quinta-feira, abril 28, 2011

Insolências Pascais

A Verinha tem seis anos e parece um anjinho. É uma criatura doce e cheia de mimo, de cachos loiros a emolurar uma carinha redondinha e rosada onde cintilam duas lagoas azuladas. Uma ternurinha. Quase sempre. Não fora a influência nefasta que o convívio com os pré adolescentes lá de casa tem exercido sobre ela e que a faz comportar-se como se tivesse aqueles catorze anos a precisar de um par de estalos que todas nós já tivemos - umas há mais tempo que as outras, eu, por exemplo foi há dois ou três anitos apenas.

Nessas alturas, em que a jovem insolente brota de dentro dela sem aviso, a surpresa faz com que não consiga manter-me séria, o que não contribui nada para impôr algum respeito.

Este Domingo, sentados à mesa da Páscoa, vejo pelo canto do olho a Verinha sentada na sua cadeira, de pés em cima do assento, caracóis loiros a escorrer-lhe pelas pernas abaixo, a analisar a crosta de uma esfoladela recente no joelho.

Aproximo-me dela e pergunto o que se passa. Ela levanta a cabeça e olha-me com uma sombra de tristeza nos berlindes azuis:

- Mãe, a crosta partiu-se e está a ver-se carne na minha ferida.

Faço um ar incrédulo e pergunto retoricamente enquanto me dobro sobre ela para ver melhor:

- Carne?

Ela volta a baixar a atenção para o joelho:

- Não. É arroz, queres ver?

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quinta-feira, março 31, 2011

Uma casa na Pradaria


Apesar de ter perfeita consciência de ser parte de uma geração absolutamente fabulosa e pioneira em muitas das coisas que hoje fazem já parte da memória coletiva do país, espanto-me de todas as vezes que descubro que partilho algumas dessas memórias com pessoas que não conheço.
Diariamente oiço nem que seja uma das edições da Caderneta de Cromos, portanto, é natural que aconteça isto com alguma frequência.
Há, contudo, memórias que julgamos serem exclusivamente nossas - um cartaz na rua, uma cena de um filme, uma frase que nos dirigem – e que temos a certezinha absoluta que passou completamente ao lado de qualquer outro ser vivo à face do planeta.
O caso deu-se hoje de manhã. Um dos cromos de hoje era sobre a série “Uma casa na pradaria”. Até aqui, tudo bem, quem não se lembra do genérico em que elas vinham a correr pela pradaria fora, de toucas e saias e botas e sorrisos? Quem não se lembra da cabana de madeira onde a família era tão feliz, mesmo apesar de não terem televisão, nem telefone, nem sequer torneiras?
Como nós também somos três raparigas a analogia era direta: a L. era a Mary, a mais velha e responsável. Para mais, eram ambas muito parecidas com os cabelos loiros e fartos, os olhos azuis muito claros e a atitude de mãezinha um bocado irritante. A B. era a Carrie, a mais pequenina. Também estas duas se pareciam bastante, com os cabelos castanhos escorridos, uma franja muito lisa a cobrir metade dos olhos azuis e as birras típicas de irmã mais nova. Finalmente, e por mera exclusão de partes, eu era a Laura. Mas só mesmo por sermos ambas a irmã do meio e nunca me ter ocorrido perguntar ao meu irmão mais velho se não queria trocar comigo – ele passava a ser a Laura e eu o cavalo (estou a gozar, ele não era o cavalo – nunca nos ocorreu). Laura e eu não tínhamos nada, mas nada mesmo, em comum. Talvez os dentes, assim meio saídos, vá. De resto, ela tinha cabelo comprido e eu curto, ela era ruiva e eu castanha, ela era agitada e rebelde e eu uma alforreca catatónica. Enquanto a Laura corria alegremente pradaria fora com as longas tranças a brilhar como riachos ao sol, a única coisa em mim que corria eram os pensamentos e a única que brilhava era o aparelho nos dentes, já que o meu cabelo era tão sedoso como as cerdas de uma vassoura de galhos, e tão fácil de entrançar como estes. Mas isso não me entristecia, pois não era a Laura quem eu queria ser. Ela era demasiadamente ruiva, arrapazada e sardenta, demasiadamente Pipi das Meias Altas, para meu gosto. Quem eu secretamente desejava mais do que tudo ser, era a Mary. Linda, linda, perfeita, suave, crescida, determinada, feminina e até um bocadinho irritante. A Mary.
É aqui que entra a minha memória secreta partilhada com o Markl. Tal como ele, apesar de guardar boas memórias da série, não guardei detalhes. Não me lembro sequer da história de um episódio. Mas uma coisa ficou gravada para sempre na minha memória e fez com que essas recordações deixassem um travo amargo definitivo nas papilas gustativas da minha infância – a cena em que a minha adorada Mary, a minha irmã mais velha tanto na série como na vida real, a minha heroína forte, responsável e autoconfiante, acorda completamente cega.
O monumental glaciar da nossa fragilidade assim despejado sobre a lava incandescente do Eyjafjallajokull criativo da criança Marta, teve exatamente o efeito esperado – transformou-a em rocha sólida. Bem, talvez não em rocha, mas pelo menos numa pedra pomes grandinha, assim pelo tamanho de uma carcaça ou até maiorzinha, tipo pão saloio.
E eu nunca mais vi a série com os mesmos olhos.
E tantos anos depois descubro que, no mesmo dia, há mesma hora, algures em Benfica, outra criança era vergastada pelo cavalo marinho da Vida e transformada num pequeno seixo redondo, de óculos e collants. Para não mais se esquecer.

E achei piada.

terça-feira, março 29, 2011

Donas de Casa Desesperadas


Tenho vivido ingenuamente convencida que as donas de casa desesperadas são mulheres remediadas, amarfanhadas pela vida que, divididas entre o T2 com varanda, os meninos, o estafermo e o trabalho, nunca têm vagar para ir ao shopping arranjar as sobrancelhas. Trintonas azedas que passam meses sem jantar num restaurante, semanas sem ver as amigas, dias sem uma conversa que não envolva futebol nem doenças. Esposas desditosas que aturam maridos abrutalhados, egoístas, balofos e chatos, em nome da estabilidade ou da família – conceitos tão extraordinários para eles como física quântica ou renda de bilros. Mulheres para quem aparelhos de fitness são esfregonas, frigideiras, estendais ou aspiradores. Mães rijas que fogem do bêbado do rés do chão e do fiscal da EDP, que pedem ao filho para esconder as sabrinas, antes que o pai o rebente todo com o cinto que lá em casa não entram paneleiros.

A verdade é esta: Donas de Casa Desesperadas são fêmeas sofisticadas, sensuais, magras e corrosivas que embrulham os dias em atividades tão diversas como arranjar intrigas, arranjar problemas ou arranjar amantes na vilazinha amorosa onde fingem habitar moradias tão amplas e arrumadas que até em ficção são improváveis. Jovens e luzidias mulheres, sempre prontas para tardes espirituosas de conversa salpicada por um humor acutilante e inteligente. Quarentonas bem resolvidas e casadas com machos charmosos, educados, sensíveis e cooperantes, com vidas sexuais intensas, divertidas e apaixonadas, tão frequentes na vida real como Big Bangs. Raparigas de cabelos tão brilhantes e bem tratados como os dentes, que se movimentam graciosas e desempoeiradas numa comunidade eclética onde coexistem sem preconceitos nem tabus velhos e novos, abastados e arranjados, falsos e autênticos, infiéis e descomprometidos, crédulos, espertalhões, criminosos e libertinos. Todos na mesma vila, cada um com o seu passado, cada um com o seu segredo.

Donas de Casa Desesperadas é, afinal, uma das melhores séries que passam na televisão.

E agora que já estou mais contente por não fazer parte desse coletivo assustador de galinhas lindas, ricas e espertas resta-me aguardar ansiosamente pelo próximo episódio. Se tenho estado à espera, agora posso desesperar. É já hoje!

sexta-feira, março 18, 2011

Blondie


Ontem era dia de ir à cidade. Tinha reunião em lisboa e lá fui. No decorrer desse encontro notei que a minha interlocutora tinha alterado ligeiramente a cor do cabelo e comentei que estava muito gira.

Logo ela se apressou a explicar que tinha sido no cabeleireiro logo ali em baixo, rapariga competente, Graça de sua graça. Para eu ir e chamar por ela.

Saí da reunião e lá fui. Apesar de ser hora de almoço não estava muito cheio e Graça estava disponível.

Expliquei que pretendia apenas iluminar o tom do meu cabelo, estava baço e sem vida. A rapariga acenou. Que sim, que sim, que sabia exactamente o que eu queria.

E, vai daí, agarra-se a mim como se disso dependesse a própria vida.

Faço aqui um parentesis para explicar uma coisa: apesar de já andar desconfiada, só ontem a realidade se abateu sobre mim com uma violência cataclísmica: sou mesmo saloia. Uma provínciana. Pois que ontem realizei, com algum pesar, confesso, que nunca na minha vida tinha posto os pés num cabeleireiro da capital.

Mas vá, adiante.

