É expansivo, tem necessidades, pede atenção.
Eu não. Sou calada, encolhida, seca, insignificante. Não gosto dele, e ele não gosta de mim. Não me obedece, não me respeita, faz coisas que eu não quero fazer, fala de coisas que eu não quero falar.
Vou tratar a minha vida, por isso vou tratar o meu corpo. Não quero o que não me pertence.
A imagem à minha frente desvanece-se à medida que o vidro se afasta para o lado. No seu lugar surge a noite fresca e límpida que me trouxe. Chego-me à varanda e apoio-me no parapeito. Um arrepio percorre-me.
Penso em cada luz acesa. Pode ser uma casa, dentro dela estarão pessoas. Pode ser um carro, e transporta alguém. Pode ser um prédio, e nele morar muita gente. Essas pessoas serão todas diferentes, muitas delas cobardes, em menor número os felizes mas, quase nenhuns serão verdadeiros. Como eu.
Quantas dessas pessoas terão alguma vez tido a coragem de tratar a sua vida? Quantas dessas pessoas terão tido a franqueza de enfrentar o seu fracasso?
Subo para o muro da varanda. 12 andares separam a minha carne do chão. Separo as pernas e os braços. Inspiro fundo, com força. Sustenho o ar por um bocado e depois deixo-o sair todo de uma vez. Duas, três, quatro vezes.
Quantas pessoas estarão neste momento a peparar-se para fazer o que eu vou fazer? Quantas, das que pensam conhecer-me, sequer suspeitam?
Finalmente a verdade. Pela primeira vez na vida faço algo em que acredito.
A tontura. Fecho os olhos, atiro a cabeça para trás e o corpo para a frente.
Sou livre, faço o que quero e o que quero, é voar.
Cristina desliga o computador e encosta-se para trás na cadeira. Fecha os olhos e estica-se com força.
Pedro chama do quarto
– então, não te deitas?
- estou a acabar. É só tratar uma coisa.
Cristina levanta-se e despe, peça por peça, a roupa que tem vestida.
-Não vás já. Aguenta mais um bocado. O Manel ainda vem cá ter.
- Não, vou andando, ainda tenho que fazer.
- São quase 3 da manhã.
- Tenho coisas para tratar.
- De que é que vais tratar a esta hora?
- Vou tratar a minha vida.
- Deixem-na lá. Se ela quer ir embora, vai. Já está com as paranóias.
- Exacto. Vou. Beijinhos e até amanhã.
- Queres boleia?
- Não, não, deixa estar. É só um bocadinho, vou a pé.
Saio do restaurante bafiento para uma noite límpida e fresca. Enquanto caminho inspiro com força, prendo o ar por um bocado e depois deixo-o sair todo de uma vez. Três, quatro vezes seguidas. Desde miúda que faço isto, é como rodopiar. Com a tontura os objectos dançam, o cérebro baralha-se, tudo muda. Mas por um momento apenas. O momento em que saio do meu corpo e me vejo de longe, em que me sinto maior que eu. É apenas ilusão, eu sei. Preciso de mais que exercícios respiratórios para tratar a minha vida.
Tratar. Ora aí está uma boa palavra.Trata-se uma doença, trata-se uma ferida, um assunto, uma picada de insecto. Trata-se o que nos incomoda, o que nos ocupa o tempo, o que queremos despachar. Vou mesmo tratar a minha vida.
Subo os doze andares que separam o meu mini apartamento do chão. O elevador continua sem luz, hoje não me importo. Estou animada com a perspectiva.
Olho para a minha casa como se fosse a primeira vez, às vezes temos de fazer este exercício. A vida cega-nos, também por isso temos de tratá-la.
Deixamos de ver a nossa casa, os nossos amigos, a família, o trabalho, de nos ver a nós. Avançamos sobre as coisas como quem anda pela auto-estrada, sem apreciar o caminho. De vez em quando temos de tomar a estrada nacional, parar nos lugares típicos, comer devagar, ouvir os outros.
A mim ninguém me ouve. Se calhar ouve, mas não escuta.
Respondem-me, mas na realidade não sabem a quê. Tenho tanta gente à minha volta, muitos insistem que me conhecem, mas não.
Eu não existo.
Por isso ninguém me vê.
Cada um olha para mim como quer, como dá jeito, como aprendeu. Eu sou apenas uma imagem. E não há solidão maior.
Olho para a minha casa. Fui eu que a fiz, mas não sou eu. É um reflexo na água, distorcido. De mim? Nem por isso. Talvez da minha vida, da minha educação, de tudo o que pensei que devia ser. Tudo está como é suposto. Sofás em L - estimados; mesa no meio - arrumada; tapete por baixo - limpo; estante com livros - organizada; cortinas nas janelas - engomadas.
Mas eu não sou como devia. E estou cansada de tentar.
Reparo num quadro encostado e levanto-o. Avanço para a parede para o pendurar, mas de repente não me apetece. Se vou tratar a minha vida é melhor começar já. Não quero pendurar o quadro ali, nem sequer gosto muito dele. É um óleo antigo, presente de curso dos meus pais. Nele, uma mulher ainda jovem e elegante aproxima-se de uma casa no meio de um bosque ou jardim. A cabeça da mulher pende ligeiramente para a frente, como quem olha o chão para não tropeçar. Pela luz percebe-se que a cena se passa durante o dia, mas é tudo tão sombrio, tão abandonado que me entristece.
Não. Não vou pendurá-lo na parede da minha sala. Aí é onde ele “devia” estar.
Afinal não vou pendurá-lo sequer, não gosto dele, não o quero em minha casa, faz-me infeliz.
Agarro no quadro e atiro com ele para longe. Sabe-me bem. Pego-lhe de novo e começo a bater com ele. Contra tudo o que aparece. Portas, móveis, paredes, chão. Sinto-me tomada por uma espécie de felicidade histérica. Piso-o, espezinho-o, desfaço-o. Abandono-o. Desenfreada começo a varrer tudo, arranco cortinados e espalho os farrapos, atiro cadeiras, entorno armários, cómodas, prateleiras. Sinto-me livre, livre!
Rodopio com uma garrafa na mão e deixo o liquido pastoso escorrer. Por mim abaixo, pelas paredes acima. Sou livre. Faço o que me apetece, não tenho de explicar nem temer, não vou fingir mais. Estou a tratar a minha vida. Rio às gargalhadas.
Canso-me. Páro diante da janela e observo o reflexo que ela devolve. Aquela sou eu?
Dispo-me. Uma peça de cada vez, sem tirar os olhos do reflexo que me repete, até à nudez completa. Odeio o meu corpo, mete-me nojo.
