sexta-feira, janeiro 29, 2010

Marketing ou estupidez?

Mesmo antes de sequer se saber como se iria chamar, já o novo gadget da Apple andava, pelas mais diversas razões, a ser mastigado e, em alguns casos cuspido, pelas bocas do mundo.

Inicialmente falou-se em iTablet ou iSlate, nomes engraçados mas poucochinhos para Steve Jobs e sus muchachos (não há mulheres no Marketing da Apple, parece-me). Então, após aturado brainstorming, supõe-se, a Apple decidiu que tinham de arranjar um nome original mas facilmente identificável com a imagem corporate da empresa, que simultâneamente fosse um tiro certeiro num público ainda relativamente pouco dado a estas inovações - as mulheres. Vai daí, pensaram, investigaram... o que é que as mulheres modernas conhecem, identificam, valorizam... não é política, não é automóveis, não é educação, deixa lá ver... isso mesmo, higiene íntima! iPad. Perfeito.
É claro que, escassos minutos após a apresentação nos media internacionais, já havia enorme sururu e o tão aguardado gadget já respondia descontraídamente pelo nome de iTampon. Faz sentido... maçã - pecado original - castigo bíblico.
Genial!
Cá para mim o a malta do Marketing está para a Apple como o Mário Soares para a ópera no S.Carlos: vão lá mas só dormem.

Se houvesse alguém competente naquela empresa, os senhores ter-se-iam lembrado do nome certo para este produto:
Supostamente o iPad é um mini computador com telemóvel e mp3, que também dá para ver filmes, ler livros e o diabo a sete. Até pode ser giro de usar, mas é mais uma coisa para ter: não substitui um PC porque lhe faltam algumas funcionalidades. Não substitui um telemóvel, pois não tem câmara. Não se substiui a um televisor e, muito menos a um livro e não tem a qualidade de uma aparelhagem de som.
Agora vejam bem: o que é que é vendido como substituto de tachos, panelas, varinha mágica, balança e o diabo a sete, mas obriga-nos a ter uma cozinha toda equipada na mesma, com forno e fritadeira e máquina de lavar loiça e frigorífico? Qual é o gadget que existe em quase todas as casas, que as mulheres conhecem, valorizam e identificam, mas neste caso, os homens também usam e adoram?
Exacto.
O iPad devia chamar-se iBimby.

Não me ouvem...

terça-feira, janeiro 26, 2010

Carta aberta

Exmos. Senhores Aprovadores de Anúncios de Rádio,
Começo por me desculpar pelo atrevimento da reclamação, pois que sou completamente leiga em matéria de eficácia publicitária (como aliás, em quase todas as restantes matérias, mas tenho gosto por opinar).
É como mãe, consumidora de rádio e de seguros que aqui me apresento hoje, com o fito de tecer um breve comentário a uma coisa que já me anda a irritar há uns dias: falo de um anúncio radiofónico que pretende vender um produto qualquer do ACP que dá direito a médico em casa por pouquíssimo dinheiro.
Para quem ainda não teve o desprazer, aqui vai uma breve súmula (passo a redundância):
Uma senhora meio tontinha nota num repente que o seu menino, uma criança presume-se, arde pura e simplesmente em febre. E que faz ela? Chama uma ambulância? Mete-o na banheira? Dá-lhe uma aspirina? Não, nada disso. Pede-lhe ajuda. Ao próprio, sim. Mas como quem fala com um bebé de meses.
Vai daí ele ajuda solícito, despachado e bem disposto, oferecendo informação sobre o produto em questão, atitude que a mãezinha agradece prontamente mas num tom que mais parece um engate.

Meus senhores, isto está tudo mal.Eu cá não sei se têm filhos a caminhar para a adolescência, mas se têm e falam com eles como a senhora do anúncio, deixem-me dizer-lhes que estão tramados - antes que dêem conta vão ter os petizes a mexer os vossos miolos com uma batedeira eléctrica sem que isso vos retire o sorriso apatetado da cara.Por outro lado, se não têm filhos, também me parece que não conhecem ninguém que os tenha. Nem passam por nenhuma criança no caminho para o emprego, no metro, no supermercado ou na pastelaria lá do bairro. E digo isto porque, se tivessem dispendido algum do vosso precioso tempo na observação do comportamento de um desses modernos bebés de boxers QuickSilver, saberiam tão bem como eu que:
a) uma mãe que se dirige ao filho com a frase “Pedrinho, estás a arder em febre o que é que eu hei-de fazer?” na minha modesta opinião, dá nas subtâncias ilícitas. E bem.
Cá para nós, pessoas normais, mesmo que a mãe esteja praticamente em apoplexia nervosa, se tiver que pedir ajuda não será concerteza ao filho delirante de febre.
Pessoal, há pediatras e convém que os filhos tenham um que os acompanhe. Se este não estiver disponível podem ligar à linha Saúde 24. Ao marido, vá, ou às vossas próprias mães. Liguem a uma amiga, tia, irmã. Liguem à vizinha do lado se tiver que ser, agora, pedir ajuda à própria criança que “arde em febre” é um bocado puxado.
No caso de não se tratar de uma criança, mas de um adolescente (no anúncio isso não fica claro – o rapaz é muito versado nas coisas da vida, mas a mãe trata-o como a um recém nascido), passa-se o mesmo, com a diferença apenas de que falar com ele como se fosse tonto ainda é mais ridículo.
b) Mesmo que num arremedo de ficção científica isso acontecesse, uma criança a arder em febre geralmente não responde de forma enérgica, como quem é apanhado no caminho entre uma partida de ténis e uma ida ao cinema: “ chama o médico do ACP”. Resposta assim talvez indicasse uma de duas situações: ou o menino já se tinha abarbatado aos mesmos comprimidos que deixaram a mãe naquele estado ou, mais realísticamente, não estava nada a arder – era só uma febrita - e a mãe é uma saloia exagerada.
c) No instante em que a supostamente moribunda criança profere as palavras milagrosas “chama o médico do ACP”, a mãezinha vê-se a braços com uma não menos divina avalancha de memória – num repente, ele é número de telefone, ele é preço, ele é horários, ele é tudo a resvalar por ela acima.
d) Ainda assim, o pior de tudo é o final, quando a mãe se dirige ao filho dengosa e titubeante como quem se insinua ao borracho de vinte e cinco aninhos que acabou de lhe mudar o pneu na berma da estrada:“Obrigada Pedrinho!”
Blharrrrghhhh!

Meus senhores, eu já disse e não sei como se faz um anúncio que funcione, mas uma coisa sei: assim não é.Diz-me o bom senso que se eu quiser fazer um bom spot de rádio, não devo fazer desfilar algumas frases desconchavadas sobre um produto, proferidas por um adulto que não acredita nele e por uma criança que nem sabe de que é que está a falar.
(impressão minha ou isto é que é o significado de demagogia?)

E pronto. Agora fico à espera da notificação do tribunal.

