...inventava um relógio que esticasse os dias, uma máquina de repetir as frases que mais digo e um despertador que nos escolhesse a roupa de manhã.
Inventava um secador de cabelo sem fios, uma máquina de estender a roupa e outra que fosse lá engomá-la. E já agora, que a deixasse arrumada.
Inventava saltos altos confortáveis, uma dieta instantânea e uma forma de impedir que a gravidade se sentisse no meu corpo.
Acabava com a morte de crianças, com a demência dos velhos, com o egoísmo dos homens.
Inventava uma máquina de arrumar a casa, de lavar o carro, de mudar fraldas, de curar ressacas.
Uma outra que acabasse com as intrigas, com as mentiras, com as maldades e com as invejas.
Inventava uma forma de acabar com a miséria, com a falta de dignidade, com as catástrofes, com os acidentes, com a violência, com a traição.
Inventava a fórmula do optimismo, da esperança, do riso, do sono e do amor.
Inventava pílulas, bebidas e cigarros que não matassem.
Inventava a maneira de proteger os meus filhos sem ser chata, de gostar do meu homem sem ser ciumenta, de andar de carro sem gastar gasolina, de gastar dinheiro sem ficar pobre.
Inventava uma máquina de alimentação saudável, outra para reciclar o lixo e uma de substituir lâmpadas.
Inventava a forma de acabar com a discriminação, com o terrorismo, com a corrupção.
Inventava a fórmula da sinceridade, da tolerância, da paciência, da simpatia. Da beleza, da generosidade, da alegria e da felicidade.
Se eu fosse inventora inventava tantas coisas... mas como não sou inventei uma solução: agarrar na minha vida e prestar muita atenção ao que é bom, não dar grande importância ao que é menos bom e passar rápidamente ao lado do que é mau.
Bora todos?
Para mulheres chatas, para mulheres que acham que são chatas, para mulheres que acham que os homens as acham umas chatas, para homens chatos, para homens que acham as mulheres umas chatas, para mulheres que acham os homens uns chatos porque as acham umas chatas... Para toda a gente, portanto.
quinta-feira, fevereiro 25, 2010
quinta-feira, fevereiro 18, 2010
Ele há gajas e gajas. E gajos.
Quem me conhece sabe que sou mulher. E até bastante. Mas nunca fui “gaja”, isto no sentido de ter uma amiga em cada dia, segredar, galinhar, fofocar, dizer ou fazer maldades fosse a quem fosse.
Sempre fui um bocado básica: gosto muito de champanhe mas adoro cerveja, sinto-me tão bem num restaurante de luxo como numa tasca, sou capaz de comer e arrotar como um pedreiro e de dizer umas piadas mais brejeiras do que seria conveniente para uma dama, em qualquer sitio onde esteja.
A uma certa altura da vida, a adolescência, tanto os rapazes como as raparigas assumem identidades muito marcadas, com principios e critérios muito fundamentalistas e obtusos, até. Eu nunca fui assim. Na infância passei de longe mais tempo a ler e a fugir dos meus irmãos do que a confraternizar com malta da minha idade, o que me tornou um bocado bicho do mato. Não gostava nem tinha jeito para jogar à bola nem para andar de bicicleta, por isso, fui crescendo e desenvolvendo dons de conversadora competente.
Mais tarde, depois de tirar os óculos e o aparelho dos dentes e aprender a socializar e a vestir-me decentemente, nunca me importei se transpirava loucamente por dançar até ao amanhecer e cedo compreendi que estar confortável é muito mais divertido que estar gira.
Talvez por isso, porque não me identificava de todo com o espírito de “gaja”, em criança e até na adolescência sempre tive melhores e mais francas relações com rapazes do que com raparigas. Não que não tenha ou tivesse tido amigas – claro que tive e tenho – mas como me sentia sempre meio desintegrada nesses grupos muito “femininos”, as minhas amigas sempre foram poucochinhas quando comparadas com o que era normal na minha idade.
Acontece que, talvez por serem poucas e por eu achar que devia preservá-las e ser como elas, eu dedicava a essas amigas uma amizade muito focada e sentia-me verdadeiramente com qualquer desapreço demonstrado – leia-se qualquer insignificante falta de atenção ou segredinho perpetrado nas minhas barbas. É possivel que fosse por eu não saber lidar com essas nuances complexas e intrincadas, das quais vivia completamente alheada, mas a verdade é que sempre fui uma amiga absolutamente disponível, incapaz de magoar deliberadamente outra pessoa, de dirigir ataques cirurgicos, daqueles desferidos mesmo para magoar; de gozar, fazer pouco ou humilhar alguém só porque sim. Talvez devido a essa espécie de credulidade, tinha a paranóia de que um dia iam gozar comigo e eu não ia perceber nada mas, por outro lado acreditava que toda a gente me dizia sempre a verdade. Em suma, era um bocado totó. Mas nem por isso fui infeliz, antes pelo contrário.
Entretanto cresci e continuei fiel a mim mesma, se bem que um bocadinho mais... preparada. Se nunca saí com grupos de amigas para o engate, nunca conspirei com umas contra outras, nunca fui muito fã de dormir fora de casa e sempre detestei da mesma forma emprestar roupa e usar roupa emprestada - mas emprestava, se uma amiga pedisse; também acho que aprendi a topar uma mentira, a dirigir um ataque, a defender-me de uma má intenção e a não me meter na vida dos outros.
Esta é uma postura que mantenho tanto na minha vida privada como na profissional.
Na minha empresa todos se riem porque eu nunca sei nada das fofocas do momento, estou sempre a leste das conversas que acontecem à minha volta e passo o tempo a pensar em comida. Também se riem porque venho trabalhar de cabelo molhado e faço a maquilhagem no carro, muitas vezes já no parque de estacionamento, à vista de todos.
Num grupo de trabalho composto por cinco homens e algumas vinte e cinco mulheres, os homens – todos casados - estão claramente a “mulherizar-se”: falam de cremes e cortes de cabelo, colocam verniz para não roerem as unhas, trocam receitas e vestem e calçam peças no mínimo duvidosas às sextas – feiras. E eu não faço mais nada a não ser gozar com eles e questionar a sua masculinidade (pura gozação, sem preconceito nenhum, que eu cá não sou pessoa de discriminar ninguém).
De tal forma que, aqui há dias, sentei-me no meu lugar, ao computador, e reparei que estava tudo a sussurrar. Sem perceber o que se passava fingi que não tinha dado por nada, até que recebi um email de uma das minhas coleguinhas a dizer para eu olhar para trás. E ao olhar, vi um cartaz que dizia o seguinte:
“Aqui é o lugar d’o Elias – O último dos machos.
Sempre fui um bocado básica: gosto muito de champanhe mas adoro cerveja, sinto-me tão bem num restaurante de luxo como numa tasca, sou capaz de comer e arrotar como um pedreiro e de dizer umas piadas mais brejeiras do que seria conveniente para uma dama, em qualquer sitio onde esteja.
A uma certa altura da vida, a adolescência, tanto os rapazes como as raparigas assumem identidades muito marcadas, com principios e critérios muito fundamentalistas e obtusos, até. Eu nunca fui assim. Na infância passei de longe mais tempo a ler e a fugir dos meus irmãos do que a confraternizar com malta da minha idade, o que me tornou um bocado bicho do mato. Não gostava nem tinha jeito para jogar à bola nem para andar de bicicleta, por isso, fui crescendo e desenvolvendo dons de conversadora competente.
Mais tarde, depois de tirar os óculos e o aparelho dos dentes e aprender a socializar e a vestir-me decentemente, nunca me importei se transpirava loucamente por dançar até ao amanhecer e cedo compreendi que estar confortável é muito mais divertido que estar gira.
Talvez por isso, porque não me identificava de todo com o espírito de “gaja”, em criança e até na adolescência sempre tive melhores e mais francas relações com rapazes do que com raparigas. Não que não tenha ou tivesse tido amigas – claro que tive e tenho – mas como me sentia sempre meio desintegrada nesses grupos muito “femininos”, as minhas amigas sempre foram poucochinhas quando comparadas com o que era normal na minha idade.
Acontece que, talvez por serem poucas e por eu achar que devia preservá-las e ser como elas, eu dedicava a essas amigas uma amizade muito focada e sentia-me verdadeiramente com qualquer desapreço demonstrado – leia-se qualquer insignificante falta de atenção ou segredinho perpetrado nas minhas barbas. É possivel que fosse por eu não saber lidar com essas nuances complexas e intrincadas, das quais vivia completamente alheada, mas a verdade é que sempre fui uma amiga absolutamente disponível, incapaz de magoar deliberadamente outra pessoa, de dirigir ataques cirurgicos, daqueles desferidos mesmo para magoar; de gozar, fazer pouco ou humilhar alguém só porque sim. Talvez devido a essa espécie de credulidade, tinha a paranóia de que um dia iam gozar comigo e eu não ia perceber nada mas, por outro lado acreditava que toda a gente me dizia sempre a verdade. Em suma, era um bocado totó. Mas nem por isso fui infeliz, antes pelo contrário.
Entretanto cresci e continuei fiel a mim mesma, se bem que um bocadinho mais... preparada. Se nunca saí com grupos de amigas para o engate, nunca conspirei com umas contra outras, nunca fui muito fã de dormir fora de casa e sempre detestei da mesma forma emprestar roupa e usar roupa emprestada - mas emprestava, se uma amiga pedisse; também acho que aprendi a topar uma mentira, a dirigir um ataque, a defender-me de uma má intenção e a não me meter na vida dos outros.
Esta é uma postura que mantenho tanto na minha vida privada como na profissional.
Na minha empresa todos se riem porque eu nunca sei nada das fofocas do momento, estou sempre a leste das conversas que acontecem à minha volta e passo o tempo a pensar em comida. Também se riem porque venho trabalhar de cabelo molhado e faço a maquilhagem no carro, muitas vezes já no parque de estacionamento, à vista de todos.
Num grupo de trabalho composto por cinco homens e algumas vinte e cinco mulheres, os homens – todos casados - estão claramente a “mulherizar-se”: falam de cremes e cortes de cabelo, colocam verniz para não roerem as unhas, trocam receitas e vestem e calçam peças no mínimo duvidosas às sextas – feiras. E eu não faço mais nada a não ser gozar com eles e questionar a sua masculinidade (pura gozação, sem preconceito nenhum, que eu cá não sou pessoa de discriminar ninguém).
De tal forma que, aqui há dias, sentei-me no meu lugar, ao computador, e reparei que estava tudo a sussurrar. Sem perceber o que se passava fingi que não tinha dado por nada, até que recebi um email de uma das minhas coleguinhas a dizer para eu olhar para trás. E ao olhar, vi um cartaz que dizia o seguinte:
“Aqui é o lugar d’o Elias – O último dos machos.
terça-feira, fevereiro 09, 2010
Faz hoje ao meio-dia exactamente nove anos que entrei no Hospital Particular de Lisboa com um atraso de três horas relativamente à hora que tinha combinado com a Drª Cristina. Logo ali levei um raspanete da enfermeira de serviço, uma mulher gorda e eficiente que mais tarde soube ser a planetáriamente reconhecida Capitolina – é que estava gente a ligar para lá há duas horas para saber se o meu bebé já tinha nascido e eu sem aparecer e ela não era secretária de ninguém..
Na iminência de me debulhar em lágrimas, lá consegui articular duas palavritas - desculpei-me com o trânsito, uma manhã dificil, sabe como é.
Mas a realidade foi bastante diferente. Se é verdade que eu tinha combinado com a Drª às nove, também é verdade que não preguei olho a noite inteira e bem antes da hora marcada já estava em Lisboa.
Mas eu estava tão nervosa, tão apavorada e as minhas pernas tão paralisadas que se recusavam terminantemente a obedecer aos desmandos do meu marido que, sentado comigo numa mesa do café em frente do hospital, tentava a todo o custo convencer-me a acabar com o suplício antes de enlouquecermos os dois.
Finalmente, entre náuseas, cambaleios e baixas de tensão arterial lá me decidi. Seria tudo tão mais fácil se fosse espontâneo! Naquele dia jurei a mim mesma que, mesmo que viesse a ter mais dezoito filhos, não tornava a manipular a natureza a meu jeito, só para não calhar a meio da noite. Que se lixasse! Seria quando fosse, quando doesse ou alagasse, que quanto a isso já não podemos fazer nada, nem fugir, nem adiar, nem sequer pensar nisso.
Às 13,30H colocaram-me o soro e eu estendi-me a ler a Caras para enganar a fome que me consumia, enlouquecia e outras palavras acabadas em ia.
Como o processo não estava assim tão rápido, uma meia hora depois da epidural a Drª decidiu ir lanchar, noticia que me trouxe de forma irresponsável e leviana, por volta das 17.30H.
É que, se em vez de pernas eu não tivesse ali adormecidos dois hipopótamos, eu garanto que lhe tinha saltado aos fagotes. O estado apoplético em que me encontrava desde a véspera tínha-me reduzido o estômago ao tamanho do buraco de uma agulha, fazendo com que não tivesse lá entrado praticamente nada em cerca de vinte e quatro horas. Mas, a partir do momento em que me tinham posto o soro, eu tinha relaxado. E com o relaxamento veio uma fome absurda, dificil de controlar, provocadora de lágrimas e discussões e alterações da minha personalidade já de si bastante hormonal.
