Para mulheres chatas, para mulheres que acham que são chatas, para mulheres que acham que os homens as acham umas chatas, para homens chatos, para homens que acham as mulheres umas chatas, para mulheres que acham os homens uns chatos porque as acham umas chatas... Para toda a gente, portanto.
quarta-feira, outubro 07, 2009
Para contar uma tenho de contar outra antes.
Ao que parece, nos anos de juventude, ele e uns “colegas” foram passar uns dias ao Norte e alugaram uma casinha a uma velhota. Quando lá chegaram e a senhora constatou que afinal os marmanjos eram bem mais do que o combinado e achou por bem pedir uns cobres extra aos rapazes.
Eles é que não acharam piada nenhuma ao atrevimento da senhora. Pois se estavam lisos e até tinham arranjado mais uns amigalhaços para aliviar a despesa, que sentido fazia esse disparate? Portanto, fizeram-lhe um manguito e mandaram-na passear. A senhora, nortenha e zangada derivado à afronta dos fedelhos, toca de lhes berrar aos ouvidos, num português cristalino como água de nascente - passo a citar – “Ide-vos foder, seus coninhas!”.
Reparem bem na sofisticação, na subtileza quase poética, na complexidade técnica do imperativo plural colocado na segunda pessoa, com o intuito de reforçar o sentido da ordem ao aumentar a distância imaginária entre emissor e receptor...
Não sei se foi do vinho do jantar (que naquela casa se bebe bem, bebe), se o que foi, mas adorei a história e, logo no momento decidi incluír a expressão no meu vastíssimo léxico. É claro que o decoro me impede de andar por aí a lançar petardos deste gabarito, pelo que tenho passado este último ano e meio a soltar inocentes “ide-vos”, a torto e a direito – motivo de risota constante, primeiro quando eu explicava o significado da expressão, depois porque já muita gente a conhece e acabou por se transformar numa espécie de private joke.
Só que às vezes, no meio destas brincadeiritas pueris, nós olvidamos pequenos detalhes, tais como a existência dos nossos amantíssimos descendentes e sua consequente e muito contemporânea omnipresença nas horas em que estamos assim mais por casa.
Esse detalhe teve como resultado que, no passado Domingo, quando eu disse aos meus piquenos que ia dar o Ídolos, o Vasquinho ficou muito contente – demasiado contente – com o título do programa. Que era muito giro, muito engraçado e ria, ria. E eu, nada, incrédula a avaliar-lhe o estado da psique, uma pontinha de febre, talvez.
De súbito, encarou-me com os olhos espantados, aqueles que ele põe sempre que a dúvida o toma de assalto, e acrescentou – É ide-vos para onde, mãe?
sexta-feira, outubro 02, 2009
Faz agora três anos...
Igual a si próprio, não se preocupou mínimamente com as susceptibilidades que tal decisão poderia ferir - apenas resolveu fazer assim. E quem não fosse convidado é porque não estava incluído no rol dos Eleitos, logo, se ficasse aborrecido, que metesse uma rolha.
Quando tivemos de decidir que presente oferecer, nós, os filhos mais velhos, demos voltas e voltas às nossas quase todas loiras cabecinhas. É que o senhor trata de adquirir rigorosamente tudo aquilo que quer, no preciso momento em que o desejo se manifesta. Isso é óptimo para ele, que vive contente, mas dificulta sobremaneira a vida ao resto da população.
Após aturado brainstorming concluímos que, se ele fazia questão de carregar de simbolismo o momento da sua passagem a sexagenário, então seria esse o nosso caminho: fazer um DVD com fotografias, para projectar depois da ceia.
Felizmente, a nossa mãe é uma pessoa extraordinária, pois compilou os momentos mais marcantes da vida dos quatro filhos em albuns ordenados cronológicamente, que foi oferecendo a cada um à medida que voávamos para fora do ninho. Ainda por cima, mesmo estando eles divorciados há quase vinte anos, a senhora conservou todos os albuns relativos aos anos de casamento. E como o nosso Pai casou segunda vez, já tem carradas de fotos dos anos mais recentes.
Resumindo, entrámos em pânico. Eram milhares e milhares de fotografias para seleccionar e o tempo, para não variar, muito escasso.
Passamos rapidamente à definição de critérios: apesar de não parecer nada, o Dr. é um piegas e chora com relativa facilidade. Por isso mesmo, o que nós pretendíamos era obter um momento simbólico, mas que não fosse deprimente nem constrangedor para ninguém.
Vai daí, decidimos reduzir ao mínimo indispensável as fotos onde aparecesse a nossa mãe e aquelas onde estivessem pessoas já falecidas – como o Avô e a Tia Teresa.
Primeira triagem feita e continuavam a ser centenas.
Passamos ao segundo critério: só seriam seleccionadas fotos onde ele estivesse presente e, quanto mais caricata, ridicula e divertida fosse a foto, melhor. Afinal trata-se de um homem que adora divertir-se e estar rodeado de pessoas animadas, pelo que essa tarefa foi a mais simples para nós.
Triagem concluída, passamos à digitalização – ah, como os nossos filhos terão a vida facilitada!
Já que não tinha participado muito nessa fase, ofereci-me para, com a mana mais velha, produzir efectivamente, o dito DVD.
Na antevéspera da festa fomos para minha casa e estivemos entre as 21H e as 05 da manhã, as duas sentadas à frente de um computador a tirar, pôr, acrescentar, cortar, alterar, juntar e ampliar fotografias. No final, já meio vesgas, lembrámos-nos que ainda tínhamos de escolher uma música. O voto foi unânime: tinha de ser o My Way.