Nota: não garanto que as frases do anúncio sejam exactamente estas, hoje em dia a minha memória está tão boa como os meus conhecimentos técnicos sobre publicidade.

sexta-feira, janeiro 22, 2010

A nós, os putos que somos. Tchim, tchim.

Lembro-me de a minha mãe fazer trinta e dois anos. Foi a Milão com o meu pai e trouxe de lá o rosto perfeito imortalizado num quadro a carvão que ainda deve iluminar alguma parede lá de casa.
Lembro-me de o meu pai fazer quarenta anos. Alguém lhe ofereceu um porta-chaves que dizia “life beggins at 40” e a minha mãe ficou fula.
Lembro-me de achar que eles eram velhos. Quando falavam de um amigo ou conhecido "ainda novo", com quarenta e poucos, lembro-me que ria e gozava – novo?
Lembro-me de eles falarem de coisas e sitios que já não existiam e de eu achar isso deprimente.

E agora, tenho trinta e seis, muitos dos meus amigos já têm ou fazem em breve quarenta. E acho que somos giros, divertidos e, principalmente, acho que somos novos.

Atentemos por breves instantes nas mudanças que se operaram, não em nós, mas na nossa terra, nos últimos anos:

A A5, os Mac Donald’s, as Zaras, o Cascais Shopping, o Cascais Villa, o BCP, o Miragem, as Sacolinhas, a Loja das Meias, a Marina, os Cachorros, a Casa da Guia, a Telepizza – que hoje são marcos da nossa terra – nada disso existia quando éramos putos.

Não existia Lidl, nem Minipreço, nem Continente, nem Pingo Doce. Só Pão de Açucar e era um.
Não existiam 10 salas Lusomundo, mais 5 Castello Lopes, mais 5 Cinemacity.
Os Bombeiros eram no centro de Cascais.
A Farmácia Cordeiro era pequena.
O Tribunal era ao pé da estação.
O Guincho não tinha ninguém.
Tínhamos nós os Croissants.
As ruas eram sujas.

Mesmo assim existia o Juliana’s, o Palm Beach, o Yuppie, o News.
A Praça de Toiros, o liceu da Pampilheira, o Dramático, o Ok, o Estoril Sol.
O Oxford e o Miramar.

Cascais era verde e azul e areia e o único transito que tinha era o das nossas bicicletas e carrinhos de rolamentos.
E tinha estradas esburacadas. E crianças à solta. E pessoas a passear a cavalo.
E não tinha quinhentos condomínios nem milhões de habitantes e toda a gente se conhecia.

Agora sim, vê-se: a nossa terra mudou, e nós com ela. Afinal os anos passaram mesmo, nós é que não demos por isso.

Se eu disser a alguém desta geração:
“ Entras em Cascais pelo Estoril Sol, nas traseiras da estação, antes do parque de estacionamento viras à esquerda para o Hotel Nau, aí viras à direita para a Cidabela, passas o cruzamento em frente e começas a subir a rua da Nova Rede, passas à frente do Oxford e viras logo ali à direita, para o ginásio dos Columbófilos”.
Quem é que não está a ver per-fei-ta-men-te o caminho?

Exacto. Vou ali num instante meter a cabeça fora da janela e fechá-la com força. Talvez demore um bocadinho, não estranhem.

quinta-feira, janeiro 21, 2010

Chego ao meu trabalho quase sempre depois da hora. Venho bem disposta, quase como quem volta para casa. Bebo um café, às vezes fumo um cigarro e subo até ao segundo andar.
Atravesso o piso inteiro até ao meu lugar, no cantinho, mesmo ao lado da janela. É lá que está a minha mesa cinzenta, familiar e desarrumada.
No caminho cumprimento toda a gente, quase todos pelo nome (tempos houve em que eram mesmo todos).
Sento-me e num gesto automático mexo o rato para acordar o monitor. Sei que o computador estará ligado, temos um acordo que nos poupa cinco minutos todas as manhãs – o primeiro a chegar liga tudo. Nunca fui eu.

Gosto da minha mesa. Agrada-me segurança que me transmite.
É de frente para ela que passo cerca de oito horas todos os dias. E tanto que já passámos as duas!
Quando aqui me sentei pela primeira vez tinha pouco mais de vinte anos, vivia em casa dos meus pais, não tinha dinheiro, nem passaporte, nem carro, nem namorado.
Tinha o futuro inteiro.

Foi aqui que brindámos ao meu exame de condução, ao final do meu curso, ao meu primeiro carro.
Nesta mesa dormi pedaços de noites perdidas, chorei a morte de um amigo, o fim de um amor, a morte de um avô, de uma avó, de um par de colegas.

A esta mesa chegaram os meus primeiros e maravilhosos ramos de flores, o assumir do meu verdadeiro amor.
Aqui comemorei a minha primeira gravidez. Todas as nossas primeiras gravidezes. E segundas. E, em um ou dois casos, terceiras.
Nesta mesa dei murros. Pontapés. Chorei mais e outras vezes. Zanguei-me. Sorri. Ri-me desbragadamente. Cantei. Cantámos.
Nesta mesa pasmei com a queda das Torres, com o tsunami, Atocha, New Orleans... com a força monumental da natureza e do ódio dos homens pelos homens.
Aqui, mudei de casa – quatro vezes. Baptizei os meus filhos, tratei-lhes mazelas, falei com professores, médicos, pais de amigos, avós. Organizei festas, escrevi cartas.
Escutei novidades, dei novidades.
Discuti.
Abracei causas, abracei pessoas, fui solidária.
Assisti à primeira saída com uma sensação estranha.
E depois tantos saíram, outros entraram e mais saíram e cresci e compreendi que a vida continua para todos.
Aprendi a mexer num computador, a enviar e-mails, a usar a internet.
Aqui, celebrámos casamentos, reconciliações, outros casamentos.
Consolámos divórcios.
Assistimos a outras mudanças. Torci por todas, rejubilei pelas que tiveram sucesso, sofri por algumas que não.
Fiz amigos.
Iludi-me.
Desiludi-me. Desiludi.
Cresci. Crescemos.
Vimos os nossos filhos crescerem.
Aprendi a ser mais paciente, tolerante, a controlar-me, a não me levar muito a sério. A não levar a vida a sério. A não lamentar.
Testemunhei milagres. Comovi-me com a bondade, com a força do empenho, com a pujança do desejo.

A esta mesa assustei-me, preocupei-me, angustiei-me, recebi más notícias.
Celebrei, ri, diverti-me. Diverti.
Trabalhei muito.
Revoltei-me.
Recebi boas notícias. Vi receberem más. Animei.
Ajudei quem pude, como pude.
Aprendi muito do que sei. Cresci até ao que sou.

Gosto da minha mesa.
Não é apenas uma peça de mobiliário velha e nua. É um pedaço de mim. Trago-a entranhada na carne, diluída no sangue, impregnada na alma.
Já passaram quinze anos. São tantos como os que tenho de vida adulta.
É uma vida.

quarta-feira, janeiro 20, 2010

Juro...