Sempre o odiei, mas nunca ninguém compreendeu. Respondiam sempre - as minhas irmãs, as minhas amigas - que era um corpo invejável, que tinha mamas em quantidade e rabo em forma, quem dera a tanta gente, que eu não tinha razão nenhuma. Até se irritavam.
Mas o meu corpo não me pertence. Como a minha casa e a minha vida, o meu corpo não me diz nada. É falador, simpático, sorri para quem vai atrás, atira-se sobre quem está de frente. É expansivo, tem necessidades, pede atenção.
Eu não. Sou calada, encolhida, seca, insignificante. Não gosto dele, e ele não gosta de mim. Não me obedece, não me respeita, faz coisas que eu não quero fazer, fala de coisas que eu não quero falar.
Vou tratar a minha vida, por isso vou tratar o meu corpo. Não quero o que não me pertence.
A imagem à minha frente desvanece-se à medida que o vidro se afasta para o lado. No seu lugar surge a noite fresca e límpida que me trouxe. Chego-me à varanda e apoio-me no parapeito. Um arrepio percorre-me.
Penso em cada luz acesa. Pode ser uma casa, dentro dela estarão pessoas. Pode ser um carro, e transporta alguém. Pode ser um prédio, e nele morar muita gente. Essas pessoas serão todas diferentes, muitas delas cobardes, em menor número os felizes mas, quase nenhuns serão verdadeiros. Como eu.
Quantas dessas pessoas terão alguma vez tido a coragem de tratar a sua vida? Quantas dessas pessoas terão tido a franqueza de enfrentar o seu fracasso?
Subo para o muro da varanda. 12 andares separam a minha carne do chão. Separo as pernas e os braços. Inspiro fundo, com força. Sustenho o ar por um bocado e depois deixo-o sair todo de uma vez. Duas, três, quatro vezes.
Quantas pessoas estarão neste momento a peparar-se para fazer o que eu vou fazer? Quantas, das que pensam conhecer-me, sequer suspeitam?
Finalmente a verdade. Pela primeira vez na vida faço algo em que acredito.
A tontura. Fecho os olhos, atiro a cabeça para trás e o corpo para a frente.
Sou livre, faço o que quero e o que quero, é voar.
Cristina desliga o computador e encosta-se para trás na cadeira. Fecha os olhos e estica-se com força.
Pedro chama do quarto
– então, não te deitas?
- estou a acabar. É só tratar uma coisa.
Cristina levanta-se e despe, peça por peça, a roupa que tem vestida.
segunda-feira, julho 10, 2006
Mudam as moscas...
Empurro a chave contra a fechadura. Um jeitinho e... já está. Dentro de casa atiro várias vezes com a porta até fechar. Largo as chaves na mesa da entrada e o computador em cima de um caixote de cartão – a Cristina não gosta que se ponha nada em cima da mesa. Descalço os sapatos. Largo a gravata e os botões de punho, desaperto o colarinho e arregaço as mangas da camisa.
Entro na cozinha, tiro o pacote de leite do frigorífico e bebo duas goladas. Faço um pão com manteiga e vou para a sala. Ligo a televisão, sento-me, ajeito as almofadas, encosto-me, estico-me.
Reparo que há qualquer coisa diferente. Não sei ao certo, mas sinto uma calma esquisita, um silêncio. Chamo pela Cristina mas ninguém responde.
Estranho, a esta hora ela já costuma estar em casa. Aliás, a esta hora, num dia normal, já eu estou com vontade de sair outra vez. A Cristina está sempre aos berros. Se ela soubesse como são os meus dias andava de joelhos para me agradecer a vida que tem, mas não, só sabe é chatear-me com merdas que não interessam a ninguém. É a fechadura, os sapatos, a roupa, o caraças. É porque bebo leite do pacote e é um nojo e tenho de dar o exemplo senão qualquer dia temos filhos e anda tudo a fazer a mesma porcaria cá em casa, porque utilizei a mesma faca para abrir o pão e barrar a manteiga e não pode ser, há facas para tudo, porque estou a comer na sala e nem um prato trouxe e vou encher tudo de migalhas e depois os empregados que limpem. Chata. Ela podia já ter percebido que eu depois faço. Mas não, tem de ser quando a madame entende.
Já deixei de sonhar com o dia em que eu entro em casa e lá está ela, lingerie preta, saltos altos, sorriso sedutor. Disponível.
Isso é uma coisa que pura e simplesmente não acontece num casamento. Pelo menos no meu não acontece. Lingerie nem a vejo, não sei como é. Sexo, ultimamente só em noites de festa ou casamentos: bebemos uns copos, dançamos e a coisa lá desencrava.
Agarro no comando e começo a saltar canais. Notícias, porcarias, séries de médicos, futebol. Páro no futebol. Agradeço intimamente ao motivo que reteve a Cristina. Onde será que ela anda? No supermercado, talvez. Um grande bem haja para ela.
Sinto-me bem e acabo por adormecer.
*****
Estou ajoelhada à porta, a mala despejada no chão, uma ilha no meio do caos. Qual será a reacção dele? Tenho a sensação de que a chave desapareceu só para me irritar. Como sempre acontece, enfim ela surge, reluzente no fundo da mala, como quem sorri a dizer – então não me vias? Estive sempre aqui. Estou nervosa e reparo nisso quando a minha mão faz a chave chocalhar contra a fechadura. Endireito-me, dou um toque no cabelo, passo as mãos pela cara.
Empurro a chave com força. Praguejo intimamente ao verificar que o Pedro continua a não a ter oleado. De facto, se não sou eu a tratar de tudo não há nada que apareça feito.
Não vou pensar nisso agora.
Com um jeitinho fecho a porta por dentro. Imediatamente a presença dele atinge-me como uma explosão. Chaves a arranhar a cómoda inglesa, pasta em cima da caixa do candeeiro, no mesmo sitio desde há sei lá quantos meses, sapatos, gravata, botões de punho, tudo espalhado. Espreito para a sala. O Pedro dorme no sofá com a respiração forte a fazer ondas no mar de migalhas que o envolve, a televisão sintonizada na Sport TV. Entro na cozinha sabendo já o que vou encontrar. Sem espanto nem fúria guardo o leite, meto a faca do pão na máquina, limpo a bancada com um pano húmido. Hoje não me apetece discutir. Aliás, tenho a impressão de que nem hoje nem nunca mais. Desisto de discutir.
