quinta-feira, setembro 16, 2010

No principio éramos adolescentes.
Éramos inseguros, borbulhentos, barulhentos e hormonais. Gritávamos mais do que ríamos, discutíamos mais do que namorávamos. Corríamos de um sitio para outro mas nunca estávamos realmente em parte nenhuma. Gamávamos o carro ao pai, a camisola à mãe, a Ginginha ao avô, as moedas da cozinha.
Inventávamos dormidas em casa das amigas para irmos sair à noite, passávamos muito tempo de castigo, desviávamos o correio com as notas, baldávamo-nos às aulas, andávamos de Casal Boss, DT, LC, RZ, Vespino, Vision ou MA a três e sem capacete, fugíamos da polícia e conhecíamos as motas uns dos outros pelo som.
Frequentávamos todos o mesmo liceu, vestíamos os mesmos penados, calçávamos os mesmos Sanjo, esmagávamos as mesmas carteiras Oceano Pacífico no bolso de trás das mesmas Levi’s 501 e vibrávamos em família com os mesmos Festivais Eurovisão da Canção.
Falávamos sobre nada durante horas, pendurados em fios encaracolados de telefones brancos de disco arrastado e fumávamos às escondidas. Tínhamos poucas regras, mas eram para cumprir à risca. Ou nem sempre.
No verão fritávamos em creme de cenoura durante dias inteiros no Guincho para onde o único meio de transporte era a boleia nas motas dos amigos ou em carros de perfeitos desconhecidos. À noite passeávamos o escaldão com duzentos escudos no bolso e um namorico qualquer na ideia. No inverno passávamos dias sem vestir um casaco, bastando para isso que não tivéssemos um que ficasse mesmo a matar na roupa emprestada cuja escolha se eternizava frente a camas abarrotadas de trapos, amigas e gargalhadas.
Íamos ao Oxford ver filmes com o John Travolta em grupos que ocupavam filas inteiras e comíamos chocolates Regina no intervalo.
íamos ao News, ao Palm Beach, ao Plateau, ao Ok, ao Bellburguer, ao Bar dos Pretos. Chegámos a ir ao Vangogo.
Ouvíamos Meat Loaf, Doors, The Cult, Alice Cooper, Def Leppard, Billy Idol, Fisher Z, Queen, Brian Adams e tantas outras bandas e músicas que nos faziam viajar entre emoções que viviam à flor da pele: pulávamos à doida e chorávamos desalmadamente no espaço de algumas cervejas apenas.
Dançávamos slows em discotecas.
E no dia seguinte estávamos capazes de fazer tudo de novo.
Divertíamo-nos à brava.

Depois ficámos crescidos.
Ficámos menos barulhentos e as borbulhas passaram a rugas. As nossas inseguranças deram lugar a outras com ladrões, contratos de trabalho e celulite instalada.
Agora gritamos menos mas mais a sério, ameaçamos menos e cumprimos mais, não gamamos nada e morremos de saudades da sensação.
Passámos a preocupar-nos com contas, escolas e taxas de juro. A falar de negócios, da crise, de doenças e de montes de assuntos até agora exclusivos dos nossos pais. Frequentamos as casas uns dos outros mas andamos sempre ocupados demais para namorar.
Temos cento e quarenta canais de televisão e outros tantos televisores espalhados pela casa, mas não conseguimos manter-nos acordados para ver nenhum.
Deixámos de fumar.
Começamos a ir ao cabeleireiro, à massagem, à pedicure, às finanças e ao advogado. A fazer check –up’s, a ir ao pediatra e ao psicólogo.
Compramos carros e computadores e malas e telemóveis e comparamo-nos secretamente aos nossos amigos.
Acordamos com os filhos, levamos os filhos à escola, vamos com os filhos às atividades, ouvimos os cd’s dos filhos, vamos às festas dos filhos, jantamos fora com os filhos, viajamos com os filhos, conversamos sobre os filhos, dormimos na cama com os filhos.
Custa-nos admitir que em breve teremos de vigiar o correio e o hálito deles como falcões e vivemos obcecados com a alimentação, com a segurança e com o futuro dos filhos.
Saímos cada vez menos e demoramos cada vez mais para nos arranjarmos, mas já temos maquilhagem e a roupa é quase sempre nossa.
Passámos a ter ressacas de três dias e a não sair de casa durante fins de semana inteiros sem razão nenhuma.
Somos conscientes e responsáveis. E sérios. E chatos à brava.

Mas no fundo, no fundo somos as mesmas pessoas.

Continuamos a gostar de rir, de ir às compras, de beber uns copos e de gozar uns com os outros. Nós mulheres, continuamos chatas e exigentes mas estamos mais sensuais. Eles continuam imaturos mas mais confiantes. Continuamos todos a ter ciúmes, a fazer birras, a sentir borboletas no estômago, a calçar sapatos que magoam e a vestir camisolas que picam só porque são espectaculares, a sair de casa sem casaco, a flirtar, a fofocar e a dizer palavrões.

Por isso vamos esquecer que somos grandes, que temos empregos, problemas, prestações e filhos para educar. Vamos ignorar as varizes, as carecas, as panças, os calos, os cabelos brancos, a falta de dinheiro e o cansaço e vamos ter uma noite inesquecível.
Vamos para a borga!
E é já amanhã!
A 105.4 Cascais FM vai pela mão do Miguel Ventura levar a banda sonora das nossas vidas ao Tamariz. E nós vamos com ela.
Vamos rir bué, beber um coche e dançar uma beca.
Bute?
Bruxo!

quinta-feira, agosto 26, 2010

Que cena, meu!

Ontem ao final da tarde, após mais uma jornada laboral para esquecer e antes de ir buscar a criançada, fui ao Pingo Doce fazer umas comprinhas rápidas (devia ser proibido trabalhar no Verão, faz muito calor. Pensando bem, no Inverno também devia ser proibido. Faz muito frio. E na Primavera, derivado às alergias...).
Entrei no supermercado toda laroca, peguei num cestito daqueles de segurar no braço e fui, qual Capuchinho Vermelho, direitinha à zona dos legumes.
Ora, estava eu cantarolando uma música que não me sai da cabeça há uns dias, uma coisa chamada Marlisse, dos Fisher Z (só hoje é que soube como se chamava), e escolhendo umas cenouritas biológicas com muito bom ar, quando o som de uma discussão me desviou o tino daquilo que estava a fazer.
Empertiguei-me muito bem empertigada, com o pescoço quase a desconchavar-se das clavículas, olhos muito arremelgados e ouvidos bem alerta.
Junto à linha de caixas desenrolava-se uma cena macaca. Aparentemente tratava-se de duas famílias desentendidas porque um dos individuos de uma teria insultado a sogra de um individuo da outra.
A coisa aqueceu, aqueceu, até que ferveu e descambou completamente.
Foi soco, pontapé, chapadão e palavrões que até ferveu. Fiquei feliz por os meus filhotes não estarem ali a ver aquilo. Era homens a bater em homens e homens a bater em mulheres. Homens a defender as mulheres e mulheres a tentar bater em homens. Todo o palavreado que fazia de banda sonora era de fugir, apesar de não se perceber metade entre os berros deles e os achaques, gemidos e fanicos delas.
O grupo movimentava-se pela loja, das caixas para a charcutaria, da charcutaria para o talho, daí para as caixas e por aí fora. Não se sabia para onde eles iriam a seguir, então a malta que como eu, se esforçava por fazer as suas compritas, tinha que andar a desviar-se deles. Ora foge para os azeites e óleos, ora desvia para a higiene pessoal, ora dá uma corridinha até aos congelados que são lá mais ao fundo.
Tudo isto sempre a espreitar pelo canto do olho para não perder pitada enquanto diisfarçava lindamente para os meus companheiros de plateia não se sentirem os únicos, e rezava secretamente para que nenhum dos pugilistas tivesse uma pistola e desatasse para ali aos tiros.
Lá apareceram uns seguranças e uns rapazolas mais afoitos e a coisa esmoreceu, se bem que me parece que foi ser terminada lá fora.

Quando fui finalmente buscar a criançada, contei - lhes o que se tinha passado.
É lógico que ouviram tudo, todos interessados.
Quando cheguei à parte em que expliquei eram cerca de oito ou dez pessoas envolvidas na escaramuça, e que aparentemente se tratava de duas famílias, o Vasco começou:
- Eram oito ou eram dez?
- Sei lá, Vasco, eram umas quantas, não contei.
- E diziam o quê?
- Não sei, insultavam-se e diziam palavrões.
- Que palavrões?
- Não digo, ora!
- E era como? Era cada família em linha de frente para a outra família?
Aí a Teresa interrompeu o massacre.
- Não, idiota, não era um duelo! É tudo ao molho, não é mãe? Uns em cima dos outros.
Encolhi os ombros, já exasperada. E logo o Vasco, que já devia ter o filme todo a passar-lhe à frente dos olhos:
- Já sei, vê-se aquela bola de pó com os braços e as pernas a sair! Fixe! Mãe, agora vou sempre contigo ao Pingo Doce!

terça-feira, agosto 17, 2010

Tem mais pequeno?

Todos sabemos e reconhecemos algumas características do nosso amantíssimo povo português: a mania de dizer mal do governo e dos vizinhos, a inveja do sucesso alheio, a maneira absolutamente única de ver sempre o lado negro da vida ou a capacidade de projetar escarretas a várias dezenas de metros são apenas algumas delas. Mas há uma de que nunca se fala e que talvez seja a única que mais ninguém no mundo tem, pelo menos que eu saiba:
Os portugueses são uns Houdinis do jogo “cálculo mental”.
Supreendidos? Nunca viram? Não conhecem?
Nah.
Ora vejamos:

Tudo se processa como num jogo tradicional.
Confesso que nesta época do ano em que ando mais na rua, esta maluqueira do “cálculo mental” deixa-me como quando está muita gente a jogar raquetes à beira mar – sem saber para onde fugir. A pessoa quer tirar uma férias descansada mas, a cada esquina aparece um taradinho das contas a testar a nossa capacidade de resposta.
Vá lá que a coisa é consentida - eu, pelo menos nunca vi ninguém reclamar.

