quinta-feira, abril 01, 2010

Dia das Mentiras ou O mundo poderia ser um sitio muito melhor para viver!

Há várias explicações para a existência do Dia das Mentiras. A mais palusível diz que a brincadeira surgiu em França onde, desde o inicio do século XVI, se festejava o Ano Novo no dia 25 de Março, por coíncidir com a chegada da Primavera. As festas duravam uma semana e terminavam no dia 01 de Abril, data oficial de entrada no novo ano.
Depois da adopção do calendário gregoriano, decretou-se que o ano novo seria comemorado no primeiro de Janeiro. Alguns franceses não gramaram da mudança e continuaram a seguir o calendário antigo, festejando o Ano Novo a 1 de Abril. Grupos de gozadores passaram então a ridicularizá-los, a enviar presentes esquisitos e convites para festas que não existiam. A tradição evoluiu até ao que vemos hoje.

Eu acho uma anormalidade. Não faz sentido nenhum um dia das petas, ninguém acredita em nada do que lhe dizem, anda meio mundo a desconfiar da outra metade e as conversas tornam-se completamente repetitivas.
Por exemplo, no ano passado (ou há dois anos?), aproveitando o facto de o primo Tiago ir ficar em casa sozinho com a empregada, o Vasquinho pediu para lá ir passar o dia com ele. A meio do dia liga-me a cunhada ligeiramente enervada a dizer que tinha recebido um telefonema relatando que os príncipes estavam civilizadamente a jogar à pedrada no jardim – nada mais normal - quando um calhauzito mais atrevidote passou a vedação por cima e assentou mesmo no vidro da frente de um jipe que passava, partindo-o. Claro que eu não acreditei, óbvio. E foi o cabo dos trabalhos para ela me convencer: É tanga, dizia eu, não é nada, dizia ela, e eu dizia mas achas que sou parva? E ela respondia que sim, que achava, mas que era verdade na mesma. E eu dahhh e ela, é mesmo verdade, e a dona do carro está fula.
Aparentemente a conversa dela com a empregada deve ter sido semelhante, mas sem a parte do estás parva. Mesmo assim, no caminho para casa dela, acalentei secretamente o desejo de ter sido redondamente enganada.
Sem sorte.
Portanto, o dia das Mentiras podia acabar.
Útil, útil seria fazer aqui umas alteraçõezitas, que muito significariam para todas nós:
Facto: as mulheres são mais que os homens, pelo que é crucial que andem felizes ou a vida deles pode ser um inferno.
Facto: É absolutamente indiferente em que dia começa o ano. Desde que toda a gente saiba em que dia é, qualquer um é bom.
Sugestão: (vejam bem isto que é lindo!) Passava-se o Reveillon de novo para 01 de Abril, acabando-se com isto das petas e deixava-se o 01 de Janeiro livre para uma iniciativa muito mais importante: o Dia Internacional da Luta Contra a Celulite. Isso sim, seria uma iniciativa louvável. Em vez de perder tempo e gastar neurónios que tanta falta lhe faz com mentiras que toda a gente descobre em menos de nada, a Comunicação Social passaria a divulgar na mesma proporção dicas para o extermínio de celulites e todos os tipos de gorduras localizadas, mas com a devida antecedência relativamente ao Verão (daí o dia 01 de Janeiro). Mais, os conselhos dados seriam de aplicação imediata e milagrosa nas nossas ancas, nádegas e barrigas, mediante a mera verbalização de uma palavra passe que nesse dia chegava a cada mulher através de sms para o seu telemóvel. Se isto acontecesse, se num dia apenas todas as asneiras e exageros cometidos durante um ano desaparecessem milagrosamente para darem lugar a massa muscular firme e delgada, se não tivéssemos de nos mergulhar em cremes, loções, massagens, comprimidos e auto-bronzeadores durante metade do ano, tenho para mim que poderiam acabar com os dias da Mãe, da Mulher e dos aniversários de todas nós, que ninguém se ralava muito. E ainda podiam fazer uma ligação de TGV Luz-Alvalade, patrulhar a foz do Tejo com submarinos alemães ou oferecer bilhetes de avião no metro em hora de ponta que, poucas de nós se incomodariam. Só de imaginar a vida perfeita, a autoestima perfeita, o Verão perfeito...
Sim, o Mundo podia ser um sitio muito melhor para viver!

quinta-feira, março 18, 2010

O homem é um planeta estranho...