Quem conheça o meu Pai saberá que digo a verdade – foi para ele e não para Frank Sinatra, que Paul Anka escreveu aquela letra. Sem sombra de dúvidas.
Pesquisa feita, lá gamámos a versão da net.
Ainda hoje, quando me lembro dessa madrugada, me comovo. Tenho a impressão que terá sido o maior pranto que partilhei com alguém na minha vida. O DVD estava suave, romântico, uma retrospectiva muito positiva de uma vida que foi, e felizmente ainda é, uma vida cheia. Absolutamente perfeito.
Portanto – lixo.
Era tudo o que nós não queríamos. Intensidade dramática aos pontapés, emoções à flor da pele. Quase uma despedida.
Pior – se nós as duas completamente sóbrias, tínhamos ficado naquele pranto, imagine-se a reacção do grupo depois de um jantar bem ensopado, como acontece nestas alturas. Fora de questão.
Mais uma hora e acabamos por escolher o “Simply the Best” da Tina Turner. Coadunava-se bem com a ideia que o meu Pai tem de si próprio – um ego maior que Júpiter - e era uma música animada, que até dava para dançar. Nada de lamechices nem choradeiras. Festas querem-se alegres, não é?
Então deviam ter visto o resultado.
Nem quero imaginar se tivesse ficado o My Way.
quarta-feira, setembro 30, 2009
Coisas de gaja
Na realidade, estou numa fase maravilhosa da minha existência enquanto profissional da maternidade. As minhas crianças já estão bastante crescidas, o que quer dizer que começam a dispôr de alguma... (deixem-me cá saborear esta palavra linda) au-to-no-mi-a.
Apenas quem já passou por isto poderá compreender uma mãe que se encontre no estado em que eu estou – o puro deleite, o prazer sublime, o absoluto êxtase que se apodera da pessoa no dia em que deixa de fazer tudo para começar a mandar fazer algumas coisas.
Neste momento amo algumas frases, que me soam a música tocada por anjos quando se soltam da minha exausta faringe e, mais maravilhoso de tudo, sem eu me mexer.
Na realidade, é mesmo possível dar-se ordens em todos os tipos de frase da nossa língua. Temos o clássico imperativo parental: vão lavar os dentes e o seu negativo: não sais de casa vestida assim, mas podemos sempre utilizar um agradável interrogativo como: já vestiram os pijamas? ou mesmo um sonso exclamativo do género: que linda, já sabe limpar o rabinho!
Haverá poesia mais bela?
Haverá momento mais formidável na vida de uma mãe que aquele em que ela, terminando a esmerada refeição acabadinha de confeccionar pelo marido, senta-se no sofá novo do IKEA e solta displicentemente: quando acabarem ponham a loiça na máquina, e eles põem mesmo?
Isto já para não falar no jeito que dá. Nestes dias tenho posto em prática algumas regras de responsabilização dos mais velhos, do género irem ao Polisuper comprar pão enquanto eu fico estacionada em segunda fila ou espreitarem ali na papelaria se a Gramática encomendada já chegou. Coisas simples que além de os ajudarem a exprimir-se e a orientar-se, ainda os obrigam a conferir os trocos. Um jeitão, mesmo.
Bom, lá estou eu, mas a certa altura a coleguinha dobrou-se para retirar o petiz no carrinho afim de proceder à amamentação do mesmo, deixando ao apreço de todos os embasbacados presentes os extraordinários atributos com que se encontra dotada nesta fase da sua vida.
E aí é que eu percebi o sentimento que me tinha toldado a razão minutos antes. Era saudade sim, mas de me fazer acompanhar por um decote daqueles.
terça-feira, setembro 29, 2009
Para mim ser fashion victim é isto:
O que eu quero dizer é apenas isto - se pespegássemos na montra da Louis Vuitton dos Champs Elysées, uma saca de batatas nojenta, rasgada e fétida, quantos segundos levaria a ser vendida e por quantos milhares de euros?
sexta-feira, setembro 25, 2009
Ora vamos lá sufragar!
Reflectirei agora, pois, e convido-vos a virem comigo.
Resumindo, ao longo destas duas semanas ficámos a saber que:
O sô José
Adora os filhos;
Não gosta de levar tampas;
O Zapatero é o seu novo melhor amigo;
Não “escuta” ninguém, nem escuta ninguém;
Nunca vai às compras ao Freeport.
A Dª Manuela
Não quer a “asfixia democrática”, mas a asfixia do Primeiro - Ministro;
Dá chutos na gramática para não os dar no queixo do Primeiro- Ministro;
Não quer o TGV porque é Trabalho para Gandulos e Vândalos;
Acha que viver na Madeira é que é bom;
Usa sempre o mesmo colar porque gosta dele.
O sô Francisco
Não usa gravata
Não anda de carrrrro (quase nunca)
Não acha rrrridiculo perder tempo a impedir rrrrrrodeos
O sô Paulo
Anda a faltar aos branqueamentos;
Gostava muito que o deixassem brincar à Batalha Naval outra vez;
Finge lindamente que adora peixeiras, ciganas e que a pele dele é mesmo daquela cor.
O sô Jerónimo
Está um bocadinho mais gordo;
É muito espontâneo desde que prepare o que vai dizer;
Adora os netos.
Portanto, isto foi o que aprendi durante a campanha, agora, ouvi dizer que há um tal de Programa Eleitoral, mas eu é que não sei em que canal dá, ainda não consegui apanhar nenhum.
Se o virem avisam-me?