A rapariga agarra-se-me aos cabelos a mexer, a mexer e eu ali em nervos, que não tenho paciencia nenhuma para aquela imobilidade toda e só me apetece é fumar e comer e tenho comichão na cabeça. Entre um artigo de fundo na Flash e uma monografia que analiso na Lux vou observando o que ela estará a tramar ali pelas bandas da caixinha dos pirolitos. Reparo com surpresa que em Lisboa, por exemplo, já não usam pratas para fazer nuances, usam uma espécie de tecido esponjoso que faz lembrar esferovite translúcida e tem um nome em inglês. Aliás, já nem nuances chamam àquilo, a palavra agora é contrastes.

Não sei se será do nome, mas os contrastes demoram muito mais tempo a abrir que as nuances, caraças! Estive tanto tempo sentada que cheguei a temer que o meu traseiro outrora mole, mas por estes dias um autêntico pudim, derretesse cadeira abaixo.

Por fim, lá a Graça deu um ar da sua graça, para impedir uma desgraça.

Tirou os papelotes muuuuuuito devagaaaar, colocou um creme não sei de quê e começou a cortar. Com uma máquina. Quando ouvi o som quase saltei da cadeira (na verdade saltei mesmo, mas não se deu por isso porque o meu rabo não se mexeu), não fosse ela achar que tinha ficado tão mal que não havia outro remédio a não ser rapar. Mas parece que é mesmo assim - mais modernices da capital, concerteza.

No final a obra da Graça não foi cara e não ficou nenhuma desgraça, acho eu. Mas de cada vez que passo num espelho pergunto-me: porque é que o Roberto Leal não me larga?

quarta-feira, março 09, 2011

Beyblade

Na Austrália há gafanhotos, no Brasil há formigas, na Ásia há serpentes, em Espanha há espanhóis. Por cá, a praga do momento chama-se Beyblade.

Beyblades são uns piões pequenos e plásticos que infestaram as nossas vidas. Ao contrário dos piões de madeira da nossa infância, autênticas obras de artesanato fiável e resistente, estes são uma espécie de crias de pião em plástico e metal. Como os nossos filhos – pequenos, rápidos e todos tecnológicos. Só que, enquanto para lançar um pião dos nossos era preciso um doutoramento ou, em alternativa, licença de porte de arma, estes míni piões até têm uma seta a apontar o sitio onde o lançador se encaixa, não vá a criança ficar traumatizada por não conseguir. Vai daí, como qualquer aselha consegue pôr aquilo a rodar, não precisando para isso de mais que um par de braços e outro de mãos, todos os petizes querem um. E como há alguns vinte e sete modelos diferentes, cada uma com a sua lâmina, boquilha, roda de fusão e mais não sei quê, as crianças precisam absolutamente de vários.

Ora os senhores que importam isto, ou os fabricantes, ou lá quem trata de colocar o produto nas lojas, não devem ter a noção do estado emocional em que andam a deixar os nossos pequenos junkies. Desde novembro que só aparecem alguns Beyblades, apenas em algumas lojas e somente quando calha, o que, os deixa em permanente desespero, quais drogados a ressacar.

Pois, aqui há dias, o meu filho alertou-me para a iminência da chegada desses pequenos infernos barulhentos ao Toys ‘R Us, divulgada por um amigo da escola que o terá alegadamente ouvido à sua mãe e suplicou-me que me deslocasse lá para ver se, finalmente, conseguia a Fénix ou o Aquário.

Desconfio que os nossos pais nunca fariam isto, mas lá fui eu.

Nove da matina, passo pela porta. Fechada.

Omessa! – penso. Mas isto não é como o Continente? Pois não é mesmo, abre apenas às dez. Estaciono. Ligo o rádio. Pego no crochet.

Espero.

De quando em vez levanto a cabeça para ver as horas e olhar em volta. Nove e oito, nove e dezanove, nove e vinte e dois, nove e trinta e sete.

Olho para a porta e quase bato com a cabeça no teto do carro. À porta da loja encontram-se seguramente umas cinquenta pessoas. Saio apressada a juntar-me à horda, receosa que me esta me esmague e roube os piões do meu menino. Estão sete graus, está vento e eu de cabelo molhado. Ao meu lado está uma mãe de cabelo molhado também. Sorrimos, cúmplices, e amarfanhamo-nos mais para dentro da gola dos nossos casacos.

O tuga, já o tenho dito várias vezes, é um povo giro. Está ali tudo bem disposto, as pessoas falam umas com as outras, veem-se caras simpáticas e sorrisos amistosos. Mas a cada minuto que passa vão-se encostando mais ao vidro da porta, observando como quem não quer a coisa: eu cheguei antes, eu estou aqui há mais de quinze minutos, eu já cá vim dezoito vezes. E eu a pensar, perdão, meus senhores, mas quem chegou antes fui eu. Na boa. Espero.

Do lado direito está um septuagenário, careca e sorridente, que nos fala da sua aposentação de oficial de marinha de guerra, da esposa que está a arruinar a farda de gala para fazer uma máscara para a neta mais velha que é muito arrapazada e é para ela que leva os beyblades, já a mais nova é uma princesinha, um doce de menina.

Oiço uma senhora, com vincado sotaque do norte, observar que a filha que vive em Denver não sabe o que são Beyblades. Mais atrás, uma outra concorda, que a sobrinha da Califórnia também nunca ouviu falar. Já um rapaz magrinho defende que isso é normal, pois é uma moda só da Europa. Uma senhora minúscula diz que não, que esteve em Colónia e também não sabem o que isso é. O rapaz faz aquela expressão condescendente de quem pensa: daahhh, tal como eu disse, só na Europa é que há.

Nesta altura a rapariga de cabelo molhado estremece e comenta que está gelada. Logo a senhora à minha frente afirma que tem ali o marido, pois encoste-se a ele, na pior das hipóteses podem servir para isso, não? Que não, que o rapaz ao lado dela é só um amigo, o marido já se pirou há uns anos e ela nunca mais quis saber de homens para nada.

Mesmo junto à porta está uma senhora com bom ar, avó. Ao olhar para ela não lhe dou mais de sessenta anos mas depressa concluo que isso não é possível, pois em dois minutos já sei que ela tem um filho de quarenta e nove que está com uma grande gripe e ela foi sozinha de carro daqui para o Ribatejo onde ele vive só para tomar conta dele, já que a nora, essa egoísta, não pode. Diz que tem de trabalhar, vejam só. Na mão segura um papel onde apontou com todo o detalhe a descrição dos Beyblades que os netos pediram e vai acrescentando que dali não sai sem aquilo que quer. Sou rija, diz ela. E eu observo que deve ser, sim, pois estão sete graus e ela está de saia e sapatos abertos, sem meias. E para provar o que diz lá conta ao auditório, que a esta altura já vai em perto de uma centena, que na idade dela não há muita gente que fizesse o que ela fez na véspera, pois desmontou dois móveis e uma cama e montou tudo noutra divisão, sozinha. Que a rijeza lhe vem de um hábito que mantém há quarenta e três anos – um dente de alho esmagado com um copo de água morna, todos os dias antes do pequeno almoço. A rapariga ao lado dela, ao ouvir isto faz um trejeito enojado ao que a senhora responde logo com um bafo para cima de nós: cheiro mal? Não cheiro!

As portas abrem-se e já não sorrimos, já não somos todos amigos. Corremos que nem danados, aos encontrões e pisadelas, com um objectivo firme e comum, nem que para isso tenhamos de andar ao estalo com as avózinhas todas: Beyblade.

Gosto tanto disto! É que gosto mesmo. E três já cá cantam.




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sexta-feira, dezembro 17, 2010

Viver e aprender com... Pavlov.

Nós temos um cão.
Chama-se Migas, tem dezanove meses e é doido. É doido e mal educado. É doido, mal educado e selvagem. É doido, mal educado, selvagem e teimoso como uma mula. Além de pesar o mesmo.
Lá em casa passámos os últimos dezasseis meses – ele foi para lá com três - a tentar arranjar uma forma de o pôr a salivar ao toque da campainha, que é como quem diz, a obedecer vagamente, antes de ele acabar com o pouco que resta do nosso juízo. Mas sem grande sucesso. Parece que o bicho goza verdadeiramente o facto de conseguir ignorar-nos e fazer única e simplesmente o que lhe dá na real gana, até nos deixar apopléticos.
Pois ontem, finalmente, fez-se luz e percebi tudo.
Ontem à tarde fomos todos, paizinhos dedicados e presentes, assistir a mais uma performance natalícia dos nossos pequenos. A última deste ano. Como cheguei mesmo a rasar a hora do início fiquei cá atrás, empoleirada numa mesa, a tentar ver alguma coisinha que ao menos justificasse as sete multas que devo ter apanhado pelo caminho.
Quis a divina providência que o meu poleiro fosse mesmo encostadinho ao botão de abertura do trinco do portão exterior do colégio.
No inicio, a campainha tocava, tocava num chinfrim infernal de pais ainda mais atrasados que eu a quererem justificar as suas próprias multas. E eu, nada. Não imaginava que fosse suposto carregar no botão, por isso ignorava olimpicamente o concerto de dling dlongs. Até que alguém me pediu, por favor, que carregasse no botão. E eu carreguei.
Ao longo do espetáculo a campainha ia tocando, na escola há crianças pequenas que não estavam a participar na festa e eram livres de ir embora. Ora eu ignorava os primeiros dois ou três toques, mas depois alguém me dava uma cotovelada e eu lá carregava no botão. Pouco a pouco fui interiorizando o reflexo condicionado até conseguir de uma forma quase inconsciente ouvir o toque e carregar imediatamente no trinco. Um espetáculo. Só me faltava babar.
E assim percebi como é que se ensina o cão. Afinal é tão simples...Primeiro ele tem de aprender a falar

quarta-feira, novembro 17, 2010

Quo Vadis?