Tenho pensado muito e principalmente conversado imenso. Na realidade, todas as mulheres se queixam do mesmo, da natureza dos homens. Fazem pouco, desarrumam tudo, não ouvem nada. Mas agora vejo as coisas com mais clareza e percebo que é inútil tentar mudar o meu marido. Os homens são mesmo todos iguais, um bocado como as crianças – temos de falar com calma, dizer apenas uma coisa de cada vez, não mandar, não gritar, não repetir. Ou não conseguimos nada deles. É deixá-los fazer o que querem, da forma que entendem. É sermos tão básicas quanto eles. É falar menos e rir mais. Eles gostam de ter graça, que nós lhes achemos graça.
Vou ao quarto, ponho a mala em cima da cadeira, arrumo o casaco no armário.
Estou mesmo convicta, hoje não me vou aborrecer. Visto a lingerie preta novinha à estreia, meias de liga, sapatos altos, maquilhagem ligeira, cabelo apanhado, perfume suave. Quantas vezes o Pedro já falou nisto? Continuo nervosa. Faço uma depilação sumária com a lâmina de barbear dele, dou um jeito nas sobrancelhas, não resisto a uma borbulha que fica marcada. Bolas!
Vou acordá-lo. Ele já está desperto mas ainda sem ter dado pela minha chegada. Não faz perguntas, aproveita simplesmente.
Enfim, a surpresa surpreende, os nervos desaparecem, é tudo muito romântico, estamos bem e sintonizados. Depois, enrolamos-nos um no outro, ficamos só assim, a olhar o vazio, a respirar a vida que afinal às vezes é calma. Penso como gosto dele, como tudo pode ser diferente se houver vontade. O Pedro levanta-se e vai à cozinha. Estou esfomeada e fico a sonhar com o que aí vem. Morangos e champagne? Talvez umas tostas de queijo e banana...
Ele volta satisfeito com duas sandwuiches de carne assada e dois batidos de morango. Penso no trabalho que esta refeição ainda me vai dar, mas não digo nada, estou positiva.
Encostamos-nos um ao outro e comemos com prazer.
Sinto-me imensamente curiosa por saber em que altura vai o Pedro decidir arrumar tudo o que deixou espalhado, mais o que fez na cozinha, mas aguento e não pergunto. Terá de ser ele a decidir. Conversamos como há muito não fazíamos, trocamos carícias e fazemos juras de amor eterno.
Algum tempo depois decidimos ir dormir. Vou sem olhar para trás. E ele também.
Na manhã seguinte acordamos sorridentes. O Pedro despacha-se rápidamente e sai de casa. Eu tenho tempo, vou tomar o pequeno-almoço. Saio do quarto, olho à volta. Como que anestesiada vou até à cozinha. E não me surpreendo. Nem me zango. Limito-me a sentar-me numa cadeira, esconder a cara nas mãos, e chorar.
Entro na cozinha, tiro o pacote de leite do frigorífico e bebo duas goladas. Faço um pão com manteiga e vou para a sala. Ligo a televisão, sento-me, ajeito as almofadas, encosto-me, estico-me.
Reparo que há qualquer coisa diferente. Não sei ao certo, mas sinto uma calma esquisita, um silêncio. Chamo pela Cristina mas ninguém responde.
Estranho, a esta hora ela já costuma estar em casa. Aliás, a esta hora, num dia normal, já eu estou com vontade de sair outra vez. A Cristina está sempre aos berros. Se ela soubesse como são os meus dias andava de joelhos para me agradecer a vida que tem, mas não, só sabe é chatear-me com merdas que não interessam a ninguém. É a fechadura, os sapatos, a roupa, o caraças. É porque bebo leite do pacote e é um nojo e tenho de dar o exemplo senão qualquer dia temos filhos e anda tudo a fazer a mesma porcaria cá em casa, porque utilizei a mesma faca para abrir o pão e barrar a manteiga e não pode ser, há facas para tudo, porque estou a comer na sala e nem um prato trouxe e vou encher tudo de migalhas e depois os empregados que limpem. Chata. Ela podia já ter percebido que eu depois faço. Mas não, tem de ser quando a madame entende.
Já deixei de sonhar com o dia em que eu entro em casa e lá está ela, lingerie preta, saltos altos, sorriso sedutor. Disponível.
Isso é uma coisa que pura e simplesmente não acontece num casamento. Pelo menos no meu não acontece. Lingerie nem a vejo, não sei como é. Sexo, ultimamente só em noites de festa ou casamentos: bebemos uns copos, dançamos e a coisa lá desencrava.
Agarro no comando e começo a saltar canais. Notícias, porcarias, séries de médicos, futebol. Páro no futebol. Agradeço intimamente ao motivo que reteve a Cristina. Onde será que ela anda? No supermercado, talvez. Um grande bem haja para ela.
Sinto-me bem e acabo por adormecer.
*****
Estou ajoelhada à porta, a mala despejada no chão, uma ilha no meio do caos. Qual será a reacção dele? Tenho a sensação de que a chave desapareceu só para me irritar. Como sempre acontece, enfim ela surge, reluzente no fundo da mala, como quem sorri a dizer – então não me vias? Estive sempre aqui. Estou nervosa e reparo nisso quando a minha mão faz a chave chocalhar contra a fechadura. Endireito-me, dou um toque no cabelo, passo as mãos pela cara.
Empurro a chave com força. Praguejo intimamente ao verificar que o Pedro continua a não a ter oleado. De facto, se não sou eu a tratar de tudo não há nada que apareça feito.
Não vou pensar nisso agora.
Com um jeitinho fecho a porta por dentro. Imediatamente a presença dele atinge-me como uma explosão. Chaves a arranhar a cómoda inglesa, pasta em cima da caixa do candeeiro, no mesmo sitio desde há sei lá quantos meses, sapatos, gravata, botões de punho, tudo espalhado. Espreito para a sala. O Pedro dorme no sofá com a respiração forte a fazer ondas no mar de migalhas que o envolve, a televisão sintonizada na Sport TV. Entro na cozinha sabendo já o que vou encontrar. Sem espanto nem fúria guardo o leite, meto a faca do pão na máquina, limpo a bancada com um pano húmido. Hoje não me apetece discutir. Aliás, tenho a impressão de que nem hoje nem nunca mais. Desisto de discutir.
Tenho pensado muito e principalmente conversado imenso. Na realidade, todas as mulheres se queixam do mesmo, da natureza dos homens. Fazem pouco, desarrumam tudo, não ouvem nada. Mas agora vejo as coisas com mais clareza e percebo que é inútil tentar mudar o meu marido. Os homens são mesmo todos iguais, um bocado como as crianças – temos de falar com calma, dizer apenas uma coisa de cada vez, não mandar, não gritar, não repetir. Ou não conseguimos nada deles. É deixá-los fazer o que querem, da forma que entendem. É sermos tão básicas quanto eles. É falar menos e rir mais. Eles gostam de ter graça, que nós lhes achemos graça.
