quarta-feira, março 28, 2007

It takes only two minutes and a lighter

Ele entrou na esplanada e sentou-se numa mesa. Pousou o jornal, acendeu um cigarro e esperou para ser atendido. Olhou à volta distraído. A esplanada encontrava-se bastante cheia – um velho de chapéu a ler um livro, uma família submersa em refrigerantes e gelados, uma miúda de óculos a estudar e, numa mesa próxima, um casal que lhe chamou a atenção. A mulher, de frente para ele, escutava com interesse o homem, de costas, que falava animadamente..
Observou-a. De onde estava conseguia vê-la bem. Era uma bela mulher – trinta e poucos, cabelos longos com reflexos de sol ensonado, blusa preta bem fornecida, calças de ganga, sapatos de salto. Elegante.
Viu que ela tinha reparado nele e fingiu-se muito atento ao jornal pousado à sua frente. Olhou de novo, disposto a iniciar um qualquer jogo barato de sedução infantil. Ela ignorou-o, concentrando-se de novo na conversa com o companheiro. A empregada aproximou-se e ele pediu uma caipirinha. Quando voltou a procurar com o olhar a mulher da mesa em frente, reparou com espanto que ela se aproximava.
Chegou perto dele, parou e curvou-se para a frente (mais, bastante mais do que o necessário), de forma que a blusa leve, de cetim, se afastou do seu corpo, deixando antever a curva do seio e um pedaço de soutien negro. Descontraída, perguntou-lhe:
- Tem lume?
Ele não conseguiu evitar e olhou. Olhou descaradamente. Ela não esboçou nem um gesto para se compôr, apenas segurou o cabelo comprido com uma das mãos, enquanto com a outra prendia um cigarro nos lábios sensuais.
Desconcertado por ter sido tão óbvio, começou a apalpar-se à procura do isqueiro. Bolso da frente da esquerda, bolso da frente da direita, bolso de trás da esquerda...ela pareceu levemente aborrecida e olhou em volta provavelmente em busca de algum outro fumador. Ele comentou:
- Ainda agora acendi um cigarro, o isqueiro tem de andar por aqui algures...
Ela voltou-se de novo para ele e sorriu, trocista, do nervoso que ele não conseguia disfarçar – e que aumentava a cada segundo pelo facto de ela ter consciência disso mesmo. Olhou para o peito dele, ao qual a camisa branca começava a colar-se (aperceber-se disso provocou-lhe uma descarga de adrenalina que só piorou o seu estado) e sorriu de novo, apontando com o queixo na direcção do bolso.
Ele levou a mão ao local indicado por ela e retirou o isqueiro que aproximou do cigarro dela. Mas tinha as mãos tão transpiradas e trémulas, que não conseguiu acendê-lo.
Ela avançou a mão como que a pedir para deixá-la tentar. Não tirou os olhos dos dele, uns olhos verdes, transparentes, brilhantes, intensos. Ele deixou-a retirar o isqueiro, ela roçou ao de leve, a mão na dele. O toque da pele fresca e macia dela na extremidade húmida e transtornada dele causou-lhe o efeito de um choque eléctrico que começou na base da cabeça percorreu-lhe o corpo até aos calcanhares, deixando-o excitado como um adolescente.
Ela reparou e deu-lho a entender com um breve sorriso dos olhos verdes, enquanto acendia o cigarro. Inspirou com força certificando-se de que estava bem aceso e avançou a mão de novo para lhe devolver o isqueiro, mas antes de ele conseguir segurá-lo, ela deixou-o cair no chão.
Imediatamente ele saltou da cadeira e acocorou-se para o apanhar. Ela só reagiu um terço de segundo mais tarde, o suficiente para que quando se curvou na descida ele já viesse na subida. No encontro a cara dele tocou apenas ao de leve na blusa preta de cetim que lhe cobria os seios atrevidos, um ligeiríssimo roçagar da epiderme em brasa dele no cetim fresco e ondulante da blusa dela. E, naquela fracção de tempo em que se encararam, paralisados, uma golfada de perfume, calor e excitação atingiu-o como uma bofetada; toldou-lhe a razão, embruteceu-lhe os sentidos e deixou-o completamente louco.
Ela agradeceu com uma discreta inclinação da cabeça loira e voltou-se lentamente para regressar ao seu lugar.
Ele continuava extasiado, ainda sem ser capaz de compreender o que tinha acontecido ali, e ficou, ébrio de feromonas, a vê-la afastar-se, o movimento ondulante e perfeito das ancas de alguém que tem perfeita consciência de estar a ser observada.
E foi quando ele reparou no reflexo.
Do bolso de trás das calças de ganga justas e bamboleantes, espreitava desconcertante um isqueiro prateado.

terça-feira, março 27, 2007

O segredo de um casamento longo e feliz...é preciso dizer?

Há por essa internet fora um sem número de textos, mais ou menos engraçados, mais ou menos inteligentes, que definem o casamento como o fim da vida sexual dos casais. Não podia estar menos de acordo. Assim parece, de facto. Mas nem tudo o que luz é ouro...

Há aqui duas coisas que gostaria de deixar claras desde já:
1 - ninguém casa para ter sexo
2 - o ser humano preza a estabilidade acima de tudo.

Há um monte de coisas que se alteram com o casamento, nomeadamente o local onde o sexo é praticado. Se na adolescência qualquer sítio serve, desde o hall do prédio de casa da avó, ao automóvel embaciado na estrada do Guincho, depois de dar o nó há uma tendência mórbida para o praticar sempre e invariavelmente na cama. Claro que há um monte de desculpas que podemos dar, os filhos, a interna, os vizinhos, blá, blá, blá, mas isso não muda nada.
Este facto, por si só, não teria grande interesse, dado que há uma infinidade de actos altamente estimulantes, susceptíveis de serem praticados no leito conjugal, mas se lhe juntarmos a hora, então está tudo estragado. Com o casamento, o sexo passa a ser praticado na cama, à hora de ir para a cama.
Isto sim, é devastador para a relação. Para começar e se acontecer torna tudo insuportávelmente previsível. Cama igual a sexo 3 vezes por semana, às 23 horas, ele por cima, ela por baixo, devagarinho, baixinho, poucochinho. Olha os meninos, olha a mãezinha, olha a porteira, já está?
Portanto, aparentemente aqui passaria a ficha tecnica da relação, os créditos finais. Mas, na realidade, pode ser apenas o começo.
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É certo e sabido que as pessoas casam cada vez mais tarde. Isso também não teria grande interesse, não fora o problema da conservação. Há uns anos, ao juntar o seu destino ao de outra pessoa, a maior parte das mulheres era muito jovem e pretendia apenas constituir uma família e viver feliz para sempre. As alterações no corpo por consequência de gravidezes e os efeitos do envelhecimento vinham no pacote, e isso incomodava pouco, poucas mulheres e poucos homens.
Mas tudo mudou, e agora, as mulheres já compreenderam que o casamento não é garantia nenhuma de nada, e que a sociedade tende a valorizar cada vez mais o aspecto fisico, por isso têm aprendido a acautelar-se. Enquanto assistimos passivamente à engorda dos nossos homens, pouco vaidosos e muito latinos, sem nos importarmos, eles, à medida que envelhecem só querem bola, amigos, uma mulher que não cheteie e babarem-se para cima de umas bombocas (boneca de aspecto plastificado constituída por chocolate por fora e espuma por dentro).
A mulher de bigode que casava para garantir o futuro e não se separava por não poder, morreu. A abertura das mentalidades tornou naturais as relações entre pessoas mais velhas e outras mais novas, entre pessoas do mesmo sexo, entre pessoas casadas, divorciadas, etc. E isto, veio alterar verdadeiramente o estado de coisas. Hoje, ao casar, ninguém está a garantir o seu futuro, está a hipotecá-lo. E paga uma prestação pesada e diária em rugas, flacidez e cabelos brancos, às vezes para chegar a uma certa altura e perder tudo na mesma. Tudo em nome de uma certa estabilidade que não nos habituamos a não ter.
Então, as mulheres aprenderam a prevenir-se, garantindo que teriam um casamento longo e feliz, sem juros.
E isto, que aqui descrevo, é a imagem perfeita e acabada de um casamento de sucesso.

Marido e mulher desligam a televisão, dobram as mantinhas, calçam os chinelos e levantam-se do sofá para irem deitar-se.
Ele: chega ao quarto, despe-se, atira a roupa para cima da cadeira, veste o pijaminha, lava os dentes e deita-se.
- Boa noite, querida.
E adormece.
Ela: chega ao quarto, despe-se na casa de banho, separa a roupa para lavar e dobra a restante, prende o cabelo, lava a cara, seca-a, retira os restos de maquilhagem com desmaquilhante, passa novamente água na cara, seca-a, espalha o tónico, coloca o contorno de olhos, lava os dentes, toma as vitaminas do cabelo, as de beta-caroteno e a pílula, bochecha com o elixir e coloca o creme de rosto. Espalha o da celulite nas coxas e ventre, fricciona bem por 5 minutos, passa o creme refirmante de seios e aguarda também que absorva. Veste o pijama. Sai da casa de banho, põe no cesto a roupa para lavar e a restante arruma no roupeiro. Volta à casa de banho onde sentada, coloca creme hidratante nos pés e calça uma espécie de meias. Finalmente, passa o creme hidratante nas mãos e ainda a massaja-las dirige-se para a cama.
Obviamente, nesta altura o marido já vai no segundo sono.