Ando a constatar que, muito frequentemente não faço ideia nenhuma daquilo que ando nesta vida a fazer.
Não falo de questões metafísicas existenciais do género quem sou eu, de onde venho, para onde vou. Falo de não saber mesmo o que ando a fazer nomeadamente no que concerne à educação dos meus filhos.
Que eles não trazem manual de instruções, já todos nós sabíamos muito antes de termos ancas que se vissem, por isso, aprendemos desde logo que a coisa tem de se fazer numa lógica causa/ efeito; tentativa/ erro.
Mas se em teoria, o assunto não nos oferece grandes preocupações, chegada a parte prática o caso muda de figura.
Tenho tendência (sempre tive) para ver como definitivo tudo o que acontece. Para mim não existe na prática o conceito de evolução. É uma palavra apenas, como se nós não fossemos suscetíveis de mudar. Daí a imaginar que uma mentira em que apanhe um dos meus filhos fará dele um aldrabão, que um acesso de preguiça fará com que se torne num pária ou que uma má nota acabará com a carreira académica dele, vai um passo apenas. Um passinho.
Todos os dias dou por mim a vaticinar futuros sangrentos e solitários para os meus meninos com frases do género: filho, pergunta tu à senhora, se queres saber vai lá e pergunta. Coragem! Na vida temos de ultrapassar as nossas inseguranças, se não tentares nunca vais saber se conseguirias. E ele: Ó mãe, eu só quero saber se têm Beyblades e a senhora não me liga nenhuma!
Basta que um deles não corra desenfreado para a mesa assim que eu chamo a primeira vez e já dou comigo a dissertar sobre – se estivesses na guerra, numa trincheira, e eu te mandasse baixar a cabeça, sabes que ou baixavas logo ou arriscavas-te a ficar sem ela. As ordens são para cumprir imediatamente!
E isto sou eu controlada. Ponderada. Porque as coisas que às vezes me passam pela cabeça até a mim assustam. Aqui há dias, à nega da mais velha perante a chamada para o banho, dei por mim a pensar aterrorizada (pensei mas não disse), que ela ia cheirar mal e depois ia ser chamada de Fricassé na escola, e ia ter uma depressão e ia andar sempre a chorar por não ter amigos e a coisa acabava numa tragédia.
Mas, conscientemente, eu sei que não há relação nenhuma, ou se há, que é muito ténue, entre o que eles são hoje e o que serão no futuro.
Quando eu era adolescente conheci um rapaz que era excelente aluno, aplicado, obediente, mas super controlado por uns pais super preocupados. Era só amor, o que aqueles pais sentiam, mas foi demais, pressionaram demais, controlaram demais e o rapaz acabou drogado, desesperado, doente e sem hipóteses nenhumas de alguma vez vir a ter o futuro que os pais tanto lhe desejavam.
Ainda ontem estive com uma moça que os pais largaram em casa de uns tios amorosos mas muito pobres, quando tinha dois anos. Ambos os progenitores foram à vida deles, casaram, tiveram outros filhos e nunca mais lhe ligaram a mínima. Ela viveu a vida inteira mesmo ali ao lado, sabendo que só não vivia com nenhum deles porque não havia espaço para ela nas suas novas vidas. Hoje é uma pessoa equilibrada, trabalha e é competente, tem uma família que adora e que a adora. Teve depressões, foi uma pessoa muito triste durante muito tempo. Vergou, mas não partiu.
Conheço vários que foram adolescentes alucinados e sem orientação, que passaram grande parte da vida a fazer asneiras, foram presos, partiram carros, assaltaram casas, drogaram-se. E hoje estão lindamente na vida, são adultos responsáveis, pais dedicados, profissionais competentes. E outros que passaram por tudo isso e acabaram muito mal.
Outros conheço que tinham tudo, tiveram todas as oportunidades, mas não souberam ou não quiseram fazer nada com elas. Andam por aí, vivem pendurados em créditos, são vigaristas, jogam, bebem. E outros que não.
É uma questão de pura sorte. Eles (os novos nós) mudam tanto e tão depressa que já estão a regressar quando nós ainda estamos a tentar perceber o caminho para ir. É uma ilusão da nossa parte convencermos-nos de que a maior parte do trabalho somos nós que o fazemos. Não somos. São os amigos deles, as pessoas que escolhem para se relacionarem, o meio em que vivem, a terra onde calhou crescerem. Nós só podemos condicionar essas escolhas na medida em que está nas nossas mãos dar um bom exemplo, decidir escolas para eles frequentarem, ajudá-los a escolherem desportos e actividades, decidir o prémio ou o castigo que melhor se aplica a cada situação. Fingir que sabemos sempre o que fazemos, qual é a decisão correta, a fronteira linear entre o que está certo e o que está errado. E depois, resta-nos estarmos muito atentos, muito presentes. E falarmos uns com os outros e com eles. Partilharmos experiências, dúvidas, convicções.
O resto, tudo o resto e desde muito cedo, será com eles.
Só depois, quando o resultado surgir esmagador, é que saberemos se fizemos bem a nossa parte ou se nos vamos culpar para sempre do fracasso deles.
E a subjetividade de tudo isto às vezes assusta e quase sempre desorienta, mas dá todos os dias um prazer imenso.

terça-feira, outubro 26, 2010

...

No tempo dos meus avós (não assim há tanto, já que ainda tenho uma avó) os pais mal se aproximavam dos filhos e os filhos mal conheciam os pais. Maridos saíam de casa de manhã e voltavam quando calhava sem que nesse espaço de tempo sequer dissessem água-vai. Filhos, genros, maridos iam para a guerra e escreviam (quando escreviam) uma cartinha a cada par de meses. Pais de família mantinham ao longo da vida a dicotomia “esposa” / “mulher” sem que alguém sonhasse. Mães eternizavam segredos de família. Irmãos passavam vidas inteiras a viver em países diferentes sem trocarem mais que meros postais. Filhos passavam meses de férias encafuados em quintas nortenhas ou sulistas ou beirãs, sem que lhes fosse possível trocar uma confidência com um amigo. Namorados escondiam-se durante anos. Maridos mantinham senhoras, senhoras mantinham amantes, amantes tinham filhos. Sem ninguém saber.
Os automóveis eram raros, os aviões só para a guerra e as viagens significavam meses em comboios ou navios. As notícias atrasavam-se semanas, um telefonema era um acontecimento, a identidade era uma questão de opinião, famílias passavam vidas inteiras sem se conhecerem apenas por não viverem na mesma cidade.
Morria-se de tudo e de nada, mentia-se a torto e a direito, calava-se até o detalhe menos relevante.

Hoje, e não passou tanto tempo assim, sabemos tudo a toda a hora. Há mais automóveis que bicicletas e mais telemóveis que automóveis. Falamos quando queremos com a prima que está no Butão, com a amiga da Nova Zelândia ou com a tia que mora na porta ao lado. Temos Skype, Messenger, e-mail, Facebook, Twitter, telemóveis e toda a sorte de gadgets que nos garantem o contacto permanente com o mundo. Video gravamos, fotografamos, enviamos e recebemos milhões de informações todos os dias a todas as horas. Basta querermos e, com cinco minutos de pesquisa, encontramos alguém que não vemos há vinte anos, descobrimos uma mentira, uma morada, uma namorada.
Os filhos falam com os pais, enviam sms aos pais, são amigos dos pais, estão contactáveis pelos pais. Os pais falam entre si sobre os filhos, são amigos dos filhos, procuram os filhos, perguntam aos filhos, espiam os filhos.
Hoje, um segredo é um bem raro, precioso e muito difícil de guardar, tal como a privacidade. Toda a gente conhece toda a gente, toda a gente fala com toda a gente, toda a gente vai a todo o lado, toda a gente vê tudo, sabe tudo, ouve tudo, diz tudo.

É por isso que não compreendo por que razão se fala tanto sobre os efeitos perniciosos da falta de comunicação para a sociedade. Qual falta de comunicação, gente? Comunicar, no latim da sua origem, significa qualquer coisa como "desenvolver actividades em conjunto". Hoje, nós não nos limitamos a "desenvolver actividades em conjunto", nós "vivemos em conjunto", "pensamos em conjunto", "respiramos em conjunto". Hoje comunica-se, mas é demais. De maneira diferente, é certo, mas demais.
Perniciosa para a sociedade é a falta de paz e sossego.
Essa é que é essa!

segunda-feira, outubro 11, 2010

Vamos lá deixar-nos de tretas!

Afinal, nós somos a Geração Rasca. Nós somos a fabulosa, resistente, desenrascada, vencedora e irrepetível colheita da década de setenta.
E o que fez de nós essa extraordinária geração de gente rija foi, precisamente, o facto de os nossos pais não nos terem apaparicado até à estupidez e de nem nos passar pela cabeça pedir-lhes ajuda para nos desenrascarmos da enormidade de asneiras que fazíamos. Tínhamos liberdade para fazer grande parte do que nos dava na real gana porque ninguém se ralava muito com as mazelas físicas nem com os traumas permanentes que poderíamos adquirir, não éramos portadores desse grande espião que é o telemóvel e, mais importante que tudo o resto, éramos uns sortudos por termos à nossa disposição a maior variedade de filmes e séries deprimentes da história, que faziam as vezes dos nossos educadores no que tocava a dar lições de realismo. E isso, especialmente as séries, é que nos deu uma estaleca, que faz favor. Fez de nós umas mulherzinhas e uns homenzinhos.
Então porque é que somos uns pais tão totós?