A situação desenrola-se apenas em território nacional, em cafés, esplanadas, quiosques, estações de serviço, enfim, locais abertos ao público. Para haver partida tem de estar um empregado ao balcão e um cliente do outro lado. Frente a frente.
Quem desencadeia o jogo é o cliente e, para isso, tem de dizer a senha. Esta pode ser a frase “quanto é” ou uma semelhante, acompanhada pela exibição de algum dinheiro.
Mas quem decide se quer jogar é o empregado de balcão, através da resposta imediata que vai desencadear o cálculo veloz:

- Arranja-me dois cêntimos?
- Por acaso não tem um euro, noventa cêntimos, cinquenta, um...
- Um euro e vinte e três cêntimos, não me arranja, não?

Se por acaso o cliente não está interessado em ir a jogo deverá responder imediatamente “não tenho”. A esta resposta segue-se por norma um suspiro aborrecido ilustrado por um revirar de olhos do empregado ou por algum insulto murmurado entredentes, ambos dirigidos ao parvalhão do cliente que teve a ousadia de recusar a partida.
Ora isso tem uma consequência terrível para o empregado: obriga-o a dar o troco em moedas. E isto sim, é um drama. É a derrota.

Apesar de bizarro, por estas bandas o hábito do jogo está instituído e, em boa verdade, já (quase) ninguém pensa muito nele. Por vezes até já somos nós que avançamos para o jogo ao facilitarmos o troco mesmo antes de no-lo pedirem.

Agora experimentem ir a qualquer país do planeta, entrar numa.... sei lá... estação de serviço, e por exemplo: a conta é de 6,20€ e vocês dão uma nota de 10€ e 1,20€ em moedas para receberem 5€ de troco.
Experimentem!
Fica tudo a olhar para vocês como se tivessem um prato atravessado na boca ou os olhos fora das órbitas.
Já me aconteceu.

Imaginem só a vidinha infernal dos incautos estrangeiros que veem para cá de férias convencidos de que vão para a província descansar a cabeça...
Queriam!

quinta-feira, julho 22, 2010

Isto não é publicidade!

Não sou melómana. O que gosto na música, não é da música em si, enquanto arte ou génio ou exercício performativo. É daquilo que a música me faz sentir que eu gosto. Sensações, memórias, às vezes situações tão específicas que parecem gravadas na minha alma com banda sonora.

Lembro-me da primeira vez que ouvi Rodrigo Leão: estava ao telefone com um amigo meu e a certa altura ele pediu-me para esperar, que ia buscar alguma coisa. Enquanto esperava comecei a prestar atenção à musica que ele ouvia e, assim que ele regressou, perguntei-lhe o que era. Aqui está uma recordação cuja banda sonora se chama Alma Mater.
A minha primeira viagem de avião. Foi a Londres. Banda sonora: Roxette - Tourism.
A despedida de solteira da minha irmã Leonor - Amarguinhas...

Também há músicas que em lugar de situações, me recordam pessoas. Algumas, infelizmente, já cá não estão. Felizmente que quase todas ainda andam por aí.
Quase que posso garantir que, para cada pessoa de quem gosto, haverá uma música que se lhe cola:
Fugees - Killing me softly - Filipe, o meu maridão;
Solid - Ashford & Simpson - o meu Pai;
Tenho uma carta escrita... - (não sei de quem é e um dia ainda vai dar uma crónica) - a minha irmã Bárbara;
Lusitana Paixão - Dulce Pontes - a minha irmã Leonor;
The pros and cons of hitchhiking - Roger Waters - meu irmão Alex;
Grease - Ágata;
Alma Mater - Rodrigo Leão - Pedro "Gonain" Silveira

And so on...

Mas também há músicas que, quando oiço, me fazem lembrar sitios, épocas, fases da minha vida. E são essas as que mais gosto de ouvir - principalmente as que fazem parte da banda sonora da minha adolescência: as intermináveis férias de Verão, o 2001, as variadíssimas discotecas que houve no Hotel Paris, o Plateau, a Kapital... mas principalmente, especialmente, inesquecívelmente, tudo o que passava no News - a mítica discoteca na Malveira da Serra onde os meus pais não queriam deixar-nos ir porque não sei quantos anos antes, quando aquilo ainda era o Jet7, houve lá uma cena de facada onde morreu uma pessoa, mas nós íamos na mesma. E ainda bem.
You can do magic; Danger Zone; Kiss me deadly; Def Leppard; Goo goo Dolls; Aldo Nova; Police; The Cars; Alice Cooper; Russ Ballard; Guns N' roses; Ride like the Wind; Will you never be my friend.... enfim, são tantas, tantas, tantas músicas, tantas bandas que é impossível falar aqui de todas.
Muita gente tem cd's gravados pelos Dj's desta época, que ouve de trás para a frente em casa, no carro, no local de trabalho. Pois descobri recentemente uma coisa muito melhor: 105.4FM
A rádio que passa o que para uns é (apenas) a melhor música mas para mim (para nós), é muito mais do que isso: é a música das nossas vidas.
Hoje, quando entrarem no carro para voltarem para casa, amanhã, quando acordarem de manhã ou quando se meterem no carro para ir de férias, não se esqueçam: 105.4 Cascais FM.
E vão ver se não tenho razão!

quarta-feira, julho 07, 2010

Em 2015 será assim:

A última vez que fui ao teatro talvez tenha sido no verão passado, em julho ou agosto.
Era uma peça supostamente engraçada e cheia de ação, que seria o batismo de um conhecido nosso como encenador, mas onde ele faria também uma perninha como ator. Ele disse-nos logo na receção: hão de reparar bem no ato em que ato os sapatos. É excecional.
Mas afinal foi dececionante para nós enquanto espetadores. Uma das atrizes era quase anorética e surgia com uma minissaia absurda. Outra, de aspeto miserável, aparecia com um ridículo chapéu em forma de cato. Na parte masculina, um dos atores era uma criatura abjeta e muito pouco talentosa que mais parecia um espermatozoide radioativo com um ataque epilético, sendo que o outro não lhe ficava atrás no ar de quem tinha metido a cabeça no micro-ondas, mas suplantava – o de longe em inatividade e falta de noção do projeto como um todo.
Aborrecidos, acabamos por sair dali em contrarrelógio diretos para o aeroporto. Egito era o nosso destino.
O nosso amigo intercetou-nos aos berros:
– Deem- nos uma segunda oportunidade, não veem que os atores são ótimos?
Nós adotamos imediatamente um semblante perentório e respondemos:
- Para com isso, rapaz! Andamos a correr durante o dia todo para vermos esta bodega! Para a próxima hás de ter mais cuidado com a seleção de atores para o espetáculo.
Arrancamos dali a toda a brida pela autoestrada diretos ao aeroporto e em cinco minutos estavamos lá. O alívio foi coletivo. Se perdessemos o avião teríamos de fretar um jato, e isso era exatamente o que nós não queríamos.

Este texto é uma treta mas é só para dizer que
FOI ESCRITO AO ABRIGO DO NOVO ACORDO ORTOGRÁFICO

quinta-feira, julho 01, 2010

Porque é que as conversas dos adultos demoram tanto?

É uma das perguntas que os meus filhos me fazem constantemente. Eu poderia responder que no meu caso demoram porque eu não me calo ou porque os adultos não brincam, por isso conversam. Mas essa não é a verdade. As conversas dos adultos demoram muito porque...

Sempre tive alguma pena de não ter nenhum talento extraordinário, revelado logo na infância. Via os coleguinhas de escola, alguns pequenos prodígios ao piano, na ginástica, na matemática, na beleza, no que fosse. Mas eu, nunca tendo sido propriamente horrorosa também não era nenhuma estampa, apesar de nunca ter sido propriamente má aluna, também nunca fui especialmente boa – por exemplo, nunca na vida tive um 20 - e sempre fui consistentemente uma verdadeira nódoa em toda e qualquer actividade que envolvesse mais coordenação motora que levar os talheres à boca.
Contudo, a certa altura descobri que, mesmo não sendo um prodígio nem similar, tinha uma característica mais desenvolvida que a média – não, não era o rabo – era a memória. De facto sempre tive uma memória verdadeiramente notável e que talvez seja a responsável pelas minhas consistentes notas medianas, já que o estudo não era de certeza.
Mas como o cérebro é estranho e a memória selectiva, a minha dava-me mais para letras de músicas (que eu decorava à segunda vez que ouvia e, se fosse muito repetitiva, podia ser logo à primeira), números de telefone e principalmente, nomes e caras. Era de tal forma eficiente como fisionomista que a minha mãe recorria a mim como se à agenda: “lembras-te daquela loira meio parva, casada com aquele colega do pai do nariz estranho?” E logo eu disparava nome e, se fosse pessoa que eu conhecesse bem, número de telefone. Bastava-me ver uma cara uma vez e nunca mais me esquecia nem da identificação nem da origem. Da mesma forma, sabia os nomes de todos os livros e filmes que via, dos autores e dos actores, enfim, era uma espécie de catálogo.
Agora, não sei se é das gravidezes, da falta de sono, das noitadas, do excesso de trabalho, do desgaste da idade ou de tudo isto junto, mas sinto uma intensa e rápida decrepitude a tomar conta das minhas faculdades. Acontece-me quase todos os dias encontrar pessoas que me cumprimentam e até conversam animadamente, que me perguntam pelos meus irmãos, às vezes pelos meus pais ou filhos, e que eu não faço a mais leve ideia de quem sejam. Como sou simpática por natureza, sinto vergonha de admitir perante alguém que se me dirige de forma tão calorosa, que estou completamente a zeros, por isso disfarço e tento perceber pelo contexto da conversa se chego lá. O que na maioria das vezes não acontece, admito, e acabo a fazer figura de parva.
Por ter vivido a vida toda na mesma terra é natural que eu conheça muita gente, que de vez em quando encontro aqui ou ali e com quem dou dois dedos de conversa. Estas falhas já são tão comuns que no final há sempre um dos meus filhos que pergunta – sabias quem era? Infelizmente cada vez mais respondo que não.
Mas eles não se ralam nada e eu já quase não ligo nenhuma. Desenganem-se que eu estou plenamente consciente de não ser a única com este problema. Aliás, parece-me que quase toda a gente da minha geração anda assim. É giro, porque as conversas passam a dar a sensação de de serem chamadas telefónicas com problemas de rede:

- Já viste o ... pá, o novo filme do.... daquele, caraças, que anda com aquela que fazia o Sexo e a Cidade, a loira....
- Ah, o..... , eles não andam, são casados, sim, o..... pá, como é que ele se chama, sei perfeitamente quem é, entrava naquele filme em que fazia de mau aluno .... Não interessa, já estou a ver. Não sabia que tinha um filme novo. Vale a pena, é?
- Vale, é giro. É passado na Austria, num dos sitios onde ficamos de uma das vezes que estivemos há uns quatro ou cinco anos, lembras-te? Tinha um nome estranho.
- Nomes estranhos têm todos os sitios onde estivemos na Austria. Foi no ano em que fomos nós e mais quem?
- Foi no ano daquelas duas doidas, primas do .....
- Sim, sim, as ...... bolas, sim, sim, as primas daquele que é actor...
- Músico.
- Músico?
- Sim, até fez a banda sonora de uma série qualquer, há pouco tempo... com o argumento daquele antipático que escreve no Expresso.
- Sim, lembro-me o... caraças, pá! Esteves Cardoso? Não... é o outro.
- Exacto o Sousa Tavares... isso. O cd...

Lá está, quem não tem conversas destas que atire a primeira pedra!

quarta-feira, junho 23, 2010

Uma viagem a Londres

O facto de ter dado de caras, assim do nada, com uma fotografia antiga, fez-me recordar...

Se a memória não me falha estávamos em 1992, no final do primeiro ano do curso ou perto disso. A minha irmã Leonor, as nossas amigas Mónica e Ana Margarida e eu decidimos fazer uma viagem. Como a idade era poucochinha (eu e a Mónica tínhamos 18, a Leonor 19 e a Ana 20, acho eu) os recursos também eram escassos, por isso começamos logo por investigar de entre o leque de amigos, conhecidos e amigos dos amigos, quem é que vivia onde e tinha casa onde coubéssemos, ou mais ou menos, as quatro.

Não foi necessário grande esforço. Quem vivia fora ocupava geralmente um quarto microscópico em casa de uma velha chata e forreta, o que levava à exclusão imediata desses.

Concentramos-nos então na malta dos apartamentos. Depressa decidimos o nosso destino: a malta dos apartamentos eram...um.

O rapaz em questão era um amigo do meu irmão, por arrastamento amigo nosso também, que vivia numa casa, uma vivendinha, em Londres com mais três companheiros – um português e dois ingleses. Maravilha das maravilhas, estavam todos de férias, pelo que a casa seria todinha e apenas para nós.

Aterramos em Heathrow já de noite – em Londres escurece lá para as quatro da tarde, mas já era de noite mesmo. De papelinho com a morada em riste, chave preciosamente guardada pela Leonor, malas aos trambolhões e uma fome desvairada, lá passámos de metro em metro, de linha em linha, até as pessoas serem cada vez menos e os nervos cada vez mais. Finalmente Surrey Quays (não era?), o fim da linha, quase.

Saímos do metro no instante em que São Pedro puxou o autocolismo. Como se não bastasse, a zona era tão má que nem os taxis paravam. Seguimos a pé, atentas, em busca do Mac Donald’s lá do sitio, em frente do qual era suposto virarmos à esquerda. Voilá.

Já passaram uns anitos, não guardei muitos dos detalhes. Lembro-me que a casa era simpática, tinha dois andares mas não tinha quase móveis nenhuns. Não sei se tinha cozinha, mas não me lembro de a ver. Mas uma coisa nenhuma de nós poderia esquecer – o quarto do Religioso. O Religioso era um dos ingleses que vivia lá e que devia ser uma personagem bastante peculiar. Tenho até ideia de que ele apareceu por lá e tudo, não foi? Tinha um crucifixo enorme pendurado na parede e era assim meio gótico. Para nós, provincianas dos sete costados, aquilo era muito à frente, tal como o punk de gigantesca crista colorida e careca integralmente tatuada com um lagarto lindo de morrer, que vimos na rua mas que até aí só tínhamos visto na parte das aberrações da revista do National Geographic.

Logo ali à chegada tivemos o primeiro choque. O nosso amigo dono da casa telefonou para nos comunicar que o outro português que lá vivia afinal chegava de Portugal no dia seguinte e ia lá para casa.

Coitado. Não tinha ideia do que o esperava. Foram dias alucinantes, alucinados, sem um momento de lucidez ou sossego. Uma semana em que rimos, rimos tanto!

Nós, galinhas adolescentes, completamente excitadas com o programa de aventura.

O inferno dele começou logo quando compramos, e durante uma semana ouvimos até à loucura, aos berros, claro, o album Tourism dos Roxette, que ainda hoje é a banda sonora dessa viagem.

O rapaz nem sabia já onde havia de meter a cabeça. Ou o cd. Ou a nós. Mas como a bagagem dele tinha ido parar a Tóquio e ele passou quase uma semana sem mudar de roupa (e desconfiamos que sem uma banhoca), nós entendemos que a tortura não era demasiada.

Não me vou alongar em detalhes da viagem, até porque as memórias já estão um bocadinho turvas e porque seria enfadonho – é como ver fotografas das viagens dos outros.



Mas acabou em grande.

No dia da partida decidimos ir para o aeroporto de taxi. Tínhamos muita bagagem, estávamos cansadas e ainda nos restavam algumas libras. Como dispunhamos de mais tempo para o caminho acabamos por partir mesmo a queimar. Já em enorme stress entramos pelo terminal 1 do aeroporto de Heathrow feitas loucas a correr, aos tropeções em malas, sacolas, saquinhos e porcarias até aterrarmos num balcão qualquer aos gritos “flight number não sei qantos to Lisbon Portugal?” e ouvirmos aterrorizadas as palavras quase cuspidas pela cabra da funcionária: “closed”. E “closed” porque Londres não tem as dimensões de Lisboa e o Terminal 4, de onde seria suposto partirmos, era a 40 minutos do sítio onde estávamos. Um pormenor. Chorámos, pintámos a manta, e lá conseguimos que nos trocassem os bilhetes sem acréscimo de custo, para um vôo no dia seguinte de manhã muito cedo.

Informaram-nos que no Terminal 2, a 10 minutos do 1, havia cacifos para fechar a bagagem. Lá fomos arrumar as coisas, ligamos ao nosso companheiro e partimos de metro para Surrey outra vez. Como não podíamos perder o avião e nem sequer tínhamos uma muda de roupa, decidimos não dormir. Ficamos na palheta, a beber umas jolas, grande risota. Está claro que adormecemos. Acordamos às 5 da manhã em histeria absoluta. Não havia já fundos para andar de taxi, pelo que teríamos de ir de Metro, viagem que levaria cerca de uma hora. Saímos disparadas a correr e fomos a contar os segundos. À chegada ao aeroporto alguém lembrou: as malas estavam nos cacifos no Terminal dois e o avião partiria do um, onde nós estávamos a chegar.

Duas desarvoraram para levantar as malas enquanto as outras iam procurar o check in.

Para ouvirmos novamente o impávido balido: “closed”.

Dessa vez assustamos-nos mesmo. Já estávamos completamente lisas, não podíamos comprar outros bilhetes! Chorámos, pedimos, implorámos, suplicamos...e ok. Nova remarcação para daí a não sei quantas horas, já de noite. Nessa altura estávamos tão íntimas das “collect calls” que no aeroporto já devia haver um telefone só para nós.

Juntamos todo o dinheiro que tínhamos e compramos um café com leite e uma sandwich que dividimos pelas quatro. E esperámos. Sentadas, de frente para o placard das partidas. Sem arredar pé. Depois de termos perguntado a dezoito pessoas se estávamos no Terminal certo.

E embarcamos finalmente.

quarta-feira, junho 16, 2010

Portugal!