Portanto, assim é, de facto. O casamento parece acabar com a vida sexual do casal. Mas na realidade, em muitos casos é responsável pelo seu início, de facto. Tanto um como outro, deixaram de ver o casamento como uma hipoteca, mas como uma parceria; dois amigos que unem esforços para obter um futuro risonho e estável. Eles, são unânimes em concordar que uma aliança no dedo é como iman para as bombocas desta vida, sucesso garantido. Sentem-se uns garanhões, andam felizes e contentes e chegam a casa apenas a pensar em comida e sofá. Não fazem perguntas, nem se questionam.
Elas, tratam-se bem, andam frescas e sorridentes, e principalmente fazem tudo para não hostilizar o marido. Como são organizadas lavam, passam, arrumam, cozinham, transportam e ainda têm tempo para sair. Não fazem perguntas porque não gostam de mentiras.
E assim mantém-se incólumes para os solteiros fresquinhos que as acham lindas e experientes, não lhes dão trabalho e não estão lá à hora de deitar...
É assim que se vive na maior paz e harmonia, com sexo variado e toneladas da almejada estabilidade.
Resumindo e concluíndo: o segredo de um casamento longo e feliz...
É preciso dizer?

segunda-feira, março 26, 2007

Tento ver se percebo onde é que o fim começou...

Tudo corria bem. Éramos felizes como poucos, havia química entre nós. Casámos, tivemos filhos...Alto! É capaz de ter sido aqui.
Os filhos. Só quem não os tem é que acha que um filho pode salvar um casamento. Pelo contrário, não os ter também não ajuda em situação de crise, pela ausência de compromisso. Quero com isto dizer que os filhos, apesar de, na maior parte dos casos, não contribuírem para uma melhoria da relação do casal, contribuem para um projecto de vida, uma aposta que se faz e que nunca se quer perder. Não há quem aprecie um falhanço. O que acontece é que os filhos desviam a atenção dos pais de si próprios. Há uma certa tendência para desvalorizar os problemas quando dar-lhes importância pode significar arranjar problemas mais complexos ainda - como uma separação - e as questões práticas e logísticas que se arrastam com ela. Então os problemas crescem, avolumam-se, não são resolvidos, são ignorados, desviados para compromissos sociais, programas com amigos, com filhos, com amigos dos filhos. Os casais deixam de se olhar, e depois deixam de saber como voltar a fazê-lo.

Bem, mas dizia eu, casámos, tivemos filhos, crescemos profissionalmente ... Calma! Se calhar foi aqui!
Falta de tempo livre. Quando duas pessoas passam o dia inteiro a trabalhar chegam ao fim do dia inevitavelmente cansadas e com pouca paciência, qualquer pergunta trivial pode originar uma resposta agressiva e não raras vezes daí nasce uma monumental discussão. Frequentemente os pais tentam poupar as crianças a esses filmes, pelo que optam por calar, deixar para depois. E isso é o nó na mangueira – vai inchando, inchando, inchando, até que rebenta. E aí, tudo o que a rodeia fica inundado e irremediavelmete estragado, incluíndo a própria mangueira. Mas a falta de tempo até poderia ser compensada de muitas formas, mas há sempre um elemento do casal que não tem pachorra. É assim em todo o lado, com toda a gente. Há sempre uma pessoa que vive virada para fora enquanto a outra se vira cada vez mais para dentro. O homem,vulgarmente mais disperso e infantil (sem depreciar) muitas vezes tem necessidade de abstrair das responsabilidades do quotidiano, da casa, do trabalho, dos filhos, das contas. Frequentemente acusa a mulher de ser demasiado séria (muitas vezes é verdade) e responsável. Tem de sair, de se divertir, de espairecer, e com isso, deixa cada vez menos tempo livre para regar as flores todas do seu jardim, deitando água em apenas algumas. Mas antes de murcharem de vez, as flores ainda lutam por umas gotinhas, empurram-se, atacam-se. Mas a água não chega mesmo para todas, por isso algumas acabam fatalmente por morrer. E marido e mulher passam a viver no pior de todos os cenários, como dois estranhos que por um acaso partilham o mesmo espaço.

Mas continuando, casámos, tivemos filhos, crescemos profissionalmente, construímos uma vida em comum....Pára, pára, pára! Acho que é isto, foi aqui!
Quando duas pessoas se juntam para começar uma vida há certas coisas que mais ou menos explícitamente, ficam acordadas. Uma delas é, qual dos elementos do casal vai investir na carreira. Frequentemente é o homem que o faz, ficando para a mulher a gestão do quotidiano da casa, dos filhos e da sua própria vida profissional. Como todas as obras complexas de engenharia civil, o desiquilibrio tem de ser uma ilusão. Se for real, o edificio mais tarde ou mais cedo, acaba por ruir. Ora, quando um dos elementos do casal, em nome do sucesso futuro, de uma carreira fulgurante ou de dinheiro ao final do mês, começa a viver exclusivamente de e para o seu trabalho, estamos perante um prédio no qual se constroem as paredes antes das fundações.
Deixa de haver diálogo, companheirismo, uma simples noite passada a ver um filme. A química, a amizade, o sexo, tudo isso tem de ser alimentado. É a tal coisa dos olhos que não vêem, coração que não sente. Mas, para agravar a situação, há um momento de tomada de consciência por parte do elemento do casal que trabalha menos fora, em que tudo é posto em causa. Esse elemento, vulgarmente a mulher, perante o desmoronar eminente do casamento entra em stress. Afinal, para que o marido possa investir todo o seu tempo no trabalho, tudo o resto é assegurado por ela: desde os transportes das crianças às refeições, passando pelos presentes para levarem às festas dos amigos até à indumentária para a festa do final de ano. Mas no caso de se separarem o que é que ela tem? Nada. De facto e na realidade, ela não tem nada. Tem um empregozeco mal pago, muitas vezes nem isso. Toma consciência de que não construíram uma vida deles, mas uma vida dele e dos filhos, na qual ela fez o papel da governanta. Ao entrar em stress a mulher fica muitas vezes amargurada, azeda, agressiva, o que precipita o fim. E aí, todos os seus receios se confirmam: a governanta acaba despedida, muitas vezes trocada por uma mulher a dias menos competente mas mais fresca, os filhos afastam-se porque não têm pachorra para uma mãe infeliz e rezingona, a família toma partido do desgraçado que trabalha tanto e ainda tem de aturar a chata...e ela compreende que esta coisa de construírem uma vida em comum é uma grande treta. O que se constrói é a vida de um deles, apoiada na do outro – que nunca lhe dá o valor que ela merece.

Mas, dizia eu, casámos, tivemos filhos, crescemos profissionalmente, construímos uma vida a dois. Tal como começamos a morrer no dia em que nascemos, mas o fim anunciado não nos impede de nos alimentarmos, também uma relação começa a acabar no dia em que se inicia, o que não significa que se fique logo ali, desnutrida.
Tudo isto pode dar o mote para destruir um casamento, é verdade, mas todos sabemos que problemas existem. Todos sabemos que não há mares de rosas, e mesmo que houvesse está na nossa natureza achá-los aborrecidos. E isso faz-nos evoluir.
De todos os animais o homem é único que sente insatisfação. Há que fazer dessa inimiga aliada, e em vez de a deixarmos vencer-nos, crescer com ela, melhorar com ela e aprender com ela.
Somos lutadores por definição, não baixamos os braços perante as ameaças e na maioria dos casos não gostamos de perder. Lutamos, lutamos, lutamos até ao fim.
Por isso, acho que sei afinal que o nosso casamento começou a morrer no dia em que nos casámos, só não sabia que seria tão dificil enterrá-lo.

sexta-feira, março 23, 2007

Água mentirosa

É uma daquelas pessoas que apregoa ser uma torneira aberta, de água clara e transparente, que corre sempre a direito na direcção do ralo. Aí dá uma volta, duas, e depois continua o caminho que programou, cristalina e verdadeira. Uma água tão abundante e disponível que te diz – anda, bebe-me – e tu acreditas que cumprirá com a promessa implícita: a de matar a tua sede. Desconfortável, hesitante, sem copo à mão, seguras nos cabelos e debruças-te. Lanças-lhe a boca para beber um pouco. Só que, assim que te sente no seu caminho, escorrega, esquiva-se, envolve-te, passa-te por cima, pelo lado. Por momentos pensas que sim, que bebeste água verdadeira, que saciou a tua sede, mas que ao mesmo tempo fizeste a tua parte: ajudaste-a a compreender o seu caminho - que não é necessária ou somente o esgoto, que não tem de andar sempre em frente, que nos percursos também há curvas e obstáculos. Há poucas coisas tão belas como observar um curso de água - salta, ressalta, faz espuma, revolta-se, acalma e recomeça. Mas no seu percurso, alimenta faunas, floras, populações. E, mesmo que altere o seu trajecto, que se atrase, que se desvie, não deixa nunca de ser o que é.
Mas ao largares a torneira desta água mentirosa, quando procuras a saciedade e não a encontras, olhas o espelho e constatas que apenas estás molhada. Só isso. Apenas um orvalho à volta dos lábios, um pingo na bochecha, outro na orelha, gotículas que rápidamente secas com as costas da mão, com a manga da camisola. E a tua boca está ainda mais seca do que antes, e tu, sem saberes porquê, continuas com sede. E por muito que te digam que o chá também serve, tu respondes sempre – quero água. A água é que mata a sede. E tornas a abrir a torneira na esperança de que desta vez, a promessa de água que sai, seja verdadeira e vá direitinha à tua garganta sequiosa.