Quem não se recorda da Heidi, por exemplo. A incrível história de uma menina órfã que vivia numa cabana, desterrada no cimo de uma montanha gelada algures na Suíça, com o primo Pedro, também ele órfão e com a Clara, a prima, não só órfã como também paralítica, todos a cargo de um avô velhinho e viúvo.
Ou do Marco, essa grande série sobre um rapaz que a mãe abandona em troca de um trabalho na Argentina e que decide fugir de casa para, sozinho e sem um chavo no bolso, percorrer o mundo à procura dela. E da Pipi das Meias Altas, órfã de mãe, abandonada pelo pai, que sendo rico, lhe deixa uma mala cheia de dinheiro que ela usa para fazer asneira atrás de asneira. E o Tom Sawyer, também ele órfão, danado para a asneirada, cujo melhor amigo é outro órfão que vive sozinho numa cabana em cima de uma árvore e andam sempre descalços.
Ah, o Bambi, essa belíssima história sobre um veado bebé que vê a mãe ser assassinada por caçadores e passa o filme todo a fugir e à procura do pai. Ou A Dama e o Vagabundo, a história de um cão rafeiro que se apaixona por uma cadelinha fina e que, por causa disso, sofre toda a espécie de maus tratos e humilhações.
E o Patinho Feio, a ternurenta narrativa sobre um patinho que nasce diferente dos outros e, por isso, é abandonado não só por todos os animais da quinta onde vive, como inclusivamente, pela própria mãe. Era também o Capuchinho Vermelho, essa belíssima aventura de uma menina que, por desobedecer às instruções da mãe, faz com que a avó seja comida por um lobo...enfim, histórias giras e interessantes sobre a vida em geral e sobre a vida desgraçada de montes de crianças como nós, em particular.
(E ainda dizem que os desenhos animados de hoje são violentos.)
Ora, depois de passarmos anos da nossa vida a levar com petardos vindos de todas as direções, não nos sobrava tempo nem disposição para sermos muito maus (talvez fossemos um pouco abrutalhados, mas nada de mais). Os filmes e séries infantis encarregavam-se de nos dar constantemente conta da sorte que tínhamos na vida, da alegria que era termos quem nos assentasse um par de tabefes por semana, da fortuna de termos quem nos castigasse e impusesse limites e disciplina.

Só que, não se sabe bem porquê, parece que isso tudo, a longo prazo, teve um efeito nefasto sobre nós ou lá o que foi, de maneira que o que acontece hoje com os nossos filhos é exatamente o contrário. Eles são uns sensíveis, uns responsáveis, uns assustados, uns ignorantes, apesar de tudo.
Em primeiro lugar, o excesso de informação transformou-nos (a nós pais) nuns meninos. Hoje vivemos paranoicos com a segurança e os traumas e as depressões dos nossos mais que tudo e nem os autorizamos a ver as notícias ao pequeno-almoço. É que isso, parecendo que não, era capaz de os acalmar.
Em segundo lugar, porque hoje eles passam muito mais tempo em frente ao televisor do que nós passávamos, mas a ver mariquices que não contribuem nada para lhes dar estaleca. Papam séries intermináveis de Pokemons, Dragon Ball’s, Narutos, Gormitis, Winx – tudo realizado em cima de tecnologia espetacular, onde os bons ganham sempre aos maus (apesar de destruírem muitos planetas pelo caminho) e cujos argumentos têm tanto de realista como as promessas do Primeiro Ministro. Gastamos o nosso dinheiro a levar os nossos filhos ao cinema para nos agradecerem o facto de não lhes ter calhado a vida da Annie ou para ao menos verterem uma ou duas lágrimas de pura tristeza pela Lassie? Não. Os nossos filhinhos vão ao cinema para rirem às gargalhadas com o Madagáscar ou com a Idade do Gelo ou com o Shrek.
Pois assim os rapazes e as raparigas que, constituem o futuro deste país, não se preparam para a vida como deve ser. Chegam à idade adulta sem uma noção do que será a pressão da realidade, resguardados das agruras da morte e do abandono, sem saberem encarar, ou muito menos resolver, qualquer questão menor que se lhes depare. Para qualquer coisita lá agarram no telemóvel última geração e ligam aos paizinhos que se encarregam de afinfar um belo par de bofetadas no menino que lhe tirou a bola no recreio, no amigo que teve a influência nefasta sobre ele e no docente autoritário, por o ter traumatizado, coitadinho.
Assim, protegidos de tudo, fechados em casa não vão dar uma queda de bicicleta ou entalar um pé numa roda do carrinho de rolamentos, com a televisão a injetar-lhes ideias parvas na cabeça (sim, no mundo real as pessoas sofrem consequências se fizerem explodir um prédio ou se esmagarem oitenta e nove carros com uma retroescavadora), como hão-de os miúdos crescer, evoluir e aprender?

quinta-feira, setembro 30, 2010

Zé Tó ou Crise para crianças

Estava o Zé Tó muito contente
Na sua vidinha magra e decente
Trabalhava, poupava, não gastava tostão
O dinheiro guardava dentro do colchão

Um dia viu a tv a oferecer
Várias maneiras de ele enriquecer
“Venha cá Zé Tó, mais o seu colchãozinho
Nós tratamos da saúde ao seu dinheirinho”

O Zé Tó fez como disseram no televisor
Em pouco tempo já se sentia doutor
Coçou a careca, começou a pensar
Agora sou rico, tenho que mostrar

Não gastou logo tudo, foi devagar
Mas apanharam-no depressa, era fácil de topar
Ofereceram, ajudaram, fizeram desconto,
O Zé Tó gastou, foi até ficar tonto.

Vieram os filhos, queriam sempre mais
“Toda a gente tem” exigiam aos pais.
E o Zé Tó comprava, sem pejo nenhum
O mundo todo, inteiro para cada um.

Trocou tudo na vida, até as ambições
Descobriu o milagre das prestações
Todos os dias saía para trabalhar
E descobria mais e mais para comprar

Mas ele afinal não era tão rico assim
O dinheiro já estava quase no fim
De novo a menina, no televisor
“Zé Tó venha cá, é mesmo com o senhor”

Era muito barato, custava muito pouco
De tanta alegria, o Zé Tó ficou louco
Mais um computador, uma viagem de avião
Era só pedir, nunca diziam que não.

Ao fim de algum tempo desta maluqueira
Começou a sair cara, a brincadeira
Eram tantas as prestações que tinha para pagar
Que já lhe faltava com que se sustentar

Por fim já perto do desespero total
Mesmo sabendo que não tinha feito por mal
Foi ter com a menina do televisor
E pediu ajuda “ajude-me por favor!”

A menina afastou-o, virou a cara para o lado
Percebendo que o senhor estava quase acabado
E enviou uma carta, uma notificação
“Ou paga tudo ou fica até sem o colchão”

E veio o desemprego, a crise, os impostos
Agora somava, mas eram desgostos
A família fugia, exigia, cobrava
E ele a ver que nunca mais se safava

Foi com uma pistola segura pela coronha
Que ele encontrou saída para a vergonha
Tornou-se gatuno, vigarista, vilão
Roubou quem pôde para devolver ao colchão.

Quando recuperou quase todo o dinheiro
Comprou uma empresa para o filho engenheiro
Agora vive bem, chamam-lhe doutor
Mas pelo sim pelo não, já não tem televisor.

segunda-feira, setembro 27, 2010

Preâmbulo:
Ora bem. Cá estamos então para dar início à inolvidável experiência – para mim – ainda que potencialmente traumática – para vós – que será levarem com a minha opinião acerca de qualquer treta que me ocorra, se bem que desta feita, devidamente disfarçada de dica.
Toda a gente sabe que dicas são pequenos segredos de comprovada utilidade que subsistem geração após geração, nos quais a fantasia, o milagre, o saber ancestral e a pura charlatanice ocupam o mesmo espaço que a ciência (quando ela se digna a comparecer).
A palavra Tomo aparece logo no título para conferir alguma credibilidade à coisa, tipo saber enciclopédico e tal.