Ontem consegui espreitar o jogo inaugural dos Navegadores, no Mundial 2010. Sim, também eu interrompi uns bocadinhos o meu trabalho para ver em que é que paravam as modas lá na África do Sul. Não parei todo o tempo e não vi o jogo todo, apenas o suficiente para me sentir bem com a minha luso-consciência sem me sentir mal com a minha profisso-consciência. No final senti vergonha. Não foi pela aborrecida prestação dos jogadores lusos – eles são pagos para jogar à bola e é isso que fazem, umas vezes de forma mais inspirada, outras nem por isso, mas que se entendam com quem lhes paga. A vergonha que senti foi pelos restantes portugueses, todos os que não estavam dentro do campo, em Port Elisabeth.
Todos os dias encontro por aí críticos ferozes de Portugal enquanto nação e de Portugal enquanto equipa de futebol. Uns afirmam ter vergonha de viver num país corrupto, onde muitos pagam os luxuosos desvarios de uma meia dúzia de poderosos com ambição a mais e escrúpulos a menos. Outros, os treinadores de bancada, gastam o seu tempo e latim a questionar as escolhas do Professor, a estratégia do Professor, a prestação do Ronaldo, do Deco, do Coentrão ou a lesão misteriosa do Nani relativamente à do Drogba. Todos se insurgem contra os nossos jogadores comparando os milionários salários que recebem com as fracas exibições que nos têm oferecido últimamente. Mas são esses mesmos críticos os primeiros a afinfar o traseiro na primeira cadeira, banco, sofá ou assento de qualquer espécie que apareça, para poderem devidamente criticar e escarnecer do seu país. Na empresa onde gastam as horas que faltam para ir embora, no café onde ocupam o tempo e os subsídios, no shopping onde vibram mesmo que de pé, em frente a um televisor suspenso na montra de uma qualquer loja de electrodomésticos em promoção – qualquer lugar serve para dizer mal de Portugal e para ver futebol.
É isto que me entristece. Por todo o lado vemos bandeirinhas, bandeirolas, vuvuzelas, frases feitas e sei lá mais o quê, manifestações hipócritas de apoio a Portugal, que se transformam em ataques sanguinários aos protagonistas do momento assim que o Tiago falha um livre ou o Liedson faz uma falta. Mas agora pergunto eu: Enquanto os nossos jogadores estão na África do Sul a fazer efectivamente alguma coisa por Portugal, o que é que cada uma dessas pessoas, o que é que cada um destes juízes implacáveis faz pelo seu país? Quando é que cada um desses cidadãos exemplares fez de facto a diferença no seu país, na sua empresa, no seu bairro, na sua rua, na escola dos filhos ou mesmo dentro de sua casa, por forma a tornar a realidade melhor e mais exemplar, em lugar de se preocupar apenas com a prestação ao futebol de duas dúzias de miúdos para quem uma vitória é de certeza mais importante que para qualquer um de nós? Quem é que desses jogadores de sofá se poderá vangloriar de ter uma prestação imaculada no seu emprego, de marcar golos a cada chuto, todos os dias, em todos os jogos?
E mais. Onde estão esses patrioticos aficcionados do patriotismo quando os nossos deficientes ganham medalhas sucessivas em paraolimpíadas para as quais se treinaram a expensas próprias e das quais regressaram felizes para darem de caras com um enorme nada a recebê-los? E onde estão quando as nossas estrelas internacionais do Judo, do Atletismo, do Triplo Salto, mais precisam de claques, força e apoio?
Suponho que sentadinhos com o rabiosque bem em cima das bandeirolas que desdobram e arejam uma vez a cada dois anos, para irem para o café criticar Portugal, os portugueses e as prestações dos nossos nos campeonatos de futebol.

quarta-feira, junho 09, 2010

Um homem e um colchão

Era uma vez um casal. Esse casal vivia feliz e contente numa casinha. Dentro dessa casinha havia um quarto e dentro do quarto uma cama. Grande. De casal. Para o casal dormir.
Nesse casal, que vivia numa casinha onde havia um quarto com uma cama grande onde podiam dormir, o homem ressonava. Muito. Sempre.
Ela, a mulher, tentava todas as noites dormir na sua cama, dentro do quarto, dentro da casinha, mas tinha muita dificuldade. A mulher não era surda. A mulher ouvia o ronco. E não dormia. E dava estalinhos com a língua para ele parar. E abanava-o. E tapava-lhe o nariz e virava-o de lado e dava-lhe pontapés. E dizia-lhe para ele ir ao médico. E nessa casinha onde o casal vivia feliz e contente num quarto com uma cama grande, ninguém dormia.
E ele dizia que ela era má. Que não o deixava descansar.
Talvez de tanto ouvir estalinhos de língua, um dia o homem, que ressonava, começou com estalinhos nas costas. As costas estalavam-se-lhe pela manhã, quando ele acordava da noite sem dormir. Durante muito tempo as costas do homem estalaram todos os dias pela manhã. Um dia ele decidiu. Era do colchão. Do colchão da cama grande de casal. E decidiu trocar de colchão. E o casal foi comprar um colchão novo para a cama grande.
O tempo passou. O colchão não era bom. As costas estalavam. O homem ressonava. Ninguém dormia.O homem decidiu trocar de colchão.
O casal foi e comprou outro colchão. Para a cama grande, de casal, que estava no quarto, dentro da casinha onde viviam felizes e contentes. Mas as costas estalavam, o homem ressonava e, na casinha ninguém dormia.
Como o casal não dormia mas aprendia, este colchão, de cama grande, tinha um prazo para ser devolvido e reembolsado. E o homem pediu à mulher se o devolvia. Ele comprava outro, noutro sitio. Melhor. Para dormirem.
E a mulher assim fez. Devolveu o colchão da cama grande de casal que estava num quarto dentro de uma casinha onde viviam felizes e contentes. E o homem, que ressonava, tinha estalinhos nas costas e trabalhava muitíssimo, não teve tempo e não comprou outro.
Agora num quarto, dentro de uma casinha linda, há uma cama grande, de casal, para o casal dormir. O homem ressona e tem estalinhos nas costas, mas agora o casal não dorme porque não tem colchão nenhum.
FIM

terça-feira, maio 25, 2010

Fez este Sábado 11 anos que nós entramos pela primeira vez, ansiosos e expectantes, nessa montanha russa que é a maternidade.
Fez este Sábado 11 anos que vivi pela primeira vez os momentos mais arrebatadores e intensos que uma mulher pode experimentar nesta vida.
Fez este Sábado 11 anos que tive pela primeira vez vontade de enfiar um ferro incandescente pela goela de alguém abaixo.

Eram 08.50H da manhã quando na Maternidade Alfredo da Costa se escutou um choro de recém nascido. Para eles, mais um, para mim, o som mais bonito que já ouvi – o choro da minha primeira filha, rápido, sentido, vigoroso, indicador número um de saúde do bebé.
A assistir ao parto estavamos apenas nós os dois, uma parteira e uma anestesista com a tromba mais antipática de todos os tempos, provavelmente danada por ter sido arrancada à sua sesta nocturna para fazer um trabalho tão menor como dar uma epidural a uma grávida que nem sequer ia fazer uma cesariana.
Assim que a Teresinha chorou o Filipe saiu da sala para dar a boa notícia à legião de familiares que se encontrava na sala de espera, a parteira foi chamar a doutora e, enquanto isso eu quedei-me embevecida a olhar para a minha princesa, ainda sem crer no milagre que acabava de viver (ou começava a viver).
A certa altura, entre lágrimas emocionadas, mais a falar com os meus botões do que com alguém em especial, perguntei na direcção daquela besta, a anestesista, já que no momento não estava lá mais ninguém: é linda, não é? Ao que a mula respondeu como quem vomita: ...hum... tem a cabeça um bocadinho em forma de bala.

Como toda a gente que já passou por isso, isto de ter filhos não é fácil. Muito menos quando se trata do primeiro.
Numa primeira gravidez cada dia é uma experiência intensa, cada acontecimento inesperado rapidamente se transforma numa angústia feroz. Num momento tudo é lindo e romântico e no outro a vida é toda ela um horror. Estamos hormonais, com frequência gordas – que era o meu caso, uma vaca com mais dezoito quilos em cima, distribuidos equitativamente entre as nádegas e as beiças – e imensamente sensíveis. Tudo o que queremos é mimo, atenção, e que o obstetra nos dê a importância que daria se a grávida fosse da família do Cristiano Ronaldo. Além disso, durante os últimos meses o nosso discernimento oscila entre o desejo fútilmente secreto de conseguirmos respirar nas nossas calças de ganga uma semana depois de a criança nascer, sem rebentar o fecho e o pavor de ficarmos para todo o sempre assim, como estamos naquele momento.
Era exactamente nesse estado que eu me encontrava, acrescentando ainda o facto de estar fisica e emocionalmente exausta, após seis horas de intenso trabalho de parto.
Seria assim tão dificil para aquela hiena acéfala ter respondido apenas que sim, mesmo que nem um sorrisinho me desse? Cabra infame. Não saberia ela, que trabalha numa maternidade, que nunca, mas nunca se é sincera para uma mãe? A minha filha era linda sim. Era perfeita. E perfeitos eram cada arranhão que tinha nas bochechas vermelhuscas, o pequeno angioma na sobrancelha direita, a boquinha minúscula inchada como um biquinho amoroso e sim, a cabecita em forma de bala, ou de martelo ou do que fosse.
Era minha filha, perfeita como só os filhos são para as mães – pois só nós temos a capacidade de ver apenas o que queremos, como e quando queremos, independentemente daquilo que os outros pensem ou digam. É a isso que chamamos “amor incondicional”. Amor esse que espantosamente cresce a cada dia que passa, mesmo quando já estamos convencidos de que não pode crescer mais.
Agora, onze anos depois, tenho uma filha mais velha, linda e perfeita, a entrar na adolescência. Precoce, como agora é tudo na vida deles. E que, felizmente para todos nós, amo absoluta e incondicionalmente desde a primeira vez que a vi.
Só assim se explica os cinco amigos a dormirem em tendas lá em casa, depois de um jantarinho apenas para os trinta e tal elementos da família mais chegada – cinco quilos de carne, três sacos de lixo com garrafas, quatro máquinas de loiça e um frigorífico vazio - que acabou já passava das duas da madrugada e durante grande parte do qual assistimos primeiro aos berros da final da Champions, e depois aos berros do Elton John em directo do Rock in Rio, sem que eu tenha tido vontade de agredir alguém.
Sim, finalmente percebo a utilidade desses sentimentos.