Obrigadinha.
quinta-feira, setembro 24, 2009
Eu gosto é do Verão...
Gosto de acordar de manhã e vestir apenas três peças de roupa, de não ter de secar o cabelo às crianças, de ter um chão em casa em vez de um lamaçal, de apanhar menos trânsito de manhã, do tom da minha pele bronzeada, de jantar na varanda com o meu maridão, de andar de bicicleta, de não ter o carro cheio de casacos. E gosto da luz que o sol dá aos olhos dos meu filhos.
Mas confesso que nesta altura já me apetece um acentuado arrefecimento da temperatura do ar.
Tenho saudades das tardes chuvosas e espapaçadas passadas em família, a tentar ver o Notting Hill só com um olho aberto, depois de termos ingerido dois quilos de scones com manteiga e compota.
Não é que no Verão não se possa fazer isso, mas é um desperdício tão grande, que acabamos sempre por dar com os costados na praia, na piscina ou noutro sitio qualquer que tenha ar livre.
Só quando está frio é que podemos, sem dores de consciência, perder tempo. O nosso tempo precioso de fim de semana de cidadãos trabalhadores.
E eu tenho saudades disso.
Ou então esotu com esta conversa porque comprei umas botas espantosamente maravilhosas e quero calçá-las AMANHÃ!
terça-feira, setembro 22, 2009
O Porquê das coisas
Nessa altura li todas as colecções que havia no quarto do meu irmão, desde Os Cinco ao Colégio das Quatro Torres, passando pela Patrícia, pela Carlota, pelos Sete e pelas Gémeas no Colégio de Santa Clara.
Mas isto foi depois de a minha mãe perceber que eu andava a saciar o meu aborrecimento nas prateleiras dos seus aposentos, com umas tentativas pueris de compreender um qualquer Sexus que andava por ali, entre outras maravilhas da literatura pós lápis azul.
Todavia, a melhor obra que me foi dada a ler nessa época foi um livro que ofereceram ao meu irmão e que fez as minhas delícias durante uns dias - li-o de uma assentada - chamava-se: O Porquê das Coisas.
Tanto que eu aprendi naquelas páginas: porque deitam os cães a língua de fora? Porque é o céu azul? Porque é impossível espirrar sem fechar os olhos?
Ainda se vende, imagine-se! Mas agora deve ter perguntas mais do género: porque faz o computador shut down quando retiramos a memória RAM do disco? Porque bloqueia o processador se repetirmos não sei o quê que está errado e é estúpido?
Bem, lá estou eu.
Isto tudo para chegar aqui - sou curiosa, interesso-me por tudo, pelas pessoas, e há umas coisinhas que se passam neste mundo que eu pura e simplesmente não consigo perceber.
Portanto, faz-me falta um livro dos Porquês mas para crescidos, que tenha lá, assim de repente, duas respostazinhas:
- Porque correm as pessoas para as filas?
Esta é a primeira porque é, de todas, a que me faz mais confusão. Quem já esteve numa sala de embarque sabe de que falo: hordas de gente a correr, atropelar-se, a acotovelar-se para a porta de embarque, para se prostrarem um minuto depois, ordeiros e pacientes, verticalíssimos, de bagagem de mão em riste, numa fila que anda mais devagar que o cérebro do Recruta Zero. E com que objectivo? O de ficarem mais tempo dentro do avião, mesmo sabendo que, para ele levantar os passageiros têm de entrar todos primeiro - aquilo não é como os carros, em que se pode arrancar com a porta mal fechada.
- Porque rapinam as pessoas tudo o que vêem?
Nauticampo, Fevereiro de 1983 - uma família de seis pessoas atravessa a feira com estrépito: cada adulto arrasta iradamente um par de crianças, que arrastam por sua vez, atrás de si, sacas e sacadas de canetas, pins, porta-chaves e autocolantes (ah, esses maravilhosos autocolantes...), que tencionam levar para casa e com eles forrar todas as paredes, janelas e portas que se atravessarem no caminho.
Mas isto foi há muito tempo, na época em que não havia coisas diferentes, importadas, estrangeiras. Havia apenas autocolantes oferecidos nas feiras e que as crianças saqueavam. O que me espanta é essas crianças, que são os adultos de hoje e andam no trânsito a buzinar e a dizer palavrões, continuarem a ter esse tipo de comportamentos. E os filhos deles a repeti-los.
Malta, não é preciso andarem ao estalo por balões no Jardim Zoológico, por pacotinhos de Ice tea oferecidos em Belém ou por folhetos mal impressos atirados de um avião na praia de Santa Cruz! E podem devolver ao senhor Armindo da padaria o troco enganado e não precisam de aceitar o Bocadellia que as meninas andam a oferecer mas ninguém lá em casa gosta, ouviram?
Irra!
sexta-feira, setembro 18, 2009
Ora dá cá um...
A questão filosófica era, a beijoca - havia quem defendesse que as crianças devem sempre cumprimentar toda a gente de beijinho, eu dizia redondamente que não.
O argumento pro-beijo era que se trata apenas de uma questão de educação - quem não beija é mal educado. Pronto.
Mas isso não é assim. A coisa não é tão simples como pode parecer - o problema alcança uma distância bem mais profunda. Pode até levar à ruina de uma família. Bom, vá, talvez nem tanto, mas pode deixar marcas.
Vejamos:
Beijar é um acto universal de demonstração de afecto, certo? Em algumas sociedades catar os piolhos também o é e não é por isso que andamos por aí a espiolhar-nos uns aos outros - por acaso até há quem ande, mas pronto.