... que se mais alguém, num raio de 75 quilómetros à minha volta, se atrever a "falar do tema", "discutir um tema", "abordar um tema" ou pior, disser a frase "tenho aqui um ou dois temas para ver contigo", eu passo-me dos carretos e enfio-lhe o indicador e o dedo médio da mão esquerda pelos olhos abaixo com tanta força que a sua cabeça vai ficar a parecer uma nuca com mamas.
Há tantas palavrinhas no Português. Tantas!

terça-feira, janeiro 19, 2010

De onde vem a sementinha, afinal?

No dia 27 de Dezembro nasceu uma filha à minha irmã Bárbara, o que faz com que me tenha nascido uma sobrinha, logo, uma prima aos meus filhos. Fomos então ao hospital visitá-las, como ditam as regras (apesar de eu ser contra).
No regresso a casa, como de costume, elevei bem alto o som dos Black Eyed Peas e cantava eu a plenos pulmões quando o ruído característico de uma discussão se elevou acima da minha extraordinária prestação musical. Baixei o som e tentei perceber o que se passava.
Vasco, 8 anos:
- Ó mãe, a Vera está a dizer que para nascerem bebés vai uma sementinha para dentro da barriga!
Vera, 5 anos:
- E vai, ó estúpido!
Vasco: - Vai nadaaaaa. A sementinha JÁ ESTÁ dentro da barriga.
Perdida de riso, dei razão à Vera, que a sementinha ia de facto para dentro da barriga, senão como é que as senhoras faziam, quando decidiam ter um bebé gritavam à sementinha para começar a crescer ou como é que era? Isto deve tê-lo feito pensar, mas ainda assim não fazia sentido para ele.
Vera, condescendente: - Vês? Eu disse-teeeee! Eu sei!
Vasco, sem ceder: - Vai como, ó parva? Engole-se a sementinha, por acaso?
Aí já estava eu quase a ter uma apoplexia de tanto conter o riso.
Vera, triunfante:
- Nããão. Abre-se a barriga, põe-se a sementinha e fecha-se a barriga. Burro!

Confusões

Aqui há uns tempos o Vasco comeu uma canja na escola, na qual tinham posto fígado. Ele detestou e comunicou-me que NUNCA MAIS comia canja na vida dele. Eu respondi que ele não tinha nada que se preocupar porque eu não costumo pôr visceras na comida, mas ele manteve-se irredutível.
Há uns dias a Teresa pediu-me para fazer canja para o jantar. Imediatamente o Vasco desatou a choramingar que não queria. Eu não me lembrava do fígado, então perguntei-lhe qual era o problema, ao que ele respondeu:
- Já disse que odeio testículos!

quinta-feira, janeiro 14, 2010

O Tuga

Todos os dias oiço comentários depreciativos ou jocosos em relação ao português típico: que é invejoso, mesquinho, forreta, imprestável, pouco civilizado, desonesto e mandrião.
O mais engraçado é que as pessoas referem-se ao Tuga como quem fala de uma espécie de animal selvagem ou praga abjecta que se reproduz alarvemente nos esgotos onde repousa depois dos raids selváticos que faz sobre a civilização, que somos nós.

Pois que atire a primeira pedra aquele que que nunca invejou a namorada do bonitão lá da escola, que nunca fingiu uma cólica para não ter de arrumar a cozinha, que nunca se abotoou com o troco errado na pastelaria lá do bairro, que nunca inventou uma avaria no carro para se baldar ao aniversário da sogra.
Que se levante de um salto aquele que nunca colou uma pastilha elástica debaixo da cadeira do escritório, que nunca gamou sombrinhas de chocolate na mercearia do Sr. Lino, que dá sempre prioridade aos peões nas passadeiras, que nunca experimentou vinte vezes seguidas a massa do bolo de chocolate com o mesmo dedo da mesma mão.

Pois eu digo, como maior orgulho: o Tuga tem características únicas e maravilhosas.
Vejamos:
O Tuga é solícito e adora ajudar o próximo:
Não haverá muitos países em que seja tão simples arranjar um emprego, quando se conhece bem o empregador. Ou em que os funcionários de uma empresa piquem sistemáticamente o ponto uns pelos outros tanto à entrada como à saída, ou em que se consiga uma consulta no médico com rapidez proporcional ao grau de amizade que se mantém com a senhora que faz as marcações.

O Tuga é poupadinho:
Aproveita quando vai jantar com os amigos para pedir o prato mais caro - a dividir por todos não pesa a ninguém; vai sempre à boleia com o vizinho, já que ele leva o carro todos os dias; come o ensopado de borrego até não restar nada e depois limpa o que fica no bigode com um bocado de pão, que depois também come; vai a doze supermercados diferentes para comprar o que está em promoção em cada um e ignora olímpicamente o que gasta em combustivel no caminho.

O Tuga tem a família sempre ao dispôr:
Tem um cunhado mecânico que poderia ter arranjado o carro praticamente de borla, se tivesse sabido a tempo; uma irmã que trabalha em casa de um actor e que poderia ter arranjado bilhetes para os U2, se tivesse sabido a tempo; um primo no ramo dos electrodomésticos que, se tivesse sabido, poderia ter arranjado um desconto simpático; uma nora hospedeira de terra que poderia ter conseguido um upgrade, se tivesse sabido a horas.

É claro que há sempre os retorcidos, os graxistas, os aldrabões. Mas esses são poucos e actuam áreas específicas como o voluntariado.
Afinal quem é que pode confiar numa pessoa que diáriamente se desloca a uma ou várias instituições degradadas e sem recursos, apenas com o objectivo de ajudar os que lá se encontram internados e sem pedir nada em troca?
Quem é que não desconfia de um vizinho que telefona religiosamente todos os dias a avisar que o cão anda a perseguir as galinhas dele mas ainda não o envenenou, nem lá foi espancar o dono, nem sequer pragueja para o aparelho?
Como é que é possível não suspeitarmos do carácter de bombeiros e gente dessa, que arrisca a própria vida para salvar a de outros que nem conhece, ainda lhe chamam incompetente e nem sequer é pago por isso?
O que vale é que são poucos.
Se eu fosse agora fazer uma música sobre isto seria assim:

“Imita os sacanas, é o que dá dinheiro
Foge do bonzinho, deve ser paneleiro
Ser decente não tráz vantagem real
Serás Tuga em Portugal
Ou serás português, mas no estrangeiro"

É, há mesmo gente que não interessa nada.