Conheço um rapaz que num dia normal, há uns tempos, foi pôr gasolina. Quando arrancou da bomba reparou na rapariga da caixa que lhe fazia sinalefas e acenos profusos. Não sei se estava ao telemóvel, aquela excrescência que tem no ouvido, mas é provável que sim, por isso ignorou a senhora e partiu a toda a brida, também provavelmente por estar atrasado para qualquer compromisso do qual dependia, se não a sobrevivência da espécie humana, pelo menos a dele próprio. No arranque sentiu alguma resistência do carro. Acelerou. A resistência continuava, por isso acelerou mais. Mais resistência e mais uma patada no acelerador e assim sucessivamente até que conseguiu arrancar. Parou uns metros à frente quando a dita rapariga da caixa se atravessou no caminho dele para o ajudar a tirar os restos da mangueira que ainda permaneciam dentro do depósito.

Uma certa sexta-feira, a mulher deste rapaz chegou a casa depois de um dia de trabalho especialmente cansativo e tinha os filhos prontos para sair, de mala aviada para dormirem fora. Ele confessou-lhe que tinha preparado um programa surpresa, de jantar romântico seguido de namoro raro e merecido. Jantaram num sitio chique, namoraram muito e foram dormir. Às cinco da madrugada ele acorda-a e diz-lhe ao ouvido: faz uma mala com roupa quentinha. Vamos para o Algarve. Felizes meteram-se no carro, mais a dormir que acordados, e ela – loira - nem reparou que seguiam para Norte. Só quando chegaram ao aeroporto é que ela percebeu que não iam para o Algarve, mas teve de esperar pelo check in para descobrir que o destino afinal era Londres.

Esta semana a sobrinha mais velha fez anos. Como é tradição, nos aniversários há sempre um jantar em casa dessa irmã dele. Este não foi excepção. De manhã a esposa zelosa alertou-o para o facto. Ele respondeu que sim. A meio do dia falaram e ela tornou a lembrá-lo de que o jantar era em Oeiras, em casa da irmã dele. Tornou a responder que sim. Às 20H ele ligou à mulher, estavam os quatro (mãe galinha e três pintos) a caminho, na autoestrada. Quando a filha lhe disse onde estavam ele perguntou: na autoestrada porquê? Foram visitar a bivó?


Esse mesmo rapaz, planeta estranho que é, costuma passar férias no Algarve com a família. Geralmente é a mulher que trata dos preparativos para a viagem – malas, comidas, material de praia, etc.
Um destes verões, à chegada ao local das férias, ele foi fazer umas comprinhas e, ao regressar, a mulher verificou que ele, cheio de iniciativa, tinha decidido adquirir uma embalagem de protector solar para as crianças. Ela observou que não era necessário, que tinha levado duas embalagens das grandes e que seria melhor ele devolvê-lo antes de se perder o dinheiro. Ele concordou e depositou a dita embalagem em cima do televisor, local onde permaneceu durante uma semana inteira até a mulher lhe chamar a atenção outra vez. Logo ali ele decidiu que era esse o momento e zarpou para a mercearia.
Regressou alguns minutos depois com o seu ar mais natural e perguntou à mulher: quem é o maior anormal que conheces? Ao que ela respondeu com toda a lógica: imagino que sejas tu, mas porquê? E ele mostra-lhe, retirando de trás das costas, um saco de compras. E lá dentro o creme. O mesmo creme. Ela, incrédula, tentava perceber o nexo daquilo até que ele explicou: pois ele tinha entrado no supermercado, agarrado num cesto, colocado lá dentro o creme, um pão de forma e um saquinho de pêras. No fim pagou tudo na caixa e saiu.

E é por estas e por outras do género que a mulher o adora. :-)