Vou ao quarto, ponho a mala em cima da cadeira, arrumo o casaco no armário.
Estou mesmo convicta, hoje não me vou aborrecer. Visto a lingerie preta novinha à estreia, meias de liga, sapatos altos, maquilhagem ligeira, cabelo apanhado, perfume suave. Quantas vezes o Pedro já falou nisto? Continuo nervosa. Faço uma depilação sumária com a lâmina de barbear dele, dou um jeito nas sobrancelhas, não resisto a uma borbulha que fica marcada. Bolas!
Vou acordá-lo. Ele já está desperto mas ainda sem ter dado pela minha chegada. Não faz perguntas, aproveita simplesmente.
Enfim, a surpresa surpreende, os nervos desaparecem, é tudo muito romântico, estamos bem e sintonizados. Depois, enrolamos-nos um no outro, ficamos só assim, a olhar o vazio, a respirar a vida que afinal às vezes é calma. Penso como gosto dele, como tudo pode ser diferente se houver vontade. O Pedro levanta-se e vai à cozinha. Estou esfomeada e fico a sonhar com o que aí vem. Morangos e champagne? Talvez umas tostas de queijo e banana...
Ele volta satisfeito com duas sandwuiches de carne assada e dois batidos de morango. Penso no trabalho que esta refeição ainda me vai dar, mas não digo nada, estou positiva.
Encostamos-nos um ao outro e comemos com prazer.
Sinto-me imensamente curiosa por saber em que altura vai o Pedro decidir arrumar tudo o que deixou espalhado, mais o que fez na cozinha, mas aguento e não pergunto. Terá de ser ele a decidir. Conversamos como há muito não fazíamos, trocamos carícias e fazemos juras de amor eterno.
Algum tempo depois decidimos ir dormir. Vou sem olhar para trás. E ele também.
Na manhã seguinte acordamos sorridentes. O Pedro despacha-se rápidamente e sai de casa. Eu tenho tempo, vou tomar o pequeno-almoço. Saio do quarto, olho à volta. Como que anestesiada vou até à cozinha. E não me surpreendo. Nem me zango. Limito-me a sentar-me numa cadeira, esconder a cara nas mãos, e chorar.
Uma história sobre um cão e um menino
Era uma vez um menino muito querido e que se portava sempre muito bem. Esse menino tinha um sonho: ter um cão. Acontece que ele vivia com a avó velhinha e ela não lhe dava um porque não podia tomar conta dele. Por muito que o menino dissesse que tomaria conta do bicho, a velhota não acreditava e mantinha-se irredutível.
Um dia o menino ia para a escola quando ouviu na beira do caminho uma espécie de gemido. Procurou para ver o que seria e, debaixo de um monte de ervas encontrou um cachorrinho que tremia muito assustado. Comoveu-se, e mesmo sabendo que a avó não queria, decidiu levar o animal para casa.
Decidiu nesse dia ser responsável por esse bichinho e que ele seria sempre a sua prioridade em tudo. Mesmo contra os avisos da senhora prometeu alimentá-lo, brincar com ele, passeá-lo, dar-lhe banho, enfim tomar conta dele. E o cachorro feliz, depressa se transformou num lindo cão, barulhento e brincalhão como são os cães. Foram tempos muito felizes para os dois. Pasavam o tempo todo juntos sempre no maior companheirismo e amizade. Nunca se separavam um do outro.
Mas o tempo foi passando e chegou o Verão. E com ele chegaram os convites para férias e temporadas com os primos e os amigos. Era a época do ano de que o menino mais gostava. Praia e diversão todo o dia durante semanas e semanas. Mas com o Verão chegou também o problema do cão. O que havia de lhe fazer? Não podia levá-lo para as férias e em casa também não podia ficar. Pensou, pensou, pensou e decidiu agarrar nas suas poupanças e meter o cão num canil.
Nesse dia a avó chamou-lhe a atenção – Olha, um animal não é uma coisa que se deixe por aí de qualquer maneira. Ele está muito habituado a ti e vai reagir mal.
- Não vai nada. Ele é esperto e eu não posso deixar de ir nas minhas férias por causa dele.
E assim fez. E foi bom porque apesar de o ter deixado prostrado e com aquela carinha de abandono e de no regresso ter encontrado o animal ofendido, a crise depressa lhe passou e voltaram a ser os bons amigos de sempre. Mas mais convites vieram e a todos o menino queria atender: era o fim de semana em casa do amigo e ia o cão para casa do primo A; era a festa na quinta distante do amigo B e era o cão atirado para o canil de novo e assim por diante. No regresso ele compensava sempre o cachorro pelas suas ausências, mas de facto de cada vez o menino menos paciência tinha para dedicar ao seu animal que o adorava e sofria com estas mudanças.
Pouco a pouco o bicho foi-se habituando a andar sozinho. Saía de casa de manhã e voltava apenas de noite. O menino sabia que ele voltava sempre, por isso nem se preocupava em saber o que fazia ele durante o dia, o que comia nem por onde andava. Sabia apenas que ao cair do dia o cão voltava sempre. E o menino achava graça a esta nova relação. Não tinha de estar sempre a pensar no que fazer ao animal porque ele não parava em casa e não dava trabalho nenhum à avó, e como passava o tempo todo sujo nem sequer valia a pena dar-lhe banho e muito menos levá-lo a passear. Era o melhor dos mundos – Nos dias frios de Inverno, sempre que lhe apetecia ficar por casa, lá ficava o seu amigo fiel, deitado no chão a aquecer-lhe os pés, sempre sedento de alguma atenção. Assim que o tempo melhorava lá iam os dois para a rua - às vezes juntos, às vezes cada um para seu lado, sem compromisso nenhum. E o animal já nem gania quando o menino o deixava em casa nem estava sempre a pedir-lhe atenção. De tal maneira que em pouco tempo até passou a dormir no jardim. Afinal já era crescido para dormir numa caminha dentro de casa.
Certo dia, ao pôr do sol o cão não voltou para casa como era hábito. O menino entrou em desespero: o cachorro nunca fizera isto. Sem saber onde ir foi para a rua a ver se o via. Depois de procurar toda a noite voltou para casa de braços caídos e coração nas mãos. Ao cabo de muitos dias e alguns anúncios descobriu o cão em casa de um vizinho.
O vizinho era um pouco mais velho que ele próprio e ao abrir a porta trazia o animal ao colo. Ao fazer o gesto de lhe pegar para o levar, o cão assustou-se e com uma feroz rosnadela a acompanhar deu-lhe uma valente dentada na mão. O menino de tão surpreendido nem sentiu a dor. Afinal a dor no coração era maior.