quarta-feira, janeiro 13, 2010

A sorte é um filme a cores, mas um filme sobre andebol

Hoje anda aí na página do “Tralhas da vida” um enorme sururu sobre a sorte e o que é necessário para a atrair como um íman. Para mim, antes de mais, vontade.
Concordo em absoluto com a Xica – “a sorte é um filme a cores”, mas um filme sobre andebol.
Eu explico: num jogo de andebol – ou em qualquer outro em que seja legal segurar o esférico - se estiver de costas para a bola não consigo apanhá-la (no meu caso nem que a coloquem com todo o cuidado directamente nas minhas mãos, mas isso é outra história), sendo que a bola tanto pode ser a sorte como o azar.
Se formos destemidos e lutarmos pela jogada pode ser que consigamos marcar golo, mas ao contrário, se nos colocarmos na defensiva, encolhidos, temerosos, o mais provável é levarmos com uma bolada bem assente no meio das sobrancelhas.
Portanto, recebemos aquilo que estamos de mão estendida para receber. Ora, se estivermos sempre de costas para o azar e de frente para a sorte, é natural que esta nos caia nas mãos mais frequentemente, apesar de não nos livrarmos de levar com uma bolada de azar na nuca, de vez e quando. Tudo depende da pontaria de quem atira e da nossa capacidade de nos esquivarmos.

sexta-feira, janeiro 08, 2010

Manifesto um bocadinho radical a bem do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Tenho imensas qualidades, aliás, toda eu sou práticamente só qualidades, como todos aqueles que me conhecem bem sabem, mas uma delas, talvez a mais vantajosa para a minha vida, é que sou muito pragmática. Vejo as coisas como são, tento agir em conformidade e geralmente não perco tempo a pensar no que deveriam ser.
Neste caso específico o que acontece exactamente é que há pessoas. E que essas pessoas gostam de outras pessoas. E têm relações entre si. E que essas relações são todas semelhantes na sua essência – os casais apaixonam-se, coabitam, zangam-se, reconciliam-se, sofrem e indignam-se como toda a gente. Sejam eles que tipo de casais forem – brancos, mistos, negros, velhos, internacionais, deficientes, homossexuais ou hetero.
Pessoalmente não sou fã do casamento enquanto instituição – pelo-me sinceramente pela festa, adoro tirar o mofo do trapinho, comer bem, beber melhor, rever amigos e dançar musicas foleiras até desabar exausta e com os pés encardidos – mas não acredito que o papel passado traga vantagens significativas a uma relação. Na verdade, as únicas que reconheço no casamento são as mesmíssimas que hoje os homossexuais pedem para si: direitos sucessórios, pensões, baixas de assistência à família, visitas hospitalares...
Bolas, se eu me apaixonar por outra mulher e decidirmos partilhar a nossa vida como casal, com amor e respeito uma pela outra, por que raio de carga de água é que não posso visitá-la no hospital se ela ficar doente, por que razão não poderá ela ficar com a casa que construímos e partilhamos durante a nossa vida, por que motivo não poderemos ser uma família?
Sim, porque se é certo que não acredito no casamento, não há nada em que acredite mais do que na família.
O Filipe e eu vivemos juntos há quase treze anos e o mais perto que estivemos de casar foi quando decidimos brincar às comédias românticas numa cerimónia bonita e sentimental que oferecemos a nós próprios em Las Vegas. E somos muito felizes. Temos três filhos lindos e vivemos em paz com a vida. Tanto eu como ele somos vidrados nas nossas próprias famílias e temos relações próximas com elas. Portanto, não será o matrimónio que que une ou desune as famílias, é o amor e o respeito que existe entre os seus elementos. E isso não há papel, contrato ou registo que ensine.
É por estes motivos, que, quando ponho os olhos e os ouvidos nos argumentos absolutamente arcaicos e hipócritas que por aí grassam, proferidos por personalidades que inclusivamente já foram infiéis no casamento ou já mantiveram ou mantéem relações homossexuais, só me apetece é ganir.
Quando leio pessoas cultas e pelas quais tenho respeito intelectual irem contra o casamento gay apoiadas em motivos conservadores que vão desde o conceito de casamento pressupôr a procriação ou o facto de casamento ser obrigatóriamente a união entre dois elementos de sexos diferentes, dá-me vómitos. Num mundo perfeito não haveria sofrimento, as famílias seriam todas funcionais e toda a gente teria emprego e viveria feliz e contente. Mas lá está, o Mundo está longe da perfeição só que é nele que temos de viver, apesar de tudo. Há muitos documentos que pregam a igualdade entre raças e credos, que obrigam a tratar os idosos com dignidade, que protegem as crianças acima de tudo. E todos os dias assistimos paulatinamente à violação repetida dessas normativas sem que se oiçam vozes discordantes, sem que alguém se insurja.
Eu vejo o que acontece e o que acontece, de facto, é que há tanto casamentos hetero sem descendência como relações informais com filhos; tanto casais casadíssimos que se agridem brutalmente como casais casadíssimos que se adoram durante uma vida. E todos estes podem escolher casar, não casar, divorciar-se ou continuar como lhes der mais jeito. Mas também há os casais de cidadãos homossexuais que se amam e respeitam. E que também gostavam de poder escolher. Mas não podem, devido a um mísero detalhe – não é por terem antecedentes criminosos agressivos, nem problemas psiquiátricos graves, nem por serem desonestos, manipuladores ou bêbados, esses casam à vontade – é pelo que gostam de fazer na intimidade. Dá vontade de rir.
Não gosto especialmente do Sócrates, que fique claro, mas há uma coisinha que eu gostava imenso que alguém me explicasse: se o casamento gay já estava nos planos do PS e o país deu a vitória a Sócrates, parece-me que não deveria haver discussão. Esperem! Parece que há cerca de 90.000 cidadãos que pretendem referendar essa lei pois entendem que têm de ter voto na matéria.
O aborto é uma questão de saúde pública, morrem pessoas, muitas pessoas por causa disso todos os anos. E referendou-se. E foi tudo para a praia fazendo com que a consulta não fosse vinculativa. E acabou por se referendar de novo, gastando duas vezes o dinheiro que tanta falta faz ao país.
O casamento homossexual não é uma questão de saúde pública, é uma questão de igualdade social.
Gostaria de fazer um pequeno questionário aos 90.000 cidadãos indignados:
1) Afinal o que é que têm a ver com isso?
2) Em que é que o casamento entre pessoas do mesmo sexo aquece ou arrefece a vossa vidinha?
3) Exactamente o que é que acham que vos dá o direito de opinar sobre a vida privada dos outros?
Tenho cá uma ideia. Se calhar devíamos começar a referendar outras coisas fracturantes: o castigo exemplar que merecem os maridos que agridem as mulheres, quem abandona os seus velhos ou os pais que ignoram ostensivamente os filhos, que não os ouvem e não os aceitam?
Deixem-se de falsos moralismos e hipócrisias antiquadas e preocupem-se antes com as vossas verdades e com a forma como vivem e tratam as vossas famílias. E deixem os outros viver a vida deles longe de preconceitos fúteis e sem sentido.
Tenho dito!

segunda-feira, dezembro 14, 2009

Actualidade

Um senhor chamado Massimo Tartaglia fez recentemente a um homem (apesar de não serem casados um com o outro) uma coisa que a maioria das mulheres tem vontade de fazer um pouco mais frequentemente do que de vez em quando aos maridos e que a esposa da vítima gostaria certamente de ter sido ela a fazer: afinfou com uma réplica da catedral de Milão nas ventas de Silvio Berlusconi e atirou-o para uma cama de hospital. Eu pessoalmente acho muito pesado... se calhar fazia a coisa mais maneirinha – uma Torre de Belém, por exemplo, deve ser mais fácil de manejar.

quarta-feira, novembro 18, 2009

Numa de aliviar a pressão...