quarta-feira, março 21, 2007

Dia do Pai

Ela, sete aninhos, acabadinha de aprender as maravilhas da escrita.
Postal de dia do Pai:

"Querido Pai,
Tu és muito amável e fazes boas sopas, mas devias pôr um pouco mais de sal e não te enganares nos ingredientes."

terça-feira, janeiro 23, 2007

Episódio II

A cena da janela tinha sido verdadeiramente memorável. Uma peixeirada triste com a consequência inevitável de um corte de relações entre ela e a vizinha. E entre ela e o marido, também.
Depois de se confrontar com a asneira que a mulher tinha acabado de fazer, à chegada à varanda, Pedro desatou numa gritaria louca, onde descontrolada, desiquilibrada e irresponsável foram os epítetos mais suaves que lhe dirigiu.
E por muito que Cristina clamasse que tinha sido um acidente, nada o amansou. Entretanto a vizinha irrompeu-lhes pelo jardim para se juntar ao festival de agressões, o que foi mais dramático ainda. A senhora, dos seus 70 anos, vivia sozinha e tinha sido acordada pelo rebentamento do vidro. E estava muito perturbada. Apresentou-se então com a gadelha cinzenta em riste e o punho eriçado a sair de um roupão quase desfeito, certamente a reviver os gloriosos tempos de luta estudantil. Tinha resolvido, a senhora, beber uns goles de “qualquer coisa que lhe acalmasse os nervos” antes de ir pedir satisfações. Ora, eram nove horas da manhã, a vizinha estaria certamente em jejum de uma noite. O corpo, carente e desidratado, reagiu mal e a senhora trazia, portanto, uma valente bebedeira.
Cristina, por sua vez, encontrava-se muito nervosa. Começara por se atrasar imenso para o o encontro com as amigas, mas se fosse só isso, tudo bem. Só que depois a fúria por o marido não acudir ao filho que chorava, a queda na varanda, o vidro partido, a discussão com Pedro e, finalmente, uma velha bêbeda entrar-lhe pela casa dentro a insultá-la, foram impulsos eléctricos a mais. Assim que a vizinha começou a desbobinar os impropérios que o alcool não censurou, Cristina teve um ataque de riso tão violento, convulsivo e hormonal, que acabou num inevitável ataque de choro igualmente abrupto, espasmódico e descontrolado.
Pior. O marido que já antes considerava que ela precisava de um internamento urgente, tomou partido da velhota alcoolizada e o nível da conversa afundou-se de vez.
No início, depois de acalmar a risota, Cristina deitou água na fervura, tentou alertar o marido para o facto de a esposa ser ela, por isso ser mais lógico que ele ficasse do seu lado, que estavam ali os filhos e tal. Tentou chamar a senhora à razão, explicou-lhe que fazia melhor em tomar um chá e meter-se na cama, que naquelas condições não fazia ali nada de útil.
Estava a ser-lhe difícil manter o controlo, até porque Cristina tinha um incomodativo mau feitio que não precisava de muito rastilho para explodir. Mas ao ver que nada surtia efeito sobre os seus adversários, cessou de lutar contra si mesma e deixou-se ir. E aí é que foram elas.
De tal maneira foi a triste cena que acabou com uma Cristina lavada em lágrimas acocorada no meio da relva, enquanto o marido controlado levava uma vizinha apopléctica e alcoolizada em braços, de regresso a casa.
Quando voltou à sua, Pedro regozijou-se por aquilo não ter acontecido em sua casa, estava feliz por tê-la intacta e bem estimada.
Com um desejo tão forte de sentir outra vez que estava tudo normal, Pedro não reparou que estilhaços era o que mais havia à sua volta. Pedaços, fragmentos, havia-os por todo o lado. Os do seu casamento.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

É um homem do Norte...

Sentadinhos à mesa de um restaurante, os três petizes e sua mãezinha.
Petiza espertinha de 7 anos:
- Ò mãããeee, a Verinha está a tirar grões de arroz do meu prato!
Mãezinha paciente:
- Deixa-a lá, se já tivesses acabado de comer ela não estava a mexer no teu prato. E não é grões, é grãos que se diz. E quando se fala de arroz até acho mais correcto dizer bago, grão é assim mais redondinho..(nem sei se isto é assim, mas pareceu-me bem, na altura).
Petiza espertinha de 7 anos:
- Desculpa lá Mãe, mas nem é bago, é baga que se diz!

Neste momento, o petiz do meio, aluado, despassarado, etéreo, considerou pertinente envolver-se na conversa:
Petiz aluado de 5 anos:
- Eu sei o que é uma baga...
Mãezinha paciente, já de sorriso a tremelicar no canto da boca, imaginando o que se seguiria:
- Então, diz lá o que é.
Petiz aluado de 5 anos:
- É quando há muita gente para entrar num sitio mas os lugares não chegam para todos.

É ou não é um homem do norte?

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Episódio I

Já estava atrasada e corria de um lado para o outro. Enquanto enfiava coisas na mala ia entoando uma ladaínha sem interlocutor: pijama, creme de dia, desmaquilhante, se calhar levo o creme de noite também, e o de corpo, pode apetecer-me depois do banho...secador, escova de cabelo, de dentes, de sobrancelhas..não esta não é preciso. Calças de ganga. Não, de algodão. De algodão, são mais cómodas que as de ganga e no carro faz diferença. É melhor levar mais umas, nunca se sabe...
De repente Cristina parou o que estava a fazer para se colocar à escuta. Primeiro incerta, mas depois absolutamente segura do que tinha ouvido - um dos filhos chorava no jardim. Aguentou alguns segundos, a ver se o marido socorria a criança, mas como não observava movimentações nesse sentido decidiu ir ela própria ver o que se passava.
Nervosa por estar cada vez mais atrasada, Cristina resolveu sair para o jardim pelo janelão da sala. Exasperou-se ao ver um monte de almofadas à volta de um monte de bonecos, mesmo em frente à passagem. A praguejar um pouco mais alto do que devia, levantou a perna direita para passar por cima do obstáculo e saltar directamente para a varanda, mas desiquilibrou-se e acabou por aterrar com força mas sem firmeza. Imediatamente sentiu o pé fugir-lhe. Para não se espalhar em esparregata agarrou-se ao cortinado e, com um puxão, saltou para a frente, numa tentativa desesperada de juntar o pé esquerdo ao outro. Não mediu a força de impulso e viu-se práticamente a voar janela fora, para finalmente se estatelar no chão ao lado da criança que agora ria a bandeiras despregadas.
Atordoada, sentou-se e olhou à volta em busca do culpado. Depressa os seus olhos, ainda ofuscados pelo brilho do sol da manhã, encontraram o que procuravam: encostado à parede, encarando-a como que a desafiá-la, estava um patim. Um patim, porra! Pequeno, azul e prateado, novinho em folha.
Louca de fúria, Cristina levantou-se, agarrou no aparelho assassino e juntando todas as suas forças, atirou-o tão longe quanto conseguiu. Arrependeu-se tarde demais. Um baque seco, a explosão, um segundo... e o grito estridente de uma mulher. Os seus receios estavam confirmados.
Pedro aproximou-se, de passo lento e mãos nos bolsos, do local onde Cristina e o filho mais velho se encontravam estarrecidos a olhar para a frente.
Para uma janela de um apartamento no prédio em frente.
- O que é que se passa aqu...? – as palavras de Pedro congelaram, tal como tudo o resto, aliás, quando foi atingido pelo que tinha acontecido. Dava a ideia de ter passado um anjo anestesista que tinha salpicado aquelas três almas com pózinhos mágicos de parar o tempo. Dois adultos e uma criança, absolutamente estáticos apoiados no rebordo de uma varanda, de olhos e bocas escancarados, a tentar compreender a dimensão dos estragos.
No prédio da frente, a janela trucidada continuava lá, não desaparecia como se não quisesse fazer a vontade de Cristina de que tudo fosse apenas um pesadelo.
Pouco depois o feitiço quebrou-se e, do interior da moribunda janela, surgiu uma cabeça de mulher, desgrenhada, surpreendida e furiosa, que lançava dardos em chama pelas pálpebras intumescidas de quem acabou de ser acordada.(continua)

quinta-feira, novembro 30, 2006

Crianças... (parte II)

Ela, sete anos. Dentro do carro, entre dois suspiros:
- Ai mãe, hoje estou tão desconsolada...
- Estás filha? E porque é que estás desconsolada?
(silêncio)

- Mãe, o que é desconsolada?

segunda-feira, novembro 27, 2006

Crianças...