Passados uns dez minutos da saída da médica senti “aquilo”. “Aquela” vontade. A minha mãe estava comigo e eu desatei aos gritos que fosse chamar o Filipe, que a criança nascia, depressa, depressa!
A minha mãe já tinha reparado no meu estado psicótico e desvalorizava, atribuíndo o meu nervosismo à fome – vá lá, filha, tem calma. Ainda falta, não ouviste a médica? Vou ver se podes beber um pouco de água.
E eu que não, que não, que a médica não sabia nada, que não queria água porra nenhuma, que chamasse a parteira e rápido ou seria mesmo ela a fazer o parto.
Mais para me acalmar do que por convicção, lá foi a minha mãe chamar a parteira. No caminho cruzou-se com o Filipe e achou que talvez fosse bom ele ir até lá acalmar-me também.
Passados quinze minutos, às 17.55H de Sexta –Feira, dia 09 de Fevereiro de 2001, com trinta e oito semanas de gestação, 3,050Kg de peso e cinquenta centímetros de comprimento, sem esforço nenhum, nasceu o Vasquinho. Trazia o cabelo em pé, a goela afiada e um conjunto de balde e esfregona para oferecer à mana que o esperava ansiosa.
Ao parto assistiu o Pai. A médica não.
Lembro-me tão bem. Está tudo tão claro na minha memória - cada emoção, cada arrepio, cada lágrima, cada sorriso. O alívio.
Parece mesmo que foi ontem.
Hoje vai ser um daqueles dias especiais em que a única coisa que o preocupa é verificar se cada pessoa que se chegue perto dele também vem devidamente munida de um presente.
Acho que sim, é uma boa preocupação.
Parabéns filho! Aproveita bem.
Na iminência de me debulhar em lágrimas, lá consegui articular duas palavritas - desculpei-me com o trânsito, uma manhã dificil, sabe como é.
Mas a realidade foi bastante diferente. Se é verdade que eu tinha combinado com a Drª às nove, também é verdade que não preguei olho a noite inteira e bem antes da hora marcada já estava em Lisboa.
Mas eu estava tão nervosa, tão apavorada e as minhas pernas tão paralisadas que se recusavam terminantemente a obedecer aos desmandos do meu marido que, sentado comigo numa mesa do café em frente do hospital, tentava a todo o custo convencer-me a acabar com o suplício antes de enlouquecermos os dois.
Finalmente, entre náuseas, cambaleios e baixas de tensão arterial lá me decidi. Seria tudo tão mais fácil se fosse espontâneo! Naquele dia jurei a mim mesma que, mesmo que viesse a ter mais dezoito filhos, não tornava a manipular a natureza a meu jeito, só para não calhar a meio da noite. Que se lixasse! Seria quando fosse, quando doesse ou alagasse, que quanto a isso já não podemos fazer nada, nem fugir, nem adiar, nem sequer pensar nisso.
Às 13,30H colocaram-me o soro e eu estendi-me a ler a Caras para enganar a fome que me consumia, enlouquecia e outras palavras acabadas em ia.
Como o processo não estava assim tão rápido, uma meia hora depois da epidural a Drª decidiu ir lanchar, noticia que me trouxe de forma irresponsável e leviana, por volta das 17.30H.
É que, se em vez de pernas eu não tivesse ali adormecidos dois hipopótamos, eu garanto que lhe tinha saltado aos fagotes. O estado apoplético em que me encontrava desde a véspera tínha-me reduzido o estômago ao tamanho do buraco de uma agulha, fazendo com que não tivesse lá entrado praticamente nada em cerca de vinte e quatro horas. Mas, a partir do momento em que me tinham posto o soro, eu tinha relaxado. E com o relaxamento veio uma fome absurda, dificil de controlar, provocadora de lágrimas e discussões e alterações da minha personalidade já de si bastante hormonal.
Passados uns dez minutos da saída da médica senti “aquilo”. “Aquela” vontade. A minha mãe estava comigo e eu desatei aos gritos que fosse chamar o Filipe, que a criança nascia, depressa, depressa!
A minha mãe já tinha reparado no meu estado psicótico e desvalorizava, atribuíndo o meu nervosismo à fome – vá lá, filha, tem calma. Ainda falta, não ouviste a médica? Vou ver se podes beber um pouco de água.
E eu que não, que não, que a médica não sabia nada, que não queria água porra nenhuma, que chamasse a parteira e rápido ou seria mesmo ela a fazer o parto.
Mais para me acalmar do que por convicção, lá foi a minha mãe chamar a parteira. No caminho cruzou-se com o Filipe e achou que talvez fosse bom ele ir até lá acalmar-me também.
Passados quinze minutos, às 17.55H de Sexta –Feira, dia 09 de Fevereiro de 2001, com trinta e oito semanas de gestação, 3,050Kg de peso e cinquenta centímetros de comprimento, sem esforço nenhum, nasceu o Vasquinho. Trazia o cabelo em pé, a goela afiada e um conjunto de balde e esfregona para oferecer à mana que o esperava ansiosa.
Ao parto assistiu o Pai. A médica não.
Lembro-me tão bem. Está tudo tão claro na minha memória - cada emoção, cada arrepio, cada lágrima, cada sorriso. O alívio.
Parece mesmo que foi ontem.
Hoje vai ser um daqueles dias especiais em que a única coisa que o preocupa é verificar se cada pessoa que se chegue perto dele também vem devidamente munida de um presente.
Acho que sim, é uma boa preocupação.
Parabéns filho! Aproveita bem.
terça-feira, fevereiro 02, 2010
De como eu não fui presa (mas se tivesse sido eu compreendia)
Primeiro tenho de confessar um pecado:
Eu falo ao telemóvel enquanto conduzo. E como não oiço nada com o auricular, não o uso. E o alta voz é uma trampa, por isso também não uso. Falo e falo com o telefone colado ao ouvido. Pronto. Já disse.
Sei que está errado, é proibido e é perigoso, mas em abono próprio posso dizer que há coisas piores – não bebo de manhã e fico quase sempre parada enquanto me maquilho. Vá, também não falo muito, é só quando é preciso.
Aqui há tempos encontrei o meu marido à entrada da A5. Ele fez-me sinal para ir atrás dele. Já tínhamos combinado que um dia ele me ensinava um atalho complicado para fugir à rolha ali a seguir às portagens de Carcavelos.
Saímos em Oeiras e uns metrinhos à frente já eu não sabia dele.
Como não queria voltar para trás, decidi ligar-lhe a pedir orientações. Dá-me ideia que para os morcegos poderem ser cegos tiveram de roubar o sentido de orientação a algumas pessoas. Eu fui uma das gamadas. Explicar- me uma direcção em português é o mesmo que fazê-lo em mandarim ou aramaico. Digo que sim, agradeço e fico na mesma.
Parei o carro para procurar o telemóvel na minha mochila do Sport Billy, mas ela estava no chão e tirei o cinto para a apanhar. Como estava com pressa fiz a chamada e arranquei ao mesmo tempo.
O Filipe, que sabe dos meus problemas, atendeu logo e estava a esforçar-se para me orientar. Como se a minha incapacidade crónica de ir daqui para ali não bastasse, havia uma sirene em cima dos meus ouvidos que não me deixava ouvir nada do que ele dizia. Mas era tal a barulheira que decidi olhar pelo espelho para ver onde era a crise. Nessa altura oiço ao altifalante “ por favor encoste a viatura”.
Entrei em pânico. Atirei o telemóvel de pantanas, parei a "viatura" e arvorei o meu semblante mais cândido.
O guarda era uma espécie de Dunga misturado com Bruno Nogueira. Parecia simpático.
- Bom dia, minha senhora ( Ai como detesto que me tratem por “minha senhora”!)
- Bom dia, senhor guarda. (sorriso cintilante)
- Sabe porque é que a mandei parar não sabe?
- Pois, senhor guarda, era porque eu vinha ao telefone, imagino. Mas é que eu estava só a avisar na minha empresa que estou atrasada. Já viu este trânsito?
- Pois, mas reparou que está sem cinto, ou não?
- Ah, estou? É que parei aqui atrás e tinha mesmo acabado de arrancar quando os senhores apareceram.
- Hum...documentos – seus e da viatura.
Drama. Não fazia ideia nenhuma.
- Senhor guarda, deixe ver... sabe o carro é da empresa, não sei bem onde guardam essas coisas...
- Enquanto falava atirei para o chão as três toneladas de papéis e lixo que ocupavam o porta-luvas. No fundo estava uma pastinha verde. Entreguei-a ao guarda. Ele consultou-a e depois observou enfadado que aquilo era o livro de registo das revisões.
Eu desculpei-me:
- Sabe, senhor guarda, se me disser qual o aspecto daquilo que procuro é mais fácil...
O guarda devia estar a achar que eu era estranha e decidiu mudar a estratégia.
- Então dê-me antes os seus documentos, por favor. BI e carta de condução.
Aposto que explicou quais eram os meus documentos para evitar que eu fosse outra vez procurar no porta-luvas.
Para chegar a essa secção tive de escavar outra vez na mochila do Sport Billy. Encontrar a carteira foi complicado mas lá apareceu. Vasculhei todo o interior e, no meio de uma miríade de talões da Zara, da lavandaria e da farmácia lá encontrei o que ele pedia. Mas o senhor estava num dia atento e observou que as moradas dos documentos não condiziam.
Lá fiz o meu ar mais espantado, que não sabia, que era um horror, que ia mudar amanhã.
Entretanto o colega, mais velho, gorducho e sorridente, tinha aparecido e estava a observar atentamente o vidro da frente. Aproximou-se.
- Selo.
- Selo?
- Sim, selo. É obrigatório.
- Ah, o selo! Eu sei. (risinho nervoso). É que o carro é da minha empresa e não me devem ter entregue isso, tenho de ver. Não sou grande coisa com papeladas, sabe?
- E, já agora, o dístico do seguro, também não está aqui.
Parece-me que ele também já estava a ficar um bocadinho nervoso.
- Mas olhe, que o carro tem seguro pode ter a certeza, pois se é de serviço..., disse eu.
- Sim, acredito, mas onde está ele?
- Deve estar aqui na minha carteira.
Desatei outra vez a escarafunchar na carteira até que descobri um papel verde dobrado em quatro. Triunfante entreguei-lho.
- Ufa!Tome, aqui está.
Ele desdobra o papel, olha para mim como se eu fosse azul e tivesse os olhos pendurados nas orelhas e diz:
- Menina, isto é uma multa.
Aí fiquei mesmo sem saber o que fazer. Esgotaram-se-me os sorrisos cristalinos e cintilantes e o arzinho ingénuo ou apatetado, ou lá o que era.
- Vou presa?
- Devia.
E sorriu.
- Vá-se lá embora e tenha juizo.
E foi assim que não fui presa, mas se tivesse sido tinha compreendido.
Eu falo ao telemóvel enquanto conduzo. E como não oiço nada com o auricular, não o uso. E o alta voz é uma trampa, por isso também não uso. Falo e falo com o telefone colado ao ouvido. Pronto. Já disse.
Sei que está errado, é proibido e é perigoso, mas em abono próprio posso dizer que há coisas piores – não bebo de manhã e fico quase sempre parada enquanto me maquilho. Vá, também não falo muito, é só quando é preciso.
Aqui há tempos encontrei o meu marido à entrada da A5. Ele fez-me sinal para ir atrás dele. Já tínhamos combinado que um dia ele me ensinava um atalho complicado para fugir à rolha ali a seguir às portagens de Carcavelos.
Saímos em Oeiras e uns metrinhos à frente já eu não sabia dele.
Como não queria voltar para trás, decidi ligar-lhe a pedir orientações. Dá-me ideia que para os morcegos poderem ser cegos tiveram de roubar o sentido de orientação a algumas pessoas. Eu fui uma das gamadas. Explicar- me uma direcção em português é o mesmo que fazê-lo em mandarim ou aramaico. Digo que sim, agradeço e fico na mesma.
Parei o carro para procurar o telemóvel na minha mochila do Sport Billy, mas ela estava no chão e tirei o cinto para a apanhar. Como estava com pressa fiz a chamada e arranquei ao mesmo tempo.
O Filipe, que sabe dos meus problemas, atendeu logo e estava a esforçar-se para me orientar. Como se a minha incapacidade crónica de ir daqui para ali não bastasse, havia uma sirene em cima dos meus ouvidos que não me deixava ouvir nada do que ele dizia. Mas era tal a barulheira que decidi olhar pelo espelho para ver onde era a crise. Nessa altura oiço ao altifalante “ por favor encoste a viatura”.
Entrei em pânico. Atirei o telemóvel de pantanas, parei a "viatura" e arvorei o meu semblante mais cândido.
O guarda era uma espécie de Dunga misturado com Bruno Nogueira. Parecia simpático.
- Bom dia, minha senhora ( Ai como detesto que me tratem por “minha senhora”!)
- Bom dia, senhor guarda. (sorriso cintilante)
- Sabe porque é que a mandei parar não sabe?
- Pois, senhor guarda, era porque eu vinha ao telefone, imagino. Mas é que eu estava só a avisar na minha empresa que estou atrasada. Já viu este trânsito?
- Pois, mas reparou que está sem cinto, ou não?
- Ah, estou? É que parei aqui atrás e tinha mesmo acabado de arrancar quando os senhores apareceram.
- Hum...documentos – seus e da viatura.
Drama. Não fazia ideia nenhuma.