segunda-feira, março 08, 2010

Dia da Mulher - A verdadeira história

Era uma vez uma família paleolítica feliz.
O homem saía feliz de manhã para a caça enquanto a feliz mulher tratava da gruta com esmero. Ambos tinham barba e nenhum usava saltos altos.
Os filhos também não davam trabalho – raramente sobreviviam ao parto, e quando isso acontecia e conseguiam chegar a uma idade em que já poderiam gozar de alguma autonomia sem terem sido comidos por uma leoa, tinham tempo livre. Não havia escolas, por isso não havia más notas, nem reuniões de pais, nem bullying, nem birras por causa dos Vans, da PSP, do portátil ou do MP3.
Não havia natação, karaté, Hip Hop, francês, futebol nem patinagem, donde as crianças tinham disponibilidade total para brincarem sossegadas com os crocodilos da vizinhança.
Um belo dia, o homem constipou-se e ficou de cama. A mulher, para poder alimentar os filhos nesse dia, decidiu sair e tentar a sorte na caça. Não se safou porque não tinha musculos tão desenvolvidos como ele, mas usou a cabeça voltou com um belo par de robalos que deram um excelente petisco. Como ele continuava de estaleiro, com o nariz a pingar e a gemer por causa dos 37,2 de febre, ela tratou da gruta e dos meninos com o esmero de sempre.
Ora o rapaz, que era esperto, decidiu que o peixinho era bom mas ele não se ajeitava nessa arte, então seria ela a tratar do assunto uma vez por semana.
A moça, que não devia muito à sagacidade, concordou sem pedir nada em troca. E uma vez na semana lá ia ela à pesca, tratava dos meninos e da gruta, enquanto ele descansava da caça sentado à sombra de um pré-histórico chaparro.
As ampulhetas foram enchendo com a areia dos tempos mas as cabeças das mulheres só começaram a encher de esperteza mais tarde.
Assim, elas descobriram a forma de terem uma vida boa e sem complicações: como já não se caçava, elas pensaram que seria uma boa ideia dividirem tarefas. Eles ganhariam moedas e elas tratariam de comprar os mantimentos. Mas, espertas, convenceram-nos de que tinham sido eles a ter a ideia. Assim, eles saíam todos contentes de manhã para se matarem a arranjar as ditas moedas e elas iam calmamente com as amigas às compras, ao chá, ter com o amante, passear com as crianças. E voltaram a ser todos felizes – eles achavam que mandavam em casa, elas mandavam mesmo neles.
Eis senão quando apareceu uma gaja que queria mesmo era ser homem, mas não sabia que podia mudar. Vai daí, armou-se em revolucionária, e saiu por aí toda nua, montada num cavalo, depois de ter queimado a roupa interior, só porque decidiu que queria poder trabalhar com homens, em coisas de homens.
É evidente que as pessoas normais não lhe ligaram pevide, mas ali perto passavam umas senhoras muito femininas, bem postas na vida mas pouco inteligentes que acharam amoroso poderem ser professoras ou floristas. Então começaram a lutar por uma vida fora de casa, mas sempre impecavelmente arranjadas, penteadas, depiladas (deve ter sido ideia da revolucionária que queria andar sem roupa interior para massacrar as gajas), de saltos altos e luvas pelo cotovelo.
Ao inicio eles acharam uma modernice, não queriam esses avanços e fizeram-lhes a vida negra. Mas aos poucos compreenderam as maravilhas destas inovações e andavam cada vez mais satisfeitos: com outro salário o peso da responsabilidade de ter uma família a cargo era cada vez menor e o tempo livre cada vez maior. Por outro lado elas, acostumadas desde a gruta a terem de tomar conta de tudo, continuaram a fazê-lo. E bem.
De tão habituadas que e estavam ao cansaço deles, nem notaram que andavam elas cada vez mais de rastos, até a situação se tornar insustentável. Finalmente reconheceram que precisavam de ajuda e foram falar com os homens.
Foi quando inventaram a empregada doméstica.
Mas nem toda a gente podia pagar uma empregada, por isso a maior parte das mulheres continuava a esfalfar-se a trabalhar fora de casa e depois, dentro. Enquanto isso, os homens faziam cada vez menos e abusavam cada vez mais da paciência delas. De tal maneira que, a dada altura descobriram o televisor e aprenderam uma nova actividade que podiam desenvolver sentados no sofá, mas na qual tinham de utilizar ambas as mãos, o que era excelente para parecerem ocupados. A actividade chamava-se “comandates” – uma mão no comando e a outra nos ... bolsos.

Um belo dia 08 de Março, Lorena, uma bela morena, chegou do serviço mais cansada que o normal. Pela milésima vez, ao entrar em casa deu de caras com David, o marido bêbado, enrolado com a vizinha do sexto.
Cansada de tanta afronta, com a fúria a transbordar por ela fora, foi à cozinha, pegou na primeira faca que encontrou, voltou à sala e com um golpe apenas, tirou as manias ao marido infiel.
Em pânico, ele pegou naquilo e correu para o hospital onde conseguiu que lhe voltassem a implantar o dito, mesmo que com um resultado bastante acanhado.
Ao saberem do sucedido, as vizinhas agarraram numa grande pedra branca e esculpiram uma estátua de um homem enorme e muito bem constituído mas com um sexo muito pequenino, que colocaram lá na vila, no largo da igreja para que nunca mais nenhum homem se lembrasse de faltar ao respeito à sua mulher.
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quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Se eu fosse inventora...