Parabéns filhota e obrigada a todos por terem ido. Adoramos!

sábado, maio 22, 2010

Também há morenas loiras burras

Desde há uns anos que se fala da proporção directa entre o loiro do cabelo de uma mulher e um nível incomensuravel de burrice. Fala-se das asneiradas das loiras com indulgência e contam-se anedotas de loiras como antes se contavam anedotas do Samora Machel. Afinal está provado que a forma mais eficiente de provocar o riso é fazer a audiência sentir-se superior, portanto, ridicularizar alguém, mesmo que esse alguém seja a nossa própria pessoa.Apesar de não possuir argumento algum que fundamente aquilo que vou dizer a seguir, acho que a coisa faz sentido: como o passado se encarregou de nos provar, há uma série de loiras naturalíssimas que ficaram para a história por motivos bem mais nobres que umas míseras asneiradas gramaticais, nomeadamente por serem, imagine-se, inteligentes.(nesta altura fui fazer uma pesquisa na Internet em busca de loiras naturais famosas, prémios nobel, cientistas, astronautas... e, qual não foi o meu espanto ao descobrir que não há quase loiras nestas áreas? Mesmo as pintadas são muito poucas, caraças! Lá se vai a minha teoria). Ainda assim temos o exemplo de mulheres loiras, poderosas, ricas e/ou inteligentes, que souberam gerir as suas carreiras ou fizeram diferença no mundo – Madonna, a artista mais influente do planeta, Margaret Thatcher, a Dama de Ferro, primeira mulher primeiro-ministro britânica; Sharon Stone, mais famosa pelo QI de 154 do que propriamente pelo talento como actriz (apesar de cruzar lindamente as pernas), ou mesmo Nossa Senhora de Fátima, cujos extraordinários feitos dispensam mais conversas.Seja como for, depois de pensar um bocadinho, sou capaz de jurar que esta imagem das loiras se deve à forma quase obcessiva como a dada altura as mulheres americanas primeiro e mais tarde as outras todas, desataram a copiar o estilo oco e a imagem coquette da loira mais famosa e namoradeira do Mundo – Marilyn Monroe. Daí à banalização do género foi um instante. De repente era só loiras amorosas, cheias de pernas e mamocas e decotes e bocas sensuais em tudo o que era película, desde as Marés Vivas às coelhinhas da Playboy, passando pelos hard core mais rascas da tv espanhola. É um mercado, e um mercado que vende bem. E elas são espertas em ganhar com isso.Mas se formos a ver com atenção, há montões de morenas igualmente ricas e igualmente inteligentes e igualmente sensuais e igualmente namoradeiras. E igualmente loiras burras.Isto tudo para esclarecer que, estou convencida de que ser loira burra, antes de ser uma característica física, é um traço de personalidade. É a falta de tacto, a verborreia desenfreada, a inconveniência crónica, a falta de maturidade, a futilidade que, em algumas personalidades é apenas mais evidente que noutras.E agora me confesso – apesar de o meu loiro ser pintado e de não ser completamente parva, eu tenho uma loira burra dentro de mim. Sou muitas vezes inconveniente, falo demais, sou um bocadinho (mas só um tudo nada) fútil e às vezes não penso. Não penso mesmo. E não é de propósito. E depois dá um resultado assim:Aqui há tempos houve um jantarinho em nossa casa. Quando as pessoas saíram reparei que estava um telemóvel em cima do sofá e que era o telemóvel de uma das minhas cunhadas. Consciente da enorme importância que estas coisinhas passaram a ter na nossa vida apressei-me a ligar para a avisar. E para onde liguei eu? Para o telemóvel dela. Claro que ele desatou a tocar ali, em cima do sofá. Ao ouvir o toque estridente e incomodativo gritei: Filipe, atende aqui que eu estou ao telefone!Como ele pensou que eu estava a gozar, não se mexeu e levou ainda com aquela frase típica, dita entredentes – bolas, sempre eu, sempre eu .... fazer tudo sozinha... dassss!

quinta-feira, maio 20, 2010

Os dias são todos diferentes...

Ainda não eram 7 da madrugada quando uma sirene infernal, não sei se de ambulância, carro de bombeiros ou polícia irrompeu desenvergonhadamente pelas profundezas dos meus sonhos. Quando eu já estava prestes a ficar surda ou louca, o meu pequeno cérebro, amigo de ocasião a tentar talvez aguentar-se são mais um tempinho, decidiu acabar com o martírio. Acordou-me de rompante, à bruta, com a desconsideração que lhe mereço, tal é o tratamento que lhe tenho dado, para me fazer ver que o tormentoso buzinão não passava de um ataque histérico do meu despertador. Arrastei-me para fora da cama, fui acordar a tropa, dei de comer ao cão, bebi um copo de água, preparei o almoço da Teresa e ... sentei-me na cozinha a ler. Isto é claramente uma coisa que eu não tenho pr hábito fazer. As minhas manhãs, aliás os meus dias são frenéticos, mas hoje não me apeteceu. Deixei-me estar sossegada, interrompendo apenas a leitura para dar um grito ou assim. Cerca das 8 horas, a Teresa e o Vasco estavam prontos. A Vera quis ficar em casa, o pai ainda dormia, pelo que saí com toda a calma para ir levar os mais velhos. Às 8.20 já tinha deixado um em cada escola e regressava com toda a calma a casa, quando me lembrei de ir comprar pão. Parei em frente da padaria, recolhi os trocos espalhados pelo chão e pelos vários compartimentos e buracos do carro e lá fui, a salivar pelas minhas vianinhas mal passadas. No regresso ao carro oiço um animadíssimo “olá Marta”, que me deixou petrificada. Voltei-me e dei de caras com uma amiga das minhas irmãs, impecavelmente vestida, calçada, penteada e perfumada a atravessar a rua para me cumprimentar. A mim. Que estava com a cara num pastel, de pijama, roupão e pantufas, no meio da rua. Lancei-lhe o meu melhor sorriso enquanto procurava qualquer coisa para dizer que não deixasse dúvidas quanto à minha sanidade mental. Com o meu ar mais natural perguntei-lhe o que fazia ela ali, ela respondeu que se tinha mudado recentemente, eu observei que estava de pijama, ela respondeu que tinha reparado, eu disse então adeuzinho, ela também, e foi cada uma à sua vida. Voltei então a casa, tomamos o pequeno almoço, tratei da Vera e de mim, ele saiu rumo a um dia complicado, eu fui deixá-la à escola e fui trabalhar. Apanhei pouco transito, por isso decidi parar na Galp de Oeiras para beber um café. Na fila encontrei uma outra conhecida, tão ostensivamente grávida que não resisti à pergunta sacramental. Para quando é? Pois não era. Estava apenas gorda. E eu que ao cabo de mil tiros ao lado, tinha jurado a mim mesma que nunca mais na vida perguntava nada disso a ninguém! Os dias são todos diferentes, mas uns são mais diferentes que outros.

terça-feira, maio 11, 2010

Cada um é pró que nasce!

Desde o berço que toda a gente, começando pela mãe e acabando na vizinha do 3º esquerdo, decide prever o nosso futuro e descobrir a nossa real e genuína vocação.Há os que nascem com o dom de inventar, o de dançar, o de ser trafulha, poeta, criador de moda, motorista, arquitecto, médico... enfim, há dons para todos os gostos. Também há aqueles que, não tendo nenhuma capacidade que se veja têm uma família próxima que os venera e neles vê verdadeiros Einsteins, autênticos Gagarins, genuínos Baryshnikovs - mas sem a parte do talento. E há aqueles que passam o tempo à procura mas não encontram nada ou encontram quando já pouco podem fazer. Tenho passado a minha vida, como todos os que não foram bafejados pela fortuna de saber que queriam cantar desde os quatro anos, em busca daquilo que é verdadeiramente o meu âmago, da real identidade da minha alma. Em criança diziam-me que a minha área seria a publicidade, o jornalismo, qualquer coisa relacionada com a mirabolante capacidade - que aliás mantenho - de massacrar com opiniões ou perguntas qualquer alminha que me dê trela, seja ele conhecido ou perfeito incógnito. Em boa verdade é-me relativamente indiferente, desde que o interlocutor tenha pelo menos uma orelha.Mas a realidade é que tenho andado por baixo das varandas da vida sem no entanto conseguir ser atingida, e muito menos esmagada, por esse grande vaso que é o momento da revelação.Até ontem. E foi uma maçada.Quem fez o favor de me presentear com a iluminação foi um senhor de maus fígados, capaz de parar o mundo com um espirro. Chama-se Eyjafjallajokull e é um verdadeiro vulcão. Pois que, por causa dele vi-me presa com umas amigas num aeroporto. É claro que a incerteza quanto ao regresso nos causou ansiedade e isso faz mal, toda a gente sabe. Causa rugas, faz-nos roer as unhas, enfim, uma chatice. Portanto, como estávamos um nadinha nervosas tivemos de chatear um bocadinho, muita gente. E lá conseguimos que nos encaixassem num voo.Acontece que nesse voo só havia lugares em executiva, pelo que os senhores, amorosos, fizeram o favor de nos presentear com um upgradezito simpático.Depois de aguardarmos alguns momentos numa sala Vip, com direito a café, chá, sumos de tudo, bolachinhas, aperitivos, internet grátis, ar condicionado e sossego, acabamos por embarcar rumo a casa.Viemos então de perna esticada para a frente e costas confortavelmente inclinadas para trás, ora beberricando um suminho de tomate temperado, ora petiscando uma maravilhosa e suculenta vitela estufada que pudemos escolher a la carte, tudo servido em loiça de loiça e talheres do material de que são os talheres. Eu sou uma pessoa que sofre nos aviões. Doem-me os ouvidos, incham-me as pernas, um horror. Pois ontem, nada. Aterramos na maior, sem entupimentos nem edemas, sem nervos nem barulho.E foi aí que descobri. Se pudesse nunca mais me apanhavam da segunda fila para trás, nunca mais sentava o meu real traseiro numa sala de embarque atulhada, nunca mais comia uma sande em prato de plástico, nunca mais gastava uma hora no trânsito para ir trabalhar, nunca mais aspirava, nunca mais pagava nada a prestações, nunca mais ficava numa fila. Dou-me mal.Descobri que nasci para ser rica. Só que não sou. Uma maçada, de facto. É o mal de ter descoberto tarde. Podia ter sido à nascença, não?

segunda-feira, maio 03, 2010

A todas as MÃES!