E devemos ensiná-los a demontrar esse afecto por qualquer pessoa? Devemos ensinar os nossos meninos a pular para o colo da ministra da Educação que foi à escola inaugurar a cantina, do senhor Joaquim da mercearia, da senhora da carrinha que vai buscar o recente colega de natação, do namorado da irmã mais velha do primo da melhor amiga, e beijá-los profusamente?
Bem me parecia.
Agora, se passamos os primeiros dez anos da vida deles a obrigá-los a beijar tudo o que mexe, poderemos surpreender-nos quando se tornarem beijadores compulsivos? Como reagiremos quando a filha da nossa amiga for conhecida por Marrona, a amiga dela por Ferrinhos, a outra por Batoque e a sobrinha da vossa irmã, de repente passar a ser a Beijona? Como impedir o nascimento prematuro de uma daquelas reputações capazes de a preceder por uma adolescência inteira e ainda parte da idade adulta? Haja coerência!
Só para cimentar esta ideia, vamos lá debruçar-nos sobre alguns conceitos:
Cumprimento:
Acto de cumprir.
2. Execução; observância.
3. Acto!Ato de cumprimentar; saudação; vénia.
4. Cerimónia.
dar cumprimento: executar, cumprir.
por cumprimento: por cerimónia (mas sem vontade).
Esta defenição foi retirada ipsis verbis do Dicionário de Lingua Portuguesa da Porto Editora. E que eu veja não diz em lado nenhum que das definições de cumprimento façam parte os actos de: beijar; beijocar; afinfar beijocas fôfas em bochechas gordas e sapudas de velhotas enjoativas; sugar pequenos pedaços àsperos das faces suadas de cavalheiros com halitose; encostar a boca a uma superficie e emitir um som ridiculo parecido com o que o desentupidor de canos faz no lavatório.
Aqui fala-se em vénia, por exemplo. O acto de cumprimentar com cerimónia, guardando uma certa distância. Uma coisa muito mais elegante, civilizada e higiénica que poderá até preservar os nossos meninos de gripes, constipações e isso. Assim sim. Como eu gostaria de ver os meus esterilizados meninos a fazerem vénias a torto e a direito, tão arrumadinhos e primorosos.
Deixemos de sonhar. Temos outro conceito:
Beijo:
s. m.
1. Acção de beijar.
2. Toque de lábios em pessoa ou coisa.
3. Ósculo.
beijo de Judas: beijo traiçoeiro.
beijo de paz: o que se dá em sinal de reconciliação.
Cá está - Onde é que diz aqui - cumprimento; forma de cumprimentar outrém?
Exacto. Não diz.
Aliás, fala-se aqui de beijo traiçoeiro e de beijo de paz. Eu é que não estou a ver nenhum destes como motivo para fazer os nossos pequenos principes andarem a esbeijocar o mundo inteiro. traíram alguém? Não. Têm de pedir perdão por terem nascido? Também não.
Nem sequer nos estou a ver, mães e pais extremosos, a enfiar o Zovirax na lancheira do almoço dos nossos petizes, logo ali ao lado do Clearasil e da sande de Nutella.
Ah, podem vir ainda perguntar então como é que se cumprimenta alguém de quem não se gosta ou que não se conhece?
Simples. Se ensinamos os nossos filhos a serem sinceros, fontais e a não dizerem mentiras, é nosso dever, nossa obrigação, estimular essas qualidades - por isso não devem, pura e simplesmente cumprimentar pessoas de quem não gostam. E já que os ensinamos a nunca, jamais em tempo algum, falarem com desconhecidos, então, em nome da lógica e da coerência, também não devem cumprimentar aqueles que não conhecem.
Assunto arrumado.
Pronto, tudo bem, uma pancadinha nas costas, um passou bem, vá. Mas depois desinfectam as mãozinhas, sim?
Já agora, essa de catar os piolhos, podíamos instituir, não?
segunda-feira, setembro 14, 2009
"Como ir comer um gelado ao Santini e pagar quatro mil euros?" 11 pequenos passos.
2 - Arranja-se uma festa para ir e discute-se acaloradamente com o marido antes de sair.
Isso levará a que tenham de se deslocar em dois carros até à casa da avó que vai ficar a tomar conta dos petizes, o que levará de seguida, se forem nanomicromedianamente civilizados, a que um dos carritos fique lá para chegarem juntos à festa e parecerem lindamente.
3 - Regam bem o jantar com vinho branco e caipiroskas. Tão bem, que se vejam obrigados a deixar o carro em que se transportaram para a festa no local onde estava (mal) estacionado. Seguem para outro local de vosso agrado, daí para outro e desse para outros tantos. Os que aguentarem.
4 - Chegam a casa de madrugada, transportados caridosa e pachorrentamente por um taxista surdo-mudo. E cego, já agora.
5 - Acordam daí a três horas, bebem catorze copos de água, seis latas de Coca-Cola, comem um pão alentejano inteiro, engolem uma caixa de aspirinas, abrem a porta e reparam que não está lá nenhum dos carros. Antes disso convém que tomem um duche e areiem as gengivas com um esfregão Bravo.
6 - Decidem que a melhor maneira de resolver o problema é irem até à casa da avó de bicicleta - uns sete quilómetros atravessados por ruídos capazes de ensurdecer uma parede de betão, emissões de Co2 que fazem Banguecoque parecer o Jardim do Éden e loucos esgazeados ainda sob o efeito de noites piores que a vossa.
7 - Em casa da avó, recolhem os petizes e decidem que, em vez de irem dormir, o que precisam mesmo mesmo, é de comer um Santini.
Atenção: este é o passo mais importante.