Tomo Primeiro – Dica de Beleza

A primeira coisa que qualquer pessoa deve fazer quando confrontada com uma dica de beleza oferecida em qualquer revista é... fugir dela. Ignorá-la completamente. Passar de imediato para outra página, mesmo que esteja repleta de fotografias da horripilante fronha da Jocelyn Wildenstein (esta senhora merece uma pesquisa no Google, garanto).
E isto porquê? Porque na esmagadora maioria dos casos os conselhos de beleza são-nos fornecidos por umas assalariadas sem gosto nenhum, cujo salário é pago por um certo e determinado número de empresas que partilham o objetivo único de divulgarem o último grito da banha da cobra de cada uma. Isto aplica-se tanto à área da cosmética, como à da indústria dos trapos, vulgarmente apelidada de industria da Moda.
No fundo, o que estas empresas pretendem é aproveitar-se de uma de duas características patentes na personalidade das mulheres que vivem em função destas coisas (há quem padeça das duas em simultâneo): falta de auto-estima ou excesso de nada que fazer.
A estratégia é relativamente simples. As marcas investigam quais as causas mais comuns de insatisfação (física) da sua potencial freguesia. Rapidamente descobrem que (mais coisa menos coisa) nas mulheres são as rugas, a flacidez, a celulite, a altura, o cabelo, as estrias e a menopausa. Nos homens serão as rugas, os pêlos (agora), a calvice, a pança dilatada, a perda de massa muscular e a perda de vigor em geral. Vai daí, as ditas marcas divulgam produtos inovadores e requintados na esperança de criarem na consumidora ou consumidor (isto já está cheio deles) a necessidade suprema de os adquirirem – os técnicos de marketing chamam-lhe desejo, mas não é, é mesmo necessidade.
Ora, para alguém que sendo um ser humano naturalmente imperfeito, também disponha de muito tempo livre (e algum capital) ou que tenha problemas ao nível da auto-estima (e algum capital), a ideia de passar mais um minuto que seja da sua pobre existência sem adquirir o creme renovador celular que tira rugas, pele e bocados de cérebro em simultâneo ou a calça tão justa que faz as pernas parecerem chouriços ao fumeiro enquanto gangrenam por falta de circulação, torna-se absolutamente insuportável.
E depois, quando a pessoa já se arruinou – sim, porque estas coisas são todas um horror de caras – as ditas empresas lançam um produto igualzinho ao anterior mas com a embalagem prateada e preta ou mais uma lantejoula do lado de dentro da bainha da perna direita, e botam-lhe o dobro do preço em cima sob o pretexto de estarem a vender um sonho. E a pessoa, desgraçada, lá vai a correr arruinar-se mais um bocadinho, porque aquilo sim, aquilo é que funciona mesmo.
Isto pode parecer um cliché (se calhar porque é de facto um cliché) mas a verdade é que a beleza está dentro de cada um. Ok, a beleza beleza, a beleza estética, pode estar do lado de fora, mas o charme, o carisma, a sensualidade, aquilo que faz mesmo a diferença, está dentro de cada um de nós. E por muitos cremes inovadores e roupas caras e modernas que se ponha em cima para se ficar mais bonito, a verdade é que nenhuma dessas coisas nos faz ficar mais interessantes. Pode ser suficiente para uma noite, mas nunca será para uma vida inteira.
Para mim, de entre todas as características que se pode ter, só há uma que distingue as pessoas entre bonitas e feias, inteligentes e tacanhas, sensuais e calhaus: o sentido de humor.
Uma pessoa que saiba rir – dos outros, da vida, mesmo quando ela não lhe corre assim tão bem, mas principalmente de si própria – emana uma luz a que ninguém pode ficar indiferente. Riam do vosso rabo gordo, da borbulha na testa, dos defeitos dos vossos maridos, das asneiras dos vossos filhos. Riam da parede rachada, do cano entupido, da crise internacional, do carro avariado. Riam de tudo aquilo que não tenham mesmo que chorar.
É isso que nos torna mais bonitos.

quinta-feira, setembro 16, 2010

No principio éramos adolescentes.
Éramos inseguros, borbulhentos, barulhentos e hormonais. Gritávamos mais do que ríamos, discutíamos mais do que namorávamos. Corríamos de um sitio para outro mas nunca estávamos realmente em parte nenhuma. Gamávamos o carro ao pai, a camisola à mãe, a Ginginha ao avô, as moedas da cozinha.
Inventávamos dormidas em casa das amigas para irmos sair à noite, passávamos muito tempo de castigo, desviávamos o correio com as notas, baldávamo-nos às aulas, andávamos de Casal Boss, DT, LC, RZ, Vespino, Vision ou MA a três e sem capacete, fugíamos da polícia e conhecíamos as motas uns dos outros pelo som.
Frequentávamos todos o mesmo liceu, vestíamos os mesmos penados, calçávamos os mesmos Sanjo, esmagávamos as mesmas carteiras Oceano Pacífico no bolso de trás das mesmas Levi’s 501 e vibrávamos em família com os mesmos Festivais Eurovisão da Canção.
Falávamos sobre nada durante horas, pendurados em fios encaracolados de telefones brancos de disco arrastado e fumávamos às escondidas. Tínhamos poucas regras, mas eram para cumprir à risca. Ou nem sempre.
No verão fritávamos em creme de cenoura durante dias inteiros no Guincho para onde o único meio de transporte era a boleia nas motas dos amigos ou em carros de perfeitos desconhecidos. À noite passeávamos o escaldão com duzentos escudos no bolso e um namorico qualquer na ideia. No inverno passávamos dias sem vestir um casaco, bastando para isso que não tivéssemos um que ficasse mesmo a matar na roupa emprestada cuja escolha se eternizava frente a camas abarrotadas de trapos, amigas e gargalhadas.
Íamos ao Oxford ver filmes com o John Travolta em grupos que ocupavam filas inteiras e comíamos chocolates Regina no intervalo.
íamos ao News, ao Palm Beach, ao Plateau, ao Ok, ao Bellburguer, ao Bar dos Pretos. Chegámos a ir ao Vangogo.
Ouvíamos Meat Loaf, Doors, The Cult, Alice Cooper, Def Leppard, Billy Idol, Fisher Z, Queen, Brian Adams e tantas outras bandas e músicas que nos faziam viajar entre emoções que viviam à flor da pele: pulávamos à doida e chorávamos desalmadamente no espaço de algumas cervejas apenas.
Dançávamos slows em discotecas.
E no dia seguinte estávamos capazes de fazer tudo de novo.
Divertíamo-nos à brava.

Depois ficámos crescidos.
Ficámos menos barulhentos e as borbulhas passaram a rugas. As nossas inseguranças deram lugar a outras com ladrões, contratos de trabalho e celulite instalada.
Agora gritamos menos mas mais a sério, ameaçamos menos e cumprimos mais, não gamamos nada e morremos de saudades da sensação.
Passámos a preocupar-nos com contas, escolas e taxas de juro. A falar de negócios, da crise, de doenças e de montes de assuntos até agora exclusivos dos nossos pais. Frequentamos as casas uns dos outros mas andamos sempre ocupados demais para namorar.
Temos cento e quarenta canais de televisão e outros tantos televisores espalhados pela casa, mas não conseguimos manter-nos acordados para ver nenhum.
Deixámos de fumar.
Começamos a ir ao cabeleireiro, à massagem, à pedicure, às finanças e ao advogado. A fazer check –up’s, a ir ao pediatra e ao psicólogo.
Compramos carros e computadores e malas e telemóveis e comparamo-nos secretamente aos nossos amigos.
Acordamos com os filhos, levamos os filhos à escola, vamos com os filhos às atividades, ouvimos os cd’s dos filhos, vamos às festas dos filhos, jantamos fora com os filhos, viajamos com os filhos, conversamos sobre os filhos, dormimos na cama com os filhos.
Custa-nos admitir que em breve teremos de vigiar o correio e o hálito deles como falcões e vivemos obcecados com a alimentação, com a segurança e com o futuro dos filhos.
Saímos cada vez menos e demoramos cada vez mais para nos arranjarmos, mas já temos maquilhagem e a roupa é quase sempre nossa.
Passámos a ter ressacas de três dias e a não sair de casa durante fins de semana inteiros sem razão nenhuma.
Somos conscientes e responsáveis. E sérios. E chatos à brava.

Mas no fundo, no fundo somos as mesmas pessoas.

Continuamos a gostar de rir, de ir às compras, de beber uns copos e de gozar uns com os outros. Nós mulheres, continuamos chatas e exigentes mas estamos mais sensuais. Eles continuam imaturos mas mais confiantes. Continuamos todos a ter ciúmes, a fazer birras, a sentir borboletas no estômago, a calçar sapatos que magoam e a vestir camisolas que picam só porque são espectaculares, a sair de casa sem casaco, a flirtar, a fofocar e a dizer palavrões.

Por isso vamos esquecer que somos grandes, que temos empregos, problemas, prestações e filhos para educar. Vamos ignorar as varizes, as carecas, as panças, os calos, os cabelos brancos, a falta de dinheiro e o cansaço e vamos ter uma noite inesquecível.
Vamos para a borga!
E é já amanhã!
A 105.4 Cascais FM vai pela mão do Miguel Ventura levar a banda sonora das nossas vidas ao Tamariz. E nós vamos com ela.
Vamos rir bué, beber um coche e dançar uma beca.
Bute?
Bruxo!

quinta-feira, agosto 26, 2010

Que cena, meu!