Ele, cinco anos , deitado na cama, quase a dormir:
- Ó mãããe, como é que se aprende?
- A ouvir com muita atenção e a treinar muito.
- E como é que eles metem fechaduras nas portas?
- Então, com parafusos, puxadores e uma máquina de fazer buracos, como a do pai.
- E como é que as adultas engravidam?
- Ora, só quando são muito crescidos, quando já são marido e mulher, os adultos dão muitos beijinhos e depois vai uma sementinha para a barriga da mulher.
- De que cor?
- Não sei, deve ser transparente, é muito pequenina.
- E depois como é que crescem os braços e as pernas aos bebés?
- Crescem, à medida que o tempo passa, e depois o bebé nasce já todo completo.
- E como é que ele toma banho dentro da barriga? A mãe bebe o champô?
- ...

sexta-feira, novembro 24, 2006

Direito de resposta

"o homem (propositadamente com letra minúscula) é vítima e agente, ao mesmo tempo, de um sistema social ocidental milenar".

Hã, hã. Sim, sim. Pois.

Amigo Bud (wiser considero inadequado),
Em relação a isto tenho a dizer duas coisas:
Uma - Vítima é a pessoa perseguida, injustiçada, sacrificada, desgraçada, ludibriada por ou ao serviço dos interesses de alguém. Se o homem é vítima de alguma coisa, é apenas de si próprio. A maioria dos homens são uns bananas (excepção feita a meia dúzia de casos), indolentes, moles, passivos e desinteressados. Pior e maior erro, substimam-nos constantemente.
A outra é - Homens, se as vossas mulheres são insuportáveis e vos dão cabo do juizo, a culpa é certamente vossa.

E tenho dito!

terça-feira, novembro 07, 2006

Nós NÃO SOMOS CHATAS!

São umas chuvosas quatro da tarde de um Domingo qualquer. Já que vão ficar por casa, Cristina decide fazer umas limpezas. Pedro não está interessado no programa. A Formula 1 está a começar, é o Grande Prémio de despedida do Schumacher, as arrumações que esperem.
Pois sim, mas não pode ser. A casa está um nojo, não é limpa desde que a Rosa foi para a terra, há uma semana. E não é todos os Domingos que se apanham os dois sem crianças numa tarde horrível, perfeita para essas tarefas. Não tarda estão os três de volta e depois é que ninguém consegue fazer nada.
Cristina decide começar na mesma. Arranca desenfreada e areja a casa, faz as camas, pendura as toalhas de rosto no toalheiro, as de banho no aquecedor. Sacode os tapetes, bate as almofadas, apanha a roupa para lavar, dobra a que está apenas desarrumada. Recolhe alguns brinquedos, limpa o pó aos quartos e lava as casas de banho. Terminada a zona de dormir, Cristina dirige-se à cozinha, furiosa com a visão do marido impassível esparramado pelo sofá.
De repente a loiça que sai da máquina parece ter a mesma opinião que ela, pratos batem uns contra os outros a caminho do armário, copos chocalham contra os que já estão arrumados,
talheres parecem saltar para dentro da gaveta, mas de vez em quando desiquilibram-se e espalham-se no chão com estardalhaço.
- Cristina, o que é que estás a fazer? – pergunta Pedro sem mexer nem uma pestana.
- Nada – responde ela - O que é que achas?
- Senta-te aqui um bocado.
- Oh sim, claro. E isto faz-se sozinho. Se me ajudasses eu depois até me sentava, mas agora não posso.
Pedro distrai-se com um percalço do seu piloto favorito. Um furo, parece.
Cristina continua nas suas limpezas. Agora aspira. Aspira tudo, primeiro a cozinha, o corredor e depois a sala. Estranho, há ali qualquer coisa agarrada ao chão, mesmo em frente do televisor, que parece não sair. Cristina insiste, insiste, aspira, aspira, até que o marido perde a cabeça.
- Desculpa lá, mas tens que vir fazer isso agora?
- E queres que eu faça quando, quando os miúdos chegarem?
- Mas não aspiraste já o suficiente?
- Não. Se limpo é para ficar bem limpo.
- Deixa estar. Eu já faço isso. Senta-te aqui e já acabamos isso os dois.
- Pensas que eu não te conheço? Se depender de ti vivemos num chiqueiro, no meio do esterco absoluto. E para além de não ser higiénico, não foi assim que eu fui educada e é um mau exemplo para os miúdos. Mas deixa-te estar. Eu faço. Eu faço tudo. Longe de mim perturbar o senhor barão. Deixe-me só recordar sua alteza porque é que eu me recuso a despedir a Rosa. Aqui está um bom exemplo do que seria se eu a mandasse embora. Eu é que não ando a dormir, meu amigo. Já bem basta ter de aturar isto quando ela vai de férias.
- Porra que é chata, caraças. Diz lá então o que é que queres que eu faça.
Pedro levanta-se e desliga o televisor.
- Eu não quero que tu faças nada, não percebeste ainda? Se tu quiseres fazes, se não vai-te lixar.
- Diz lá, eu quero fazer. Estou ansioso!
- Há roupa para estender e roupa estendida para dobrar e passar a ferro. É preciso meter a loiça na máquina, lavar o chão da cozinha e a casa de banho da entrada. Mais nada, o resto já eu fiz.
Cristina senta-se no sofá anteriormente ocupado pelo real traseiro do marido. Pega numa revista e recosta-se. Pedro avança para o estendal e começa a dobrar a roupa toda. Cristina levanta-se imediatamente e vai beber um copo de água.
- Pedro, a roupa não é toda para dobra, há aí coisas que têm de ser passadas.
- Que coisas? Para além das minhas camisas não há nada que precise de ser passado.
- Então não há? Achas que vou guardar nas gavetas pijamas que parecem panos de chão?
- E que mal é que tem, não podes dormir com um pijama amarrotado?
- E os miúdos, vão para a escola assim?
- Que mal tem? Endireita-se com a mão, olha.
- Não quero as coisas nas minhas gavetas, na minha casa, nesse estado, pronto. E as meias são para juntar aos pares. Se metes tudo ao molho nunca mais usas duas meias iguais.
Cristina bufa desesperada.
- Porra que tenho eu que fazer tudo! Deixa lá que eu faço isto, mete a loiça na máquina, então.
Pedro, com maus modos e pior vontade, faz o que lhe diz a mulher e dirige-se para a sala.
- Pedro, os tachos têm de ser lavados à mão, senão ficam na mesma. Estes que estavam aqui já saíram sujos na máquina anterior.
- Deixa estar, são lavados outra vez, pode ser que fiquem melhores.
- Mas assim a loiça do jantar não cabe e vamos ter de fazer outra máquina. E gasta muita água.
- Estás preocupada com a água que a máquina gasta, mas lavas o lixo que é para reciclar.
- Claro, senão fica a cheirar mal.
- Se o despejares não fica.
- E se o lavares eu não preciso de estar sempre a despejá-lo.
- Tu?
- Sim, eu. Há quanto tempo não tiras um saco do caixote?
- Tiro sempre.
- Deixa-me rir. Vai mas é limpar a casa de banho em vez de estares a dizer disparates.
- Pára de me dar ordens.
- Se não as der tu não fazes nada...

Quando acabou de dobrar a roupa Cristina lavou o chão da cozinha e foi espreitar que tal se safava o marido nas limpezas.
Ficou horrorizada.
- Estás doido? Tu por acaso estás a limpar a retrete com o esfregão da loiça?
- E qual é o mal? Tem detergente, e sabes para que é que serve o detergente? Para desinfectar, imagina tu.
- Porco! Que nojo. Achas que eu agora vou limpar a mesa da cozinha com o mesmo pano que serviu para esfregar a tua merda? Realmente és mais útil na sala. Pira-te daqui (parece anormal, porra!). Vai, se faz favor, buscar o pano azul que está na prateleira pequena do armário da cozinha. E com cuidado que eu acabei de lavar o chão.
Pedro atira com o pano que tinha na mão pelos ares e logo por azar este cai dentro da sanita.
Cristina lança-lhe um olhar furibundo e range os dentes para se conter, enquanto ele se dirige à cozinha. Assim que ele coloca o pézinho calçado em cima do seu chão acabadinho de esterilizar, Cristina descontrola-se e desata aos berros.
Pedro agarra na chave e avança para a porta.
- Estás louca. É só o que te digo, estás completamente louca e queres que eu enlouqueça também.
- Onde é que vais?
- Buscar os miúdos. Entretanto vê lá se te acalmas.
Sai e atira a porta com brutalidade.
Cristina olha para o chão e vê bocadinhos de estuque espalhados por todo o lado. Abre a porta e sai atrás dele.

segunda-feira, outubro 23, 2006

Perguntas, perguntas...