E a todos os PAIS maravilhosos que tornam esta experiência inesquecível - criar os nossos FILHOS.

Boletim da Ciência

Mulher:
Mamífero, vertebrado, omnívoro, bípede.
Trata-se de um animal estranho. Apesar de relativamente simples na aparência, é constituído por células altamente sofisticadas que muito poucos cientistas conseguiram até hoje decifrar. Chama-se Mulher e ainda hoje podemos observá-la em inúmeros locais por este Mundo fora. Devido a algumas características peculiares da sua estrutura, quando está calma e controlada por vezes é possível interagir com ela.
Mulher tem um sem número de características que a tornam única e devido às quais ainda hoje podemos encontrá-la na Natureza.
O seu habitat natural é um local fresco e amplo, onde se pode encontrar uma quantidade de artigos indispensáveis à sua sobrevivência, privada dos quais pode tornar-se irascível e até bastante agressiva – a loja. Contudo, a deslocação para outros locais, como casa e trabalho, têm-na arredado do seu ambiente natural, mas as suas extraordinárias capacidades de adaptação fizeram com que até hoje consiga sobreviver em praticamente qualquer lugar.
O que faz de Mulher um dos seres mais estudados pelas antigas escolas de pensamento e pelos cientistas de todo o mundo é todavia, uma outra característica que a diferencia dos demais seres da sua espécie: a capacidade de se transmutar num outro ser ainda mais complexo, que doravante designaremos por Mãe.

Mãe:
Animal que a dada altura da vida brota de dentro de muitas mulheres, por via da fecundação. Extremamente meiga e protectora, Mãe é dotada de uma inesgotável energia e da capacidade de se privar de praticamente tudo. Perante a sensação de perigo iminente relacionado com as crias pode tornar-se terrivelmente feroz, seja qual for a origem da ameaça. Por vezes reage de forma enlouquecida e consegue berrar até perder a voz ou até deixar quem a ouve sem sentidos.
Apesar de o seu habitat natural continuar a ser a loja, desenvolve-se melhor num outro mais confortável e acolhedor, chamado casa.
Uma curiosidade – Mãe pode brotar de forma idêntica de dentro de Mulher, mesmo se as crias não forem biológicas. Do mesmo modo, se é verdade que todas as mães vêm de Mulher, nem todas as mulheres têm Mãe dentro de si. Esta particularidade só torna o animal Mulher mais interessante de ser estudado.
Ao surgir, Mãe vem dotada de duas cabeças e múltiplos braços. Desta forma consegue ouvir e ver tudo o que se passa, para além de ser capaz de desempenhar simultâneamente uma quantidade de tarefas que, assim, ficam vedadas ao macho da sua espécie – o Homem.
Por exemplo, Mãe facilmente depila uma perna enquanto mexe um puré, ajuda uma das crias no tpc, cose um botão num bibe e preenche o Irs. No entanto, Mãe dispõe de uma limitação grave à sua sobrevivência - para que possa existir Mãe, tem sempre de existir um elemento de estrutura muito básica, mas dificil de encontrar em condições, que por vezes é uma ajuda mas na maioria delas lhes dá cabo dos nervos – o Pai.
Só ainda não se conseguiu descobrir a razão pela qual geralmente Mãe funciona melhor com Pai, mas por vezes Pai só complica a vida de Mãe. Se há espécies de Pai cooperantes, meigas, carinhosas, atentas e presentes, ainda não se descortinou a forma de extinguir as espécies degeneradas, ausentes, indolentes e egoístas. É que por fora são todos iguais.
Mesmo assim a natureza é tão perfeita que, apesar de funcionar melhor se tiver Pai, Mãe funciona na mesma sem ele.
Sem filhos é que não!

quinta-feira, abril 29, 2010

Parabéns Avó!

Para muitos o dia 28 de Abril será uma data importante a recordar - um dia de aniversário ou de casamento, o dia em que nasceu o primeiro filho, em que compraram o primeiro carro ou em que arranjaram o primeiro emprego – mas para a maioria esta data não passará certamente de mais uma a riscar no calendário dos dias sempre iguais que ainda faltam para as férias.O total é a soma das partes, da mesma forma que o Mundo é a soma de muitos mundinhos pequeninos. E neste meu pequeno mundo, hoje é um grande dia: uma filha, quatro netos e sete bisnetos depois, a minha avó completa hoje 94 Primaveras.Ah, grande coisa, dirão alguns, a minha avó teve dezoito filhos, quarenta e sete netos e cento e oito bisnetos, ficou viúva com vinte e sete anos e fez ontem cento e quatro.É uma grande coisa, sim.Para começar poucas avós carregarão a cruz de terem nascido sob a graça de Natércia Cândida. De entre todos os lindos nomes que lhe poderiam ter chamado, dos quais Maria seria certamente um deles, os meus bisavós escolheram este. Original, sem dúvida. Poético, certamente – Natércia é um anagrama de Caterina (a amada de Camões), nome que o meu bisavô Pinto não quis dar à única filha porque era foleiro (nunca percebi porque é que na minha família os avós eram um apelido apenas). Como todas as pessoas nascidas durante a Primeira Grande Guerra, a minha avó não teve uma vida fácil. Mas também não fez por a simplificar. Para além dos problemas conjunturais da época ainda teve de lidar com outra questão altamente incomum para aqueles tempos e que causou grandes atritos entre ela e os pais – os meus bisavós não eram casados. E só casaram mesmo antes de Natércia dar o nó com o seu marinheiro Artur, devido a pressões de tal ordem que fariam corar muitos ditadores. Aliás, a minha avó Natércia tem uma personalidade fortíssima. Tem sempre uma opinião formada sobre qualquer assunto, desde o TGV ao penteado novo da Odete Santos, passando pela roupa das amigas ou pela aprovação do casamento gay – que ela acha lindamente.Ao longo da sua vida, mesmo quando pediu conselhos sempre os ignorou sem pudor e só fez o que entendeu, quando e como lhe deu na real gana. De tal maneira que, nós costumávamos por graça comparar a sua conduta à dos seus famosos companheiros de aniversário, António de Oliveira Salazar e Saddam Hussein. Mas a senhora não achava muita piada e nós acabámos por deixar de lhe dar cabo do juízo.Um dos enormes desgostos que teve a minha avó foi o facto de só ter tido uma única filha. Se concebê-la foi uma complicação de sete longos anos, tê-la foi uma ainda pior, que quase terminou ali para as duas. Felizmente para nós, a minha mãe não sofria do mesmo problema e cá estamos os quatro, mais quatro, mais sete/oito para celebrar mais uma vez com ela esta data tão especial.Terá os seus defeitos, a Avó Natércia, todos temos os nossos, mas apesar de já estar um bocadinho surda, é a avó mais presente, atenta, carinhosa, preocupada, lúcida, generosa e rija do Mundo e a nossa vida sem ela seria com certeza muito diferente. Muito mais vazia.Parabéns Avó. Lá estaremos todos mais logo para te cobrir essa cara linda de beijinhos.

sexta-feira, abril 16, 2010

Calinadas

Para mim escrever e falar é mais ou menos como vestir-me – faço-o todos os dias e como acho que fica melhor, mas não sou muito amiga de regras.
Ainda assim esforço-me para fazer ambas as coisas com alguma correcção - dar erros a escrever ou a falar é semelhante a vestir mal: um jornalista que apareça na televisão com um casaco metalizado e uma gravata de cetim com aplicações cintilantes, para além de parecer o Herman José vai desviar a atenção do espectador daquilo que interessa mesmo, as notícias que está a dar. O mesmo se passa com as palavras. Se as dizemos ou escrevemos incorrectamente corremos o risco de o conteúdo se perder no meio da confusão.
Não sei se será porque se lê cada vez menos, segundo consta, ou porque o negócio da moda cada vez movimenta balúrdios maiores, mas a verdade é que a cada dia as pessoas se vestem melhor, mas falam pior. E, se acho lindamente que vistam bem, chateia-me muito que se fale mal.
Chateia-me, entre outros motivos, porque todos aprendemos em pequenos a ter respeito pelos velhos e a tratá-los bem, o que torna incompreensível a forma como se tem vindo a violentar de forma vil e impune a desgraçada da nossa velhinha língua – e já nem menciono aquela trampa daquele acordo ortográfico que nos quer fazer passar a escrever em brasilês. Se querem que passemos a escrever noutra língua, então que seja a do país que nos está a anexar: Espanha.
Falo aqui de outra formas de maus tratos sem lei que as regule, portanto, ninguém que as proíba:

(estes são apenas uns exemplozitos, sim? Sem ofensa nem presunção)

#1
A estrangeiração:
Consiste em substituir, por vezes sem critério que o justifique, algumas palavras de uma frase por outras em inglês ou inglesado, numa tentativa de dar uma aparência altamente técnica e especializada a um discurso banal ou que se quer propositadamente incompreensível.
Muito comum dentro das empresas, principalmente ao nível dos quadros médios e superiores viciados em gadgets e telemóveis topo de gama, que vão (ou não surpreendiam se fossem) para a praia de sapatos de vela com meias e portátil à tiracolo.

Por exemplo:
- Envia-me aí um meeting request para falarmos do benchmarking e depois broadcasta os resultados. Não te esqueças de fazer backup do portfolio.
- Vou googlar para ver se encontro um link que relacione a informação com os vossos inputs e depois dou-vos feedback.