8 - Afinfam com as bicicletas em cima do carro e arrancam para o vosso destino a toda a brida.
9 - Finalmente, mergulham na entrada do parque de estacionamento subterrâneo sem retirar as bicicletas de cima do carro.
10 - Assim que se refizerem da enxaqueca causada pelo abalo, perdem quarenta minutos a apanhar os bocados de chapa, de bicicleta e de dignidade que estão espalhados por todo o primeiro piso do parque.
11 - Vão alegremente com os petizes comer o geladinho.
Simples, não?
terça-feira, setembro 08, 2009
Visita às modas passadas, sem nostalgia nenhuma.
Mas gosto de ter memória e de poder recordar. São esses pequenos nadas que nos dão perspectiva e nos ajudam a compreender que evoluímos. Ou não.
Isto tudo porquê? Porque hoje tive uma conversa muito engraçada com algumas amigas - umas da minha idade outras ligeiramente mais velhas, mas ainda raparigas, claro. Umas miúdas - afinal o que são vinte anos para a humanidade?
Foi uma conversa em que recordámos.
Recordámos a moda da nossa juventude.
Começámos por falar de enchumaços, esses volumosos adereços dignos de qualquer selecção de futebol americano, recheio absolutamente fundamental de qualquer parte de cima vestível por nós. Entre outras peças de museu, ainda guardo um casaco amarelo canário, extraordinário, com os maiores aumentadores de ombros do mundo. Que adorava. Sim, quem nunca usou que se atreva a gozar.
Rimos das franjas que adornaram a certa altura as nossas modernérrimas camisas de ganga com omoplatas forradas a tecidos floridos e os casacos de camurça foleira e mal curtida.
E, Cristo, quem pode esquecer as galochas de salto alto, que se podiam usar de cano dobrado ou direito e faziam transpirar os pés até ao joelho? Pés esses calçados com a inevitável meia de losango, em lã quentinha e bastante cheirosa ao fim do dia.
E os Sanjo? Quem nunca sonhou com uns?
Lembrámos os Porfírios, loja icon de moda lisboeta, que comercializava os lenços mais emblemáticos das betas da linha. E a Migacho, loja da qual lá aparecia uma toillette nova em casa uma vez por ano mas que tinha uma proprietária capaz de dar lições de marketing a qualquer Kotler pois tratava toda a gente pelo nome - incluíndo os filhos.
E ainda rimos mais das poupas que seguravam bandoletes de veludo que arrepelavam e faziam dores de cabeça. E das molas com flores encarnadas ou rosa eléctrico, pespegadas no alto de cabeleiras longas e não raras vezes espigadas até à raiz.
E das camisolas de losangos verde "rã", amarelo "canário", azul "arara" e laranja "peixe de aquário".
E dos vestidos em tafetá de cores berrantes com enormes laços ruidosos, mangas em balão que nos chegavam às bochechas e saias rodadas que nos assavam os cotovelos.
E das Lois justíssimas, lançadas pela malta do break dance, que não passavam nos pés e só se conseguiam vestir se estivéssemos deitadas - e eles também (mas não ao mesmo tempo). Sim, eles também usavam calças dessas. E meia branca. E sapato de berloque. E camisolas com grandes carapuços e mangas até ao chão.
E das camisas clandestinamente surripiadas ao mano mais velho, pois tinham mesmo de ser dezoito tamanhos acima para ficarem o máximo com as mini saias dezoito tamanhos abaixo.
Quem não se lembra?
É verdade, não sou saudosista e até tenho para mim que temos ganho bastante em aspecto nos últimos anos, mas no final de tudo isto há apenas uma coisa que me deprime um tudo nada - é que algumas destas pérolas da moda, já andam aí outra vez. E isso é que nos dá a tal perspectiva - a de que o tempo passa mesmo.
quinta-feira, setembro 03, 2009
Verão Azul
Mas hoje a minha filha mais velha comunicou-me, com um gáudio completamente despropositado, uma vez que não faz a mínima ideia do que se trata, que o Verão Azul ia voltar a dar na televisão.
Comecei por lhe explicar no meu tom mais maternal e condescendente que não, que ela estava a confundir, deveria ser outra coisa qualquer, mas depois, uma amiga dela que estava presente, corroborou, também muito excitada - ainda não percebi se é verdade ou se estavam a falar dos DVD da Planeta Agostini.
E depois perguntaram-me as duas: o que é o Verão Azul?
Cristo, como é que se explica a duas crianças de dez anos o que foi o Verão Azul?
Haveria tanto para dizer antes...
Mas como é que se explica a duas crianças que vivem no dilema de escolher um de entre mais de duzentos canais de televisão e que têm telemóvel e computador portátil com ligação à Internet, que nós passámos a nossa infância apenas com dois canais à escolha e que tudo o que víamos era a cinza e sépia?
Como é que se explica a duas crianças de dez anos que fazem férias no estrangeiro e passam a vida em programas com os amigos, em shoppings com doze salas de cinema ou num dos milhares de Mac Donald's que há por todo o lado, que nós passávamos os fins de semana em casa, muitas vezes com os avós, e que não tínhamos muito mais que fazer que não fosse batota ao Monopólio, andar de biciclata, bater nos irmãos ou ver os programas de BD eslovaca do Vasco Granja. Ou, quanto muito, o Dallas?