O vizinho pediu muitas desculpas e que ele tentasse entender – o cão e ele eram muito amigos. Passavam juntos tardes e tardes de brincadeira desde há muitos meses. Era inclusivamente lá em casa que ele comia durante o dia e até tinha uma caminha para dormir a sesta. O rapaz nem sabia que o animal tinha dono...
Há uns dias o cão tinha sido atropelado ali perto. Como não tinha coleira e o vizinho não sabia se pertencia a alguém nem se preocupou em procurar e recolheu-o na sua casa. Tratou-o, mimou-o e ficaram ainda mais amigos.
Agora, ao fim destes dias, parece que ele já não queria voltar...
Um dia o menino ia para a escola quando ouviu na beira do caminho uma espécie de gemido. Procurou para ver o que seria e, debaixo de um monte de ervas encontrou um cachorrinho que tremia muito assustado. Comoveu-se, e mesmo sabendo que a avó não queria, decidiu levar o animal para casa.
Decidiu nesse dia ser responsável por esse bichinho e que ele seria sempre a sua prioridade em tudo. Mesmo contra os avisos da senhora prometeu alimentá-lo, brincar com ele, passeá-lo, dar-lhe banho, enfim tomar conta dele. E o cachorro feliz, depressa se transformou num lindo cão, barulhento e brincalhão como são os cães. Foram tempos muito felizes para os dois. Pasavam o tempo todo juntos sempre no maior companheirismo e amizade. Nunca se separavam um do outro.
Mas o tempo foi passando e chegou o Verão. E com ele chegaram os convites para férias e temporadas com os primos e os amigos. Era a época do ano de que o menino mais gostava. Praia e diversão todo o dia durante semanas e semanas. Mas com o Verão chegou também o problema do cão. O que havia de lhe fazer? Não podia levá-lo para as férias e em casa também não podia ficar. Pensou, pensou, pensou e decidiu agarrar nas suas poupanças e meter o cão num canil.
Nesse dia a avó chamou-lhe a atenção – Olha, um animal não é uma coisa que se deixe por aí de qualquer maneira. Ele está muito habituado a ti e vai reagir mal.
- Não vai nada. Ele é esperto e eu não posso deixar de ir nas minhas férias por causa dele.
E assim fez. E foi bom porque apesar de o ter deixado prostrado e com aquela carinha de abandono e de no regresso ter encontrado o animal ofendido, a crise depressa lhe passou e voltaram a ser os bons amigos de sempre. Mas mais convites vieram e a todos o menino queria atender: era o fim de semana em casa do amigo e ia o cão para casa do primo A; era a festa na quinta distante do amigo B e era o cão atirado para o canil de novo e assim por diante. No regresso ele compensava sempre o cachorro pelas suas ausências, mas de facto de cada vez o menino menos paciência tinha para dedicar ao seu animal que o adorava e sofria com estas mudanças.
Pouco a pouco o bicho foi-se habituando a andar sozinho. Saía de casa de manhã e voltava apenas de noite. O menino sabia que ele voltava sempre, por isso nem se preocupava em saber o que fazia ele durante o dia, o que comia nem por onde andava. Sabia apenas que ao cair do dia o cão voltava sempre. E o menino achava graça a esta nova relação. Não tinha de estar sempre a pensar no que fazer ao animal porque ele não parava em casa e não dava trabalho nenhum à avó, e como passava o tempo todo sujo nem sequer valia a pena dar-lhe banho e muito menos levá-lo a passear. Era o melhor dos mundos – Nos dias frios de Inverno, sempre que lhe apetecia ficar por casa, lá ficava o seu amigo fiel, deitado no chão a aquecer-lhe os pés, sempre sedento de alguma atenção. Assim que o tempo melhorava lá iam os dois para a rua - às vezes juntos, às vezes cada um para seu lado, sem compromisso nenhum. E o animal já nem gania quando o menino o deixava em casa nem estava sempre a pedir-lhe atenção. De tal maneira que em pouco tempo até passou a dormir no jardim. Afinal já era crescido para dormir numa caminha dentro de casa.
Certo dia, ao pôr do sol o cão não voltou para casa como era hábito. O menino entrou em desespero: o cachorro nunca fizera isto. Sem saber onde ir foi para a rua a ver se o via. Depois de procurar toda a noite voltou para casa de braços caídos e coração nas mãos. Ao cabo de muitos dias e alguns anúncios descobriu o cão em casa de um vizinho.
O vizinho era um pouco mais velho que ele próprio e ao abrir a porta trazia o animal ao colo. Ao fazer o gesto de lhe pegar para o levar, o cão assustou-se e com uma feroz rosnadela a acompanhar deu-lhe uma valente dentada na mão. O menino de tão surpreendido nem sentiu a dor. Afinal a dor no coração era maior.
O vizinho pediu muitas desculpas e que ele tentasse entender – o cão e ele eram muito amigos. Passavam juntos tardes e tardes de brincadeira desde há muitos meses. Era inclusivamente lá em casa que ele comia durante o dia e até tinha uma caminha para dormir a sesta. O rapaz nem sabia que o animal tinha dono...
Há uns dias o cão tinha sido atropelado ali perto. Como não tinha coleira e o vizinho não sabia se pertencia a alguém nem se preocupou em procurar e recolheu-o na sua casa. Tratou-o, mimou-o e ficaram ainda mais amigos.
Agora, ao fim destes dias, parece que ele já não queria voltar...
Manhã submersa
Dou mais uma volta enquanto acabo de ouvir o Nuno Markl na Comercial. Adoro ouvir o Nuno Markl logo de manhã. Deixa-me bem disposta não só porque tem um sentido de humor discreto e inteligente, mas porque admiro as pessoas que conseguem levantar-se para começar a trabalhar às 6 da madrugada. Páro em segunda fila e desespero por um momento até conseguir inventar uma frincha onde enfiar o meu Golf novinho. Finalmente encaixo-o numa curva, entre um bloco de cimento e uma Ford Galaxy. Saio do carro, finto um dejecto, enfrento o prédio opulento, volto a trás para verificar se o carro está fechado. Tomo mentalmente nota para não me esquecer de procurar o comando. Entro no escritório, bom dia à esquerda e à direita, tentando acalmar o cabelo ainda húmido e evitar assim a formação da “nuvem” que me dá um aspecto no mínimo desfocado - que raio, pareço uma doida!.