Ontem ao final da tarde, após mais uma jornada laboral para esquecer e antes de ir buscar a criançada, fui ao Pingo Doce fazer umas comprinhas rápidas (devia ser proibido trabalhar no Verão, faz muito calor. Pensando bem, no Inverno também devia ser proibido. Faz muito frio. E na Primavera, derivado às alergias...).
Entrei no supermercado toda laroca, peguei num cestito daqueles de segurar no braço e fui, qual Capuchinho Vermelho, direitinha à zona dos legumes.
Ora, estava eu cantarolando uma música que não me sai da cabeça há uns dias, uma coisa chamada Marlisse, dos Fisher Z (só hoje é que soube como se chamava), e escolhendo umas cenouritas biológicas com muito bom ar, quando o som de uma discussão me desviou o tino daquilo que estava a fazer.
Empertiguei-me muito bem empertigada, com o pescoço quase a desconchavar-se das clavículas, olhos muito arremelgados e ouvidos bem alerta.
Junto à linha de caixas desenrolava-se uma cena macaca. Aparentemente tratava-se de duas famílias desentendidas porque um dos individuos de uma teria insultado a sogra de um individuo da outra.
A coisa aqueceu, aqueceu, até que ferveu e descambou completamente.
Foi soco, pontapé, chapadão e palavrões que até ferveu. Fiquei feliz por os meus filhotes não estarem ali a ver aquilo. Era homens a bater em homens e homens a bater em mulheres. Homens a defender as mulheres e mulheres a tentar bater em homens. Todo o palavreado que fazia de banda sonora era de fugir, apesar de não se perceber metade entre os berros deles e os achaques, gemidos e fanicos delas.
O grupo movimentava-se pela loja, das caixas para a charcutaria, da charcutaria para o talho, daí para as caixas e por aí fora. Não se sabia para onde eles iriam a seguir, então a malta que como eu, se esforçava por fazer as suas compritas, tinha que andar a desviar-se deles. Ora foge para os azeites e óleos, ora desvia para a higiene pessoal, ora dá uma corridinha até aos congelados que são lá mais ao fundo.
Tudo isto sempre a espreitar pelo canto do olho para não perder pitada enquanto diisfarçava lindamente para os meus companheiros de plateia não se sentirem os únicos, e rezava secretamente para que nenhum dos pugilistas tivesse uma pistola e desatasse para ali aos tiros.
Lá apareceram uns seguranças e uns rapazolas mais afoitos e a coisa esmoreceu, se bem que me parece que foi ser terminada lá fora.

Quando fui finalmente buscar a criançada, contei - lhes o que se tinha passado.
É lógico que ouviram tudo, todos interessados.
Quando cheguei à parte em que expliquei eram cerca de oito ou dez pessoas envolvidas na escaramuça, e que aparentemente se tratava de duas famílias, o Vasco começou:
- Eram oito ou eram dez?
- Sei lá, Vasco, eram umas quantas, não contei.
- E diziam o quê?
- Não sei, insultavam-se e diziam palavrões.
- Que palavrões?
- Não digo, ora!
- E era como? Era cada família em linha de frente para a outra família?
Aí a Teresa interrompeu o massacre.
- Não, idiota, não era um duelo! É tudo ao molho, não é mãe? Uns em cima dos outros.
Encolhi os ombros, já exasperada. E logo o Vasco, que já devia ter o filme todo a passar-lhe à frente dos olhos:
- Já sei, vê-se aquela bola de pó com os braços e as pernas a sair! Fixe! Mãe, agora vou sempre contigo ao Pingo Doce!

terça-feira, agosto 17, 2010

Tem mais pequeno?

Todos sabemos e reconhecemos algumas características do nosso amantíssimo povo português: a mania de dizer mal do governo e dos vizinhos, a inveja do sucesso alheio, a maneira absolutamente única de ver sempre o lado negro da vida ou a capacidade de projetar escarretas a várias dezenas de metros são apenas algumas delas. Mas há uma de que nunca se fala e que talvez seja a única que mais ninguém no mundo tem, pelo menos que eu saiba:
Os portugueses são uns Houdinis do jogo “cálculo mental”.
Supreendidos? Nunca viram? Não conhecem?
Nah.
Ora vejamos:

Tudo se processa como num jogo tradicional.
Confesso que nesta época do ano em que ando mais na rua, esta maluqueira do “cálculo mental” deixa-me como quando está muita gente a jogar raquetes à beira mar – sem saber para onde fugir. A pessoa quer tirar uma férias descansada mas, a cada esquina aparece um taradinho das contas a testar a nossa capacidade de resposta.
Vá lá que a coisa é consentida - eu, pelo menos nunca vi ninguém reclamar.

A situação desenrola-se apenas em território nacional, em cafés, esplanadas, quiosques, estações de serviço, enfim, locais abertos ao público. Para haver partida tem de estar um empregado ao balcão e um cliente do outro lado. Frente a frente.
Quem desencadeia o jogo é o cliente e, para isso, tem de dizer a senha. Esta pode ser a frase “quanto é” ou uma semelhante, acompanhada pela exibição de algum dinheiro.
Mas quem decide se quer jogar é o empregado de balcão, através da resposta imediata que vai desencadear o cálculo veloz:

- Arranja-me dois cêntimos?
- Por acaso não tem um euro, noventa cêntimos, cinquenta, um...
- Um euro e vinte e três cêntimos, não me arranja, não?

Se por acaso o cliente não está interessado em ir a jogo deverá responder imediatamente “não tenho”. A esta resposta segue-se por norma um suspiro aborrecido ilustrado por um revirar de olhos do empregado ou por algum insulto murmurado entredentes, ambos dirigidos ao parvalhão do cliente que teve a ousadia de recusar a partida.
Ora isso tem uma consequência terrível para o empregado: obriga-o a dar o troco em moedas. E isto sim, é um drama. É a derrota.

Apesar de bizarro, por estas bandas o hábito do jogo está instituído e, em boa verdade, já (quase) ninguém pensa muito nele. Por vezes até já somos nós que avançamos para o jogo ao facilitarmos o troco mesmo antes de no-lo pedirem.

Agora experimentem ir a qualquer país do planeta, entrar numa.... sei lá... estação de serviço, e por exemplo: a conta é de 6,20€ e vocês dão uma nota de 10€ e 1,20€ em moedas para receberem 5€ de troco.
Experimentem!
Fica tudo a olhar para vocês como se tivessem um prato atravessado na boca ou os olhos fora das órbitas.
Já me aconteceu.

Imaginem só a vidinha infernal dos incautos estrangeiros que veem para cá de férias convencidos de que vão para a província descansar a cabeça...
Queriam!

quinta-feira, julho 22, 2010

Isto não é publicidade!

Não sou melómana. O que gosto na música, não é da música em si, enquanto arte ou génio ou exercício performativo. É daquilo que a música me faz sentir que eu gosto. Sensações, memórias, às vezes situações tão específicas que parecem gravadas na minha alma com banda sonora.

Lembro-me da primeira vez que ouvi Rodrigo Leão: estava ao telefone com um amigo meu e a certa altura ele pediu-me para esperar, que ia buscar alguma coisa. Enquanto esperava comecei a prestar atenção à musica que ele ouvia e, assim que ele regressou, perguntei-lhe o que era. Aqui está uma recordação cuja banda sonora se chama Alma Mater.
A minha primeira viagem de avião. Foi a Londres. Banda sonora: Roxette - Tourism.
A despedida de solteira da minha irmã Leonor - Amarguinhas...

Também há músicas que em lugar de situações, me recordam pessoas. Algumas, infelizmente, já cá não estão. Felizmente que quase todas ainda andam por aí.
Quase que posso garantir que, para cada pessoa de quem gosto, haverá uma música que se lhe cola:
Fugees - Killing me softly - Filipe, o meu maridão;
Solid - Ashford & Simpson - o meu Pai;
Tenho uma carta escrita... - (não sei de quem é e um dia ainda vai dar uma crónica) - a minha irmã Bárbara;
Lusitana Paixão - Dulce Pontes - a minha irmã Leonor;
The pros and cons of hitchhiking - Roger Waters - meu irmão Alex;
Grease - Ágata;
Alma Mater - Rodrigo Leão - Pedro "Gonain" Silveira

And so on...

Mas também há músicas que, quando oiço, me fazem lembrar sitios, épocas, fases da minha vida. E são essas as que mais gosto de ouvir - principalmente as que fazem parte da banda sonora da minha adolescência: as intermináveis férias de Verão, o 2001, as variadíssimas discotecas que houve no Hotel Paris, o Plateau, a Kapital... mas principalmente, especialmente, inesquecívelmente, tudo o que passava no News - a mítica discoteca na Malveira da Serra onde os meus pais não queriam deixar-nos ir porque não sei quantos anos antes, quando aquilo ainda era o Jet7, houve lá uma cena de facada onde morreu uma pessoa, mas nós íamos na mesma. E ainda bem.
You can do magic; Danger Zone; Kiss me deadly; Def Leppard; Goo goo Dolls; Aldo Nova; Police; The Cars; Alice Cooper; Russ Ballard; Guns N' roses; Ride like the Wind; Will you never be my friend.... enfim, são tantas, tantas, tantas músicas, tantas bandas que é impossível falar aqui de todas.
Muita gente tem cd's gravados pelos Dj's desta época, que ouve de trás para a frente em casa, no carro, no local de trabalho. Pois descobri recentemente uma coisa muito melhor: 105.4FM
A rádio que passa o que para uns é (apenas) a melhor música mas para mim (para nós), é muito mais do que isso: é a música das nossas vidas.
Hoje, quando entrarem no carro para voltarem para casa, amanhã, quando acordarem de manhã ou quando se meterem no carro para ir de férias, não se esqueçam: 105.4 Cascais FM.
E vão ver se não tenho razão!

quarta-feira, julho 07, 2010

Em 2015 será assim:

A última vez que fui ao teatro talvez tenha sido no verão passado, em julho ou agosto.
Era uma peça supostamente engraçada e cheia de ação, que seria o batismo de um conhecido nosso como encenador, mas onde ele faria também uma perninha como ator. Ele disse-nos logo na receção: hão de reparar bem no ato em que ato os sapatos. É excecional.
Mas afinal foi dececionante para nós enquanto espetadores. Uma das atrizes era quase anorética e surgia com uma minissaia absurda. Outra, de aspeto miserável, aparecia com um ridículo chapéu em forma de cato. Na parte masculina, um dos atores era uma criatura abjeta e muito pouco talentosa que mais parecia um espermatozoide radioativo com um ataque epilético, sendo que o outro não lhe ficava atrás no ar de quem tinha metido a cabeça no micro-ondas, mas suplantava – o de longe em inatividade e falta de noção do projeto como um todo.
Aborrecidos, acabamos por sair dali em contrarrelógio diretos para o aeroporto. Egito era o nosso destino.
O nosso amigo intercetou-nos aos berros:
– Deem- nos uma segunda oportunidade, não veem que os atores são ótimos?
Nós adotamos imediatamente um semblante perentório e respondemos:
- Para com isso, rapaz! Andamos a correr durante o dia todo para vermos esta bodega! Para a próxima hás de ter mais cuidado com a seleção de atores para o espetáculo.
Arrancamos dali a toda a brida pela autoestrada diretos ao aeroporto e em cinco minutos estavamos lá. O alívio foi coletivo. Se perdessemos o avião teríamos de fretar um jato, e isso era exatamente o que nós não queríamos.