- Senhor guarda, deixe ver... sabe o carro é da empresa, não sei bem onde guardam essas coisas...
- Enquanto falava atirei para o chão as três toneladas de papéis e lixo que ocupavam o porta-luvas. No fundo estava uma pastinha verde. Entreguei-a ao guarda. Ele consultou-a e depois observou enfadado que aquilo era o livro de registo das revisões.
Eu desculpei-me:
- Sabe, senhor guarda, se me disser qual o aspecto daquilo que procuro é mais fácil...
O guarda devia estar a achar que eu era estranha e decidiu mudar a estratégia.
- Então dê-me antes os seus documentos, por favor. BI e carta de condução.
Aposto que explicou quais eram os meus documentos para evitar que eu fosse outra vez procurar no porta-luvas.
Para chegar a essa secção tive de escavar outra vez na mochila do Sport Billy. Encontrar a carteira foi complicado mas lá apareceu. Vasculhei todo o interior e, no meio de uma miríade de talões da Zara, da lavandaria e da farmácia lá encontrei o que ele pedia. Mas o senhor estava num dia atento e observou que as moradas dos documentos não condiziam.
Lá fiz o meu ar mais espantado, que não sabia, que era um horror, que ia mudar amanhã.
Entretanto o colega, mais velho, gorducho e sorridente, tinha aparecido e estava a observar atentamente o vidro da frente. Aproximou-se.
- Selo.
- Selo?
- Sim, selo. É obrigatório.
- Ah, o selo! Eu sei. (risinho nervoso). É que o carro é da minha empresa e não me devem ter entregue isso, tenho de ver. Não sou grande coisa com papeladas, sabe?
- E, já agora, o dístico do seguro, também não está aqui.
Parece-me que ele também já estava a ficar um bocadinho nervoso.
- Mas olhe, que o carro tem seguro pode ter a certeza, pois se é de serviço..., disse eu.
- Sim, acredito, mas onde está ele?
- Deve estar aqui na minha carteira.
Desatei outra vez a escarafunchar na carteira até que descobri um papel verde dobrado em quatro. Triunfante entreguei-lho.
- Ufa!Tome, aqui está.
Ele desdobra o papel, olha para mim como se eu fosse azul e tivesse os olhos pendurados nas orelhas e diz:
- Menina, isto é uma multa.
Aí fiquei mesmo sem saber o que fazer. Esgotaram-se-me os sorrisos cristalinos e cintilantes e o arzinho ingénuo ou apatetado, ou lá o que era.
- Vou presa?
- Devia.
E sorriu.
- Vá-se lá embora e tenha juizo.
E foi assim que não fui presa, mas se tivesse sido tinha compreendido.
sexta-feira, janeiro 29, 2010
Marketing ou estupidez?
Mesmo antes de sequer se saber como se iria chamar, já o novo gadget da Apple andava, pelas mais diversas razões, a ser mastigado e, em alguns casos cuspido, pelas bocas do mundo.
Inicialmente falou-se em iTablet ou iSlate, nomes engraçados mas poucochinhos para Steve Jobs e sus muchachos (não há mulheres no Marketing da Apple, parece-me). Então, após aturado brainstorming, supõe-se, a Apple decidiu que tinham de arranjar um nome original mas facilmente identificável com a imagem corporate da empresa, que simultâneamente fosse um tiro certeiro num público ainda relativamente pouco dado a estas inovações - as mulheres. Vai daí, pensaram, investigaram... o que é que as mulheres modernas conhecem, identificam, valorizam... não é política, não é automóveis, não é educação, deixa lá ver... isso mesmo, higiene íntima! iPad. Perfeito.
É claro que, escassos minutos após a apresentação nos media internacionais, já havia enorme sururu e o tão aguardado gadget já respondia descontraídamente pelo nome de iTampon. Faz sentido... maçã - pecado original - castigo bíblico.
Genial!
Cá para mim o a malta do Marketing está para a Apple como o Mário Soares para a ópera no S.Carlos: vão lá mas só dormem.
Se houvesse alguém competente naquela empresa, os senhores ter-se-iam lembrado do nome certo para este produto:
Supostamente o iPad é um mini computador com telemóvel e mp3, que também dá para ver filmes, ler livros e o diabo a sete. Até pode ser giro de usar, mas é mais uma coisa para ter: não substitui um PC porque lhe faltam algumas funcionalidades. Não substitui um telemóvel, pois não tem câmara. Não se substiui a um televisor e, muito menos a um livro e não tem a qualidade de uma aparelhagem de som.
Agora vejam bem: o que é que é vendido como substituto de tachos, panelas, varinha mágica, balança e o diabo a sete, mas obriga-nos a ter uma cozinha toda equipada na mesma, com forno e fritadeira e máquina de lavar loiça e frigorífico? Qual é o gadget que existe em quase todas as casas, que as mulheres conhecem, valorizam e identificam, mas neste caso, os homens também usam e adoram?
Exacto.
O iPad devia chamar-se iBimby.
Não me ouvem...
Inicialmente falou-se em iTablet ou iSlate, nomes engraçados mas poucochinhos para Steve Jobs e sus muchachos (não há mulheres no Marketing da Apple, parece-me). Então, após aturado brainstorming, supõe-se, a Apple decidiu que tinham de arranjar um nome original mas facilmente identificável com a imagem corporate da empresa, que simultâneamente fosse um tiro certeiro num público ainda relativamente pouco dado a estas inovações - as mulheres. Vai daí, pensaram, investigaram... o que é que as mulheres modernas conhecem, identificam, valorizam... não é política, não é automóveis, não é educação, deixa lá ver... isso mesmo, higiene íntima! iPad. Perfeito.
É claro que, escassos minutos após a apresentação nos media internacionais, já havia enorme sururu e o tão aguardado gadget já respondia descontraídamente pelo nome de iTampon. Faz sentido... maçã - pecado original - castigo bíblico.
Genial!
Cá para mim o a malta do Marketing está para a Apple como o Mário Soares para a ópera no S.Carlos: vão lá mas só dormem.
Se houvesse alguém competente naquela empresa, os senhores ter-se-iam lembrado do nome certo para este produto:
Supostamente o iPad é um mini computador com telemóvel e mp3, que também dá para ver filmes, ler livros e o diabo a sete. Até pode ser giro de usar, mas é mais uma coisa para ter: não substitui um PC porque lhe faltam algumas funcionalidades. Não substitui um telemóvel, pois não tem câmara. Não se substiui a um televisor e, muito menos a um livro e não tem a qualidade de uma aparelhagem de som.
Agora vejam bem: o que é que é vendido como substituto de tachos, panelas, varinha mágica, balança e o diabo a sete, mas obriga-nos a ter uma cozinha toda equipada na mesma, com forno e fritadeira e máquina de lavar loiça e frigorífico? Qual é o gadget que existe em quase todas as casas, que as mulheres conhecem, valorizam e identificam, mas neste caso, os homens também usam e adoram?
Exacto.
O iPad devia chamar-se iBimby.
Não me ouvem...
terça-feira, janeiro 26, 2010
Carta aberta
Exmos. Senhores Aprovadores de Anúncios de Rádio,
Começo por me desculpar pelo atrevimento da reclamação, pois que sou completamente leiga em matéria de eficácia publicitária (como aliás, em quase todas as restantes matérias, mas tenho gosto por opinar).
É como mãe, consumidora de rádio e de seguros que aqui me apresento hoje, com o fito de tecer um breve comentário a uma coisa que já me anda a irritar há uns dias: falo de um anúncio radiofónico que pretende vender um produto qualquer do ACP que dá direito a médico em casa por pouquíssimo dinheiro.
Para quem ainda não teve o desprazer, aqui vai uma breve súmula (passo a redundância):
Uma senhora meio tontinha nota num repente que o seu menino, uma criança presume-se, arde pura e simplesmente em febre. E que faz ela? Chama uma ambulância? Mete-o na banheira? Dá-lhe uma aspirina? Não, nada disso. Pede-lhe ajuda. Ao próprio, sim. Mas como quem fala com um bebé de meses.
Vai daí ele ajuda solícito, despachado e bem disposto, oferecendo informação sobre o produto em questão, atitude que a mãezinha agradece prontamente mas num tom que mais parece um engate.
Meus senhores, isto está tudo mal.Eu cá não sei se têm filhos a caminhar para a adolescência, mas se têm e falam com eles como a senhora do anúncio, deixem-me dizer-lhes que estão tramados - antes que dêem conta vão ter os petizes a mexer os vossos miolos com uma batedeira eléctrica sem que isso vos retire o sorriso apatetado da cara.Por outro lado, se não têm filhos, também me parece que não conhecem ninguém que os tenha. Nem passam por nenhuma criança no caminho para o emprego, no metro, no supermercado ou na pastelaria lá do bairro. E digo isto porque, se tivessem dispendido algum do vosso precioso tempo na observação do comportamento de um desses modernos bebés de boxers QuickSilver, saberiam tão bem como eu que:
a) uma mãe que se dirige ao filho com a frase “Pedrinho, estás a arder em febre o que é que eu hei-de fazer?” na minha modesta opinião, dá nas subtâncias ilícitas. E bem.
Cá para nós, pessoas normais, mesmo que a mãe esteja praticamente em apoplexia nervosa, se tiver que pedir ajuda não será concerteza ao filho delirante de febre.
Pessoal, há pediatras e convém que os filhos tenham um que os acompanhe. Se este não estiver disponível podem ligar à linha Saúde 24. Ao marido, vá, ou às vossas próprias mães. Liguem a uma amiga, tia, irmã. Liguem à vizinha do lado se tiver que ser, agora, pedir ajuda à própria criança que “arde em febre” é um bocado puxado.
No caso de não se tratar de uma criança, mas de um adolescente (no anúncio isso não fica claro – o rapaz é muito versado nas coisas da vida, mas a mãe trata-o como a um recém nascido), passa-se o mesmo, com a diferença apenas de que falar com ele como se fosse tonto ainda é mais ridículo.
b) Mesmo que num arremedo de ficção científica isso acontecesse, uma criança a arder em febre geralmente não responde de forma enérgica, como quem é apanhado no caminho entre uma partida de ténis e uma ida ao cinema: “ chama o médico do ACP”. Resposta assim talvez indicasse uma de duas situações: ou o menino já se tinha abarbatado aos mesmos comprimidos que deixaram a mãe naquele estado ou, mais realísticamente, não estava nada a arder – era só uma febrita - e a mãe é uma saloia exagerada.
c) No instante em que a supostamente moribunda criança profere as palavras milagrosas “chama o médico do ACP”, a mãezinha vê-se a braços com uma não menos divina avalancha de memória – num repente, ele é número de telefone, ele é preço, ele é horários, ele é tudo a resvalar por ela acima.
d) Ainda assim, o pior de tudo é o final, quando a mãe se dirige ao filho dengosa e titubeante como quem se insinua ao borracho de vinte e cinco aninhos que acabou de lhe mudar o pneu na berma da estrada:“Obrigada Pedrinho!”
Blharrrrghhhh!
Meus senhores, eu já disse e não sei como se faz um anúncio que funcione, mas uma coisa sei: assim não é.Diz-me o bom senso que se eu quiser fazer um bom spot de rádio, não devo fazer desfilar algumas frases desconchavadas sobre um produto, proferidas por um adulto que não acredita nele e por uma criança que nem sabe de que é que está a falar.
(impressão minha ou isto é que é o significado de demagogia?)
E pronto. Agora fico à espera da notificação do tribunal.
Nota: não garanto que as frases do anúncio sejam exactamente estas, hoje em dia a minha memória está tão boa como os meus conhecimentos técnicos sobre publicidade.
Começo por me desculpar pelo atrevimento da reclamação, pois que sou completamente leiga em matéria de eficácia publicitária (como aliás, em quase todas as restantes matérias, mas tenho gosto por opinar).
É como mãe, consumidora de rádio e de seguros que aqui me apresento hoje, com o fito de tecer um breve comentário a uma coisa que já me anda a irritar há uns dias: falo de um anúncio radiofónico que pretende vender um produto qualquer do ACP que dá direito a médico em casa por pouquíssimo dinheiro.
Para quem ainda não teve o desprazer, aqui vai uma breve súmula (passo a redundância):
Uma senhora meio tontinha nota num repente que o seu menino, uma criança presume-se, arde pura e simplesmente em febre. E que faz ela? Chama uma ambulância? Mete-o na banheira? Dá-lhe uma aspirina? Não, nada disso. Pede-lhe ajuda. Ao próprio, sim. Mas como quem fala com um bebé de meses.
Vai daí ele ajuda solícito, despachado e bem disposto, oferecendo informação sobre o produto em questão, atitude que a mãezinha agradece prontamente mas num tom que mais parece um engate.
Meus senhores, isto está tudo mal.Eu cá não sei se têm filhos a caminhar para a adolescência, mas se têm e falam com eles como a senhora do anúncio, deixem-me dizer-lhes que estão tramados - antes que dêem conta vão ter os petizes a mexer os vossos miolos com uma batedeira eléctrica sem que isso vos retire o sorriso apatetado da cara.Por outro lado, se não têm filhos, também me parece que não conhecem ninguém que os tenha. Nem passam por nenhuma criança no caminho para o emprego, no metro, no supermercado ou na pastelaria lá do bairro. E digo isto porque, se tivessem dispendido algum do vosso precioso tempo na observação do comportamento de um desses modernos bebés de boxers QuickSilver, saberiam tão bem como eu que:
a) uma mãe que se dirige ao filho com a frase “Pedrinho, estás a arder em febre o que é que eu hei-de fazer?” na minha modesta opinião, dá nas subtâncias ilícitas. E bem.