São 9 da manhã. O Paulo e a Constança preparam-se para sair de casa.

- Até logo – diz ela – a que horas vens hoje?
- Até logo - responde ele – Ah, é verdade, hoje não venho jantar.
- Não? Porquê?
- Afinal a despedida de solteiro do Nuno é em Madrid. Vamos hoje à tarde e voltamos amanhã.
- E é assim? Vais para Madrid e avisas dessa maneira?
- E como é que queres que eu avise?
- Se eu não tivesse perguntado, se calhar nem dizias nada e aparecias aqui amanhã...era como estavas a pensar fazer?
- Estás parva? Claro que não, eu ia avisar.
- Ias mesmo? Quando, logo à noite, quando eu reparasse que não tinhas voltado para casa?
- Mas desculpa lá, qual é o teu problema, posso saber? Agora não posso ir a uma despedida de solteiro?
- Podes, mas também podes fazer as coisas de outra maneira. Qual é a necessidade de irem para Madrid? Não podem jantar em Lisboa, como as pessoas normais?
- Tu tens cá uma lata. E nem sabes tu a sorte que tens. O Francisco queria ir para Praga, vê lá.
- Uau! Que sorte a minha! Como o Francisco é um esfomeado e quer ir às putas a Praga, eu tenho que me considerar uma sortuda por o meu marido ser muito decente e só querer ir às putas de Madrid. Desculpa lá a injustiça.
- Qual ir às putas qual quê! Passaste-te? Vamos só sair à noite, é preciso fazer um bicho de sete cabeças? E eu bem tentei convencê-los a ficar cá, não me apetece nada ir.
- Estás a querer convencer-me de que vão não sei quantos galfarros esfomeados para Madrid a uma despedida de solteiro, e não te apetece ir? E que não vão nem a um bar de strip-tease? Então vão onde, visitar a Catedral de Almudena?
-E se formos, qual é o mal? É só para curtir!
- Ah, é só para curtir, não tem mal nenhum...Para já, se não estivesses com peso na consciência já me tinhas avisado antes, ou também vais dizer que combinaram há bocado, tipo durante a noite?
- Por acaso só acertámos ontem ao fim do dia, mas esqueci-me de te dizer, bolas. Agora tenho que dizer tudo?
- Não, não tens. Se achas que é dar explicações demais, então ficamos assim. A partir de agora cada um faz o que lhe apetece, quando lhe dá na gana, e não tem de dizer nada ao outro. E vamos ver onde é que isto vai parar.
- Mas que exagero é esse agora?
- Exagero? Só estou a proceder da mesma forma que tu. Vou telefonar à Maria, para saber como é com a despedida de solteira dela. Se calhar vou propôr uma ida a um bar de strip- tease masculino. Nunca fui a nenhum, sempre tenho achado que não são sitios para uma mulher casada frequentar, mas como o meu marido discorda...
- Agora vingas-te, é? Que infantil!
- Eu? Vingo-me de quê? É normalísimo. 20 mulheres juntam-se para ir a uma despedida de solteira, por isso têm que ir a um sitio onde haja homens disponíveis para abandalhar. É assim que deve ser e não tem mal nenhum. Se calhar até vamos a Sevilha, deve ser mais animado e ninguém nos conhece.
- E que mal é que tem encontrarem pessoas conhecidas?
- Explica-me tu porque é que têm que ir para Madrid. Tencionam fazer lá alguma coisa que em Lisboa não possam fazer?
- Já te disse que vamos só sair!
- Nós também.
- É diferente. E é perigoso. Já viram o risco que correm?
- Diferente? Risco? Nah!
- Risco sim. Um monte de raparigas sozinhas por aí é um chamariz. Porque é que não se juntam cá em casa para jantar? Bem mais divertido e económico.
- (gargalhada) Olha, passou-se! Cá em casa? E que graça tem isso?
- Mas o objectivo não é passarem um bocado todas juntas?
- Sim, sim, claro. E vestimos pijaminhas e pantufas enquanto esperamos pacientes e bem comportadas que os nossos homens machões regressem ao lar. Espera aí!
- Só estou a zelar pelo teu bem estar, mais nada...
- Deixa lá, nós arranjamos uns grandalhões para nos protegerem, não te preocupes. Desculpa lá, é impressão minha ou estás a ver se me convences a não ir?
- Eu? Não, estás doida? Tu fazes o que quiseres. Queres ir para Sevilha, para a China ou para o raio que te parta, então vai.
- Pois vou.
- Então vai.
- Já disse que vou.
- Eu depois telefono.
- Deixa estar, não é preciso.
- Então não telefono.
- Não telefones.
- Até logo.
- Adeuzinho e boa viagem.

(São ou não são todos iguais?)

sexta-feira, outubro 20, 2006

Estados de espírito

Ele:
- Mãe, como é que os motores andam?
Mãe, sorridente:
- Não sei filho, isso é daquelas coisas que se calhar é melhor perguntares ao Pai...
Ele:
- Então como é que as luzes se acendem?
Mãe, hesitante:
- Não sei, essa é outra das coisas que o Pai é que deve saber...
Ele:
- Não sabes NADA?
Mãe, ligeiramente irritada:
- Sei, sei muitas coisas, até, mas não sei de motores nem de electricidade.
Ele:
- E sabes de olhos?
Mãe, com ponta de esperança:
- De olhos sou capaz de saber alguma coisa...
Ele:
- Então como é que os olhos vêem a vista?

(Arrrgggghhhhh!!!!)

quinta-feira, outubro 19, 2006

As crianças são um espectáculo.

Estavam os cinco sentados à mesa de um restaurante no Algarve (este detalhe tem a sua importância).
Ele tem 5 anos.

Ele:
- Ó mãe, como é que se chama aquele bicho onde a mana andava no Algarve?
A mãe a pensar depressa, que bicho? Que Algarve? Ah! Será que ele quer dizer Marrocos?
E tenta.
- Marrocos, filho?
Ele, com um gesto displicente da mãozinha ainda gorducha:
- Isso, Marrocos. Como é que se chamava o bicho onde a mana andava?
- Camelo.
Ele, satisfeito:
- Isso mesmo. Quero aquela sobremesa que é de camelo.
- Baba de camelo? Muito bem, come tudo depressa e com boas maneiras e à sobremesa podes pedir o que quiseres.

E assim foi. Comeu depressa, sem porcarias, com maneiras de gente e tudo. Assim que acabou, ainda nem tinha pousado os talheres, atirou:
- Já posso pedir a bosta de camelo?

Pela cara da mãe deve ter percebido que tinha dito qualquer coisa mal, então, hesitante, de sorriso amarelado corrigiu:
- Não é bosta...
E triunfante:
- É gosma. Gosma de camelo. Já posso pedir?

quinta-feira, agosto 17, 2006

Queres que me descreva?

Queres que me descreva? Não vale a pena, não vais ficar a conhecer-me melhor por isso. Pelo contrário, até podes não querer conhecer-me de todo. Insistes? Está bem, vais ver que tenho razão.

Vou dizer-te algumas coisas, o regular: que não sou alta nem baixa, passei já dos 30 e tenho o cabelo curto e escuro o que me dá um aspecto franzino. Que sou professora. Que uso óculos graduados e não gosto de saltos altos. Acho que é isto. Chega para descrever uma pessoa. Chega até para se formar uma opinião, não é?

Posso tentar adivinhar como me imaginas. Magra, tímida, circunspecta, pálida e solteira. O corte de cabelo poderá ser arrapazado a combinar com o conjunto.

Mas e se agora eu acrescentar que já tive dois casos com dois alunos?
Pois se calhar já me atribuis uma índole mais duvidosa, um corte de cabelo mais moderno, uma mini-saia. Os óculos serão certamente mais leves do que antes. Um decote, imaginas-me com um decote? Agora talvez sim, e bem recheado, mas antes imaginavas-me sem peito, aposto.

Ou imaginas que que dou aulas sim, mas não a putos do liceu. Ensino inglês comercial a executivos de topo, por exemplo.
Aí já muda tudo de figura. Agora já não sou uma docente comilona disfarçada de freira mas uma profissional dura, meio masculina e sem grande vida pessoal, que dá umas quecas mais para encher o tempo que para preencher a vida. Ou uma mãe dedicada e esposa competente, licenciada em germânicas e católica praticante?

E se eu te disser agora que tenho uma tatuagem?
Aposto que já me imaginas mais radical. Tenta lá perceber onde tenho eu a tatuagem. E o que tenho eu tatuado?
Agora serei uma vanguardista de cabelo oleoso, óculos pretos e piercing na língua, ou uma cabra de saia reduzida, camisa transparente e escorpião no fundo das costas. Qual delas?
Se calhar vais imaginar que tenho tatuado no seio esquerdo, mesmo sobre o coração, um N de Nuno, um filho que perdi há anos. Ou uma estrela no tornozelo direito, uma parvoíce que fiz na adolescência e ainda não tive coragem de tirar.