Este texto é uma treta mas é só para dizer que
FOI ESCRITO AO ABRIGO DO NOVO ACORDO ORTOGRÁFICO

quinta-feira, julho 01, 2010

Porque é que as conversas dos adultos demoram tanto?

É uma das perguntas que os meus filhos me fazem constantemente. Eu poderia responder que no meu caso demoram porque eu não me calo ou porque os adultos não brincam, por isso conversam. Mas essa não é a verdade. As conversas dos adultos demoram muito porque...

Sempre tive alguma pena de não ter nenhum talento extraordinário, revelado logo na infância. Via os coleguinhas de escola, alguns pequenos prodígios ao piano, na ginástica, na matemática, na beleza, no que fosse. Mas eu, nunca tendo sido propriamente horrorosa também não era nenhuma estampa, apesar de nunca ter sido propriamente má aluna, também nunca fui especialmente boa – por exemplo, nunca na vida tive um 20 - e sempre fui consistentemente uma verdadeira nódoa em toda e qualquer actividade que envolvesse mais coordenação motora que levar os talheres à boca.
Contudo, a certa altura descobri que, mesmo não sendo um prodígio nem similar, tinha uma característica mais desenvolvida que a média – não, não era o rabo – era a memória. De facto sempre tive uma memória verdadeiramente notável e que talvez seja a responsável pelas minhas consistentes notas medianas, já que o estudo não era de certeza.
Mas como o cérebro é estranho e a memória selectiva, a minha dava-me mais para letras de músicas (que eu decorava à segunda vez que ouvia e, se fosse muito repetitiva, podia ser logo à primeira), números de telefone e principalmente, nomes e caras. Era de tal forma eficiente como fisionomista que a minha mãe recorria a mim como se à agenda: “lembras-te daquela loira meio parva, casada com aquele colega do pai do nariz estranho?” E logo eu disparava nome e, se fosse pessoa que eu conhecesse bem, número de telefone. Bastava-me ver uma cara uma vez e nunca mais me esquecia nem da identificação nem da origem. Da mesma forma, sabia os nomes de todos os livros e filmes que via, dos autores e dos actores, enfim, era uma espécie de catálogo.
Agora, não sei se é das gravidezes, da falta de sono, das noitadas, do excesso de trabalho, do desgaste da idade ou de tudo isto junto, mas sinto uma intensa e rápida decrepitude a tomar conta das minhas faculdades. Acontece-me quase todos os dias encontrar pessoas que me cumprimentam e até conversam animadamente, que me perguntam pelos meus irmãos, às vezes pelos meus pais ou filhos, e que eu não faço a mais leve ideia de quem sejam. Como sou simpática por natureza, sinto vergonha de admitir perante alguém que se me dirige de forma tão calorosa, que estou completamente a zeros, por isso disfarço e tento perceber pelo contexto da conversa se chego lá. O que na maioria das vezes não acontece, admito, e acabo a fazer figura de parva.
Por ter vivido a vida toda na mesma terra é natural que eu conheça muita gente, que de vez em quando encontro aqui ou ali e com quem dou dois dedos de conversa. Estas falhas já são tão comuns que no final há sempre um dos meus filhos que pergunta – sabias quem era? Infelizmente cada vez mais respondo que não.
Mas eles não se ralam nada e eu já quase não ligo nenhuma. Desenganem-se que eu estou plenamente consciente de não ser a única com este problema. Aliás, parece-me que quase toda a gente da minha geração anda assim. É giro, porque as conversas passam a dar a sensação de de serem chamadas telefónicas com problemas de rede:

- Já viste o ... pá, o novo filme do.... daquele, caraças, que anda com aquela que fazia o Sexo e a Cidade, a loira....
- Ah, o..... , eles não andam, são casados, sim, o..... pá, como é que ele se chama, sei perfeitamente quem é, entrava naquele filme em que fazia de mau aluno .... Não interessa, já estou a ver. Não sabia que tinha um filme novo. Vale a pena, é?
- Vale, é giro. É passado na Austria, num dos sitios onde ficamos de uma das vezes que estivemos há uns quatro ou cinco anos, lembras-te? Tinha um nome estranho.
- Nomes estranhos têm todos os sitios onde estivemos na Austria. Foi no ano em que fomos nós e mais quem?
- Foi no ano daquelas duas doidas, primas do .....
- Sim, sim, as ...... bolas, sim, sim, as primas daquele que é actor...
- Músico.
- Músico?
- Sim, até fez a banda sonora de uma série qualquer, há pouco tempo... com o argumento daquele antipático que escreve no Expresso.
- Sim, lembro-me o... caraças, pá! Esteves Cardoso? Não... é o outro.
- Exacto o Sousa Tavares... isso. O cd...

Lá está, quem não tem conversas destas que atire a primeira pedra!

quarta-feira, junho 23, 2010

Uma viagem a Londres

O facto de ter dado de caras, assim do nada, com uma fotografia antiga, fez-me recordar...

Se a memória não me falha estávamos em 1992, no final do primeiro ano do curso ou perto disso. A minha irmã Leonor, as nossas amigas Mónica e Ana Margarida e eu decidimos fazer uma viagem. Como a idade era poucochinha (eu e a Mónica tínhamos 18, a Leonor 19 e a Ana 20, acho eu) os recursos também eram escassos, por isso começamos logo por investigar de entre o leque de amigos, conhecidos e amigos dos amigos, quem é que vivia onde e tinha casa onde coubéssemos, ou mais ou menos, as quatro.

Não foi necessário grande esforço. Quem vivia fora ocupava geralmente um quarto microscópico em casa de uma velha chata e forreta, o que levava à exclusão imediata desses.

Concentramos-nos então na malta dos apartamentos. Depressa decidimos o nosso destino: a malta dos apartamentos eram...um.

O rapaz em questão era um amigo do meu irmão, por arrastamento amigo nosso também, que vivia numa casa, uma vivendinha, em Londres com mais três companheiros – um português e dois ingleses. Maravilha das maravilhas, estavam todos de férias, pelo que a casa seria todinha e apenas para nós.

Aterramos em Heathrow já de noite – em Londres escurece lá para as quatro da tarde, mas já era de noite mesmo. De papelinho com a morada em riste, chave preciosamente guardada pela Leonor, malas aos trambolhões e uma fome desvairada, lá passámos de metro em metro, de linha em linha, até as pessoas serem cada vez menos e os nervos cada vez mais. Finalmente Surrey Quays (não era?), o fim da linha, quase.

Saímos do metro no instante em que São Pedro puxou o autocolismo. Como se não bastasse, a zona era tão má que nem os taxis paravam. Seguimos a pé, atentas, em busca do Mac Donald’s lá do sitio, em frente do qual era suposto virarmos à esquerda. Voilá.

Já passaram uns anitos, não guardei muitos dos detalhes. Lembro-me que a casa era simpática, tinha dois andares mas não tinha quase móveis nenhuns. Não sei se tinha cozinha, mas não me lembro de a ver. Mas uma coisa nenhuma de nós poderia esquecer – o quarto do Religioso. O Religioso era um dos ingleses que vivia lá e que devia ser uma personagem bastante peculiar. Tenho até ideia de que ele apareceu por lá e tudo, não foi? Tinha um crucifixo enorme pendurado na parede e era assim meio gótico. Para nós, provincianas dos sete costados, aquilo era muito à frente, tal como o punk de gigantesca crista colorida e careca integralmente tatuada com um lagarto lindo de morrer, que vimos na rua mas que até aí só tínhamos visto na parte das aberrações da revista do National Geographic.

Logo ali à chegada tivemos o primeiro choque. O nosso amigo dono da casa telefonou para nos comunicar que o outro português que lá vivia afinal chegava de Portugal no dia seguinte e ia lá para casa.

Coitado. Não tinha ideia do que o esperava. Foram dias alucinantes, alucinados, sem um momento de lucidez ou sossego. Uma semana em que rimos, rimos tanto!

Nós, galinhas adolescentes, completamente excitadas com o programa de aventura.