Cá para nós, pessoas normais, mesmo que a mãe esteja praticamente em apoplexia nervosa, se tiver que pedir ajuda não será concerteza ao filho delirante de febre.
Pessoal, há pediatras e convém que os filhos tenham um que os acompanhe. Se este não estiver disponível podem ligar à linha Saúde 24. Ao marido, vá, ou às vossas próprias mães. Liguem a uma amiga, tia, irmã. Liguem à vizinha do lado se tiver que ser, agora, pedir ajuda à própria criança que “arde em febre” é um bocado puxado.
No caso de não se tratar de uma criança, mas de um adolescente (no anúncio isso não fica claro – o rapaz é muito versado nas coisas da vida, mas a mãe trata-o como a um recém nascido), passa-se o mesmo, com a diferença apenas de que falar com ele como se fosse tonto ainda é mais ridículo.
b) Mesmo que num arremedo de ficção científica isso acontecesse, uma criança a arder em febre geralmente não responde de forma enérgica, como quem é apanhado no caminho entre uma partida de ténis e uma ida ao cinema: “ chama o médico do ACP”. Resposta assim talvez indicasse uma de duas situações: ou o menino já se tinha abarbatado aos mesmos comprimidos que deixaram a mãe naquele estado ou, mais realísticamente, não estava nada a arder – era só uma febrita - e a mãe é uma saloia exagerada.
c) No instante em que a supostamente moribunda criança profere as palavras milagrosas “chama o médico do ACP”, a mãezinha vê-se a braços com uma não menos divina avalancha de memória – num repente, ele é número de telefone, ele é preço, ele é horários, ele é tudo a resvalar por ela acima.
d) Ainda assim, o pior de tudo é o final, quando a mãe se dirige ao filho dengosa e titubeante como quem se insinua ao borracho de vinte e cinco aninhos que acabou de lhe mudar o pneu na berma da estrada:“Obrigada Pedrinho!”
Blharrrrghhhh!
Meus senhores, eu já disse e não sei como se faz um anúncio que funcione, mas uma coisa sei: assim não é.Diz-me o bom senso que se eu quiser fazer um bom spot de rádio, não devo fazer desfilar algumas frases desconchavadas sobre um produto, proferidas por um adulto que não acredita nele e por uma criança que nem sabe de que é que está a falar.
(impressão minha ou isto é que é o significado de demagogia?)
E pronto. Agora fico à espera da notificação do tribunal.
Nota: não garanto que as frases do anúncio sejam exactamente estas, hoje em dia a minha memória está tão boa como os meus conhecimentos técnicos sobre publicidade.
sexta-feira, janeiro 22, 2010
A nós, os putos que somos. Tchim, tchim.
Lembro-me de a minha mãe fazer trinta e dois anos. Foi a Milão com o meu pai e trouxe de lá o rosto perfeito imortalizado num quadro a carvão que ainda deve iluminar alguma parede lá de casa.
Lembro-me de o meu pai fazer quarenta anos. Alguém lhe ofereceu um porta-chaves que dizia “life beggins at 40” e a minha mãe ficou fula.
Lembro-me de achar que eles eram velhos. Quando falavam de um amigo ou conhecido "ainda novo", com quarenta e poucos, lembro-me que ria e gozava – novo?
Lembro-me de eles falarem de coisas e sitios que já não existiam e de eu achar isso deprimente.
E agora, tenho trinta e seis, muitos dos meus amigos já têm ou fazem em breve quarenta. E acho que somos giros, divertidos e, principalmente, acho que somos novos.
Atentemos por breves instantes nas mudanças que se operaram, não em nós, mas na nossa terra, nos últimos anos:
A A5, os Mac Donald’s, as Zaras, o Cascais Shopping, o Cascais Villa, o BCP, o Miragem, as Sacolinhas, a Loja das Meias, a Marina, os Cachorros, a Casa da Guia, a Telepizza – que hoje são marcos da nossa terra – nada disso existia quando éramos putos.
Não existia Lidl, nem Minipreço, nem Continente, nem Pingo Doce. Só Pão de Açucar e era um.
Não existiam 10 salas Lusomundo, mais 5 Castello Lopes, mais 5 Cinemacity.
Os Bombeiros eram no centro de Cascais.
A Farmácia Cordeiro era pequena.
O Tribunal era ao pé da estação.
O Guincho não tinha ninguém.
Tínhamos nós os Croissants.
As ruas eram sujas.
Mesmo assim existia o Juliana’s, o Palm Beach, o Yuppie, o News.
A Praça de Toiros, o liceu da Pampilheira, o Dramático, o Ok, o Estoril Sol.
O Oxford e o Miramar.
Cascais era verde e azul e areia e o único transito que tinha era o das nossas bicicletas e carrinhos de rolamentos.
E tinha estradas esburacadas. E crianças à solta. E pessoas a passear a cavalo.
E não tinha quinhentos condomínios nem milhões de habitantes e toda a gente se conhecia.
Agora sim, vê-se: a nossa terra mudou, e nós com ela. Afinal os anos passaram mesmo, nós é que não demos por isso.
Se eu disser a alguém desta geração:
“ Entras em Cascais pelo Estoril Sol, nas traseiras da estação, antes do parque de estacionamento viras à esquerda para o Hotel Nau, aí viras à direita para a Cidabela, passas o cruzamento em frente e começas a subir a rua da Nova Rede, passas à frente do Oxford e viras logo ali à direita, para o ginásio dos Columbófilos”.
Quem é que não está a ver per-fei-ta-men-te o caminho?
Exacto. Vou ali num instante meter a cabeça fora da janela e fechá-la com força. Talvez demore um bocadinho, não estranhem.
Lembro-me de o meu pai fazer quarenta anos. Alguém lhe ofereceu um porta-chaves que dizia “life beggins at 40” e a minha mãe ficou fula.
Lembro-me de achar que eles eram velhos. Quando falavam de um amigo ou conhecido "ainda novo", com quarenta e poucos, lembro-me que ria e gozava – novo?
Lembro-me de eles falarem de coisas e sitios que já não existiam e de eu achar isso deprimente.
E agora, tenho trinta e seis, muitos dos meus amigos já têm ou fazem em breve quarenta. E acho que somos giros, divertidos e, principalmente, acho que somos novos.
Atentemos por breves instantes nas mudanças que se operaram, não em nós, mas na nossa terra, nos últimos anos:
A A5, os Mac Donald’s, as Zaras, o Cascais Shopping, o Cascais Villa, o BCP, o Miragem, as Sacolinhas, a Loja das Meias, a Marina, os Cachorros, a Casa da Guia, a Telepizza – que hoje são marcos da nossa terra – nada disso existia quando éramos putos.
Não existia Lidl, nem Minipreço, nem Continente, nem Pingo Doce. Só Pão de Açucar e era um.
Não existiam 10 salas Lusomundo, mais 5 Castello Lopes, mais 5 Cinemacity.
Os Bombeiros eram no centro de Cascais.
A Farmácia Cordeiro era pequena.
O Tribunal era ao pé da estação.
O Guincho não tinha ninguém.
Tínhamos nós os Croissants.
As ruas eram sujas.
Mesmo assim existia o Juliana’s, o Palm Beach, o Yuppie, o News.
A Praça de Toiros, o liceu da Pampilheira, o Dramático, o Ok, o Estoril Sol.
O Oxford e o Miramar.
Cascais era verde e azul e areia e o único transito que tinha era o das nossas bicicletas e carrinhos de rolamentos.
E tinha estradas esburacadas. E crianças à solta. E pessoas a passear a cavalo.
E não tinha quinhentos condomínios nem milhões de habitantes e toda a gente se conhecia.
Agora sim, vê-se: a nossa terra mudou, e nós com ela. Afinal os anos passaram mesmo, nós é que não demos por isso.
Se eu disser a alguém desta geração:
“ Entras em Cascais pelo Estoril Sol, nas traseiras da estação, antes do parque de estacionamento viras à esquerda para o Hotel Nau, aí viras à direita para a Cidabela, passas o cruzamento em frente e começas a subir a rua da Nova Rede, passas à frente do Oxford e viras logo ali à direita, para o ginásio dos Columbófilos”.
Quem é que não está a ver per-fei-ta-men-te o caminho?
Exacto. Vou ali num instante meter a cabeça fora da janela e fechá-la com força. Talvez demore um bocadinho, não estranhem.
quinta-feira, janeiro 21, 2010
Chego ao meu trabalho quase sempre depois da hora. Venho bem disposta, quase como quem volta para casa. Bebo um café, às vezes fumo um cigarro e subo até ao segundo andar.
Atravesso o piso inteiro até ao meu lugar, no cantinho, mesmo ao lado da janela. É lá que está a minha mesa cinzenta, familiar e desarrumada.
No caminho cumprimento toda a gente, quase todos pelo nome (tempos houve em que eram mesmo todos).
Sento-me e num gesto automático mexo o rato para acordar o monitor. Sei que o computador estará ligado, temos um acordo que nos poupa cinco minutos todas as manhãs – o primeiro a chegar liga tudo. Nunca fui eu.
Gosto da minha mesa. Agrada-me segurança que me transmite.
É de frente para ela que passo cerca de oito horas todos os dias. E tanto que já passámos as duas!
Quando aqui me sentei pela primeira vez tinha pouco mais de vinte anos, vivia em casa dos meus pais, não tinha dinheiro, nem passaporte, nem carro, nem namorado.
Tinha o futuro inteiro.
Foi aqui que brindámos ao meu exame de condução, ao final do meu curso, ao meu primeiro carro.
Nesta mesa dormi pedaços de noites perdidas, chorei a morte de um amigo, o fim de um amor, a morte de um avô, de uma avó, de um par de colegas.
A esta mesa chegaram os meus primeiros e maravilhosos ramos de flores, o assumir do meu verdadeiro amor.
Aqui comemorei a minha primeira gravidez. Todas as nossas primeiras gravidezes. E segundas. E, em um ou dois casos, terceiras.
Nesta mesa dei murros. Pontapés. Chorei mais e outras vezes. Zanguei-me. Sorri. Ri-me desbragadamente. Cantei. Cantámos.
Nesta mesa pasmei com a queda das Torres, com o tsunami, Atocha, New Orleans... com a força monumental da natureza e do ódio dos homens pelos homens.
Aqui, mudei de casa – quatro vezes. Baptizei os meus filhos, tratei-lhes mazelas, falei com professores, médicos, pais de amigos, avós. Organizei festas, escrevi cartas.
Escutei novidades, dei novidades.
Discuti.
Abracei causas, abracei pessoas, fui solidária.
Assisti à primeira saída com uma sensação estranha.
E depois tantos saíram, outros entraram e mais saíram e cresci e compreendi que a vida continua para todos.
Aprendi a mexer num computador, a enviar e-mails, a usar a internet.
Aqui, celebrámos casamentos, reconciliações, outros casamentos.
Consolámos divórcios.
Assistimos a outras mudanças. Torci por todas, rejubilei pelas que tiveram sucesso, sofri por algumas que não.
Fiz amigos.
Iludi-me.
Desiludi-me. Desiludi.
Cresci. Crescemos.
Vimos os nossos filhos crescerem.
Aprendi a ser mais paciente, tolerante, a controlar-me, a não me levar muito a sério. A não levar a vida a sério. A não lamentar.
Testemunhei milagres. Comovi-me com a bondade, com a força do empenho, com a pujança do desejo.
A esta mesa assustei-me, preocupei-me, angustiei-me, recebi más notícias.
Celebrei, ri, diverti-me. Diverti.
Trabalhei muito.
Revoltei-me.
Recebi boas notícias. Vi receberem más. Animei.
Ajudei quem pude, como pude.
Aprendi muito do que sei. Cresci até ao que sou.
Gosto da minha mesa.
Não é apenas uma peça de mobiliário velha e nua. É um pedaço de mim. Trago-a entranhada na carne, diluída no sangue, impregnada na alma.
Já passaram quinze anos. São tantos como os que tenho de vida adulta.
É uma vida.
Atravesso o piso inteiro até ao meu lugar, no cantinho, mesmo ao lado da janela. É lá que está a minha mesa cinzenta, familiar e desarrumada.
No caminho cumprimento toda a gente, quase todos pelo nome (tempos houve em que eram mesmo todos).
Sento-me e num gesto automático mexo o rato para acordar o monitor. Sei que o computador estará ligado, temos um acordo que nos poupa cinco minutos todas as manhãs – o primeiro a chegar liga tudo. Nunca fui eu.
Gosto da minha mesa. Agrada-me segurança que me transmite.
É de frente para ela que passo cerca de oito horas todos os dias. E tanto que já passámos as duas!
Quando aqui me sentei pela primeira vez tinha pouco mais de vinte anos, vivia em casa dos meus pais, não tinha dinheiro, nem passaporte, nem carro, nem namorado.
Tinha o futuro inteiro.
Foi aqui que brindámos ao meu exame de condução, ao final do meu curso, ao meu primeiro carro.
Nesta mesa dormi pedaços de noites perdidas, chorei a morte de um amigo, o fim de um amor, a morte de um avô, de uma avó, de um par de colegas.
A esta mesa chegaram os meus primeiros e maravilhosos ramos de flores, o assumir do meu verdadeiro amor.