Posso dizer-te que adoro viajar, mas aí vais ficar na dúvida: será que gosto de destinos exóticos e selvagens ou serei uma aficcionada de grandes metrópoles e visitas culturais? Adoro praia, mas sou praticante de naturismo ou uso um fato de banho gigantesco e fora de moda? Que gosto de arte, mas de esculura, cinema, música ou pintura? Dos impressionistas ou dos cubistas? Pop ou rock, música clássica ou de câmara? Woody Allen ou Fellinni?
Posso dizer-te que gosto de uma música do Roger Waters, o que não significa que seja uma fã. Gosto apenas de uma música que ilustra uma fase da minha vida que me é muito querida. E que fase é essa? Uma paixão fulminante, a viagem de finalistas, o dia em que tirei a carta de condução?
Posso dizer-te tantas coisas, já viste? Mas nunca será suficiente.

A cada coisa que eu te disser vai corresponder uma imagem que tu constróis na tua cabeça, uma opinião que fazes a meu respeito, um sentimento que te aproxima ou afasta de mim. Não posso fazer isso. E não posso dizer-te tudo. Um ser humano é indescritível porque complexo demais.
Tu tens necessidade de tornar coerentes os teus pensamentos com os teus preconceitos, porque te disseram que se andei com alunos sou prevertida tu nem queres saber de que estudantes se trata, porque se te digo que sou loira e alta e magra e gira imaginas-me parva, futil, egoísta e burra. Porque se te digo que sou freira pensas que devo ser gorda, velha e recalcada, ou talvez se eu empregar o termo noviça já imagines uma rapariga infeliz e traumatizada. Porque se te falo em tatuagem devo ser esquisita, porque se te conto que de vez em quando apanho umas bebedeiras e flirto com uns rapazes serei certamente uma pêga.
Se te dou uma descrição minha há sempre coisas que ficam por dizer e essas podem ser as mais importantes.
Podes não querer conhecer-me depois de me conheceres, é legítimo e eu respeito, ou podes querer conhecer-me cada vez melhor, mas decidires isso antes, apenas porque leste algumas palavras que escrevi sobre mim... sinceramente, não concordo. Ninguém sabe falar de si e nenhum de nós se vê com os olhos dos outros.
Dás-me agora razão?

quarta-feira, agosto 16, 2006

Férias doces férias...

Abro a custo os olhos que não querem, resistem. Lentamente foco o raio de luz que entra pela cortina entreaberta. Tento perceber, mais para acordar a mente que pelo rigor cientifico do estudo, que horas serão: o raio que espreita é difuso - ou é muito cedo ou temos um céu cheio de nuvens. Se a primeira hipótese me agrada bastante, já da segunda não posso dizer o mesmo. Estamos em Agosto, de férias algures na costa alentejana, onde não há rigorosamente nada para fazer que não seja ir à praia. Ora se estiver mau tempo temos um problema que será, como entreter 3 crianças num dia de chuva em nenhures. Ponho o ouvido à escuta. Não se ouve nada. Se os miúdos ainda dormem então a primeira hipótese deve ser a mais provável. Do meu lado direito o Pedro ressona. A teoria da hora volta a ganhar. Muito cedo ainda. Ao longe escuto o canto de um galo. Definitivamente devem ser umas sete da manhã. Perfeito. É hoje.
Levanto-me de um salto com o projecto para levar a cabo nas próximas horas, antes de a casa acordar, a fervilhar dentro de mim. Todos os dias tenho tentado fazer isto e ainda não consegui. É hoje mesmo.
Primeiro tomar um pequeno almoço opíparo na varanda, sentada para variar, ofuscada pelo reflexo do Sol no mar quieto, o aroma inigualável das manhãs de Verão e a melodia cadente das ondas pequenas da maré vaza a atafulharem-me os sentidos. A seguir, estender a pernas sobre a cadeira em frente, abrir o meu Salto Mortal tão procurado mas só agora reeditado, e ler. Ler durante hora e meia, com o silêncio completo, rigorosamente absoluto a soar como música para os meus ouvidos. Tiro da gaveta do armário um bikini que trago à luz do dia para ver se combina a parte de cima com a de baixo, uns calções e um top branco de alças. Esgueiro-me do quarto e visto-me à pressa na casa de banho. O tempo desperdiçado tem de ser mínimo.
Na cozinha descubro desconsolada que não há pão. Nem leite, bolas. Procuro o telemovel para me certificar das horas, pode ser que a mercearia já esteja a funcionar. Afinal são 08:00h...oh não...talvez se me despachar... Não encontro os meus chinelos de praia por isso levo os do Pedro que estão na varanda. São tamanho 44 mas para o que é, chega.Vou numa corrida.
Acabo por demorar mais do que queria, aproveito para trazer outras coisas de que precisamos: papel higienico, cenouras, ovos, leite com chocolate, iogurtes, garrafões de água, cigarros.
08:35h quando regresso. Começo a perder a esperança. Aspiro um prato de cereais em pé, debruçada sobre o lava-loiças. Quando termino largo-o lá dentro e corro para a varanda. No caminho oiço a Joaninha a choramingar no quarto, sinal de que acordou e quer o biberão. Ainda olho de relance, através da janela o livro pousado em cima da mesinha de metal branco descascado, mas dirijo-me antes ao quarto deles.
Tiro a minha bonequinha da cama, encho-a de mimos e beijinhos e vamos as duas fazer o bibon. Deito-a ainda muito ensonada no sofá a beber o seu leitinho e disponho-me a ir buscar o livro para ficar ali ao pé dela a ler. Ligeira alteração de planos, ainda assim quase satisfatória.
Assim que me levanto aparecem outros dois bonecos de olhos e bocas inchadas a cheirar a cama e a fome.
Mudo novamente de direcção e faço um prato de cereais para cada um: Chocapic para a Madalena e Estrelitas para o Tomás. Com eles sentadinhos à mesa, a Joaninha quase a adormecer outra vez no sofá, talvez consiga sentar-me durante 5 minutos...
Quase corro para a varanda, quase me atiro para a cadeira trémula, quase rasgo o livro à procura da página onde ia – é evidente que alguém achou giro brincar com o marcador. Digo quase, porque não chego a concretizar. Á porta da cozinha sou interceptada pelo elemento malcheiroso em falta – o Pedro, e, se bem que tento com afinco fugir-lhe, não consigo. O Pedro sabe ser muito persuasivo quando quer alguma coisa, e choraminga como ninguém. Que não lhe ligo nenhuma, que só penso em estar sozinha a ler, que não quero estar com ele e com os miúdos, está bem, que vai sozinho para a praia com eles para eu ficar em paz, se tenho assim tanto tempo livre para desperdiçar as férias, vamos meninos que a mãe precisa de sossego e connosco não consegue...E eles, vá lá mãe, vem connosco para a praia, vááááá lááá, ou então ficamos cá nós contigo...
Bem, é de tal ordem que eu desisto mesmo. Resumindo, o Pedro tem a dor de barriga matinal (ainda terá outra a seguir ao jantar) e fecha-se na casa de banho e eu acabo a fazer sandes, preparar a fruta, a água fresca, os iogurtes e sumos e colheres e guardanapos e ovos cozidos. E sempre a com a música de fundo trocada, em lugar da desejada melodia calmante do mar invade-me o ruido desesperante e esganiçado dela, ó mãe não quero desses, quero os de chocolate, e ele, mas de chocolate já comeste muitos eu só comi um e agora este é para mim, e ela mas não comeste mais porque não quiseste, e ele, mas eu esqueci-me e quando vi tu já tinhas comido todos, e ela azareeee, e ele estúpida e eu um tabefe a cada um e o de chocolate no lixo.
E mais uma vez o meu plano sai furado, o todo anula a parte, o grupo vence o indivíduo, a fera desiste da presa.
Amanhã vou ver se consigo acordar às 6.

quarta-feira, julho 19, 2006

São os homens que não servem para nada ou as mulheres é que centralizam tudo?

Exemplo:
Um casal, na casa dos 30, com filhos, empregos e vida social. Esse casal, num certo fim de semana, tem uma festa. Trata-se de um evento normal, pode ser um aniversário. Não é um casamento nem um baptizado, é apenas a celebração informal de um aniversário de um amigo(a). Pormenor: sem crianças.
A questão coloca-se assim, deste modo simples e linear.

Agora vamos introduzir aqui mais um dado: o amigo(a) é afinal a irmã dele. Única irmã. Mas é a cunhada quem recebe o convite.

É de noite, o Pedro e a Cristina estão sentados lado a lado no sofá da sala, onde assistem a um episódio da série preferida dele.