#2
A baralhamentalização:
Consiste em atirar para o meio de um discurso que decorre com aparente normalidade, uma palavra que não tem nada a ver com nada, mas cuja sonoridade é semelhante à da palavra correcta.
É praticada no quotidiano por pessoas adultas com distracção crónica ou que gostavam de saber falar com palavras caras - mas não se ajeitam.

Por exemplo:
- Agora que já expus os meus argumentos, tirem vocês as vossas próprias inalações.
- Tenho aqui uma ideia que gostaria de vincular na comunicação social...

#3
A erroortografioralização:
Trata-se de ofender determinados vocábulos de forma sistemática e por vezes, consciente.
Verifica-se tanto na escrita como na oralidade, tanto em adultos como em crianças, tanto em pessoas instruídas como em analfabetos e parece que não há maneira de resolver o problema, já que persiste há bué.

Acontece em todo o lado, mesmo onde menos se espera e os exemplos são tantos que não há espaço para os listar.

Por exemplo.
- Ontro dia vi-te na rua.
- Há-dem ver como é!
- Vou c’a mulher ao cinema.
- Não hesiste ninguém como tu!


#4
A exageramentalização:
Esta tradição é mais oral, uma vez que ao escrever a pessoa está mais concentrada. Acontece geralmente quando se pretende enfatizar uma ideia ou conceito e não se presta atenção ao que se está a dizer.
Não escolhe cargo, instrução nem condição social, sendo um fenómeno género Trivial Pursuit – dos 7 aos 77.

- Na grande maior parte das vezes...
- Geralmente vou sempre à frente...
- Tenho uma amiga minha...
- Há duzentos anos atrás....

#5
A smsamentação:
Este é um fenómeno exclusivo da escrita e o que mais me perturba. Começou por grassar entre os jovens que por não terem dinheiro se tornaram fanáticos dos sms’s, mas posteriormente alargou-se às gerações com idade para terem juízo.
Consiste em substituir os “cês” por “kapas” “os” por “us” e suprimir do texto quase todas as vogais, todos os acentos e toda a pontuação. O resultado traduz-se num amontoado de letras que temos de ler alto para vagamente compreendermos o que significa.

Por exemplo:
- Mae posso jntr m csa d Joana
- Tou cm drs d brriga
- El dz k sim


A nossa língua é famosa no mundo inteiro por ser antiquíssima, rica, complexa, bela, musical e poética. Foi utilizada para escrever das mais belas obras literárias de sempre, para exprimir ideias de grandes pensadores, para cantar canções que se tornaram marcos da nossa história. Mas a malta de cá decidiu que não presta. E decidiu matá-la.
À pancada.

quinta-feira, abril 08, 2010

Há uns anitos largos - se a memória ainda não me atraiçoa, nos idos de oitenta e tal - um jornalista novinho e irreverente tinha uma coluna de sucesso num jornal semanário sério e conservador. A coluna, chamada “A Causa das Coisas” versava sobre a Portugalite: “ é uma inflamação nervosa que consiste em estar sempre a dizer mal de Portugal. É altamente contagiosa (transmite-se pela saliva) e até hoje não se descobriu cura.” O jornalista, era o Miguel Esteves Cardoso e o jornal que o publicava era o Expresso.
Nessa mesma época, este jardim à beirinha da praia juntava-se com estrépito e fulgor, a uma cena que não se percebia muito bem para que servia, mas da qual todos sabíamos o nome: CEE.
Preocupado com uma questão prática incontornável, a famosa complexidade da nossa língua, MEC escreveu uma crónica hilariante, onde tentava traduzir para inglês os nomes de algumas localidades lusas.
O tema, que até à data não teria ocupado nem dois segundos do meu tempo mental – até porque eu era práticamente uma criança – arrancou tais gargalhadas à minha mãe que eu nunca mais me esqueci.
Uns bons anos depois acabei por comprar o livro onde estavam compiladas todas as crónicas, talvez umas cem. E foi com verdadeiro prazer que li finalmente o célebre texto onde ele se preocupava, por exemplo com a forma como um natural de Chão – de- Meninos (Sintra) iria explicar a sua morada a um turista inglês.
Ora, aqui há umas semanas, surgiu numa conversa o tema da toponímia nacional. Entre gargalhadas sonoras e um tanto brejeiras discorremos sobre os nomes dos habitantes de terriolas como Punhete, Aliviada ou Rego do Azar – todos nomes reais. Falámos sobre o Joaquim da Quarta-Feira que é amigo de não sei quem. Rimos às gargalhadas com a ideia da pergunta “gostas de Lisboa?” quando feita a um habitante de Picha... enfim.
Então decidi fazer uma breve investigação internética para ver se descobria mais terras giras para a conversa. Encontrei verdadeiras pérolas e faço aqui homenagem às pessoas que lá vivem. Às vezes não deve ser fácil de explicar.
Imagine-se uma jovem de Angra do Heroísmo numa repartição pública. Quando perguntam – localidade - ela responde: Às Dez. Depois de grande discussão que se imagina: mas eu perguntei a localidade, e a moça a responder que nem uma mula: e eu respondi Às Dez! A funcionária vai pensar que ela ou é taralhoca da cabeça ou está a fazer pouco dela e manda-a gozar com a prima.
Num outro caso, um alentejano de Estremoz encontra o marido da irmã que é meretriz e pergunta-lhe de onde vem. O desgraçado responde com honestidade , da Venda da Porca. O cunhado ofende-se, diz-lhe que vá chamar porca à mãezinha e afinfa-lhe uma pêra que o deixa estendido.
Felizmente temos várias terras chamadas Paraíso, mas também há uma que dá pelo alegre nome de Purgatório e outra simpática, ao pé de Caminha, que se chama Pobreza. Nesta última imagine-se a alegria da criança que vive na miséria quando a mãe lhe explica que para sair da Pobreza só tem de ir apanhar a camioneta à do Ti Manel.
E depois temos outras pérolas que dispensam comentários: Bexiga, Cama Porca, Vale da Rata, Cemitério, Vergas, Vinha da Desgraça, Mal Lavado, Coxo, Endiabrada, Pés Escaldados, Máquina, Terça.... é um sem fim, uma ode à imaginação (aliás há um Imaginário, perto das Caldas).
Mas para mim, o topo de gama, o XPTO, o cúmulo dos cúmulos, é esta.


Bolas, pá!

quinta-feira, abril 01, 2010

Dia das Mentiras ou O mundo poderia ser um sitio muito melhor para viver!

Há várias explicações para a existência do Dia das Mentiras. A mais palusível diz que a brincadeira surgiu em França onde, desde o inicio do século XVI, se festejava o Ano Novo no dia 25 de Março, por coíncidir com a chegada da Primavera. As festas duravam uma semana e terminavam no dia 01 de Abril, data oficial de entrada no novo ano.
Depois da adopção do calendário gregoriano, decretou-se que o ano novo seria comemorado no primeiro de Janeiro. Alguns franceses não gramaram da mudança e continuaram a seguir o calendário antigo, festejando o Ano Novo a 1 de Abril. Grupos de gozadores passaram então a ridicularizá-los, a enviar presentes esquisitos e convites para festas que não existiam. A tradição evoluiu até ao que vemos hoje.

Eu acho uma anormalidade. Não faz sentido nenhum um dia das petas, ninguém acredita em nada do que lhe dizem, anda meio mundo a desconfiar da outra metade e as conversas tornam-se completamente repetitivas.
Por exemplo, no ano passado (ou há dois anos?), aproveitando o facto de o primo Tiago ir ficar em casa sozinho com a empregada, o Vasquinho pediu para lá ir passar o dia com ele. A meio do dia liga-me a cunhada ligeiramente enervada a dizer que tinha recebido um telefonema relatando que os príncipes estavam civilizadamente a jogar à pedrada no jardim – nada mais normal - quando um calhauzito mais atrevidote passou a vedação por cima e assentou mesmo no vidro da frente de um jipe que passava, partindo-o. Claro que eu não acreditei, óbvio. E foi o cabo dos trabalhos para ela me convencer: É tanga, dizia eu, não é nada, dizia ela, e eu dizia mas achas que sou parva? E ela respondia que sim, que achava, mas que era verdade na mesma. E eu dahhh e ela, é mesmo verdade, e a dona do carro está fula.
Aparentemente a conversa dela com a empregada deve ter sido semelhante, mas sem a parte do estás parva. Mesmo assim, no caminho para casa dela, acalentei secretamente o desejo de ter sido redondamente enganada.
Sem sorte.
Portanto, o dia das Mentiras podia acabar.
Útil, útil seria fazer aqui umas alteraçõezitas, que muito significariam para todas nós:
Facto: as mulheres são mais que os homens, pelo que é crucial que andem felizes ou a vida deles pode ser um inferno.
Facto: É absolutamente indiferente em que dia começa o ano. Desde que toda a gente saiba em que dia é, qualquer um é bom.
Sugestão: (vejam bem isto que é lindo!) Passava-se o Reveillon de novo para 01 de Abril, acabando-se com isto das petas e deixava-se o 01 de Janeiro livre para uma iniciativa muito mais importante: o Dia Internacional da Luta Contra a Celulite. Isso sim, seria uma iniciativa louvável. Em vez de perder tempo e gastar neurónios que tanta falta lhe faz com mentiras que toda a gente descobre em menos de nada, a Comunicação Social passaria a divulgar na mesma proporção dicas para o extermínio de celulites e todos os tipos de gorduras localizadas, mas com a devida antecedência relativamente ao Verão (daí o dia 01 de Janeiro). Mais, os conselhos dados seriam de aplicação imediata e milagrosa nas nossas ancas, nádegas e barrigas, mediante a mera verbalização de uma palavra passe que nesse dia chegava a cada mulher através de sms para o seu telemóvel. Se isto acontecesse, se num dia apenas todas as asneiras e exageros cometidos durante um ano desaparecessem milagrosamente para darem lugar a massa muscular firme e delgada, se não tivéssemos de nos mergulhar em cremes, loções, massagens, comprimidos e auto-bronzeadores durante metade do ano, tenho para mim que poderiam acabar com os dias da Mãe, da Mulher e dos aniversários de todas nós, que ninguém se ralava muito. E ainda podiam fazer uma ligação de TGV Luz-Alvalade, patrulhar a foz do Tejo com submarinos alemães ou oferecer bilhetes de avião no metro em hora de ponta que, poucas de nós se incomodariam. Só de imaginar a vida perfeita, a autoestima perfeita, o Verão perfeito...
Sim, o Mundo podia ser um sitio muito melhor para viver!

quinta-feira, março 18, 2010

O homem é um planeta estranho...