Aqui comemorei a minha primeira gravidez. Todas as nossas primeiras gravidezes. E segundas. E, em um ou dois casos, terceiras.
Nesta mesa dei murros. Pontapés. Chorei mais e outras vezes. Zanguei-me. Sorri. Ri-me desbragadamente. Cantei. Cantámos.
Nesta mesa pasmei com a queda das Torres, com o tsunami, Atocha, New Orleans... com a força monumental da natureza e do ódio dos homens pelos homens.
Aqui, mudei de casa – quatro vezes. Baptizei os meus filhos, tratei-lhes mazelas, falei com professores, médicos, pais de amigos, avós. Organizei festas, escrevi cartas.
Escutei novidades, dei novidades.
Discuti.
Abracei causas, abracei pessoas, fui solidária.
Assisti à primeira saída com uma sensação estranha.
E depois tantos saíram, outros entraram e mais saíram e cresci e compreendi que a vida continua para todos.
Aprendi a mexer num computador, a enviar e-mails, a usar a internet.
Aqui, celebrámos casamentos, reconciliações, outros casamentos.
Consolámos divórcios.
Assistimos a outras mudanças. Torci por todas, rejubilei pelas que tiveram sucesso, sofri por algumas que não.
Fiz amigos.
Iludi-me.
Desiludi-me. Desiludi.
Cresci. Crescemos.
Vimos os nossos filhos crescerem.
Aprendi a ser mais paciente, tolerante, a controlar-me, a não me levar muito a sério. A não levar a vida a sério. A não lamentar.
Testemunhei milagres. Comovi-me com a bondade, com a força do empenho, com a pujança do desejo.
A esta mesa assustei-me, preocupei-me, angustiei-me, recebi más notícias.
Celebrei, ri, diverti-me. Diverti.
Trabalhei muito.
Revoltei-me.
Recebi boas notícias. Vi receberem más. Animei.
Ajudei quem pude, como pude.
Aprendi muito do que sei. Cresci até ao que sou.
Gosto da minha mesa.
Não é apenas uma peça de mobiliário velha e nua. É um pedaço de mim. Trago-a entranhada na carne, diluída no sangue, impregnada na alma.
Já passaram quinze anos. São tantos como os que tenho de vida adulta.
É uma vida.
quarta-feira, janeiro 20, 2010
Juro...
... que se mais alguém, num raio de 75 quilómetros à minha volta, se atrever a "falar do tema", "discutir um tema", "abordar um tema" ou pior, disser a frase "tenho aqui um ou dois temas para ver contigo", eu passo-me dos carretos e enfio-lhe o indicador e o dedo médio da mão esquerda pelos olhos abaixo com tanta força que a sua cabeça vai ficar a parecer uma nuca com mamas.
Há tantas palavrinhas no Português. Tantas!
Há tantas palavrinhas no Português. Tantas!
terça-feira, janeiro 19, 2010
De onde vem a sementinha, afinal?
No dia 27 de Dezembro nasceu uma filha à minha irmã Bárbara, o que faz com que me tenha nascido uma sobrinha, logo, uma prima aos meus filhos. Fomos então ao hospital visitá-las, como ditam as regras (apesar de eu ser contra).
No regresso a casa, como de costume, elevei bem alto o som dos Black Eyed Peas e cantava eu a plenos pulmões quando o ruído característico de uma discussão se elevou acima da minha extraordinária prestação musical. Baixei o som e tentei perceber o que se passava.
Vasco, 8 anos:
- Ó mãe, a Vera está a dizer que para nascerem bebés vai uma sementinha para dentro da barriga!
Vera, 5 anos:
- E vai, ó estúpido!
Vasco: - Vai nadaaaaa. A sementinha JÁ ESTÁ dentro da barriga.
Perdida de riso, dei razão à Vera, que a sementinha ia de facto para dentro da barriga, senão como é que as senhoras faziam, quando decidiam ter um bebé gritavam à sementinha para começar a crescer ou como é que era? Isto deve tê-lo feito pensar, mas ainda assim não fazia sentido para ele.
Vera, condescendente: - Vês? Eu disse-teeeee! Eu sei!
Vasco, sem ceder: - Vai como, ó parva? Engole-se a sementinha, por acaso?
Aí já estava eu quase a ter uma apoplexia de tanto conter o riso.
Vera, triunfante:
- Nããão. Abre-se a barriga, põe-se a sementinha e fecha-se a barriga. Burro!
No regresso a casa, como de costume, elevei bem alto o som dos Black Eyed Peas e cantava eu a plenos pulmões quando o ruído característico de uma discussão se elevou acima da minha extraordinária prestação musical. Baixei o som e tentei perceber o que se passava.
Vasco, 8 anos:
- Ó mãe, a Vera está a dizer que para nascerem bebés vai uma sementinha para dentro da barriga!
Vera, 5 anos:
- E vai, ó estúpido!
Vasco: - Vai nadaaaaa. A sementinha JÁ ESTÁ dentro da barriga.
Perdida de riso, dei razão à Vera, que a sementinha ia de facto para dentro da barriga, senão como é que as senhoras faziam, quando decidiam ter um bebé gritavam à sementinha para começar a crescer ou como é que era? Isto deve tê-lo feito pensar, mas ainda assim não fazia sentido para ele.
Vera, condescendente: - Vês? Eu disse-teeeee! Eu sei!
Vasco, sem ceder: - Vai como, ó parva? Engole-se a sementinha, por acaso?
Aí já estava eu quase a ter uma apoplexia de tanto conter o riso.
Vera, triunfante:
- Nããão. Abre-se a barriga, põe-se a sementinha e fecha-se a barriga. Burro!
Confusões
Aqui há uns tempos o Vasco comeu uma canja na escola, na qual tinham posto fígado. Ele detestou e comunicou-me que NUNCA MAIS comia canja na vida dele. Eu respondi que ele não tinha nada que se preocupar porque eu não costumo pôr visceras na comida, mas ele manteve-se irredutível.
Há uns dias a Teresa pediu-me para fazer canja para o jantar. Imediatamente o Vasco desatou a choramingar que não queria. Eu não me lembrava do fígado, então perguntei-lhe qual era o problema, ao que ele respondeu:
- Já disse que odeio testículos!
Há uns dias a Teresa pediu-me para fazer canja para o jantar. Imediatamente o Vasco desatou a choramingar que não queria. Eu não me lembrava do fígado, então perguntei-lhe qual era o problema, ao que ele respondeu:
- Já disse que odeio testículos!
quinta-feira, janeiro 14, 2010
O Tuga
Todos os dias oiço comentários depreciativos ou jocosos em relação ao português típico: que é invejoso, mesquinho, forreta, imprestável, pouco civilizado, desonesto e mandrião.
O mais engraçado é que as pessoas referem-se ao Tuga como quem fala de uma espécie de animal selvagem ou praga abjecta que se reproduz alarvemente nos esgotos onde repousa depois dos raids selváticos que faz sobre a civilização, que somos nós.
Pois que atire a primeira pedra aquele que que nunca invejou a namorada do bonitão lá da escola, que nunca fingiu uma cólica para não ter de arrumar a cozinha, que nunca se abotoou com o troco errado na pastelaria lá do bairro, que nunca inventou uma avaria no carro para se baldar ao aniversário da sogra.
Que se levante de um salto aquele que nunca colou uma pastilha elástica debaixo da cadeira do escritório, que nunca gamou sombrinhas de chocolate na mercearia do Sr. Lino, que dá sempre prioridade aos peões nas passadeiras, que nunca experimentou vinte vezes seguidas a massa do bolo de chocolate com o mesmo dedo da mesma mão.
Pois eu digo, como maior orgulho: o Tuga tem características únicas e maravilhosas.
Vejamos:
O Tuga é solícito e adora ajudar o próximo:
Não haverá muitos países em que seja tão simples arranjar um emprego, quando se conhece bem o empregador. Ou em que os funcionários de uma empresa piquem sistemáticamente o ponto uns pelos outros tanto à entrada como à saída, ou em que se consiga uma consulta no médico com rapidez proporcional ao grau de amizade que se mantém com a senhora que faz as marcações.
O Tuga é poupadinho:
Aproveita quando vai jantar com os amigos para pedir o prato mais caro - a dividir por todos não pesa a ninguém; vai sempre à boleia com o vizinho, já que ele leva o carro todos os dias; come o ensopado de borrego até não restar nada e depois limpa o que fica no bigode com um bocado de pão, que depois também come; vai a doze supermercados diferentes para comprar o que está em promoção em cada um e ignora olímpicamente o que gasta em combustivel no caminho.
O Tuga tem a família sempre ao dispôr:
Tem um cunhado mecânico que poderia ter arranjado o carro praticamente de borla, se tivesse sabido a tempo; uma irmã que trabalha em casa de um actor e que poderia ter arranjado bilhetes para os U2, se tivesse sabido a tempo; um primo no ramo dos electrodomésticos que, se tivesse sabido, poderia ter arranjado um desconto simpático; uma nora hospedeira de terra que poderia ter conseguido um upgrade, se tivesse sabido a horas.
É claro que há sempre os retorcidos, os graxistas, os aldrabões. Mas esses são poucos e actuam áreas específicas como o voluntariado.
Afinal quem é que pode confiar numa pessoa que diáriamente se desloca a uma ou várias instituições degradadas e sem recursos, apenas com o objectivo de ajudar os que lá se encontram internados e sem pedir nada em troca?
Quem é que não desconfia de um vizinho que telefona religiosamente todos os dias a avisar que o cão anda a perseguir as galinhas dele mas ainda não o envenenou, nem lá foi espancar o dono, nem sequer pragueja para o aparelho?
Como é que é possível não suspeitarmos do carácter de bombeiros e gente dessa, que arrisca a própria vida para salvar a de outros que nem conhece, ainda lhe chamam incompetente e nem sequer é pago por isso?
O que vale é que são poucos.
Se eu fosse agora fazer uma música sobre isto seria assim:
“Imita os sacanas, é o que dá dinheiro
Foge do bonzinho, deve ser paneleiro
Ser decente não tráz vantagem real
Serás Tuga em Portugal
Ou serás português, mas no estrangeiro"
É, há mesmo gente que não interessa nada.
O mais engraçado é que as pessoas referem-se ao Tuga como quem fala de uma espécie de animal selvagem ou praga abjecta que se reproduz alarvemente nos esgotos onde repousa depois dos raids selváticos que faz sobre a civilização, que somos nós.
Pois que atire a primeira pedra aquele que que nunca invejou a namorada do bonitão lá da escola, que nunca fingiu uma cólica para não ter de arrumar a cozinha, que nunca se abotoou com o troco errado na pastelaria lá do bairro, que nunca inventou uma avaria no carro para se baldar ao aniversário da sogra.
Que se levante de um salto aquele que nunca colou uma pastilha elástica debaixo da cadeira do escritório, que nunca gamou sombrinhas de chocolate na mercearia do Sr. Lino, que dá sempre prioridade aos peões nas passadeiras, que nunca experimentou vinte vezes seguidas a massa do bolo de chocolate com o mesmo dedo da mesma mão.
Pois eu digo, como maior orgulho: o Tuga tem características únicas e maravilhosas.
Vejamos:
O Tuga é solícito e adora ajudar o próximo:
Não haverá muitos países em que seja tão simples arranjar um emprego, quando se conhece bem o empregador. Ou em que os funcionários de uma empresa piquem sistemáticamente o ponto uns pelos outros tanto à entrada como à saída, ou em que se consiga uma consulta no médico com rapidez proporcional ao grau de amizade que se mantém com a senhora que faz as marcações.
O Tuga é poupadinho:
Aproveita quando vai jantar com os amigos para pedir o prato mais caro - a dividir por todos não pesa a ninguém; vai sempre à boleia com o vizinho, já que ele leva o carro todos os dias; come o ensopado de borrego até não restar nada e depois limpa o que fica no bigode com um bocado de pão, que depois também come; vai a doze supermercados diferentes para comprar o que está em promoção em cada um e ignora olímpicamente o que gasta em combustivel no caminho.
O Tuga tem a família sempre ao dispôr:
Tem um cunhado mecânico que poderia ter arranjado o carro praticamente de borla, se tivesse sabido a tempo; uma irmã que trabalha em casa de um actor e que poderia ter arranjado bilhetes para os U2, se tivesse sabido a tempo; um primo no ramo dos electrodomésticos que, se tivesse sabido, poderia ter arranjado um desconto simpático; uma nora hospedeira de terra que poderia ter conseguido um upgrade, se tivesse sabido a horas.
É claro que há sempre os retorcidos, os graxistas, os aldrabões. Mas esses são poucos e actuam áreas específicas como o voluntariado.
Afinal quem é que pode confiar numa pessoa que diáriamente se desloca a uma ou várias instituições degradadas e sem recursos, apenas com o objectivo de ajudar os que lá se encontram internados e sem pedir nada em troca?
Quem é que não desconfia de um vizinho que telefona religiosamente todos os dias a avisar que o cão anda a perseguir as galinhas dele mas ainda não o envenenou, nem lá foi espancar o dono, nem sequer pragueja para o aparelho?
Como é que é possível não suspeitarmos do carácter de bombeiros e gente dessa, que arrisca a própria vida para salvar a de outros que nem conhece, ainda lhe chamam incompetente e nem sequer é pago por isso?
O que vale é que são poucos.