- Pedro, a Nicas telefonou-me hoje. Temos a festa dela no dia 24.
- Festa de?
- Anos. A tua irmã faz anos no dia 22 mas faz a festa no dia 24 que é o Sábado seguinte.
- Ah. Ok. Depois lembra-me, mais perto do dia. Ainda falta muito tempo.
- Lembro-te? Porquê? Não consegues lembrar-te sozinho?
- Custa-te muito? Então não lembres.
- Não é que me custe, mas faz-me confusão que não saibas quando é que a tua irmã faz anos, é só isso.
- E por acaso eu tenho de saber as datas todas de cor? Tenho isso na minha agenda, no dia vejo. Qual é o drama?
- Ah sim? E é claro que no dia vês. Não precisas de pensar nisso antes. Tens aqui a empregada que trata de tudo não é? Então e se eu também decidir tratar de tudo no próprio dia? Quanto é que apostas que não vamos à festa?
-Não vamos? Mas a festa é da minha irmã. Eu vou.
- Então importas-te de pensar comigo, se faz favor? Não podemos levar os miúdos, temos de decidir com quem é que eles ficam e isso tem de ser tratado com tempo. Nesse dia a Joana tem a festinha da Madalena, por isso não dá jeito ficarem com a minha mãe que não tem carro para a levar. Se calhar era melhor ficarem com os teus pais.
- Claro. E os meus pais são motoristas da menina, não? Não vai à festa, pronto, não morre por causa disso.
- Coitada dela, anda toda entusiasmada porque este ano parece que vão organizar uma aula de hip hop na piscina. Não fala noutra coisa há que tempos. Eu gostava que ela fosse. Então vamos nós pô-la lá e pedimos aos teus pais para irem buscá-la, pode ser?
- E vão sair de casa de propósito? É igual. Pede a alguém que a traga da festa.
- Pois, sim. Não podemos pedir aos teus pais que a transportem porque não são motoristas, mas podemos pedir a uma mãe qualquer, que eu não conheço de parte nenhuma, para andar às voltas que isso já não tem mal nenhum. Deixa lá que eu trato disso. Vou lá eu.
- Então vai.
- E já agora, a festa vai ser no casino. Se os teus pais ficarem com eles, podes levar a cama do Manelinho e o resto das coisas para lá logo de manhã? Queria ver se ia ao cabeleireiro, mas dou cabo do cabelo se andar a transportar as coisas. Assim à hora levávamos só os miudos e o resto já lá estava.
- Vais ao cabeleireiro fazer o quê? Está óptimo o teu cabelo. Até gosto mais dele assim do que todo penteadinho. E isso não tem lógica nenhuma. Quando levarmos os miúdos levamos as coisas deles, evidentemente.
- Não quero. Quero sair de casa fresca e arranjada, sem ter de andar a passear caixas com sopa, caminhas, brinquedos, roupas, fraldas, etc. E vou acabar por dar cabo das unhas, ainda por cima. Eu levo lá as coisas quando sair para o cabeleireiro. Caso encerrado. E o que será que ela quer pelos anos? Quando é que podes ir ter comigo à hora de almoço para vermos isso?
- Deixa estar que eu trato disso.
- Tratas? Quando? Nunca? Pensas que eu não te conheço? No próprio dia lembras-te de repente que não compraste nada e eu que me lixe com a logística dos miúdos porque tu piras-te bem a propósito e só voltas à hora da festa. Achas que eu sou parva ou que ando a dormir? Eu compro o presente esta semana e fica o caso tratado. E então, ligas à tua mãe a sber se ela pode ficar com eles?
- Depois ligo.
- Quando?
- Depois.
- Depois pode ser muito em cima da hora e a tua mãe não poder. Ainda nos lixamos com isso. Liga agora.
- Agora já é tarde.
- Tarde? São dez da noite.
- A minha mãe deita-se cedo.
- Tão cedo?
- Sim, porquê? Agora não pode? Tu não deixas? Será que também és tu que vais decidir quando é que a minha mãe vai dormir?
- Então pronto, ligas amanhã?
- Ligo quando me apetecer.
- Ainda acabamos por não ir à festa por causa disso. Porra. Eu ligo amanhã para a tua mãe. Casmurro!
- Chata.
- Preguiçoso.
- CHATA!
- Chato és tu. Não tenho pachorra para te aturar. Fazes cá tanta falta como uma pandeireta num velório.


Agora vamos supor que quem recebe o telefonema é ele:

É de noite, o Pedro e a Cristina estão sentados lado a lado no sofá da sala, onde assistem a um episódio da série preferida dele. O Pedro pergunta:

- Que horas são?
- Dez da noite, porquê?
- Eh, pá, esqueci-me! Hoje é a festa da minha irmã. Tenho de ir. Até logo.
- ???

quinta-feira, julho 13, 2006

Tratar a vida

-Bem malta, vou andando.
-Não vás já. Aguenta mais um bocado. O Manel ainda vem cá ter.
- Não, vou andando, ainda tenho que fazer.
- São quase 3 da manhã.
- Tenho coisas para tratar.
- De que é que vais tratar a esta hora?
- Vou tratar a minha vida.
- Deixem-na lá. Se ela quer ir embora, vai. Já está com as paranóias.
- Exacto. Vou. Beijinhos e até amanhã.
- Queres boleia?
- Não, não, deixa estar. É só um bocadinho, vou a pé.

Saio do restaurante bafiento para uma noite límpida e fresca. Enquanto caminho inspiro com força, prendo o ar por um bocado e depois deixo-o sair todo de uma vez. Três, quatro vezes seguidas. Desde miúda que faço isto, é como rodopiar. Com a tontura os objectos dançam, o cérebro baralha-se, tudo muda. Mas por um momento apenas. O momento em que saio do meu corpo e me vejo de longe, em que me sinto maior que eu. É apenas ilusão, eu sei. Preciso de mais que exercícios respiratórios para tratar a minha vida.

Tratar. Ora aí está uma boa palavra.Trata-se uma doença, trata-se uma ferida, um assunto, uma picada de insecto. Trata-se o que nos incomoda, o que nos ocupa o tempo, o que queremos despachar. Vou mesmo tratar a minha vida.

Subo os doze andares que separam o meu mini apartamento do chão. O elevador continua sem luz, hoje não me importo. Estou animada com a perspectiva.
Olho para a minha casa como se fosse a primeira vez, às vezes temos de fazer este exercício. A vida cega-nos, também por isso temos de tratá-la.
Deixamos de ver a nossa casa, os nossos amigos, a família, o trabalho, de nos ver a nós. Avançamos sobre as coisas como quem anda pela auto-estrada, sem apreciar o caminho. De vez em quando temos de tomar a estrada nacional, parar nos lugares típicos, comer devagar, ouvir os outros.
A mim ninguém me ouve. Se calhar ouve, mas não escuta.
Respondem-me, mas na realidade não sabem a quê. Tenho tanta gente à minha volta, muitos insistem que me conhecem, mas não.
Eu não existo.
Por isso ninguém me vê.
Cada um olha para mim como quer, como dá jeito, como aprendeu. Eu sou apenas uma imagem. E não há solidão maior.
Olho para a minha casa. Fui eu que a fiz, mas não sou eu. É um reflexo na água, distorcido. De mim? Nem por isso. Talvez da minha vida, da minha educação, de tudo o que pensei que devia ser. Tudo está como é suposto. Sofás em L - estimados; mesa no meio - arrumada; tapete por baixo - limpo; estante com livros - organizada; cortinas nas janelas - engomadas.
Mas eu não sou como devia. E estou cansada de tentar.
Reparo num quadro encostado e levanto-o. Avanço para a parede para o pendurar, mas de repente não me apetece. Se vou tratar a minha vida é melhor começar já. Não quero pendurar o quadro ali, nem sequer gosto muito dele. É um óleo antigo, presente de curso dos meus pais. Nele, uma mulher ainda jovem e elegante aproxima-se de uma casa no meio de um bosque ou jardim. A cabeça da mulher pende ligeiramente para a frente, como quem olha o chão para não tropeçar. Pela luz percebe-se que a cena se passa durante o dia, mas é tudo tão sombrio, tão abandonado que me entristece.
Não. Não vou pendurá-lo na parede da minha sala. Aí é onde ele “devia” estar.
Afinal não vou pendurá-lo sequer, não gosto dele, não o quero em minha casa, faz-me infeliz.
Agarro no quadro e atiro com ele para longe. Sabe-me bem. Pego-lhe de novo e começo a bater com ele. Contra tudo o que aparece. Portas, móveis, paredes, chão. Sinto-me tomada por uma espécie de felicidade histérica. Piso-o, espezinho-o, desfaço-o. Abandono-o. Desenfreada começo a varrer tudo, arranco cortinados e espalho os farrapos, atiro cadeiras, entorno armários, cómodas, prateleiras. Sinto-me livre, livre!
Rodopio com uma garrafa na mão e deixo o liquido pastoso escorrer. Por mim abaixo, pelas paredes acima. Sou livre. Faço o que me apetece, não tenho de explicar nem temer, não vou fingir mais. Estou a tratar a minha vida. Rio às gargalhadas.