...dos últimos dias, ontem à noite agarrei na minha mais velha e desandámos as duas para o CascaiShopping. Os pretextos eram dois: tirar fotocópias dos cadernos dela para levar a uma amiga que está com gripe e comprar comida para o cão.
Resolvida a primeira tarefa, abraçámos a segunda.
Se até ontem não existia para mim piores vendedores que os de timesharing, agora a pústula foi tomada por um novo tipo de larvas: os vendedores de comida para animais.
Foi assim:
Eu:
- Boa noite.
Empregado solícito:
- Boa noite.
Eu:
- Olhe, eu queria comprar comida para o meu cão e preciso de um conselho seu.
Empregado cagão, de sobrolho levantado:
- Sim?
Eu, receosa:
- A ração que nós costumamos dar ao cachorro é a Royal Canin, mas isso é o mesmo que alimentar o cão a bifes do lombo, por isso eu estava aqui a pensar se não haveria uma mais baratinha, mesmo que de qualidade ligeiramente inferior...
(tipo bife de perú, pensei eu)
Empregado empertigado:
- Ai, não. Quer dizer, ter temos, mas não são boas rações. Cá em Portugal só há cinco boas: Royal, Eukanuba... (e desata para lá a debitar mais umas marcas de que eu nunca ouvi falar).
Eu, ligeiramente irritada:
- Mas são más? Tipo causam distúrbios intestinais, fazem cair o pelo ou cegam os pobres bichos?
Empregado empertigado, em tom condescendente:
- Não, nada disso, minha senhora. Mas sabe, eu trato a minha cadela como se fosse minha filha...
(se há coisa que eu não aguento nesta vida é que me tratem por “minha senhora”)
Eu, um bocado mais irritada:
- Sabe, é que eu filhos tenho três e não os alimento a caviar e champanhe francês, mas não tarda nada não tenho dinheiro nem para lhes dar ossos moídos. Repare que eu não pretendo dar ao cachorro lixo nem restos de animais em decomposição, só queria saber se há alguma ração mais em conta, é que ele só tem ainda seis meses e já gastamos com a comidinha dele quase o mesmo que em escolas.
Empregado ainda mais condescendente:
- Tudo bem, arranjo-lhe uma mais barata. Mas está a ver aquela cadela ali?
(e aponta para um hipopótamo dourado a ressonar no meio da loja)
Se não fossem as rações boas que sempre lhe dei, ela hoje já não se mexia, coitadinha.
(e toca de chamar a morsa com nome de mulher, para perto de nós, o que causou logo um chilique na Teresa, que morre de medo até do Migas)
Empregado condescendente, muito técnico e ligeiramente irritado comigo, continua:
- Se fosse um cão pequeno, vá, até aos dez quilos, ainda podia optar por um outro alimento, mas os cães grandes - já percebi que o vosso é grande, não é? - precisam de reforçar as articulações para poderem permanecer no seio da família mais tempo e com mais qualidade de vida. Além de que os cães de grande dimensão têm muita tendência para problemas no estômago...
Eu, fula da vida, a ponto de lhe enfiar uma coleira estranguladora pela goela abaixo:
- Ok pronto, ganhou. Dê-me lá a Royal de 15 quilos, por favor.
Paguei, agarrei na saca e atravessei o shopping de uma ponta à outra com aquilo ao lombo, em cinco segundos, com a Teresa quase a correr atrás de mim.
Sou fraca, por isso garanto que para a próxima nem passo perto dele e da sua lojinha pretenciosa. Vou direitinha ao Continente.

Os dez mandamentos

Este ano a Teresa passou para o 5º e teve que mudar de escola. Após meses de intensa angústia, aturada pesquisa, contas minuciosas e estatísticas várias sobre o efeito que a decisão teria sobre a qualidade de vida de todos os elementos desta família, optámos por um colégio com qualidade de ensino reconhecida, não demasiado caro e perto da escola onde andam os outros dois.
Como o mundo não é um local perfeito, alguém se lembrou de criar a palavrinha "mas". E o mas desta situação é que o colégio é religioso.
Não é que tenha alguma coisa contra, mas tanto o Filipe como eu somos agnósticos convictos, o que apenas tornou a nossa decisão um bocadinho mais demorada. Concluímos então que mal não faria e até podia ser que lhe fizesse bem. E ela lá anda feliz e contente.
Aqui há dias, ao jantar, a Teresa mencionou que ia ter teste de Moral - pronto, têm destas coisas - que precisava de decorar os dez mandamentos e se, por acaso nós não os sabíamos.
Não querendo passar por ignorantes, lá começámos os dois: não matarás, não roubarás, não cobiçarás a mulher do próximo.
E ela, mas isso são só três!
Como nenhum de nós se lembrava de mais mandamentos, começamos a inventar: não farás mal aos animais, não poluirás as águas e as terras... e assim por diante. Não faltarás ao respeito a ninguém, não deixarás comida no prato. Apesar do ridículo, até achávamos que estes eram uns bons mandamentos e mantivemos o nosso ar compenetrado de pais responsáveis e sérios. Intenção que ela deitou por terra quando se levantou da mesa e, com um suspiro disse:
-Não inventarás os dez mandamentos...

terça-feira, novembro 17, 2009

A gripe e eu (um bocadinho longo, mas foram muitos dias)