Conheço um rapaz que num dia normal, há uns tempos, foi pôr gasolina. Quando arrancou da bomba reparou na rapariga da caixa que lhe fazia sinalefas e acenos profusos. Não sei se estava ao telemóvel, aquela excrescência que tem no ouvido, mas é provável que sim, por isso ignorou a senhora e partiu a toda a brida, também provavelmente por estar atrasado para qualquer compromisso do qual dependia, se não a sobrevivência da espécie humana, pelo menos a dele próprio. No arranque sentiu alguma resistência do carro. Acelerou. A resistência continuava, por isso acelerou mais. Mais resistência e mais uma patada no acelerador e assim sucessivamente até que conseguiu arrancar. Parou uns metros à frente quando a dita rapariga da caixa se atravessou no caminho dele para o ajudar a tirar os restos da mangueira que ainda permaneciam dentro do depósito.

Uma certa sexta-feira, a mulher deste rapaz chegou a casa depois de um dia de trabalho especialmente cansativo e tinha os filhos prontos para sair, de mala aviada para dormirem fora. Ele confessou-lhe que tinha preparado um programa surpresa, de jantar romântico seguido de namoro raro e merecido. Jantaram num sitio chique, namoraram muito e foram dormir. Às cinco da madrugada ele acorda-a e diz-lhe ao ouvido: faz uma mala com roupa quentinha. Vamos para o Algarve. Felizes meteram-se no carro, mais a dormir que acordados, e ela – loira - nem reparou que seguiam para Norte. Só quando chegaram ao aeroporto é que ela percebeu que não iam para o Algarve, mas teve de esperar pelo check in para descobrir que o destino afinal era Londres.

Esta semana a sobrinha mais velha fez anos. Como é tradição, nos aniversários há sempre um jantar em casa dessa irmã dele. Este não foi excepção. De manhã a esposa zelosa alertou-o para o facto. Ele respondeu que sim. A meio do dia falaram e ela tornou a lembrá-lo de que o jantar era em Oeiras, em casa da irmã dele. Tornou a responder que sim. Às 20H ele ligou à mulher, estavam os quatro (mãe galinha e três pintos) a caminho, na autoestrada. Quando a filha lhe disse onde estavam ele perguntou: na autoestrada porquê? Foram visitar a bivó?


Esse mesmo rapaz, planeta estranho que é, costuma passar férias no Algarve com a família. Geralmente é a mulher que trata dos preparativos para a viagem – malas, comidas, material de praia, etc.
Um destes verões, à chegada ao local das férias, ele foi fazer umas comprinhas e, ao regressar, a mulher verificou que ele, cheio de iniciativa, tinha decidido adquirir uma embalagem de protector solar para as crianças. Ela observou que não era necessário, que tinha levado duas embalagens das grandes e que seria melhor ele devolvê-lo antes de se perder o dinheiro. Ele concordou e depositou a dita embalagem em cima do televisor, local onde permaneceu durante uma semana inteira até a mulher lhe chamar a atenção outra vez. Logo ali ele decidiu que era esse o momento e zarpou para a mercearia.
Regressou alguns minutos depois com o seu ar mais natural e perguntou à mulher: quem é o maior anormal que conheces? Ao que ela respondeu com toda a lógica: imagino que sejas tu, mas porquê? E ele mostra-lhe, retirando de trás das costas, um saco de compras. E lá dentro o creme. O mesmo creme. Ela, incrédula, tentava perceber o nexo daquilo até que ele explicou: pois ele tinha entrado no supermercado, agarrado num cesto, colocado lá dentro o creme, um pão de forma e um saquinho de pêras. No fim pagou tudo na caixa e saiu.

E é por estas e por outras do género que a mulher o adora. :-)

segunda-feira, março 08, 2010

Dia da Mulher - A verdadeira história

Era uma vez uma família paleolítica feliz.
O homem saía feliz de manhã para a caça enquanto a feliz mulher tratava da gruta com esmero. Ambos tinham barba e nenhum usava saltos altos.
Os filhos também não davam trabalho – raramente sobreviviam ao parto, e quando isso acontecia e conseguiam chegar a uma idade em que já poderiam gozar de alguma autonomia sem terem sido comidos por uma leoa, tinham tempo livre. Não havia escolas, por isso não havia más notas, nem reuniões de pais, nem bullying, nem birras por causa dos Vans, da PSP, do portátil ou do MP3.
Não havia natação, karaté, Hip Hop, francês, futebol nem patinagem, donde as crianças tinham disponibilidade total para brincarem sossegadas com os crocodilos da vizinhança.
Um belo dia, o homem constipou-se e ficou de cama. A mulher, para poder alimentar os filhos nesse dia, decidiu sair e tentar a sorte na caça. Não se safou porque não tinha musculos tão desenvolvidos como ele, mas usou a cabeça voltou com um belo par de robalos que deram um excelente petisco. Como ele continuava de estaleiro, com o nariz a pingar e a gemer por causa dos 37,2 de febre, ela tratou da gruta e dos meninos com o esmero de sempre.
Ora o rapaz, que era esperto, decidiu que o peixinho era bom mas ele não se ajeitava nessa arte, então seria ela a tratar do assunto uma vez por semana.
A moça, que não devia muito à sagacidade, concordou sem pedir nada em troca. E uma vez na semana lá ia ela à pesca, tratava dos meninos e da gruta, enquanto ele descansava da caça sentado à sombra de um pré-histórico chaparro.
As ampulhetas foram enchendo com a areia dos tempos mas as cabeças das mulheres só começaram a encher de esperteza mais tarde.
Assim, elas descobriram a forma de terem uma vida boa e sem complicações: como já não se caçava, elas pensaram que seria uma boa ideia dividirem tarefas. Eles ganhariam moedas e elas tratariam de comprar os mantimentos. Mas, espertas, convenceram-nos de que tinham sido eles a ter a ideia. Assim, eles saíam todos contentes de manhã para se matarem a arranjar as ditas moedas e elas iam calmamente com as amigas às compras, ao chá, ter com o amante, passear com as crianças. E voltaram a ser todos felizes – eles achavam que mandavam em casa, elas mandavam mesmo neles.
Eis senão quando apareceu uma gaja que queria mesmo era ser homem, mas não sabia que podia mudar. Vai daí, armou-se em revolucionária, e saiu por aí toda nua, montada num cavalo, depois de ter queimado a roupa interior, só porque decidiu que queria poder trabalhar com homens, em coisas de homens.
É evidente que as pessoas normais não lhe ligaram pevide, mas ali perto passavam umas senhoras muito femininas, bem postas na vida mas pouco inteligentes que acharam amoroso poderem ser professoras ou floristas. Então começaram a lutar por uma vida fora de casa, mas sempre impecavelmente arranjadas, penteadas, depiladas (deve ter sido ideia da revolucionária que queria andar sem roupa interior para massacrar as gajas), de saltos altos e luvas pelo cotovelo.
Ao inicio eles acharam uma modernice, não queriam esses avanços e fizeram-lhes a vida negra. Mas aos poucos compreenderam as maravilhas destas inovações e andavam cada vez mais satisfeitos: com outro salário o peso da responsabilidade de ter uma família a cargo era cada vez menor e o tempo livre cada vez maior. Por outro lado elas, acostumadas desde a gruta a terem de tomar conta de tudo, continuaram a fazê-lo. E bem.
De tão habituadas que e estavam ao cansaço deles, nem notaram que andavam elas cada vez mais de rastos, até a situação se tornar insustentável. Finalmente reconheceram que precisavam de ajuda e foram falar com os homens.
Foi quando inventaram a empregada doméstica.
Mas nem toda a gente podia pagar uma empregada, por isso a maior parte das mulheres continuava a esfalfar-se a trabalhar fora de casa e depois, dentro. Enquanto isso, os homens faziam cada vez menos e abusavam cada vez mais da paciência delas. De tal maneira que, a dada altura descobriram o televisor e aprenderam uma nova actividade que podiam desenvolver sentados no sofá, mas na qual tinham de utilizar ambas as mãos, o que era excelente para parecerem ocupados. A actividade chamava-se “comandates” – uma mão no comando e a outra nos ... bolsos.

Um belo dia 08 de Março, Lorena, uma bela morena, chegou do serviço mais cansada que o normal. Pela milésima vez, ao entrar em casa deu de caras com David, o marido bêbado, enrolado com a vizinha do sexto.
Cansada de tanta afronta, com a fúria a transbordar por ela fora, foi à cozinha, pegou na primeira faca que encontrou, voltou à sala e com um golpe apenas, tirou as manias ao marido infiel.
Em pânico, ele pegou naquilo e correu para o hospital onde conseguiu que lhe voltassem a implantar o dito, mesmo que com um resultado bastante acanhado.
Ao saberem do sucedido, as vizinhas agarraram numa grande pedra branca e esculpiram uma estátua de um homem enorme e muito bem constituído mas com um sexo muito pequenino, que colocaram lá na vila, no largo da igreja para que nunca mais nenhum homem se lembrasse de faltar ao respeito à sua mulher.
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