O Verão Azul não foi apenas uma série, foi A série. A primeiríssima série juvenil jamais transmitida em Portugal. Feita para nós. Só para nós. E a cores. Uma série com protagonistas de carne e osso (e não de plasticina), com problemas infanto-adolescentes iguaizinhos aos nossos, que passavam férias na praia exactamente como nós, que andavam em bicicletas velhas como as nossas, só que, em vez de terem os pais em cima o tempo todo, tinham dois velhotes amorosos e super compreensivos que nunca levantavam a voz nem os castigavam, mesmo quando eles passavam um episódio inteiro a fazer asneiras.
Lembro-me tão bem de corrermos todos para a pequena Grundig da sala assim que escutávamos os primeiros acordes da inconfundível música do genérico, que eu morria de desgosto por não conseguir assobiar...
Eu era a Bea.
Recordo como se fosse ontem uma cena em que ela, triste com um qualquer drama da sua recém adolescência, de sandálias na mão, passeava nostálgica à beira-mar. Sozinha. E de como eu passei a sonhar viver suficientemente perto da praia para poder fazer uma coisa assim - sair de casa e ir chorar dramáticamente descalça num areal deserto, de olhos em alvo na direcção de um oceano calmo e transparente, para, no final ele aparecer, aquele por quem eu chorava - que devido a um muito conveniente episódio telepático, me tinha encontrado - e acabava por abraçar com amor.
(É que a minha realidade era um tudo nada diferente: além de sermos uma família relativamente numerosa, o que impossibilitava por completo qualquer sonho de solidão, vivíamos a quilómetros da praia, sendo que a mais próxima era o Guincho, if you know what I mean...).
Enfim, era isto o Verão Azul. E não há forma de o explicar à minha filha. Só espero que um dia ela tenha o seu para tentar explicar aos meus netos. Seria muito bom para ela.
segunda-feira, agosto 31, 2009
E a vida continua
Acho que já estamos todos mais habituados uns aos outros, mas ainda temos um longo caminho pela frente.
No sábado passado levámo-lo às vacinas. Foi a primeira vez que viu uma trela e passou-se. Parecia um louco, a saltar e espernear que nem um touro de rodeo americano.
Aqui é altura de abrir um parêntesis:
O único cão que tive na minha vida - até este - nem estou certa de que possa ser classificado de cão. Para já era uma cadela, depois era caniche toy, uma coisinha minuscula e perturbada dos neurónios, com excesso de hormonas e que sofria de complexo de Pit Bull.
Mas uma vez que a boca da cadela não era maior que o gargalo de uma mini, ninguém se ralava muito com os acessos da pequena. Até porque tínhamos alguma condescendência pelo facto de ela ter ficado virgem - toda a gente sabe que isso dá cabo dos nervos.
Acontece que este caso é diferente. Aqui estamos a falar de um cão que a médio prazo acabará por se transformar num burro ( ou numa vaca, como diz a Vera), de peso algures entre os 50 e os 60 quilos. O mesmo que eu, portanto. Animal assim não deverá habituar-se a manifestações singelas de carinho e alegria como saltar em cima das pessoas, abocanhar durante as brincadeiras ou desatar a correr mal saia de casa.
Vai daí, decidi treinar o cão.
Comecei por procurar na Internet treinadores profissionais. Depois percebi que essa não seria uma boa aposta, pois o que acabaria por acontecer seria ele obedecer ao treinador e não a nós. A solução teria de passar por um treino caseiro. Ministrado por mim.
Inscrevi-me num site, onde enviam dicas de adestramento (brasileiro, claro está) por email. Inscrevi-me num outro onde uma senhora explica passo a passo como treinar o cachorro de grande porte com "treino de reforço positivo". Isto, adaptado aos cães deve ser uma teoria daquelas que sugere aos pais não contrariarem as crianças, não gritarem com elas e deixarem-nas crescer como cavalos selvagens num apartamento. Ainda assim pareceu-me bem não basear o treino em gritos e jornaladas.
Li tudo o que havia para ler e passei à fase da implementação.
O primeiro treino foi, portanto, incluído na ida ao veterinário para levar a vacina. A colocação da trela.
Uma das coisas que aprendi sobre os cães é que eles só querem que os donos gostem deles, por isso gostam de nos fazer felizes. Assim, uma das técnicas do reforço positivo é, quando o cachorro faz uma coisa que o dono não aprova, este deve manter-se firme e ignorá-lo, para ele perceber que o dono não está feliz. Voltar-se de costas, olhar para o céu... enfim.
Então, coloquei a trela e instantâneamente ele começou naquela maluqueira. Ora eu, bem instruída que estava, mantive-me firme e de costas enquanto ele puxava e repuxava. Até que senti um alívio repentino na pressão da trela. Pois voltei-me e lá estava o belo do Migas, que de tanto puxar, conseguiu alargar a coleira até ela lhe sair pela cabeça e estava a roer aquilo tudo. Reforço positivo uma merda. Zanguei-me com ele, o Filipe pegou nele ao colo e meteu-o no carro.
Na viagem portou-se lindamente. Calminho até. Nós todos felizes porque fizemos uma viagem de carro em que ele se absteve de nos brindar com dejectos de qualquer espécie. Os miúdos calmos. Uma alegria.
No vaterinário também correu tudo lindamente. A médica virou-o do avesso e até conseguiu ver-lhe a temperatura enfiando-lhe um termómetro pelo rabo.
No fim, achei que ele se tinha portado tão bem que merecia um prémio. Parti um biscoito dos dele em seis e dei-lhe um pedacinho de meio centímetro. O Filipe ficou doido. Dizia-me que eu não podia fazer aquilo, que os cães funcionam no entra e sai automático, que ele ia sujar o carro todo outra vez. Eu desvalorizei, era apenas um mini pedacito.