Estas últimas semanas não têm sido fáceis: na 3ª feira dia 03 de Novembro, a Teresa foi para a escola de manhã, óptima. Ao fim do dia, quando fui buscá-la, já trazia tudo aquilo a que tinha direito - febre, dores de cabeça, dores no corpo, tosse e dores de garganta. Liguei imediatamente para a tal linha, mas nicles. Falei então para o pediatra que me disse logo de caras que se tratava de um quadro da famosa gripe e para nos prepararmos que íamos ser todos corridos. Explicou-me os sinais de alarme e o que é que eu devia fazer no caso de observar algum deles. E pronto, fiquei de sentinela, passei a dormir só com metade do corpo.
Na noite de quinta - feira o Filipe não se sentia bem, estava engripado, dizia. Nessa mesma noite a Teresa sentiu dificuldade em respirar e acabei a madrugada no hospital com ela, onde o médico também foi de opinião que era um quadro clássico de gripe A H1N1, com direito a papel passado e tudo.
Na sexta, o Filipe ainda não estava bem e ficou de molho, no Sábado também. Mas no Domingo estava melhor e, como tinha o trabalho todo de pantanas decidiu ir trabalhar na segunda- feira. Mas antes disso o Vasco tinha dentista e eu lá fui com ele.
A meio da consulta recebo uma mensagem a dizer para estar atenta quando voltasse para casa, que o cão tinha fugido e sem coleira. Ah, grande Migas, saudades, hein?
No regresso não o vi, portanto esperei que ele voltasse. Mas ele não voltou.
À tarde apareceu cá uma amiga minha para beber um cafézinho na cozinha (uma visita de duas que tive), nada de muito chegado aos doentes. Cinco minutos depois de sair liga-me a dizer que o cão estava a causar desacatos no meio da rua. E lá fui eu disparada, de trela em riste para o meter no carro, tarefa que só consegui com a preciosa ajuda dela - o nosso bebé já passa dos 30 quilos.
Nesse mesm dia, já eu cantava de galo, que afinal éramos todos de pedra e que a coisa afinal não era assim tão contagiosa, quando o Vasco apareceu com um quadro igualzinho. Deitei mãos à cabeça – é que ficar uma semana inteira fechada em casa com uma criança doente não é fácil, agora duas semanas... não devo nada a ninguém, bolas!
Ao Vasco a gripe apanhou mais os intestinos e o estômago e menos a garganta, o que deu uma certa graça à minha segunda semana, para variar.
Estava tudo bem, ele quase recuperado, apesar de tanto ele como a Teresa continuarem a tossir, e eu já cantava de galo outra vez. A Verinha é que é mesmo de ferro. Qual quê? Sábado de manhã, trungas 39,1. Até ferveu, literalmente.
Hoje é terça, dia 17 e o Filipe já anda há dois dias a queixar-se que está pior outra vez. Decidiu ir ao médico, que o mandou fazer a análise. Tem suspeitas.
Afinal parece que a única de pedra sou eu...
No meio disto fala-se da gripe e parece que estamos a falar de lepra daquela que faz cair bocados. Toda a gente foge a sete pés como se o simples facto de eu respirar o mesmo ar lhes fosse queimar os olhos ou os pulmões ou fazer o sangue ficar duro nas veias.
À falta de visitas ou melhor entretém, temos essa maravilhosa e por vezes subvalorizada peça de mobiliário que é a televisão. Posso dizer sem ponta de orgulho, que neste momento sinto-me apta a responder a qualquer pergunta que me façam sobre a programação da porra do Disney Channel. Qualquer pergunta, sem medo.
Como se chama a saloia da meia irmã mais velha do Derek? Casey.
Quantos são os bimbalhões dos Jonas Brothers? Três na banda mais um pequeno.
A que dia da semana dá a trampa do episódio novo dos Feiticeiros de Waverly Place? Segundas.
Como se chama a burra da melhor amiga da Hannah Montana? Lilly.
E quantos videoclips barulhentos e pirosos passam nessa porcaria desse canal todos os dias? Cinquenta e dois mil trezentos e oitenta e seis, porra!
Vêem? Sei tudo. E estou um bocadinho... nervosa?
Agora cheguei ao ponto de, em vez de vomitar a Raven para cima deles, enviar mails ao meu filho, eu semi catatónica no meu portátil, ele amoroso no seu Magalhães, os dois sentados no mesmo sofá, enquanto a Vera pinta o tapete da sala com giz.
Era isso ou eu esgazeava os olhos e ia nua, de gabardina aberta, com umas cuecas do Filipe enfiadas na cabeça, gritar obscenidades para a porta do supermercado.
Toda a gente nos avisa da gripe, mas caramba, ninguém nos prepara para isto! Não prepara mesmo.

terça-feira, novembro 03, 2009

Lógica infantil...

Ontem o Filipe regressou da Suiça onde esteve por uns intermináveis dois dias.
A caminho do aeroporto, onde fomos fazer-lhe a surpresa de o resgatar à corrupta fila dos táxis, munidos de um grande cartaz que a Teresinha passou metade da tarde a fazer - e que por acaso ele foi o único passageiro a sair por aquela porta que não o viu, mas pronto - dizia eu, a caminho do aeroporto passámos perto do Hospital do SAMS. Eu comentei com eles que tinha sido ali mesmo que a Vera tinha nascido. Logo o Vasco perguntou: e dói muito, mãe, deitar o bebé?
Claro que, entre gargalhadas, lhe disse que sim, mas que não se diz "deitar o bebé".
Ele ficou com aquela carinha típica, de olhos redondos espantados e perguntou à Teresa baixinho:
- É pôr o bebé que se diz?

terça-feira, outubro 20, 2009

Este é diferente...

Geralmente passo ao lado daquelas análises retrospectivas que fazemos no Ano Novo, no aniversário da relação ou no nosso próprio. Perco mais tempo a combinar a celebração do que a pensar no que não fiz e devia ter feito, no que não fiz e ainda bem, no que fiz e me arrependo e no que fiz e não devia ter feito. De uma forma muito pragmática penso sempre que não vale a pena perder tempo com o que não posso mudar.
Mas há aqui uma excepção – os aniversários dos meus filhos. De cada vez que um deles celebra a passagem de mais um ano, dou comigo a pensar. Assomam-me sempre à memória recordações intensas como o dia em que soube que estava grávida, as ecografias mais decisivas, as reacções de amigos e familiares, a velocidade com que o tempo passa.
Mas é claro que, as mais vívidas, gravadas em todo o meu ser com a pujança do primeiro dia e que voltam sempre como boomerangs anuais, são as recordações dos partos – as horas que os antecederam, as nossas expectativas nas vésperas, os preparativos, a ansiedade, as inevitáveis dores, as juras de amor eterno, o momento absolutamente mágico e irrepetível que é dar à luz.
Às vezes perguntam-me se não baralho as memórias. Impossível – eles são três e cada gravidez foi única e repleta de momentos próprios, cada parto decorreu de sua forma e cada um deles nasceu em seu sítio, cada um assistido por um médico, eu assistida por três diferentes. O único elemento comum é que, em todos eles, estávamos lá nós. Os dois. Não era eu acompanhada pelo Filipe, era eu e o Filipe – um ser apenas.

Penso muitas vezes, e não apenas nestes dias, na sorte que temos. Tanto ele como eu vimos de famílias sudáveis – fisica e mentalmente – tivemos uma vida boa, bem recheada, que nos preparou. Temos uma relação linda, da qual nasceram três filhos maravilhosos, cheios de saúde, de vida, de alegria, de imaginação. Temos uma vida mesmo boa. Tão boa que por vezes quase sufoco de medo. É por isso que nunca esqueço a importância de aproveitar cada nanosegundo das nossas existências. Aquilo que já vivemos, já vivemos. Está ganho.
Desde criança que adoro fazer anos. Sempre vivi o dia do meu aniversário de uma forma muito especial. Da mesma forma, tenho feito muita questão de proporcionar aos meus filhos dias igualmente especiais, em que cada um deles se sinta o único – quem tem vários filhos saberá bem do que falo, da dificuldade de fazer alguém sentir-se único no seio de uma família grande, principalmente quando se trabalha fora. Às vezes não conseguimos tão bem, suponho, mas a tentativa também conta.
Hoje é um desses dias. A Verinha faz cinco anos e vai ter um dia especial, pensado só para ela. Está feliz como só uma criança feliz consegue estar – absoluta e completamente.
E eu estou feliz por poder proporcionar-lhe isso.
Parabéns filha!
E parabéns Teresinha e Vasquinho, por todos os aniversários que passaram antes de eu ter facebook.
Parabéns para ti, Filipe – o melhor Pai que qualquer criança poderia desejar, o marido que todos os homens deviam ser.
Adoro-vos, família, desde a alma até ao infinito.

segunda-feira, outubro 12, 2009

Ele há coisas...