Se eu fosse agora fazer uma música sobre isto seria assim:
“Imita os sacanas, é o que dá dinheiro
Foge do bonzinho, deve ser paneleiro
Ser decente não tráz vantagem real
Serás Tuga em Portugal
Ou serás português, mas no estrangeiro"
É, há mesmo gente que não interessa nada.
quarta-feira, janeiro 13, 2010
A sorte é um filme a cores, mas um filme sobre andebol
Hoje anda aí na página do “Tralhas da vida” um enorme sururu sobre a sorte e o que é necessário para a atrair como um íman. Para mim, antes de mais, vontade.
Concordo em absoluto com a Xica – “a sorte é um filme a cores”, mas um filme sobre andebol.
Eu explico: num jogo de andebol – ou em qualquer outro em que seja legal segurar o esférico - se estiver de costas para a bola não consigo apanhá-la (no meu caso nem que a coloquem com todo o cuidado directamente nas minhas mãos, mas isso é outra história), sendo que a bola tanto pode ser a sorte como o azar.
Se formos destemidos e lutarmos pela jogada pode ser que consigamos marcar golo, mas ao contrário, se nos colocarmos na defensiva, encolhidos, temerosos, o mais provável é levarmos com uma bolada bem assente no meio das sobrancelhas.
Portanto, recebemos aquilo que estamos de mão estendida para receber. Ora, se estivermos sempre de costas para o azar e de frente para a sorte, é natural que esta nos caia nas mãos mais frequentemente, apesar de não nos livrarmos de levar com uma bolada de azar na nuca, de vez e quando. Tudo depende da pontaria de quem atira e da nossa capacidade de nos esquivarmos.
Concordo em absoluto com a Xica – “a sorte é um filme a cores”, mas um filme sobre andebol.
Eu explico: num jogo de andebol – ou em qualquer outro em que seja legal segurar o esférico - se estiver de costas para a bola não consigo apanhá-la (no meu caso nem que a coloquem com todo o cuidado directamente nas minhas mãos, mas isso é outra história), sendo que a bola tanto pode ser a sorte como o azar.
Se formos destemidos e lutarmos pela jogada pode ser que consigamos marcar golo, mas ao contrário, se nos colocarmos na defensiva, encolhidos, temerosos, o mais provável é levarmos com uma bolada bem assente no meio das sobrancelhas.
Portanto, recebemos aquilo que estamos de mão estendida para receber. Ora, se estivermos sempre de costas para o azar e de frente para a sorte, é natural que esta nos caia nas mãos mais frequentemente, apesar de não nos livrarmos de levar com uma bolada de azar na nuca, de vez e quando. Tudo depende da pontaria de quem atira e da nossa capacidade de nos esquivarmos.
sexta-feira, janeiro 08, 2010
Manifesto um bocadinho radical a bem do casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Tenho imensas qualidades, aliás, toda eu sou práticamente só qualidades, como todos aqueles que me conhecem bem sabem, mas uma delas, talvez a mais vantajosa para a minha vida, é que sou muito pragmática. Vejo as coisas como são, tento agir em conformidade e geralmente não perco tempo a pensar no que deveriam ser.
Neste caso específico o que acontece exactamente é que há pessoas. E que essas pessoas gostam de outras pessoas. E têm relações entre si. E que essas relações são todas semelhantes na sua essência – os casais apaixonam-se, coabitam, zangam-se, reconciliam-se, sofrem e indignam-se como toda a gente. Sejam eles que tipo de casais forem – brancos, mistos, negros, velhos, internacionais, deficientes, homossexuais ou hetero.
Pessoalmente não sou fã do casamento enquanto instituição – pelo-me sinceramente pela festa, adoro tirar o mofo do trapinho, comer bem, beber melhor, rever amigos e dançar musicas foleiras até desabar exausta e com os pés encardidos – mas não acredito que o papel passado traga vantagens significativas a uma relação. Na verdade, as únicas que reconheço no casamento são as mesmíssimas que hoje os homossexuais pedem para si: direitos sucessórios, pensões, baixas de assistência à família, visitas hospitalares...
Bolas, se eu me apaixonar por outra mulher e decidirmos partilhar a nossa vida como casal, com amor e respeito uma pela outra, por que raio de carga de água é que não posso visitá-la no hospital se ela ficar doente, por que razão não poderá ela ficar com a casa que construímos e partilhamos durante a nossa vida, por que motivo não poderemos ser uma família?
Sim, porque se é certo que não acredito no casamento, não há nada em que acredite mais do que na família.
O Filipe e eu vivemos juntos há quase treze anos e o mais perto que estivemos de casar foi quando decidimos brincar às comédias românticas numa cerimónia bonita e sentimental que oferecemos a nós próprios em Las Vegas. E somos muito felizes. Temos três filhos lindos e vivemos em paz com a vida. Tanto eu como ele somos vidrados nas nossas próprias famílias e temos relações próximas com elas. Portanto, não será o matrimónio que que une ou desune as famílias, é o amor e o respeito que existe entre os seus elementos. E isso não há papel, contrato ou registo que ensine.
É por estes motivos, que, quando ponho os olhos e os ouvidos nos argumentos absolutamente arcaicos e hipócritas que por aí grassam, proferidos por personalidades que inclusivamente já foram infiéis no casamento ou já mantiveram ou mantéem relações homossexuais, só me apetece é ganir.
Quando leio pessoas cultas e pelas quais tenho respeito intelectual irem contra o casamento gay apoiadas em motivos conservadores que vão desde o conceito de casamento pressupôr a procriação ou o facto de casamento ser obrigatóriamente a união entre dois elementos de sexos diferentes, dá-me vómitos. Num mundo perfeito não haveria sofrimento, as famílias seriam todas funcionais e toda a gente teria emprego e viveria feliz e contente. Mas lá está, o Mundo está longe da perfeição só que é nele que temos de viver, apesar de tudo. Há muitos documentos que pregam a igualdade entre raças e credos, que obrigam a tratar os idosos com dignidade, que protegem as crianças acima de tudo. E todos os dias assistimos paulatinamente à violação repetida dessas normativas sem que se oiçam vozes discordantes, sem que alguém se insurja.
Eu vejo o que acontece e o que acontece, de facto, é que há tanto casamentos hetero sem descendência como relações informais com filhos; tanto casais casadíssimos que se agridem brutalmente como casais casadíssimos que se adoram durante uma vida. E todos estes podem escolher casar, não casar, divorciar-se ou continuar como lhes der mais jeito. Mas também há os casais de cidadãos homossexuais que se amam e respeitam. E que também gostavam de poder escolher. Mas não podem, devido a um mísero detalhe – não é por terem antecedentes criminosos agressivos, nem problemas psiquiátricos graves, nem por serem desonestos, manipuladores ou bêbados, esses casam à vontade – é pelo que gostam de fazer na intimidade. Dá vontade de rir.
Não gosto especialmente do Sócrates, que fique claro, mas há uma coisinha que eu gostava imenso que alguém me explicasse: se o casamento gay já estava nos planos do PS e o país deu a vitória a Sócrates, parece-me que não deveria haver discussão. Esperem! Parece que há cerca de 90.000 cidadãos que pretendem referendar essa lei pois entendem que têm de ter voto na matéria.
O aborto é uma questão de saúde pública, morrem pessoas, muitas pessoas por causa disso todos os anos. E referendou-se. E foi tudo para a praia fazendo com que a consulta não fosse vinculativa. E acabou por se referendar de novo, gastando duas vezes o dinheiro que tanta falta faz ao país.
O casamento homossexual não é uma questão de saúde pública, é uma questão de igualdade social.
Gostaria de fazer um pequeno questionário aos 90.000 cidadãos indignados:
1) Afinal o que é que têm a ver com isso?
2) Em que é que o casamento entre pessoas do mesmo sexo aquece ou arrefece a vossa vidinha?
3) Exactamente o que é que acham que vos dá o direito de opinar sobre a vida privada dos outros?
Tenho cá uma ideia. Se calhar devíamos começar a referendar outras coisas fracturantes: o castigo exemplar que merecem os maridos que agridem as mulheres, quem abandona os seus velhos ou os pais que ignoram ostensivamente os filhos, que não os ouvem e não os aceitam?
Deixem-se de falsos moralismos e hipócrisias antiquadas e preocupem-se antes com as vossas verdades e com a forma como vivem e tratam as vossas famílias. E deixem os outros viver a vida deles longe de preconceitos fúteis e sem sentido.
Tenho dito!
Neste caso específico o que acontece exactamente é que há pessoas. E que essas pessoas gostam de outras pessoas. E têm relações entre si. E que essas relações são todas semelhantes na sua essência – os casais apaixonam-se, coabitam, zangam-se, reconciliam-se, sofrem e indignam-se como toda a gente. Sejam eles que tipo de casais forem – brancos, mistos, negros, velhos, internacionais, deficientes, homossexuais ou hetero.
Pessoalmente não sou fã do casamento enquanto instituição – pelo-me sinceramente pela festa, adoro tirar o mofo do trapinho, comer bem, beber melhor, rever amigos e dançar musicas foleiras até desabar exausta e com os pés encardidos – mas não acredito que o papel passado traga vantagens significativas a uma relação. Na verdade, as únicas que reconheço no casamento são as mesmíssimas que hoje os homossexuais pedem para si: direitos sucessórios, pensões, baixas de assistência à família, visitas hospitalares...
Bolas, se eu me apaixonar por outra mulher e decidirmos partilhar a nossa vida como casal, com amor e respeito uma pela outra, por que raio de carga de água é que não posso visitá-la no hospital se ela ficar doente, por que razão não poderá ela ficar com a casa que construímos e partilhamos durante a nossa vida, por que motivo não poderemos ser uma família?
Sim, porque se é certo que não acredito no casamento, não há nada em que acredite mais do que na família.
O Filipe e eu vivemos juntos há quase treze anos e o mais perto que estivemos de casar foi quando decidimos brincar às comédias românticas numa cerimónia bonita e sentimental que oferecemos a nós próprios em Las Vegas. E somos muito felizes. Temos três filhos lindos e vivemos em paz com a vida. Tanto eu como ele somos vidrados nas nossas próprias famílias e temos relações próximas com elas. Portanto, não será o matrimónio que que une ou desune as famílias, é o amor e o respeito que existe entre os seus elementos. E isso não há papel, contrato ou registo que ensine.
É por estes motivos, que, quando ponho os olhos e os ouvidos nos argumentos absolutamente arcaicos e hipócritas que por aí grassam, proferidos por personalidades que inclusivamente já foram infiéis no casamento ou já mantiveram ou mantéem relações homossexuais, só me apetece é ganir.
Quando leio pessoas cultas e pelas quais tenho respeito intelectual irem contra o casamento gay apoiadas em motivos conservadores que vão desde o conceito de casamento pressupôr a procriação ou o facto de casamento ser obrigatóriamente a união entre dois elementos de sexos diferentes, dá-me vómitos. Num mundo perfeito não haveria sofrimento, as famílias seriam todas funcionais e toda a gente teria emprego e viveria feliz e contente. Mas lá está, o Mundo está longe da perfeição só que é nele que temos de viver, apesar de tudo. Há muitos documentos que pregam a igualdade entre raças e credos, que obrigam a tratar os idosos com dignidade, que protegem as crianças acima de tudo. E todos os dias assistimos paulatinamente à violação repetida dessas normativas sem que se oiçam vozes discordantes, sem que alguém se insurja.
Eu vejo o que acontece e o que acontece, de facto, é que há tanto casamentos hetero sem descendência como relações informais com filhos; tanto casais casadíssimos que se agridem brutalmente como casais casadíssimos que se adoram durante uma vida. E todos estes podem escolher casar, não casar, divorciar-se ou continuar como lhes der mais jeito. Mas também há os casais de cidadãos homossexuais que se amam e respeitam. E que também gostavam de poder escolher. Mas não podem, devido a um mísero detalhe – não é por terem antecedentes criminosos agressivos, nem problemas psiquiátricos graves, nem por serem desonestos, manipuladores ou bêbados, esses casam à vontade – é pelo que gostam de fazer na intimidade. Dá vontade de rir.
Não gosto especialmente do Sócrates, que fique claro, mas há uma coisinha que eu gostava imenso que alguém me explicasse: se o casamento gay já estava nos planos do PS e o país deu a vitória a Sócrates, parece-me que não deveria haver discussão. Esperem! Parece que há cerca de 90.000 cidadãos que pretendem referendar essa lei pois entendem que têm de ter voto na matéria.
O aborto é uma questão de saúde pública, morrem pessoas, muitas pessoas por causa disso todos os anos. E referendou-se. E foi tudo para a praia fazendo com que a consulta não fosse vinculativa. E acabou por se referendar de novo, gastando duas vezes o dinheiro que tanta falta faz ao país.
O casamento homossexual não é uma questão de saúde pública, é uma questão de igualdade social.
Gostaria de fazer um pequeno questionário aos 90.000 cidadãos indignados:
1) Afinal o que é que têm a ver com isso?
2) Em que é que o casamento entre pessoas do mesmo sexo aquece ou arrefece a vossa vidinha?
3) Exactamente o que é que acham que vos dá o direito de opinar sobre a vida privada dos outros?
Tenho cá uma ideia. Se calhar devíamos começar a referendar outras coisas fracturantes: o castigo exemplar que merecem os maridos que agridem as mulheres, quem abandona os seus velhos ou os pais que ignoram ostensivamente os filhos, que não os ouvem e não os aceitam?