Atravesso o corredor fervilhante. Dentro do elevador olho para o espelho e tomo consciência de que estou uma lástima, para não variar. Os olhos ainda inchados, a pele a precisar de praia, o cabelo loiro “quase até à raiz”. - À chegada ao 2º já vai enrolado num nó porque senão já pareço uma peruca de arame. Chego ao meu lugar mais apresentável, acho eu.
Pouso a mala aberta enquanto murmuro um bom dia discreto. A mala cai, apanho-a do chão duvidoso, sacudo-a vagamente, observo por um instante e com espanto crescente, a indescritível montanha de tralha espalhada à minha volta. Catálogo de roupa de criança a aguardar tempo de antena, conta do telemóvel (nem sei se já está paga), segundo aviso da conta do gás, notificação das finanças com data de há um mês, talões de multibanco, o pincel de um batôn que não sei onde anda. Enfim, o elástico favorito desaparecido há séculos, isqueiro, uma mola partida, a carteira também ela a precisar de limpeza, agenda electrónica sem bateria há semanas. Tudo amarfanhado e velho, abundanetemente regado a migalhas de tabaco. Comando, nem vê-lo. Atiro a tralha de novo para dentro da mala enquanto faço uma nota mental para não me esquecer de a arrumar à noite. Fico irritada comigo mesma por chutar tudo para depois e juro, mas juro com convicção que de hoje não passa. Pouso a mala de novo, mas desta vez fechada, e finalmente sento-me, respiro fundo e olho à volta. Faço sempre isto. Assim que me sento olho à volta. Não sei bem para quê mas deve ser para constatar mais uma vez que fui a última a chegar.
Atravesso o corredor fervilhante. Dentro do elevador olho para o espelho e tomo consciência de que estou uma lástima, para não variar. Os olhos ainda inchados, a pele a precisar de praia, o cabelo loiro “quase até à raiz”. - À chegada ao 2º já vai enrolado num nó porque senão já pareço uma peruca de arame. Chego ao meu lugar mais apresentável, acho eu.
Pouso a mala aberta enquanto murmuro um bom dia discreto. A mala cai, apanho-a do chão duvidoso, sacudo-a vagamente, observo por um instante e com espanto crescente, a indescritível montanha de tralha espalhada à minha volta. Catálogo de roupa de criança a aguardar tempo de antena, conta do telemóvel (nem sei se já está paga), segundo aviso da conta do gás, notificação das finanças com data de há um mês, talões de multibanco, o pincel de um batôn que não sei onde anda. Enfim, o elástico favorito desaparecido há séculos, isqueiro, uma mola partida, a carteira também ela a precisar de limpeza, agenda electrónica sem bateria há semanas. Tudo amarfanhado e velho, abundanetemente regado a migalhas de tabaco. Comando, nem vê-lo. Atiro a tralha de novo para dentro da mala enquanto faço uma nota mental para não me esquecer de a arrumar à noite. Fico irritada comigo mesma por chutar tudo para depois e juro, mas juro com convicção que de hoje não passa. Pouso a mala de novo, mas desta vez fechada, e finalmente sento-me, respiro fundo e olho à volta. Faço sempre isto. Assim que me sento olho à volta. Não sei bem para quê mas deve ser para constatar mais uma vez que fui a última a chegar.
Mãe é tudo
Em criança, quando me perguntavam pela profissão da minha Mãe eu respondia
- Doméstica.
Se me perguntavam ,o que é isso, eu respondia de imediato:
- Não faz nada.
************
Quando eu e os meus irmãos andavamos na escola não almoçavamos lá como a maioria das outras crianças. Porque a nossa mãe não fazia nada íamos sempre almoçar a casa. E não gostávamos. Em casa comia-se muitas vezes peixe, salada, sopas, frutas. Sobremesas só em dias de festa e refrigerantes idem. Uma seca.
Era durante essas horas que a minha mãe que não fazia nada, cosia um botão, trocava uma camisola, substituia o lápis partido, desenhava com mercúrio uma maçã num joelho esfolado.
Chegávamos da escola a meio da tarde. A minha mãe estava em casa para nos receber. Era a hora de nos ajudar com os trabalhos de casa e de se certificar de que não faltava nada para o dia seguinte. Nunca nenhum de nós soube qual era a sensação de não levar as sapatilhas no dia de ginástica ou de ter de explicar à professora a falta de um compasso. Nunca aconteceu ir à despensa e constatar que não havia bolachas, leite, farinha, fita cola, tira nódoas, panos de pó. Queríamos fazer um cozinhado e não faltava nada. Muitas vezes, só o dinheiro para se vestir de novo ou fazer férias faltava. E nós não dávamos por isso.
Porque a minha mãe não fazia nada.
Na escola eram famosas as nossas máscaras. Em Carnavais consecutivos, sem gastar um tostão, a minha mãe colocava-nos no podium dos concursos. Recortava, colava, acrescentava, cosia, pintava, remendava. E aturava. Porque não fazia nada.
Cresci sem jamais pôr em causa a evidência de que a minha mãe estaria sempre lá : nas festas da escola, da ginástica, do judo, do ballet; nas reuniões de pais, nas chegadas de passeios, nas partidas para férias, no último dia de escola, na primeira menstruação . Nunca questionei que uma mãe soubesse tudo. A minha sabia. Sempre com a mesma segurança foi fada dos dentes, costureira, médica, psicóloga, monstro, veterinária, electricista, professora, jardineira, encenadora.
Cresci sem dar valor a detalhes como os cheiros da minha casa. O óleo de cedro, os roupeiros primorosos, o café fresco, as toalhas de banho, a cama lavada, são aromas que ainda consigo sentir quando lá entro.
Cresci com a certeza de que qualquer coisa, pouco utilizada que seja, estará sempre limpa à frente, por trás, debaixo e entre.
Cresci numa casa onde era banal ser a minha mãe a tratar as mazelas - fisicas e psíquicas - dos nossos amigos. Certamente foi ela, muitas vezes, a única que os ajudou, também a eles. Que ouviu, apoiou e tratou todos quantos precisaram.
Era sempre ela quem levantava os estores para nos acordar e quem apagava as luzes quando já todos dormiam de noite. Mas não fazia nada.
Como não fazia nada, a minha mãe via de facto os filhos quando olhava para nós. Com um olhar apenas, a minha mãe percebia. Não perguntava, lia. Não castigava, apelava. Fazia-se desentendida, deixava passar o que não merecia o esforço. Deixou-nos ser crianças enquanto pode e fez-nos crescer quando chegou a hora. Não nos julgava e não nos comparava. Não fazia nada.
Cresci habituada a vê-la chorar. Mais. Cresci habituada a vê-la perdoar.