Sou uma pessoa dada a compulsões. Não é que seja obcessiva compulsiva, mas que anda por aqui um genezito vagabundo, lá isso anda.
Esta queda para o exagero é um tudo nada limitativa para mim e imensamente exasperante para quem me rodeia, mas admitamos – às vezes é útil.
Tudo o que decido fazer faço como se disso dependesse a continuação da vida humana no planeta– se estou a ler um livro que me agrada não falo com ninguém, não vejo televisão, chego mesmo a recusar convites - só páro quando chego ao fim. Se me disponho a arrumar um roupeiro não como nem cozinho para ninguém enquanto não voltar a colocar tudo no sítio. Se decido fazer tricot, começo duas ou três peças e fico como um robot até as acabar a todas.
Foi o que me aconteceu recentemente. Só que, deve ser do caruncho, de tanto tricotar, de tanto a lã roçar no meu delicado pescoço, arranjei uma alergia que me ia enlouquecendo. Andei assim uns quatro ou cinco dias, queixosa e entristecida por não poder tricotar a meu bel prazer. Ao cabo deste tempo as borbulhas do pescoço começaram a alastrar pela cabeça toda quase fazendo com que aqui a Martinha, perdesse o juízo.
Na sexta feira foi o aniversário do meu Pai e, apesar do incómodo lá me arrastei para a celebração. Foi uma daquelas reuniões magnas em que nos amontoámos todos: os sete filhos, genros, nora, netas e neto e alguns amigos. Tudo muito cheio de abracinhos e carinhos, que há tanto que não estamos assim todos juntos e é tão bom, que saudades, que saudades!
No Sábado passei a tarde com duas amigas e correspondente descendência. Entre um cigarro e uma língua de gato lá me viram a borbulhagem e emitiram a sua douta opinião – que devia ser uma alergia
À noite, ainda muito incomodada, com o pescoço todo assanhado e a cabeça com o aspecto de ter sido atacada por um enxame de abelhas raínhas com problemas hormonais, lá fui, qual esposa extremosa e dedicada, acompanhar o meu marido a um concerto de música clássica. Posso dizer, sem receio de exagerar, que fui para a Gulbenkian com a mesma vontade com que os meus filhos comem esparregado, e com a mesma cara,. Só que eu não cuspo.
De volta a casa encontramos a baby sitter enfiada na casa de banho com a Teresa. A primeira coisa que me veio à cabeça foi que ela tinha vomitado, mas a Mafalda esclareceu-me imediatamente: a Teresinha estava carregadinha de piolhos, coitadinha.
Dado o avançado da hora, já nada podia fazer, assim meti-a na cama e acordei no Domingo quase de madrugada, para ir à farmácia comprar o desparasitante – que nojo!
Aqui posso acrescentar que nunca um cabrão de um piolho tinha tido a ousadia de transpôr as portas da minha casa e eu vivia radiante e (confesso) um nadinha orgulhosa com isso – como se quem tem piolhos fossem só os porcos, mesmo sabendo que o piolhame até se dá melhor em cabeças lavadinhas.
Arranquei de casa a toda a brida, rumo à Farmácia das Fontaínhas onde entrei afogueada. O Filipe diz que eu sou um bocado histérica, eu reconheço. E falo alto e sou “espaçosa”. E pedi à senhora depressa, depressa, asinha, asinha, cinco embalagens de Nix. Quando ela voltou lembrei-me de lhe mostrar o meu pescoço, para que me indicasse um anti-prurido qualquer.
A farmacêutica olhou, olhou, e depois disse-me no mesmo tom em que me tinha ouvido:
- A senhora tem é piolhos, ponha o Nix também.
E assim se passa uma vergonha memorável.

quarta-feira, outubro 07, 2009

Para contar uma tenho de contar outra antes.

Aqui há atrasado, num jantar muito agradável em casa de uns amigos que vivem emigrados “lá na França”, um amigo deles contou uma história:
Ao que parece, nos anos de juventude, ele e uns “colegas” foram passar uns dias ao Norte e alugaram uma casinha a uma velhota. Quando lá chegaram e a senhora constatou que afinal os marmanjos eram bem mais do que o combinado e achou por bem pedir uns cobres extra aos rapazes.
Eles é que não acharam piada nenhuma ao atrevimento da senhora. Pois se estavam lisos e até tinham arranjado mais uns amigalhaços para aliviar a despesa, que sentido fazia esse disparate? Portanto, fizeram-lhe um manguito e mandaram-na passear. A senhora, nortenha e zangada derivado à afronta dos fedelhos, toca de lhes berrar aos ouvidos, num português cristalino como água de nascente - passo a citar – “Ide-vos foder, seus coninhas!”.

Reparem bem na sofisticação, na subtileza quase poética, na complexidade técnica do imperativo plural colocado na segunda pessoa, com o intuito de reforçar o sentido da ordem ao aumentar a distância imaginária entre emissor e receptor...
Não sei se foi do vinho do jantar (que naquela casa se bebe bem, bebe), se o que foi, mas adorei a história e, logo no momento decidi incluír a expressão no meu vastíssimo léxico. É claro que o decoro me impede de andar por aí a lançar petardos deste gabarito, pelo que tenho passado este último ano e meio a soltar inocentes “ide-vos”, a torto e a direito – motivo de risota constante, primeiro quando eu explicava o significado da expressão, depois porque já muita gente a conhece e acabou por se transformar numa espécie de private joke.

Só que às vezes, no meio destas brincadeiritas pueris, nós olvidamos pequenos detalhes, tais como a existência dos nossos amantíssimos descendentes e sua consequente e muito contemporânea omnipresença nas horas em que estamos assim mais por casa.
Esse detalhe teve como resultado que, no passado Domingo, quando eu disse aos meus piquenos que ia dar o Ídolos, o Vasquinho ficou muito contente – demasiado contente – com o título do programa. Que era muito giro, muito engraçado e ria, ria. E eu, nada, incrédula a avaliar-lhe o estado da psique, uma pontinha de febre, talvez.
De súbito, encarou-me com os olhos espantados, aqueles que ele põe sempre que a dúvida o toma de assalto, e acrescentou – É ide-vos para onde, mãe?

sexta-feira, outubro 02, 2009

Faz agora três anos...