...inventava um relógio que esticasse os dias, uma máquina de repetir as frases que mais digo e um despertador que nos escolhesse a roupa de manhã.
Inventava um secador de cabelo sem fios, uma máquina de estender a roupa e outra que fosse lá engomá-la. E já agora, que a deixasse arrumada.
Inventava saltos altos confortáveis, uma dieta instantânea e uma forma de impedir que a gravidade se sentisse no meu corpo.
Acabava com a morte de crianças, com a demência dos velhos, com o egoísmo dos homens.
Inventava uma máquina de arrumar a casa, de lavar o carro, de mudar fraldas, de curar ressacas.
Uma outra que acabasse com as intrigas, com as mentiras, com as maldades e com as invejas.
Inventava uma forma de acabar com a miséria, com a falta de dignidade, com as catástrofes, com os acidentes, com a violência, com a traição.
Inventava a fórmula do optimismo, da esperança, do riso, do sono e do amor.
Inventava pílulas, bebidas e cigarros que não matassem.
Inventava a maneira de proteger os meus filhos sem ser chata, de gostar do meu homem sem ser ciumenta, de andar de carro sem gastar gasolina, de gastar dinheiro sem ficar pobre.
Inventava uma máquina de alimentação saudável, outra para reciclar o lixo e uma de substituir lâmpadas.
Inventava a forma de acabar com a discriminação, com o terrorismo, com a corrupção.
Inventava a fórmula da sinceridade, da tolerância, da paciência, da simpatia. Da beleza, da generosidade, da alegria e da felicidade.

Se eu fosse inventora inventava tantas coisas... mas como não sou inventei uma solução: agarrar na minha vida e prestar muita atenção ao que é bom, não dar grande importância ao que é menos bom e passar rápidamente ao lado do que é mau.

Bora todos?

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Ele há gajas e gajas. E gajos.

Quem me conhece sabe que sou mulher. E até bastante. Mas nunca fui “gaja”, isto no sentido de ter uma amiga em cada dia, segredar, galinhar, fofocar, dizer ou fazer maldades fosse a quem fosse.
Sempre fui um bocado básica: gosto muito de champanhe mas adoro cerveja, sinto-me tão bem num restaurante de luxo como numa tasca, sou capaz de comer e arrotar como um pedreiro e de dizer umas piadas mais brejeiras do que seria conveniente para uma dama, em qualquer sitio onde esteja.
A uma certa altura da vida, a adolescência, tanto os rapazes como as raparigas assumem identidades muito marcadas, com principios e critérios muito fundamentalistas e obtusos, até. Eu nunca fui assim. Na infância passei de longe mais tempo a ler e a fugir dos meus irmãos do que a confraternizar com malta da minha idade, o que me tornou um bocado bicho do mato. Não gostava nem tinha jeito para jogar à bola nem para andar de bicicleta, por isso, fui crescendo e desenvolvendo dons de conversadora competente.
Mais tarde, depois de tirar os óculos e o aparelho dos dentes e aprender a socializar e a vestir-me decentemente, nunca me importei se transpirava loucamente por dançar até ao amanhecer e cedo compreendi que estar confortável é muito mais divertido que estar gira.
Talvez por isso, porque não me identificava de todo com o espírito de “gaja”, em criança e até na adolescência sempre tive melhores e mais francas relações com rapazes do que com raparigas. Não que não tenha ou tivesse tido amigas – claro que tive e tenho – mas como me sentia sempre meio desintegrada nesses grupos muito “femininos”, as minhas amigas sempre foram poucochinhas quando comparadas com o que era normal na minha idade.
Acontece que, talvez por serem poucas e por eu achar que devia preservá-las e ser como elas, eu dedicava a essas amigas uma amizade muito focada e sentia-me verdadeiramente com qualquer desapreço demonstrado – leia-se qualquer insignificante falta de atenção ou segredinho perpetrado nas minhas barbas. É possivel que fosse por eu não saber lidar com essas nuances complexas e intrincadas, das quais vivia completamente alheada, mas a verdade é que sempre fui uma amiga absolutamente disponível, incapaz de magoar deliberadamente outra pessoa, de dirigir ataques cirurgicos, daqueles desferidos mesmo para magoar; de gozar, fazer pouco ou humilhar alguém só porque sim. Talvez devido a essa espécie de credulidade, tinha a paranóia de que um dia iam gozar comigo e eu não ia perceber nada mas, por outro lado acreditava que toda a gente me dizia sempre a verdade. Em suma, era um bocado totó. Mas nem por isso fui infeliz, antes pelo contrário.
Entretanto cresci e continuei fiel a mim mesma, se bem que um bocadinho mais... preparada. Se nunca saí com grupos de amigas para o engate, nunca conspirei com umas contra outras, nunca fui muito fã de dormir fora de casa e sempre detestei da mesma forma emprestar roupa e usar roupa emprestada - mas emprestava, se uma amiga pedisse; também acho que aprendi a topar uma mentira, a dirigir um ataque, a defender-me de uma má intenção e a não me meter na vida dos outros.
Esta é uma postura que mantenho tanto na minha vida privada como na profissional.
Na minha empresa todos se riem porque eu nunca sei nada das fofocas do momento, estou sempre a leste das conversas que acontecem à minha volta e passo o tempo a pensar em comida. Também se riem porque venho trabalhar de cabelo molhado e faço a maquilhagem no carro, muitas vezes já no parque de estacionamento, à vista de todos.
Num grupo de trabalho composto por cinco homens e algumas vinte e cinco mulheres, os homens – todos casados - estão claramente a “mulherizar-se”: falam de cremes e cortes de cabelo, colocam verniz para não roerem as unhas, trocam receitas e vestem e calçam peças no mínimo duvidosas às sextas – feiras. E eu não faço mais nada a não ser gozar com eles e questionar a sua masculinidade (pura gozação, sem preconceito nenhum, que eu cá não sou pessoa de discriminar ninguém).
De tal forma que, aqui há dias, sentei-me no meu lugar, ao computador, e reparei que estava tudo a sussurrar. Sem perceber o que se passava fingi que não tinha dado por nada, até que recebi um email de uma das minhas coleguinhas a dizer para eu olhar para trás. E ao olhar, vi um cartaz que dizia o seguinte:
“Aqui é o lugar d’o Elias – O último dos machos.