Nunca perdi tempo a pensar que uma mãe perdoa tudo aos filhos, esquece tudo pelos filhos, recomeça sempre pelos filhos, mas sofre infinitamente mais por eles.
- Doméstica.
Se me perguntavam ,o que é isso, eu respondia de imediato:
- Não faz nada.
************
Quando eu e os meus irmãos andavamos na escola não almoçavamos lá como a maioria das outras crianças. Porque a nossa mãe não fazia nada íamos sempre almoçar a casa. E não gostávamos. Em casa comia-se muitas vezes peixe, salada, sopas, frutas. Sobremesas só em dias de festa e refrigerantes idem. Uma seca.
Era durante essas horas que a minha mãe que não fazia nada, cosia um botão, trocava uma camisola, substituia o lápis partido, desenhava com mercúrio uma maçã num joelho esfolado.
Chegávamos da escola a meio da tarde. A minha mãe estava em casa para nos receber. Era a hora de nos ajudar com os trabalhos de casa e de se certificar de que não faltava nada para o dia seguinte. Nunca nenhum de nós soube qual era a sensação de não levar as sapatilhas no dia de ginástica ou de ter de explicar à professora a falta de um compasso. Nunca aconteceu ir à despensa e constatar que não havia bolachas, leite, farinha, fita cola, tira nódoas, panos de pó. Queríamos fazer um cozinhado e não faltava nada. Muitas vezes, só o dinheiro para se vestir de novo ou fazer férias faltava. E nós não dávamos por isso.
Porque a minha mãe não fazia nada.
Na escola eram famosas as nossas máscaras. Em Carnavais consecutivos, sem gastar um tostão, a minha mãe colocava-nos no podium dos concursos. Recortava, colava, acrescentava, cosia, pintava, remendava. E aturava. Porque não fazia nada.
Cresci sem jamais pôr em causa a evidência de que a minha mãe estaria sempre lá : nas festas da escola, da ginástica, do judo, do ballet; nas reuniões de pais, nas chegadas de passeios, nas partidas para férias, no último dia de escola, na primeira menstruação . Nunca questionei que uma mãe soubesse tudo. A minha sabia. Sempre com a mesma segurança foi fada dos dentes, costureira, médica, psicóloga, monstro, veterinária, electricista, professora, jardineira, encenadora.
Cresci sem dar valor a detalhes como os cheiros da minha casa. O óleo de cedro, os roupeiros primorosos, o café fresco, as toalhas de banho, a cama lavada, são aromas que ainda consigo sentir quando lá entro.
Cresci com a certeza de que qualquer coisa, pouco utilizada que seja, estará sempre limpa à frente, por trás, debaixo e entre.
Cresci numa casa onde era banal ser a minha mãe a tratar as mazelas - fisicas e psíquicas - dos nossos amigos. Certamente foi ela, muitas vezes, a única que os ajudou, também a eles. Que ouviu, apoiou e tratou todos quantos precisaram.
Era sempre ela quem levantava os estores para nos acordar e quem apagava as luzes quando já todos dormiam de noite. Mas não fazia nada.
Como não fazia nada, a minha mãe via de facto os filhos quando olhava para nós. Com um olhar apenas, a minha mãe percebia. Não perguntava, lia. Não castigava, apelava. Fazia-se desentendida, deixava passar o que não merecia o esforço. Deixou-nos ser crianças enquanto pode e fez-nos crescer quando chegou a hora. Não nos julgava e não nos comparava. Não fazia nada.
Cresci habituada a vê-la chorar. Mais. Cresci habituada a vê-la perdoar.
Nunca perdi tempo a pensar que uma mãe perdoa tudo aos filhos, esquece tudo pelos filhos, recomeça sempre pelos filhos, mas sofre infinitamente mais por eles.
Carnavais
- Inês, chega! Pára com isso! Assim não conseguimos sair de casa, filha. Tens de escolher só uma e depressa. Não tarda estamos tão atrasados que mais vale ficarmos em casa, é isso que queres, querida? Tira daí a mão Joana, vais estragar a mesa, bolas! Inês, veste-te lá e vai ver onde é que andam os teus irmãos. Estamos tão atrasados, Cristo! Qualquer dia sou despedida e depois quero ver. Mascaram-se mas é para irem andar às esmolas!
Madalena corre do quarto para a sala, para a cozinha, para a casa de banho, de novo para a cozinha, de volta ao quarto. Enfia as calças pretas, a camisola de gola alta, o blazer de veludo. Relanceia um olhar pelo espelho e pensando nas palavras da irmã, sorri para si. Hippie? Quem lhe dera! Isso era dantes. Agora era apenas uma mãe/mulher/profissional a tentar fazer o possível. Amarra o cabelo num rabo de cavalo apressado, engole o resto do iogurte e continua.
– Francisco, despacha-te com isso, caramba, são só cereais! E de manhã não há playstation. Quantas vezes é que eu tenho de dizer as mesmas coisas, criaturas? Lavaste os dentes? Inês, o que é isso, filha? Não, querida, não é um rabo de cavalo e não não estás como eu. Isso mais parece o rabo de uma doninha irritada. Dá cá que eu faço como deve ser. Assim. Que boneca, vê lá ao espelho. Igualzinha à mãe, agora sim.
O Tomás? Tomááás! Estás aqui, gordo? Dá cá que a mãe aperta. Sim querido, o Homem Aranha também usa ténis. Sim, e também usa capa de chuva quando chove como hoje, claro. Não, amor. Capacete não, vai lá arrumar isso. Diooooogoooooo! Alguém viu o Pai? Ainda está na casa de banho?
- Diogo, importas-te? Será que o senhor barão pode levantar o rabinho do trono e dar uma ajudinha antes que me dê uma coisa?
- Calma, general, estou a acabar. Já não se pode vir à casa de banho em paz?
- Quando tens quatro crianças para entregar mascaradas na escola daqui a vinte e cinco minutos, não, não podes. Vês-me por acaso sentada na sala a ler uma revista? Pois é. Mexe-te! Vá lá!
- Disseste quatro? A Joaninha também vai mascarada, coitadinha?
- Coitadinha porquê? Está tão feliz vestida de flor. Está farta de dançar. Anda lá ver. O Francisco é que me deixa doente. Tens de falar com ele. Não larga a porcaria da playstation, parece um bicho. E nem queria vestir o fato, depois da trabalheira que eu tive. Obriguei-o, olha. Está tão giro de Zorro, todo charmoso.
- Aquele é que ainda nos vai dar dores de cabeça. Sabes que...
Mas Madalena já tinha desaparecido.
Pouco depois volta a meter a cabeça pela porta da casa de banho.