Canso-me. Páro diante da janela e observo o reflexo que ela devolve. Aquela sou eu?
Dispo-me. Uma peça de cada vez, sem tirar os olhos do reflexo que me repete, até à nudez completa. Odeio o meu corpo, mete-me nojo.
Sempre o odiei, mas nunca ninguém compreendeu. Respondiam sempre - as minhas irmãs, as minhas amigas - que era um corpo invejável, que tinha mamas em quantidade e rabo em forma, quem dera a tanta gente, que eu não tinha razão nenhuma. Até se irritavam.
Mas o meu corpo não me pertence. Como a minha casa e a minha vida, o meu corpo não me diz nada. É falador, simpático, sorri para quem vai atrás, atira-se sobre quem está de frente. É expansivo, tem necessidades, pede atenção.
Eu não. Sou calada, encolhida, seca, insignificante. Não gosto dele, e ele não gosta de mim. Não me obedece, não me respeita, faz coisas que eu não quero fazer, fala de coisas que eu não quero falar.
Vou tratar a minha vida, por isso vou tratar o meu corpo. Não quero o que não me pertence.

A imagem à minha frente desvanece-se à medida que o vidro se afasta para o lado. No seu lugar surge a noite fresca e límpida que me trouxe. Chego-me à varanda e apoio-me no parapeito. Um arrepio percorre-me.

Penso em cada luz acesa. Pode ser uma casa, dentro dela estarão pessoas. Pode ser um carro, e transporta alguém. Pode ser um prédio, e nele morar muita gente. Essas pessoas serão todas diferentes, muitas delas cobardes, em menor número os felizes mas, quase nenhuns serão verdadeiros. Como eu.
Quantas dessas pessoas terão alguma vez tido a coragem de tratar a sua vida? Quantas dessas pessoas terão tido a franqueza de enfrentar o seu fracasso?
Subo para o muro da varanda. 12 andares separam a minha carne do chão. Separo as pernas e os braços. Inspiro fundo, com força. Sustenho o ar por um bocado e depois deixo-o sair todo de uma vez. Duas, três, quatro vezes.
Quantas pessoas estarão neste momento a peparar-se para fazer o que eu vou fazer? Quantas, das que pensam conhecer-me, sequer suspeitam?
Finalmente a verdade. Pela primeira vez na vida faço algo em que acredito.
A tontura. Fecho os olhos, atiro a cabeça para trás e o corpo para a frente.
Sou livre, faço o que quero e o que quero, é voar.


Cristina desliga o computador e encosta-se para trás na cadeira. Fecha os olhos e estica-se com força.
Pedro chama do quarto
– então, não te deitas?
- estou a acabar. É só tratar uma coisa.

Cristina levanta-se e despe, peça por peça, a roupa que tem vestida.

segunda-feira, julho 10, 2006

Mudam as moscas...

Empurro a chave contra a fechadura. Um jeitinho e... já está. Dentro de casa atiro várias vezes com a porta até fechar. Largo as chaves na mesa da entrada e o computador em cima de um caixote de cartão – a Cristina não gosta que se ponha nada em cima da mesa. Descalço os sapatos. Largo a gravata e os botões de punho, desaperto o colarinho e arregaço as mangas da camisa.
Entro na cozinha, tiro o pacote de leite do frigorífico e bebo duas goladas. Faço um pão com manteiga e vou para a sala. Ligo a televisão, sento-me, ajeito as almofadas, encosto-me, estico-me.
Reparo que há qualquer coisa diferente. Não sei ao certo, mas sinto uma calma esquisita, um silêncio. Chamo pela Cristina mas ninguém responde.
Estranho, a esta hora ela já costuma estar em casa. Aliás, a esta hora, num dia normal, já eu estou com vontade de sair outra vez. A Cristina está sempre aos berros. Se ela soubesse como são os meus dias andava de joelhos para me agradecer a vida que tem, mas não, só sabe é chatear-me com merdas que não interessam a ninguém. É a fechadura, os sapatos, a roupa, o caraças. É porque bebo leite do pacote e é um nojo e tenho de dar o exemplo senão qualquer dia temos filhos e anda tudo a fazer a mesma porcaria cá em casa, porque utilizei a mesma faca para abrir o pão e barrar a manteiga e não pode ser, há facas para tudo, porque estou a comer na sala e nem um prato trouxe e vou encher tudo de migalhas e depois os empregados que limpem. Chata. Ela podia já ter percebido que eu depois faço. Mas não, tem de ser quando a madame entende.
Já deixei de sonhar com o dia em que eu entro em casa e lá está ela, lingerie preta, saltos altos, sorriso sedutor. Disponível.
Isso é uma coisa que pura e simplesmente não acontece num casamento. Pelo menos no meu não acontece. Lingerie nem a vejo, não sei como é. Sexo, ultimamente só em noites de festa ou casamentos: bebemos uns copos, dançamos e a coisa lá desencrava.
Agarro no comando e começo a saltar canais. Notícias, porcarias, séries de médicos, futebol. Páro no futebol. Agradeço intimamente ao motivo que reteve a Cristina. Onde será que ela anda? No supermercado, talvez. Um grande bem haja para ela.
Sinto-me bem e acabo por adormecer.

*****

Estou ajoelhada à porta, a mala despejada no chão, uma ilha no meio do caos. Qual será a reacção dele? Tenho a sensação de que a chave desapareceu só para me irritar. Como sempre acontece, enfim ela surge, reluzente no fundo da mala, como quem sorri a dizer – então não me vias? Estive sempre aqui. Estou nervosa e reparo nisso quando a minha mão faz a chave chocalhar contra a fechadura. Endireito-me, dou um toque no cabelo, passo as mãos pela cara.
Empurro a chave com força. Praguejo intimamente ao verificar que o Pedro continua a não a ter oleado. De facto, se não sou eu a tratar de tudo não há nada que apareça feito.
Não vou pensar nisso agora.
Com um jeitinho fecho a porta por dentro. Imediatamente a presença dele atinge-me como uma explosão. Chaves a arranhar a cómoda inglesa, pasta em cima da caixa do candeeiro, no mesmo sitio desde há sei lá quantos meses, sapatos, gravata, botões de punho, tudo espalhado. Espreito para a sala. O Pedro dorme no sofá com a respiração forte a fazer ondas no mar de migalhas que o envolve, a televisão sintonizada na Sport TV. Entro na cozinha sabendo já o que vou encontrar. Sem espanto nem fúria guardo o leite, meto a faca do pão na máquina, limpo a bancada com um pano húmido. Hoje não me apetece discutir. Aliás, tenho a impressão de que nem hoje nem nunca mais. Desisto de discutir.
Tenho pensado muito e principalmente conversado imenso. Na realidade, todas as mulheres se queixam do mesmo, da natureza dos homens. Fazem pouco, desarrumam tudo, não ouvem nada. Mas agora vejo as coisas com mais clareza e percebo que é inútil tentar mudar o meu marido. Os homens são mesmo todos iguais, um bocado como as crianças – temos de falar com calma, dizer apenas uma coisa de cada vez, não mandar, não gritar, não repetir. Ou não conseguimos nada deles. É deixá-los fazer o que querem, da forma que entendem. É sermos tão básicas quanto eles. É falar menos e rir mais. Eles gostam de ter graça, que nós lhes achemos graça.
Vou ao quarto, ponho a mala em cima da cadeira, arrumo o casaco no armário.
Estou mesmo convicta, hoje não me vou aborrecer. Visto a lingerie preta novinha à estreia, meias de liga, sapatos altos, maquilhagem ligeira, cabelo apanhado, perfume suave. Quantas vezes o Pedro já falou nisto? Continuo nervosa. Faço uma depilação sumária com a lâmina de barbear dele, dou um jeito nas sobrancelhas, não resisto a uma borbulha que fica marcada. Bolas!

Vou acordá-lo. Ele já está desperto mas ainda sem ter dado pela minha chegada. Não faz perguntas, aproveita simplesmente.
Enfim, a surpresa surpreende, os nervos desaparecem, é tudo muito romântico, estamos bem e sintonizados. Depois, enrolamos-nos um no outro, ficamos só assim, a olhar o vazio, a respirar a vida que afinal às vezes é calma. Penso como gosto dele, como tudo pode ser diferente se houver vontade. O Pedro levanta-se e vai à cozinha. Estou esfomeada e fico a sonhar com o que aí vem. Morangos e champagne? Talvez umas tostas de queijo e banana...
Ele volta satisfeito com duas sandwuiches de carne assada e dois batidos de morango. Penso no trabalho que esta refeição ainda me vai dar, mas não digo nada, estou positiva.
Encostamos-nos um ao outro e comemos com prazer.
Sinto-me imensamente curiosa por saber em que altura vai o Pedro decidir arrumar tudo o que deixou espalhado, mais o que fez na cozinha, mas aguento e não pergunto. Terá de ser ele a decidir. Conversamos como há muito não fazíamos, trocamos carícias e fazemos juras de amor eterno.
Algum tempo depois decidimos ir dormir. Vou sem olhar para trás. E ele também.

Na manhã seguinte acordamos sorridentes. O Pedro despacha-se rápidamente e sai de casa. Eu tenho tempo, vou tomar o pequeno-almoço. Saio do quarto, olho à volta. Como que anestesiada vou até à cozinha. E não me surpreendo. Nem me zango. Limito-me a sentar-me numa cadeira, esconder a cara nas mãos, e chorar.