Saímos da clínica. Arrancámos. Percorremos uns dois quilómetros e pronto, mais um monte de bosta espalhado pela mala do carro. Mais uma viagem de janelas abertas e crianças aos berros. Mais uma discussão em que eu defendia que não tinha sido do biscoito, mas do termómetro no rabo, como se faz aos bebés quando estão presos.
Mais uma vez, chegados ao destino, tive de limpar aquela merda toda ( e de novo literalmente).
domingo, agosto 23, 2009
Já temos cão!
Não sei se foi um mosquito que nos mordeu, se o que foi, mas depois de termos três filhos e de já termos passado por tudo o que isso implica, como a mais nova já tem quase cinco anos e já é autónoma como se tivesse dezassete, como agora íamos poder ter um bocadinho de paz, decidimos que o que os nossos meninos precisavam mesmo não era de férias na neve, nem nas Ilhas Maurícias. Era de um cão. Afinal quem é que quer andar de avião nesta altura, não é?
Mas podíamos ter escolhido um de raça maneirinha, de porte médio, sei lá. Só que, como temos espaço, decidimos que um cão grande é que era. Grande não, gigante.
Fomos buscá-lo a uma terriola algures perto de Monforte, quase em Espanha. Desde que o tínhamos visto, em Junho, acabado de nascer, cresceu para o dobro. Aumentou o peso para qualquer coisa entre o triplo e o quádruplo. Quando o vimos, os miúdos entraram em pânico, nós e o bicho também.
Levávamos uma caixa amorosa, de cartão, que o reteve dentro do carro exactamente 2 segundos. Foi até pormos o carro a trabalhar. Depois disso descemos ao inferno. E ficámos lá durante mais de duas horas.
Duas horas e tal de viagem sem conseguirmos manter o animal na mala do carro. A rede que separa essa parte do resto não chega bem aos lados e ele conseguiu passar. Durante todo o tempo o Migas - é assim que se chama - saltou em cima de nós, dos bancos, de tudo, coitadinho. Nervoso.
A Vera teve um chilique e (até devia ter vergonha de dizer isto) veio o caminho quase todo ao meu colo, no banco da frente, a chorar. A dada altura o pobre sucumbiu à nervoseira e foi ali mesmo, no banco de trás: a mais fétida diarreia que já tive o desprazer de inalar.
Foi o caos.
Parados em plena autoestrada, arranquei a t-shirt ao Vasco, o Filipe tirou a dele e vai disto - esfregar aquela merda (literalmente). Não há, felizmente, que eu conheça, palavras que descrevam o cheiro, mas posso dar uma ideia da confusão: os miúdos todos aos berros, o cão histérico, eu e o Filipe aos gritos. Eu confesso que me deixo sugestionar por aqueles mails cheios de estatísitcas desgraçadas e só pensava na quantidade de acidentes que acontecem com carros que estão parados em auto-estradas, o que contribuiu talvez um bocadinho só para aumentar a tensão.
Por fim, lá deitamos fora as duas t-shirts, tirámos os tapetes do chão do carro e cobrimos o assento de trás o melhor que pudemos. E arrancámos outra vez.
Desta feita, cortei uns pedaços de cartão do caixote e fiquei a segurar de um lado, enquanto o Vasco e a Teresa se revesavam, entre gritos e choradeiras, a segurar do outro. O canito lá se manteve no sitio, mas ainda muito agitado.
Já perto de Lisboa, acho que logo depois da Ponte, não estou certa - essas memórias ficaram nebulosas - fomos carinhosamente brindados com segunda dose. Só que desta não tínhamos mais com que limpar, portanto fizemos o resto do caminho com as janelas escancaradas, a 180, com o cão intervaladamente a patinar em cima daquilo e a tentar sair dali.
Lá chegámos a casa. Ao novo lar do cachorrinho. A uma nova vida para todos nós.
E fomos dar-lhe banho. E limpar aquela porcaria toda. E gastar uma autêntica fortuna em redes, estacas, casota, comedouros, ração, escova, brinquedos, coleira, chapinha e o caraças.
Mas é bom para as crianças, não é?
(Se alguém me explicasse porquê é que eu agradecia).
quinta-feira, julho 02, 2009
Direito de resposta by Mano Alex (isto é uma democracia, quando me apetece).
Passava das 10 da noite quando cheguei ontem a casa... Tal como muitos outros idiotas, estive, imaginem só (...) a trabalhar...
Um saltinho rápido ao facebook, coisa rara por falta de tempo para social networking e, para meu espanto, leio um espantoso texto da minha querida irmã, cujos dotes de escritora bem conheço.
É realmente dotada, a mana, para a arte de bem escrever!
Tema das linhas? Apreço e cornos... Uma reflexão de qualidade inquestionável, certamente baseada em experiências terríficas com gajos desumanos, pais ausentes, maridos desleixados, enfim, aquela cambada de decadentes, que a única coisa que sabem fazer na vida, é, imaginem só (...), trabalhar!
É curioso... no meio de tanto e bom texto, não há um elogio, uma palavra de carinho, de simpatia... Por quem??? Bom, logicamente por nós, corja de bandidos que somos nós, os homens, seres familiarmente apáticos, has-beens galadores de mamas, eternos putos de carácter duvidoso, gordos egoístas e mal da tola, batoques entorpecidos a babar cerveja no sofá, infantiloides armados em reis da bola... Mas pasmem-se! Estes cabrões, bando de cínicos irresponsáveis, na opinião das suas queridas mulherezinhas, ainda arranjam tempo e energia, imaginem só (...), exacto! Para porem os cornos às suas mais que tudo! E, a razão para tal acto tresloucado é? Imaginem só (...) Falta de apreço...