- Podes levá-los tu?
- Eu? Nem penses, já devia estar numa reunião.
- Tem piada. Tem mesmo graça. Estás há horas sentado na retrete a ler uma revista, e quando eu te peço uma coisa, por uma vez, dizes logo que não podes. Logo hoje que tenho a apresentação para fazer, é que vou chegar atrasada. Claro porque os filhos são só meus, não é? As responsabilidades são só minhas. Até parece que os fiz sozinha.
- Lá vens tu com a treta da conversa. Não é nada disso. Estou atrasado para uma reunião, mais nada. Se fosse outro dia eu ia. Vou amanhã. Hoje não.
- Então também vou fazer isso. Hoje não posso ir levá-los. Ficam em casa, pronto. Tomam conta uns dos outros. É assim? Estou atrasada, Diogo. A Inês já mudou quinhentas vezes de roupa, porque a fada não tem chapéu e a bailarina não pode ir de botas e mais sei lá eu o quê. O Francisco está feito parvo agarrado à maquineta e ainda nem sequer lhe fiz o bigode, a Joana anda a pintar a sala com as canetas de feltro e o Tomás passeia-se calmamente com o teu capacete enfiado. Há roupa espalhada por toda a casa e a cozinha está um pandemónio. Podes colaborar, ou não?
Diogo entra na sala a bater com os pés com muita força no chão de madeira. Arqueia os braços, enche o peito de ar e muito direito, com o sorriso mal disfarçado pela careta feroz, berra:
– Praças! Atenção! Revista!
Em menos de nada a fada enfia um gorro de Pai Natal, o Zorro aparece de bigode pintado a caneta de feltro e o capacete desaparece engolido pelo caos.
Perdido de riso, Diogo coloca-se ao lado dos filhos.
– Sentido! Peito para fora! Barriga para dentro! Continência! – E depois, voltando-se para a mulher:
- Como vê, senhora generala, é tudo muito simples. Os seus soldados estão prontos e sem stress nenhum. Não estamos, companheiros? Do resto trata-se depois.
Companhia! Marche!
Agora, mãe, podes calçar uns sapatos, ou vais de chinelos?
Madalena corre do quarto para a sala, para a cozinha, para a casa de banho, de novo para a cozinha, de volta ao quarto. Enfia as calças pretas, a camisola de gola alta, o blazer de veludo. Relanceia um olhar pelo espelho e pensando nas palavras da irmã, sorri para si. Hippie? Quem lhe dera! Isso era dantes. Agora era apenas uma mãe/mulher/profissional a tentar fazer o possível. Amarra o cabelo num rabo de cavalo apressado, engole o resto do iogurte e continua.
– Francisco, despacha-te com isso, caramba, são só cereais! E de manhã não há playstation. Quantas vezes é que eu tenho de dizer as mesmas coisas, criaturas? Lavaste os dentes? Inês, o que é isso, filha? Não, querida, não é um rabo de cavalo e não não estás como eu. Isso mais parece o rabo de uma doninha irritada. Dá cá que eu faço como deve ser. Assim. Que boneca, vê lá ao espelho. Igualzinha à mãe, agora sim.
O Tomás? Tomááás! Estás aqui, gordo? Dá cá que a mãe aperta. Sim querido, o Homem Aranha também usa ténis. Sim, e também usa capa de chuva quando chove como hoje, claro. Não, amor. Capacete não, vai lá arrumar isso. Diooooogoooooo! Alguém viu o Pai? Ainda está na casa de banho?
- Diogo, importas-te? Será que o senhor barão pode levantar o rabinho do trono e dar uma ajudinha antes que me dê uma coisa?
- Calma, general, estou a acabar. Já não se pode vir à casa de banho em paz?
- Quando tens quatro crianças para entregar mascaradas na escola daqui a vinte e cinco minutos, não, não podes. Vês-me por acaso sentada na sala a ler uma revista? Pois é. Mexe-te! Vá lá!
- Disseste quatro? A Joaninha também vai mascarada, coitadinha?
- Coitadinha porquê? Está tão feliz vestida de flor. Está farta de dançar. Anda lá ver. O Francisco é que me deixa doente. Tens de falar com ele. Não larga a porcaria da playstation, parece um bicho. E nem queria vestir o fato, depois da trabalheira que eu tive. Obriguei-o, olha. Está tão giro de Zorro, todo charmoso.
- Aquele é que ainda nos vai dar dores de cabeça. Sabes que...
Mas Madalena já tinha desaparecido.
Pouco depois volta a meter a cabeça pela porta da casa de banho.
- Podes levá-los tu?
- Eu? Nem penses, já devia estar numa reunião.
- Tem piada. Tem mesmo graça. Estás há horas sentado na retrete a ler uma revista, e quando eu te peço uma coisa, por uma vez, dizes logo que não podes. Logo hoje que tenho a apresentação para fazer, é que vou chegar atrasada. Claro porque os filhos são só meus, não é? As responsabilidades são só minhas. Até parece que os fiz sozinha.
- Lá vens tu com a treta da conversa. Não é nada disso. Estou atrasado para uma reunião, mais nada. Se fosse outro dia eu ia. Vou amanhã. Hoje não.
- Então também vou fazer isso. Hoje não posso ir levá-los. Ficam em casa, pronto. Tomam conta uns dos outros. É assim? Estou atrasada, Diogo. A Inês já mudou quinhentas vezes de roupa, porque a fada não tem chapéu e a bailarina não pode ir de botas e mais sei lá eu o quê. O Francisco está feito parvo agarrado à maquineta e ainda nem sequer lhe fiz o bigode, a Joana anda a pintar a sala com as canetas de feltro e o Tomás passeia-se calmamente com o teu capacete enfiado. Há roupa espalhada por toda a casa e a cozinha está um pandemónio. Podes colaborar, ou não?
Diogo entra na sala a bater com os pés com muita força no chão de madeira. Arqueia os braços, enche o peito de ar e muito direito, com o sorriso mal disfarçado pela careta feroz, berra:
– Praças! Atenção! Revista!
Em menos de nada a fada enfia um gorro de Pai Natal, o Zorro aparece de bigode pintado a caneta de feltro e o capacete desaparece engolido pelo caos.
Perdido de riso, Diogo coloca-se ao lado dos filhos.
– Sentido! Peito para fora! Barriga para dentro! Continência! – E depois, voltando-se para a mulher:
- Como vê, senhora generala, é tudo muito simples. Os seus soldados estão prontos e sem stress nenhum. Não estamos, companheiros? Do resto trata-se depois.
Companhia! Marche!
Agora, mãe, podes calçar uns sapatos, ou vais de chinelos?
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