... que o meu Pai decidiu celebrar as suas primeiras sessenta primaveras com uma festa na sua casa do Alentejo, onde reuniria (e reuniu) aqueles, que ao longo da vida realmente tocaram o seu coração.
Igual a si próprio, não se preocupou mínimamente com as susceptibilidades que tal decisão poderia ferir - apenas resolveu fazer assim. E quem não fosse convidado é porque não estava incluído no rol dos Eleitos, logo, se ficasse aborrecido, que metesse uma rolha.
Quando tivemos de decidir que presente oferecer, nós, os filhos mais velhos, demos voltas e voltas às nossas quase todas loiras cabecinhas. É que o senhor trata de adquirir rigorosamente tudo aquilo que quer, no preciso momento em que o desejo se manifesta. Isso é óptimo para ele, que vive contente, mas dificulta sobremaneira a vida ao resto da população.
Após aturado brainstorming concluímos que, se ele fazia questão de carregar de simbolismo o momento da sua passagem a sexagenário, então seria esse o nosso caminho: fazer um DVD com fotografias, para projectar depois da ceia.
Felizmente, a nossa mãe é uma pessoa extraordinária, pois compilou os momentos mais marcantes da vida dos quatro filhos em albuns ordenados cronológicamente, que foi oferecendo a cada um à medida que voávamos para fora do ninho. Ainda por cima, mesmo estando eles divorciados há quase vinte anos, a senhora conservou todos os albuns relativos aos anos de casamento. E como o nosso Pai casou segunda vez, já tem carradas de fotos dos anos mais recentes.
Resumindo, entrámos em pânico. Eram milhares e milhares de fotografias para seleccionar e o tempo, para não variar, muito escasso.
Passamos rapidamente à definição de critérios: apesar de não parecer nada, o Dr. é um piegas e chora com relativa facilidade. Por isso mesmo, o que nós pretendíamos era obter um momento simbólico, mas que não fosse deprimente nem constrangedor para ninguém.
Vai daí, decidimos reduzir ao mínimo indispensável as fotos onde aparecesse a nossa mãe e aquelas onde estivessem pessoas já falecidas – como o Avô e a Tia Teresa.
Primeira triagem feita e continuavam a ser centenas.
Passamos ao segundo critério: só seriam seleccionadas fotos onde ele estivesse presente e, quanto mais caricata, ridicula e divertida fosse a foto, melhor. Afinal trata-se de um homem que adora divertir-se e estar rodeado de pessoas animadas, pelo que essa tarefa foi a mais simples para nós.
Triagem concluída, passamos à digitalização – ah, como os nossos filhos terão a vida facilitada!
Já que não tinha participado muito nessa fase, ofereci-me para, com a mana mais velha, produzir efectivamente, o dito DVD.
Na antevéspera da festa fomos para minha casa e estivemos entre as 21H e as 05 da manhã, as duas sentadas à frente de um computador a tirar, pôr, acrescentar, cortar, alterar, juntar e ampliar fotografias. No final, já meio vesgas, lembrámos-nos que ainda tínhamos de escolher uma música. O voto foi unânime: tinha de ser o My Way.
Quem conheça o meu Pai saberá que digo a verdade – foi para ele e não para Frank Sinatra, que Paul Anka escreveu aquela letra. Sem sombra de dúvidas.
Pesquisa feita, lá gamámos a versão da net.
Ainda hoje, quando me lembro dessa madrugada, me comovo. Tenho a impressão que terá sido o maior pranto que partilhei com alguém na minha vida. O DVD estava suave, romântico, uma retrospectiva muito positiva de uma vida que foi, e felizmente ainda é, uma vida cheia. Absolutamente perfeito.
Portanto – lixo.
Era tudo o que nós não queríamos. Intensidade dramática aos pontapés, emoções à flor da pele. Quase uma despedida.
Pior – se nós as duas completamente sóbrias, tínhamos ficado naquele pranto, imagine-se a reacção do grupo depois de um jantar bem ensopado, como acontece nestas alturas. Fora de questão.
Mais uma hora e acabamos por escolher o “Simply the Best” da Tina Turner. Coadunava-se bem com a ideia que o meu Pai tem de si próprio – um ego maior que Júpiter - e era uma música animada, que até dava para dançar. Nada de lamechices nem choradeiras. Festas querem-se alegres, não é?
Então deviam ter visto o resultado.
Nem quero imaginar se tivesse ficado o My Way.

quarta-feira, setembro 30, 2009

Coisas de gaja

Hoje apareceu aqui uma coleguinha de trabalho que foi mãe há dois mesitos. O bebé é um amor e dei por mim a sentir uma espécie de saudade. Mas depois ele começou a chorar e a bolsar e as recordações emergiram em catadupa, fazendo-me de imediato pensar na vida boa que tenho.
Na realidade, estou numa fase maravilhosa da minha existência enquanto profissional da maternidade. As minhas crianças já estão bastante crescidas, o que quer dizer que começam a dispôr de alguma... (deixem-me cá saborear esta palavra linda) au-to-no-mi-a.
Apenas quem já passou por isto poderá compreender uma mãe que se encontre no estado em que eu estou – o puro deleite, o prazer sublime, o absoluto êxtase que se apodera da pessoa no dia em que deixa de fazer tudo para começar a mandar fazer algumas coisas.
Neste momento amo algumas frases, que me soam a música tocada por anjos quando se soltam da minha exausta faringe e, mais maravilhoso de tudo, sem eu me mexer.
Na realidade, é mesmo possível dar-se ordens em todos os tipos de frase da nossa língua. Temos o clássico imperativo parental: vão lavar os dentes e o seu negativo: não sais de casa vestida assim, mas podemos sempre utilizar um agradável interrogativo como: já vestiram os pijamas? ou mesmo um sonso exclamativo do género: que linda, já sabe limpar o rabinho!
Haverá poesia mais bela?
Haverá momento mais formidável na vida de uma mãe que aquele em que ela, terminando a esmerada refeição acabadinha de confeccionar pelo marido, senta-se no sofá novo do IKEA e solta displicentemente: quando acabarem ponham a loiça na máquina, e eles põem mesmo?
Isto já para não falar no jeito que dá. Nestes dias tenho posto em prática algumas regras de responsabilização dos mais velhos, do género irem ao Polisuper comprar pão enquanto eu fico estacionada em segunda fila ou espreitarem ali na papelaria se a Gramática encomendada já chegou. Coisas simples que além de os ajudarem a exprimir-se e a orientar-se, ainda os obrigam a conferir os trocos. Um jeitão, mesmo.

Bom, lá estou eu, mas a certa altura a coleguinha dobrou-se para retirar o petiz no carrinho afim de proceder à amamentação do mesmo, deixando ao apreço de todos os embasbacados presentes os extraordinários atributos com que se encontra dotada nesta fase da sua vida.
E aí é que eu percebi o sentimento que me tinha toldado a razão minutos antes. Era saudade sim, mas de me fazer acompanhar por um decote daqueles.