Deixem-se de falsos moralismos e hipócrisias antiquadas e preocupem-se antes com as vossas verdades e com a forma como vivem e tratam as vossas famílias. E deixem os outros viver a vida deles longe de preconceitos fúteis e sem sentido.
Tenho dito!
segunda-feira, dezembro 14, 2009
Actualidade
Um senhor chamado Massimo Tartaglia fez recentemente a um homem (apesar de não serem casados um com o outro) uma coisa que a maioria das mulheres tem vontade de fazer um pouco mais frequentemente do que de vez em quando aos maridos e que a esposa da vítima gostaria certamente de ter sido ela a fazer: afinfou com uma réplica da catedral de Milão nas ventas de Silvio Berlusconi e atirou-o para uma cama de hospital. Eu pessoalmente acho muito pesado... se calhar fazia a coisa mais maneirinha – uma Torre de Belém, por exemplo, deve ser mais fácil de manejar.
quarta-feira, novembro 18, 2009
Numa de aliviar a pressão...
...dos últimos dias, ontem à noite agarrei na minha mais velha e desandámos as duas para o CascaiShopping. Os pretextos eram dois: tirar fotocópias dos cadernos dela para levar a uma amiga que está com gripe e comprar comida para o cão.
Resolvida a primeira tarefa, abraçámos a segunda.
Se até ontem não existia para mim piores vendedores que os de timesharing, agora a pústula foi tomada por um novo tipo de larvas: os vendedores de comida para animais.
Foi assim:
Eu:
- Boa noite.
Empregado solícito:
- Boa noite.
Eu:
- Olhe, eu queria comprar comida para o meu cão e preciso de um conselho seu.
Empregado cagão, de sobrolho levantado:
- Sim?
Eu, receosa:
- A ração que nós costumamos dar ao cachorro é a Royal Canin, mas isso é o mesmo que alimentar o cão a bifes do lombo, por isso eu estava aqui a pensar se não haveria uma mais baratinha, mesmo que de qualidade ligeiramente inferior...
(tipo bife de perú, pensei eu)
Empregado empertigado:
- Ai, não. Quer dizer, ter temos, mas não são boas rações. Cá em Portugal só há cinco boas: Royal, Eukanuba... (e desata para lá a debitar mais umas marcas de que eu nunca ouvi falar).
Eu, ligeiramente irritada:
- Mas são más? Tipo causam distúrbios intestinais, fazem cair o pelo ou cegam os pobres bichos?
Empregado empertigado, em tom condescendente:
- Não, nada disso, minha senhora. Mas sabe, eu trato a minha cadela como se fosse minha filha...
(se há coisa que eu não aguento nesta vida é que me tratem por “minha senhora”)
Eu, um bocado mais irritada:
- Sabe, é que eu filhos tenho três e não os alimento a caviar e champanhe francês, mas não tarda nada não tenho dinheiro nem para lhes dar ossos moídos. Repare que eu não pretendo dar ao cachorro lixo nem restos de animais em decomposição, só queria saber se há alguma ração mais em conta, é que ele só tem ainda seis meses e já gastamos com a comidinha dele quase o mesmo que em escolas.
Empregado ainda mais condescendente:
- Tudo bem, arranjo-lhe uma mais barata. Mas está a ver aquela cadela ali?
(e aponta para um hipopótamo dourado a ressonar no meio da loja)
Se não fossem as rações boas que sempre lhe dei, ela hoje já não se mexia, coitadinha.
(e toca de chamar a morsa com nome de mulher, para perto de nós, o que causou logo um chilique na Teresa, que morre de medo até do Migas)
Empregado condescendente, muito técnico e ligeiramente irritado comigo, continua:
- Se fosse um cão pequeno, vá, até aos dez quilos, ainda podia optar por um outro alimento, mas os cães grandes - já percebi que o vosso é grande, não é? - precisam de reforçar as articulações para poderem permanecer no seio da família mais tempo e com mais qualidade de vida. Além de que os cães de grande dimensão têm muita tendência para problemas no estômago...
Eu, fula da vida, a ponto de lhe enfiar uma coleira estranguladora pela goela abaixo:
- Ok pronto, ganhou. Dê-me lá a Royal de 15 quilos, por favor.
Paguei, agarrei na saca e atravessei o shopping de uma ponta à outra com aquilo ao lombo, em cinco segundos, com a Teresa quase a correr atrás de mim.
Sou fraca, por isso garanto que para a próxima nem passo perto dele e da sua lojinha pretenciosa. Vou direitinha ao Continente.
Resolvida a primeira tarefa, abraçámos a segunda.
Se até ontem não existia para mim piores vendedores que os de timesharing, agora a pústula foi tomada por um novo tipo de larvas: os vendedores de comida para animais.
Foi assim:
Eu:
- Boa noite.
Empregado solícito:
- Boa noite.
Eu:
- Olhe, eu queria comprar comida para o meu cão e preciso de um conselho seu.
Empregado cagão, de sobrolho levantado:
- Sim?
Eu, receosa:
- A ração que nós costumamos dar ao cachorro é a Royal Canin, mas isso é o mesmo que alimentar o cão a bifes do lombo, por isso eu estava aqui a pensar se não haveria uma mais baratinha, mesmo que de qualidade ligeiramente inferior...
(tipo bife de perú, pensei eu)
Empregado empertigado:
- Ai, não. Quer dizer, ter temos, mas não são boas rações. Cá em Portugal só há cinco boas: Royal, Eukanuba... (e desata para lá a debitar mais umas marcas de que eu nunca ouvi falar).
Eu, ligeiramente irritada:
- Mas são más? Tipo causam distúrbios intestinais, fazem cair o pelo ou cegam os pobres bichos?
Empregado empertigado, em tom condescendente:
- Não, nada disso, minha senhora. Mas sabe, eu trato a minha cadela como se fosse minha filha...
(se há coisa que eu não aguento nesta vida é que me tratem por “minha senhora”)
Eu, um bocado mais irritada:
- Sabe, é que eu filhos tenho três e não os alimento a caviar e champanhe francês, mas não tarda nada não tenho dinheiro nem para lhes dar ossos moídos. Repare que eu não pretendo dar ao cachorro lixo nem restos de animais em decomposição, só queria saber se há alguma ração mais em conta, é que ele só tem ainda seis meses e já gastamos com a comidinha dele quase o mesmo que em escolas.
Empregado ainda mais condescendente:
- Tudo bem, arranjo-lhe uma mais barata. Mas está a ver aquela cadela ali?
(e aponta para um hipopótamo dourado a ressonar no meio da loja)
Se não fossem as rações boas que sempre lhe dei, ela hoje já não se mexia, coitadinha.
(e toca de chamar a morsa com nome de mulher, para perto de nós, o que causou logo um chilique na Teresa, que morre de medo até do Migas)
Empregado condescendente, muito técnico e ligeiramente irritado comigo, continua:
- Se fosse um cão pequeno, vá, até aos dez quilos, ainda podia optar por um outro alimento, mas os cães grandes - já percebi que o vosso é grande, não é? - precisam de reforçar as articulações para poderem permanecer no seio da família mais tempo e com mais qualidade de vida. Além de que os cães de grande dimensão têm muita tendência para problemas no estômago...
Eu, fula da vida, a ponto de lhe enfiar uma coleira estranguladora pela goela abaixo:
- Ok pronto, ganhou. Dê-me lá a Royal de 15 quilos, por favor.
Paguei, agarrei na saca e atravessei o shopping de uma ponta à outra com aquilo ao lombo, em cinco segundos, com a Teresa quase a correr atrás de mim.
Sou fraca, por isso garanto que para a próxima nem passo perto dele e da sua lojinha pretenciosa. Vou direitinha ao Continente.
Os dez mandamentos
Este ano a Teresa passou para o 5º e teve que mudar de escola. Após meses de intensa angústia, aturada pesquisa, contas minuciosas e estatísticas várias sobre o efeito que a decisão teria sobre a qualidade de vida de todos os elementos desta família, optámos por um colégio com qualidade de ensino reconhecida, não demasiado caro e perto da escola onde andam os outros dois.
Como o mundo não é um local perfeito, alguém se lembrou de criar a palavrinha "mas". E o mas desta situação é que o colégio é religioso.
Não é que tenha alguma coisa contra, mas tanto o Filipe como eu somos agnósticos convictos, o que apenas tornou a nossa decisão um bocadinho mais demorada. Concluímos então que mal não faria e até podia ser que lhe fizesse bem. E ela lá anda feliz e contente.
Aqui há dias, ao jantar, a Teresa mencionou que ia ter teste de Moral - pronto, têm destas coisas - que precisava de decorar os dez mandamentos e se, por acaso nós não os sabíamos.
Não querendo passar por ignorantes, lá começámos os dois: não matarás, não roubarás, não cobiçarás a mulher do próximo.
E ela, mas isso são só três!
Como nenhum de nós se lembrava de mais mandamentos, começamos a inventar: não farás mal aos animais, não poluirás as águas e as terras... e assim por diante. Não faltarás ao respeito a ninguém, não deixarás comida no prato. Apesar do ridículo, até achávamos que estes eram uns bons mandamentos e mantivemos o nosso ar compenetrado de pais responsáveis e sérios. Intenção que ela deitou por terra quando se levantou da mesa e, com um suspiro disse:
-Não inventarás os dez mandamentos...
Como o mundo não é um local perfeito, alguém se lembrou de criar a palavrinha "mas". E o mas desta situação é que o colégio é religioso.
Não é que tenha alguma coisa contra, mas tanto o Filipe como eu somos agnósticos convictos, o que apenas tornou a nossa decisão um bocadinho mais demorada. Concluímos então que mal não faria e até podia ser que lhe fizesse bem. E ela lá anda feliz e contente.
Aqui há dias, ao jantar, a Teresa mencionou que ia ter teste de Moral - pronto, têm destas coisas - que precisava de decorar os dez mandamentos e se, por acaso nós não os sabíamos.
Não querendo passar por ignorantes, lá começámos os dois: não matarás, não roubarás, não cobiçarás a mulher do próximo.
E ela, mas isso são só três!
Como nenhum de nós se lembrava de mais mandamentos, começamos a inventar: não farás mal aos animais, não poluirás as águas e as terras... e assim por diante. Não faltarás ao respeito a ninguém, não deixarás comida no prato. Apesar do ridículo, até achávamos que estes eram uns bons mandamentos e mantivemos o nosso ar compenetrado de pais responsáveis e sérios. Intenção que ela deitou por terra quando se levantou da mesa e, com um suspiro disse:
-Não inventarás os dez mandamentos...
terça-feira, novembro 17, 2009
A gripe e eu (um bocadinho longo, mas foram muitos dias)
Estas últimas semanas não têm sido fáceis: na 3ª feira dia 03 de Novembro, a Teresa foi para a escola de manhã, óptima. Ao fim do dia, quando fui buscá-la, já trazia tudo aquilo a que tinha direito - febre, dores de cabeça, dores no corpo, tosse e dores de garganta. Liguei imediatamente para a tal linha, mas nicles. Falei então para o pediatra que me disse logo de caras que se tratava de um quadro da famosa gripe e para nos prepararmos que íamos ser todos corridos. Explicou-me os sinais de alarme e o que é que eu devia fazer no caso de observar algum deles. E pronto, fiquei de sentinela, passei a dormir só com metade do corpo.
Na noite de quinta - feira o Filipe não se sentia bem, estava engripado, dizia. Nessa mesma noite a Teresa sentiu dificuldade em respirar e acabei a madrugada no hospital com ela, onde o médico também foi de opinião que era um quadro clássico de gripe A H1N1, com direito a papel passado e tudo.
Na sexta, o Filipe ainda não estava bem e ficou de molho, no Sábado também. Mas no Domingo estava melhor e, como tinha o trabalho todo de pantanas decidiu ir trabalhar na segunda- feira. Mas antes disso o Vasco tinha dentista e eu lá fui com ele.
A meio da consulta recebo uma mensagem a dizer para estar atenta quando voltasse para casa, que o cão tinha fugido e sem coleira. Ah, grande Migas, saudades, hein?
No regresso não o vi, portanto esperei que ele voltasse. Mas ele não voltou.
À tarde apareceu cá uma amiga minha para beber um cafézinho na cozinha (uma visita de duas que tive), nada de muito chegado aos doentes. Cinco minutos depois de sair liga-me a dizer que o cão estava a causar desacatos no meio da rua. E lá fui eu disparada, de trela em riste para o meter no carro, tarefa que só consegui com a preciosa ajuda dela - o nosso bebé já passa dos 30 quilos.
Nesse mesm dia, já eu cantava de galo, que afinal éramos todos de pedra e que a coisa afinal não era assim tão contagiosa, quando o Vasco apareceu com um quadro igualzinho. Deitei mãos à cabeça – é que ficar uma semana inteira fechada em casa com uma criança doente não é fácil, agora duas semanas... não devo nada a ninguém, bolas!
Ao Vasco a gripe apanhou mais os intestinos e o estômago e menos a garganta, o que deu uma certa graça à minha segunda semana, para variar.
Estava tudo bem, ele quase recuperado, apesar de tanto ele como a Teresa continuarem a tossir, e eu já cantava de galo outra vez. A Verinha é que é mesmo de ferro. Qual quê? Sábado de manhã, trungas 39,1. Até ferveu, literalmente.