O inferno dele começou logo quando compramos, e durante uma semana ouvimos até à loucura, aos berros, claro, o album Tourism dos Roxette, que ainda hoje é a banda sonora dessa viagem.

O rapaz nem sabia já onde havia de meter a cabeça. Ou o cd. Ou a nós. Mas como a bagagem dele tinha ido parar a Tóquio e ele passou quase uma semana sem mudar de roupa (e desconfiamos que sem uma banhoca), nós entendemos que a tortura não era demasiada.

Não me vou alongar em detalhes da viagem, até porque as memórias já estão um bocadinho turvas e porque seria enfadonho – é como ver fotografas das viagens dos outros.



Mas acabou em grande.

No dia da partida decidimos ir para o aeroporto de taxi. Tínhamos muita bagagem, estávamos cansadas e ainda nos restavam algumas libras. Como dispunhamos de mais tempo para o caminho acabamos por partir mesmo a queimar. Já em enorme stress entramos pelo terminal 1 do aeroporto de Heathrow feitas loucas a correr, aos tropeções em malas, sacolas, saquinhos e porcarias até aterrarmos num balcão qualquer aos gritos “flight number não sei qantos to Lisbon Portugal?” e ouvirmos aterrorizadas as palavras quase cuspidas pela cabra da funcionária: “closed”. E “closed” porque Londres não tem as dimensões de Lisboa e o Terminal 4, de onde seria suposto partirmos, era a 40 minutos do sítio onde estávamos. Um pormenor. Chorámos, pintámos a manta, e lá conseguimos que nos trocassem os bilhetes sem acréscimo de custo, para um vôo no dia seguinte de manhã muito cedo.

Informaram-nos que no Terminal 2, a 10 minutos do 1, havia cacifos para fechar a bagagem. Lá fomos arrumar as coisas, ligamos ao nosso companheiro e partimos de metro para Surrey outra vez. Como não podíamos perder o avião e nem sequer tínhamos uma muda de roupa, decidimos não dormir. Ficamos na palheta, a beber umas jolas, grande risota. Está claro que adormecemos. Acordamos às 5 da manhã em histeria absoluta. Não havia já fundos para andar de taxi, pelo que teríamos de ir de Metro, viagem que levaria cerca de uma hora. Saímos disparadas a correr e fomos a contar os segundos. À chegada ao aeroporto alguém lembrou: as malas estavam nos cacifos no Terminal dois e o avião partiria do um, onde nós estávamos a chegar.

Duas desarvoraram para levantar as malas enquanto as outras iam procurar o check in.

Para ouvirmos novamente o impávido balido: “closed”.

Dessa vez assustamos-nos mesmo. Já estávamos completamente lisas, não podíamos comprar outros bilhetes! Chorámos, pedimos, implorámos, suplicamos...e ok. Nova remarcação para daí a não sei quantas horas, já de noite. Nessa altura estávamos tão íntimas das “collect calls” que no aeroporto já devia haver um telefone só para nós.

Juntamos todo o dinheiro que tínhamos e compramos um café com leite e uma sandwich que dividimos pelas quatro. E esperámos. Sentadas, de frente para o placard das partidas. Sem arredar pé. Depois de termos perguntado a dezoito pessoas se estávamos no Terminal certo.

E embarcamos finalmente.

quarta-feira, junho 16, 2010

Portugal!

Ontem consegui espreitar o jogo inaugural dos Navegadores, no Mundial 2010. Sim, também eu interrompi uns bocadinhos o meu trabalho para ver em que é que paravam as modas lá na África do Sul. Não parei todo o tempo e não vi o jogo todo, apenas o suficiente para me sentir bem com a minha luso-consciência sem me sentir mal com a minha profisso-consciência. No final senti vergonha. Não foi pela aborrecida prestação dos jogadores lusos – eles são pagos para jogar à bola e é isso que fazem, umas vezes de forma mais inspirada, outras nem por isso, mas que se entendam com quem lhes paga. A vergonha que senti foi pelos restantes portugueses, todos os que não estavam dentro do campo, em Port Elisabeth.
Todos os dias encontro por aí críticos ferozes de Portugal enquanto nação e de Portugal enquanto equipa de futebol. Uns afirmam ter vergonha de viver num país corrupto, onde muitos pagam os luxuosos desvarios de uma meia dúzia de poderosos com ambição a mais e escrúpulos a menos. Outros, os treinadores de bancada, gastam o seu tempo e latim a questionar as escolhas do Professor, a estratégia do Professor, a prestação do Ronaldo, do Deco, do Coentrão ou a lesão misteriosa do Nani relativamente à do Drogba. Todos se insurgem contra os nossos jogadores comparando os milionários salários que recebem com as fracas exibições que nos têm oferecido últimamente. Mas são esses mesmos críticos os primeiros a afinfar o traseiro na primeira cadeira, banco, sofá ou assento de qualquer espécie que apareça, para poderem devidamente criticar e escarnecer do seu país. Na empresa onde gastam as horas que faltam para ir embora, no café onde ocupam o tempo e os subsídios, no shopping onde vibram mesmo que de pé, em frente a um televisor suspenso na montra de uma qualquer loja de electrodomésticos em promoção – qualquer lugar serve para dizer mal de Portugal e para ver futebol.
É isto que me entristece. Por todo o lado vemos bandeirinhas, bandeirolas, vuvuzelas, frases feitas e sei lá mais o quê, manifestações hipócritas de apoio a Portugal, que se transformam em ataques sanguinários aos protagonistas do momento assim que o Tiago falha um livre ou o Liedson faz uma falta. Mas agora pergunto eu: Enquanto os nossos jogadores estão na África do Sul a fazer efectivamente alguma coisa por Portugal, o que é que cada uma dessas pessoas, o que é que cada um destes juízes implacáveis faz pelo seu país? Quando é que cada um desses cidadãos exemplares fez de facto a diferença no seu país, na sua empresa, no seu bairro, na sua rua, na escola dos filhos ou mesmo dentro de sua casa, por forma a tornar a realidade melhor e mais exemplar, em lugar de se preocupar apenas com a prestação ao futebol de duas dúzias de miúdos para quem uma vitória é de certeza mais importante que para qualquer um de nós? Quem é que desses jogadores de sofá se poderá vangloriar de ter uma prestação imaculada no seu emprego, de marcar golos a cada chuto, todos os dias, em todos os jogos?
E mais. Onde estão esses patrioticos aficcionados do patriotismo quando os nossos deficientes ganham medalhas sucessivas em paraolimpíadas para as quais se treinaram a expensas próprias e das quais regressaram felizes para darem de caras com um enorme nada a recebê-los? E onde estão quando as nossas estrelas internacionais do Judo, do Atletismo, do Triplo Salto, mais precisam de claques, força e apoio?
Suponho que sentadinhos com o rabiosque bem em cima das bandeirolas que desdobram e arejam uma vez a cada dois anos, para irem para o café criticar Portugal, os portugueses e as prestações dos nossos nos campeonatos de futebol.

quarta-feira, junho 09, 2010

Um homem e um colchão

Era uma vez um casal. Esse casal vivia feliz e contente numa casinha. Dentro dessa casinha havia um quarto e dentro do quarto uma cama. Grande. De casal. Para o casal dormir.
Nesse casal, que vivia numa casinha onde havia um quarto com uma cama grande onde podiam dormir, o homem ressonava. Muito. Sempre.
Ela, a mulher, tentava todas as noites dormir na sua cama, dentro do quarto, dentro da casinha, mas tinha muita dificuldade. A mulher não era surda. A mulher ouvia o ronco. E não dormia. E dava estalinhos com a língua para ele parar. E abanava-o. E tapava-lhe o nariz e virava-o de lado e dava-lhe pontapés. E dizia-lhe para ele ir ao médico. E nessa casinha onde o casal vivia feliz e contente num quarto com uma cama grande, ninguém dormia.
E ele dizia que ela era má. Que não o deixava descansar.
Talvez de tanto ouvir estalinhos de língua, um dia o homem, que ressonava, começou com estalinhos nas costas. As costas estalavam-se-lhe pela manhã, quando ele acordava da noite sem dormir. Durante muito tempo as costas do homem estalaram todos os dias pela manhã. Um dia ele decidiu. Era do colchão. Do colchão da cama grande de casal. E decidiu trocar de colchão. E o casal foi comprar um colchão novo para a cama grande.
O tempo passou. O colchão não era bom. As costas estalavam. O homem ressonava. Ninguém dormia.O homem decidiu trocar de colchão.
O casal foi e comprou outro colchão. Para a cama grande, de casal, que estava no quarto, dentro da casinha onde viviam felizes e contentes. Mas as costas estalavam, o homem ressonava e, na casinha ninguém dormia.
Como o casal não dormia mas aprendia, este colchão, de cama grande, tinha um prazo para ser devolvido e reembolsado. E o homem pediu à mulher se o devolvia. Ele comprava outro, noutro sitio. Melhor. Para dormirem.
E a mulher assim fez. Devolveu o colchão da cama grande de casal que estava num quarto dentro de uma casinha onde viviam felizes e contentes. E o homem, que ressonava, tinha estalinhos nas costas e trabalhava muitíssimo, não teve tempo e não comprou outro.
Agora num quarto, dentro de uma casinha linda, há uma cama grande, de casal, para o casal dormir. O homem ressona e tem estalinhos nas costas, mas agora o casal não dorme porque não tem colchão nenhum.
FIM