Leite Derramado - Chico Buarque
Muito muito bom!
quarta-feira, julho 01, 2009
Curioso...
Mas já estou a divergir. Ontem, dizia eu, fui pôr gasolina e ofereceram-me uma daquelas revistas femininas que só pela capa nos fazem sentir gordas, peludas, chatas e espantosamente frígidas. Enquanto mordiscava uma sandes passei os olhos pelos conteúdos dessa pérola editorial até que encontrei um artigo que me prendeu a atenção: "o que é que leva os homens a traír?"
Fiquei curiosa. Sempre pensei que os homens traíam pelas mesmas razões que as mulheres - porque lhes apetecia. Mas afinal parece que há motivos verdadeiros, cerebrais até, que levam os homens a fazer algumas coisas. E esta hein?
Fui então degustar o dito artigo.
E não é que descobri que o que os leva a traír não é a procura de uma mulher mais jovem, nem mais bonita, nem que pratique melhor sexo, o que leva os homens a traír é, espantem-se, a falta de apreço que as esposas lhes demonstram. Maravilha!
Portanto, estes grandecíssimos cabrões, para não lhes chamar outra coisa pior, casam connosco muito amorosos. Logo depois fazem-nos um par de filhos, que são a luz da nossa vida mas dão-nos cabo do corpinho, obrigam-nos a levantar os ossos da cama sete vezes por noite durante dois anos - em média, por cada filho - arruinando as nossas belas oito horas de sono obrigatórias, enquanto se espalham pelos sofás todos e engordam a olhos vistos. Enquanto isso, nós trabalhamos, levamos as crianças à creche, vamos ao supermercado, pediatra, dentista, ortopedista, oftalmologista e todos os istas que existirem, vamos à farmácia, falamos com as educadoras, tratamos das matrículas, fotografias, documentos e o raio que os parta. Eles coitados, têm de trabalhar. Nós cozinhamos, limpamos, mudamos fraldas, ajudamos nos TPC, gerimos birras, desinfectamos feridas, damos colo. Eles, coitados, têm de trabalhar. Nós fazemos malas, organizamos refeições, damos prémios, aplicamos castigos, marcamos férias, esperamos pelo canalizador, pela TV Cabo, pelo homem do frigorífico. Eles, coitados, já sabemos, não podem.
No meio disto tudo tentamos manter a raíz a menos de meio da cabeça, arranjar pés e mãos de vez em quando, depilar certas zonas com alguma frequência, equilibrar-nos em cima de tacões de 12 cm, dar um salto ao ginásio quando calha e manter-nos arranjadinhas em geral.
Enquanto isso eles trabalham. Uau! E dormem. E babam-se a beber cerveja, a ver a bola e a comparar as mamas das nossas amigas com o que resta das nossas.
E no fim disto tudo, como andam aborrecidos com a vida deles e sentem falta de apreço, afinfam-nos com um parzito de cornos, que é para deixarmos de ser parvas!
E estúpidas.
terça-feira, abril 28, 2009
O 25 de Abril
Ele, 8 anos, assiste à conversa. Quando ela termina ri-se e dispara:
- Burra! O 25 de Abril aconteceu porque o Salazar triturava as pessoas!
:-)
terça-feira, outubro 02, 2007
- Ai, ai que coisa mais fôfa, posso comer?
Ela, nitidamente uma terceira, levanta o sobrolho direito e
- Não, não podes!
- Vá láááá... - a mãe insistente, apelando à caridade , quase a rastejar - estou cheia de fome.
O sobrolho não se desviou nem um milímetro. Olhou para a mãezinha que mantinha aquela expressão de deleite absolutamente ridícula para quem observa, mas que desperta uma solidariedade estranha em quem já passou por ela, e disparou com o "j" dos seus ainda nem 3 aninhos:
- Na cojinha podes comer À VONTADE!
quinta-feira, julho 26, 2007
Lógica
Ela, 8 anos – O que é uma escola pública?
Mãe – É uma escola do estado, onde não se paga nada.
Ela – E porque é que nós não andamos cá?
Mãe – Porque estas escolas fecham muito cedo, são boas é para quem não trabalha.
Muda-se o tema de conversa, o sobrinho também no carro comenta que os avós estão reformados.
Ela –O que é reformados?
Ele, 9 anos – É quando as pessoas deixam de trabalhar.
Ela- E com que idade as pessoas se reformam?
Ele- Acho que é aos 65 anos.
Ela pensa por uns segundos, e com uma cotovelada satisfeita para o primo:
- Já viste? Quando a minha mãe tiver 65 anos eu já posso andar numa escola pública.
quarta-feira, maio 23, 2007
Solução de emergência
Depois de chamadas de atenção de vária ordem, desde o políticamente correcto “se não gostares de alguma coisa que te derem para comer dizes que não aprecias e perguntas se podes comer menos, não dizes que não gostas, que não é bonito”, ao sacramental “não te esqueças de lavar os dentes e de lavar bem a escova a seguir” até ao hiper galináceo “não embirres com o teu amigo, mas não o deixes fazer de ti gato sapato”, veio a fase de revisão da matéria dada. Perguntas várias, respostas correctas. Até...
Mãezinha:
- E se te derem para comer alguma coisa que não gostes?
E ele fica quieto, olhos em alvo, fitando o infinito, como quem pensa demoradamente no assunto. E dispara:
- Então (todas as suas frases começam por então), finjo que comi e deito para debaixo da mesa.