Hoje é terça, dia 17 e o Filipe já anda há dois dias a queixar-se que está pior outra vez. Decidiu ir ao médico, que o mandou fazer a análise. Tem suspeitas.
Afinal parece que a única de pedra sou eu...
No meio disto fala-se da gripe e parece que estamos a falar de lepra daquela que faz cair bocados. Toda a gente foge a sete pés como se o simples facto de eu respirar o mesmo ar lhes fosse queimar os olhos ou os pulmões ou fazer o sangue ficar duro nas veias.
À falta de visitas ou melhor entretém, temos essa maravilhosa e por vezes subvalorizada peça de mobiliário que é a televisão. Posso dizer sem ponta de orgulho, que neste momento sinto-me apta a responder a qualquer pergunta que me façam sobre a programação da porra do Disney Channel. Qualquer pergunta, sem medo.
Como se chama a saloia da meia irmã mais velha do Derek? Casey.
Quantos são os bimbalhões dos Jonas Brothers? Três na banda mais um pequeno.
A que dia da semana dá a trampa do episódio novo dos Feiticeiros de Waverly Place? Segundas.
Como se chama a burra da melhor amiga da Hannah Montana? Lilly.
E quantos videoclips barulhentos e pirosos passam nessa porcaria desse canal todos os dias? Cinquenta e dois mil trezentos e oitenta e seis, porra!
Vêem? Sei tudo. E estou um bocadinho... nervosa?
Agora cheguei ao ponto de, em vez de vomitar a Raven para cima deles, enviar mails ao meu filho, eu semi catatónica no meu portátil, ele amoroso no seu Magalhães, os dois sentados no mesmo sofá, enquanto a Vera pinta o tapete da sala com giz.
Era isso ou eu esgazeava os olhos e ia nua, de gabardina aberta, com umas cuecas do Filipe enfiadas na cabeça, gritar obscenidades para a porta do supermercado.
Toda a gente nos avisa da gripe, mas caramba, ninguém nos prepara para isto! Não prepara mesmo.
Na noite de quinta - feira o Filipe não se sentia bem, estava engripado, dizia. Nessa mesma noite a Teresa sentiu dificuldade em respirar e acabei a madrugada no hospital com ela, onde o médico também foi de opinião que era um quadro clássico de gripe A H1N1, com direito a papel passado e tudo.
Na sexta, o Filipe ainda não estava bem e ficou de molho, no Sábado também. Mas no Domingo estava melhor e, como tinha o trabalho todo de pantanas decidiu ir trabalhar na segunda- feira. Mas antes disso o Vasco tinha dentista e eu lá fui com ele.
A meio da consulta recebo uma mensagem a dizer para estar atenta quando voltasse para casa, que o cão tinha fugido e sem coleira. Ah, grande Migas, saudades, hein?
No regresso não o vi, portanto esperei que ele voltasse. Mas ele não voltou.
À tarde apareceu cá uma amiga minha para beber um cafézinho na cozinha (uma visita de duas que tive), nada de muito chegado aos doentes. Cinco minutos depois de sair liga-me a dizer que o cão estava a causar desacatos no meio da rua. E lá fui eu disparada, de trela em riste para o meter no carro, tarefa que só consegui com a preciosa ajuda dela - o nosso bebé já passa dos 30 quilos.
Nesse mesm dia, já eu cantava de galo, que afinal éramos todos de pedra e que a coisa afinal não era assim tão contagiosa, quando o Vasco apareceu com um quadro igualzinho. Deitei mãos à cabeça – é que ficar uma semana inteira fechada em casa com uma criança doente não é fácil, agora duas semanas... não devo nada a ninguém, bolas!
Ao Vasco a gripe apanhou mais os intestinos e o estômago e menos a garganta, o que deu uma certa graça à minha segunda semana, para variar.
Estava tudo bem, ele quase recuperado, apesar de tanto ele como a Teresa continuarem a tossir, e eu já cantava de galo outra vez. A Verinha é que é mesmo de ferro. Qual quê? Sábado de manhã, trungas 39,1. Até ferveu, literalmente.
Hoje é terça, dia 17 e o Filipe já anda há dois dias a queixar-se que está pior outra vez. Decidiu ir ao médico, que o mandou fazer a análise. Tem suspeitas.
Afinal parece que a única de pedra sou eu...
No meio disto fala-se da gripe e parece que estamos a falar de lepra daquela que faz cair bocados. Toda a gente foge a sete pés como se o simples facto de eu respirar o mesmo ar lhes fosse queimar os olhos ou os pulmões ou fazer o sangue ficar duro nas veias.
À falta de visitas ou melhor entretém, temos essa maravilhosa e por vezes subvalorizada peça de mobiliário que é a televisão. Posso dizer sem ponta de orgulho, que neste momento sinto-me apta a responder a qualquer pergunta que me façam sobre a programação da porra do Disney Channel. Qualquer pergunta, sem medo.
Como se chama a saloia da meia irmã mais velha do Derek? Casey.
Quantos são os bimbalhões dos Jonas Brothers? Três na banda mais um pequeno.
A que dia da semana dá a trampa do episódio novo dos Feiticeiros de Waverly Place? Segundas.
Como se chama a burra da melhor amiga da Hannah Montana? Lilly.
E quantos videoclips barulhentos e pirosos passam nessa porcaria desse canal todos os dias? Cinquenta e dois mil trezentos e oitenta e seis, porra!
Vêem? Sei tudo. E estou um bocadinho... nervosa?
Agora cheguei ao ponto de, em vez de vomitar a Raven para cima deles, enviar mails ao meu filho, eu semi catatónica no meu portátil, ele amoroso no seu Magalhães, os dois sentados no mesmo sofá, enquanto a Vera pinta o tapete da sala com giz.
Era isso ou eu esgazeava os olhos e ia nua, de gabardina aberta, com umas cuecas do Filipe enfiadas na cabeça, gritar obscenidades para a porta do supermercado.
Toda a gente nos avisa da gripe, mas caramba, ninguém nos prepara para isto! Não prepara mesmo.
terça-feira, novembro 03, 2009
Lógica infantil...
Ontem o Filipe regressou da Suiça onde esteve por uns intermináveis dois dias.
A caminho do aeroporto, onde fomos fazer-lhe a surpresa de o resgatar à corrupta fila dos táxis, munidos de um grande cartaz que a Teresinha passou metade da tarde a fazer - e que por acaso ele foi o único passageiro a sair por aquela porta que não o viu, mas pronto - dizia eu, a caminho do aeroporto passámos perto do Hospital do SAMS. Eu comentei com eles que tinha sido ali mesmo que a Vera tinha nascido. Logo o Vasco perguntou: e dói muito, mãe, deitar o bebé?
Claro que, entre gargalhadas, lhe disse que sim, mas que não se diz "deitar o bebé".
Ele ficou com aquela carinha típica, de olhos redondos espantados e perguntou à Teresa baixinho:
- É pôr o bebé que se diz?
A caminho do aeroporto, onde fomos fazer-lhe a surpresa de o resgatar à corrupta fila dos táxis, munidos de um grande cartaz que a Teresinha passou metade da tarde a fazer - e que por acaso ele foi o único passageiro a sair por aquela porta que não o viu, mas pronto - dizia eu, a caminho do aeroporto passámos perto do Hospital do SAMS. Eu comentei com eles que tinha sido ali mesmo que a Vera tinha nascido. Logo o Vasco perguntou: e dói muito, mãe, deitar o bebé?
Claro que, entre gargalhadas, lhe disse que sim, mas que não se diz "deitar o bebé".
Ele ficou com aquela carinha típica, de olhos redondos espantados e perguntou à Teresa baixinho:
- É pôr o bebé que se diz?
terça-feira, outubro 20, 2009
Este é diferente...
Geralmente passo ao lado daquelas análises retrospectivas que fazemos no Ano Novo, no aniversário da relação ou no nosso próprio. Perco mais tempo a combinar a celebração do que a pensar no que não fiz e devia ter feito, no que não fiz e ainda bem, no que fiz e me arrependo e no que fiz e não devia ter feito. De uma forma muito pragmática penso sempre que não vale a pena perder tempo com o que não posso mudar.
Mas há aqui uma excepção – os aniversários dos meus filhos. De cada vez que um deles celebra a passagem de mais um ano, dou comigo a pensar. Assomam-me sempre à memória recordações intensas como o dia em que soube que estava grávida, as ecografias mais decisivas, as reacções de amigos e familiares, a velocidade com que o tempo passa.
Mas é claro que, as mais vívidas, gravadas em todo o meu ser com a pujança do primeiro dia e que voltam sempre como boomerangs anuais, são as recordações dos partos – as horas que os antecederam, as nossas expectativas nas vésperas, os preparativos, a ansiedade, as inevitáveis dores, as juras de amor eterno, o momento absolutamente mágico e irrepetível que é dar à luz.
Às vezes perguntam-me se não baralho as memórias. Impossível – eles são três e cada gravidez foi única e repleta de momentos próprios, cada parto decorreu de sua forma e cada um deles nasceu em seu sítio, cada um assistido por um médico, eu assistida por três diferentes. O único elemento comum é que, em todos eles, estávamos lá nós. Os dois. Não era eu acompanhada pelo Filipe, era eu e o Filipe – um ser apenas.
Penso muitas vezes, e não apenas nestes dias, na sorte que temos. Tanto ele como eu vimos de famílias sudáveis – fisica e mentalmente – tivemos uma vida boa, bem recheada, que nos preparou. Temos uma relação linda, da qual nasceram três filhos maravilhosos, cheios de saúde, de vida, de alegria, de imaginação. Temos uma vida mesmo boa. Tão boa que por vezes quase sufoco de medo. É por isso que nunca esqueço a importância de aproveitar cada nanosegundo das nossas existências. Aquilo que já vivemos, já vivemos. Está ganho.
Desde criança que adoro fazer anos. Sempre vivi o dia do meu aniversário de uma forma muito especial. Da mesma forma, tenho feito muita questão de proporcionar aos meus filhos dias igualmente especiais, em que cada um deles se sinta o único – quem tem vários filhos saberá bem do que falo, da dificuldade de fazer alguém sentir-se único no seio de uma família grande, principalmente quando se trabalha fora. Às vezes não conseguimos tão bem, suponho, mas a tentativa também conta.
Hoje é um desses dias. A Verinha faz cinco anos e vai ter um dia especial, pensado só para ela. Está feliz como só uma criança feliz consegue estar – absoluta e completamente.
E eu estou feliz por poder proporcionar-lhe isso.
Parabéns filha!
E parabéns Teresinha e Vasquinho, por todos os aniversários que passaram antes de eu ter facebook.
Parabéns para ti, Filipe – o melhor Pai que qualquer criança poderia desejar, o marido que todos os homens deviam ser.
Adoro-vos, família, desde a alma até ao infinito.
Mas há aqui uma excepção – os aniversários dos meus filhos. De cada vez que um deles celebra a passagem de mais um ano, dou comigo a pensar. Assomam-me sempre à memória recordações intensas como o dia em que soube que estava grávida, as ecografias mais decisivas, as reacções de amigos e familiares, a velocidade com que o tempo passa.
Mas é claro que, as mais vívidas, gravadas em todo o meu ser com a pujança do primeiro dia e que voltam sempre como boomerangs anuais, são as recordações dos partos – as horas que os antecederam, as nossas expectativas nas vésperas, os preparativos, a ansiedade, as inevitáveis dores, as juras de amor eterno, o momento absolutamente mágico e irrepetível que é dar à luz.
Às vezes perguntam-me se não baralho as memórias. Impossível – eles são três e cada gravidez foi única e repleta de momentos próprios, cada parto decorreu de sua forma e cada um deles nasceu em seu sítio, cada um assistido por um médico, eu assistida por três diferentes. O único elemento comum é que, em todos eles, estávamos lá nós. Os dois. Não era eu acompanhada pelo Filipe, era eu e o Filipe – um ser apenas.
Penso muitas vezes, e não apenas nestes dias, na sorte que temos. Tanto ele como eu vimos de famílias sudáveis – fisica e mentalmente – tivemos uma vida boa, bem recheada, que nos preparou. Temos uma relação linda, da qual nasceram três filhos maravilhosos, cheios de saúde, de vida, de alegria, de imaginação. Temos uma vida mesmo boa. Tão boa que por vezes quase sufoco de medo. É por isso que nunca esqueço a importância de aproveitar cada nanosegundo das nossas existências. Aquilo que já vivemos, já vivemos. Está ganho.
Desde criança que adoro fazer anos. Sempre vivi o dia do meu aniversário de uma forma muito especial. Da mesma forma, tenho feito muita questão de proporcionar aos meus filhos dias igualmente especiais, em que cada um deles se sinta o único – quem tem vários filhos saberá bem do que falo, da dificuldade de fazer alguém sentir-se único no seio de uma família grande, principalmente quando se trabalha fora. Às vezes não conseguimos tão bem, suponho, mas a tentativa também conta.
Hoje é um desses dias. A Verinha faz cinco anos e vai ter um dia especial, pensado só para ela. Está feliz como só uma criança feliz consegue estar – absoluta e completamente.
E eu estou feliz por poder proporcionar-lhe isso.
Parabéns filha!
E parabéns Teresinha e Vasquinho, por todos os aniversários que passaram antes de eu ter facebook.
Parabéns para ti, Filipe – o melhor Pai que qualquer criança poderia desejar, o marido que todos os homens deviam ser.
Adoro-vos, família, desde a alma até ao infinito.
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