terça-feira, fevereiro 09, 2010

Faz hoje ao meio-dia exactamente nove anos que entrei no Hospital Particular de Lisboa com um atraso de três horas relativamente à hora que tinha combinado com a Drª Cristina. Logo ali levei um raspanete da enfermeira de serviço, uma mulher gorda e eficiente que mais tarde soube ser a planetáriamente reconhecida Capitolina – é que estava gente a ligar para lá há duas horas para saber se o meu bebé já tinha nascido e eu sem aparecer e ela não era secretária de ninguém..
Na iminência de me debulhar em lágrimas, lá consegui articular duas palavritas - desculpei-me com o trânsito, uma manhã dificil, sabe como é.
Mas a realidade foi bastante diferente. Se é verdade que eu tinha combinado com a Drª às nove, também é verdade que não preguei olho a noite inteira e bem antes da hora marcada já estava em Lisboa.
Mas eu estava tão nervosa, tão apavorada e as minhas pernas tão paralisadas que se recusavam terminantemente a obedecer aos desmandos do meu marido que, sentado comigo numa mesa do café em frente do hospital, tentava a todo o custo convencer-me a acabar com o suplício antes de enlouquecermos os dois.
Finalmente, entre náuseas, cambaleios e baixas de tensão arterial lá me decidi. Seria tudo tão mais fácil se fosse espontâneo! Naquele dia jurei a mim mesma que, mesmo que viesse a ter mais dezoito filhos, não tornava a manipular a natureza a meu jeito, só para não calhar a meio da noite. Que se lixasse! Seria quando fosse, quando doesse ou alagasse, que quanto a isso já não podemos fazer nada, nem fugir, nem adiar, nem sequer pensar nisso.
Às 13,30H colocaram-me o soro e eu estendi-me a ler a Caras para enganar a fome que me consumia, enlouquecia e outras palavras acabadas em ia.
Como o processo não estava assim tão rápido, uma meia hora depois da epidural a Drª decidiu ir lanchar, noticia que me trouxe de forma irresponsável e leviana, por volta das 17.30H.
É que, se em vez de pernas eu não tivesse ali adormecidos dois hipopótamos, eu garanto que lhe tinha saltado aos fagotes. O estado apoplético em que me encontrava desde a véspera tínha-me reduzido o estômago ao tamanho do buraco de uma agulha, fazendo com que não tivesse lá entrado praticamente nada em cerca de vinte e quatro horas. Mas, a partir do momento em que me tinham posto o soro, eu tinha relaxado. E com o relaxamento veio uma fome absurda, dificil de controlar, provocadora de lágrimas e discussões e alterações da minha personalidade já de si bastante hormonal.

Passados uns dez minutos da saída da médica senti “aquilo”. “Aquela” vontade. A minha mãe estava comigo e eu desatei aos gritos que fosse chamar o Filipe, que a criança nascia, depressa, depressa!
A minha mãe já tinha reparado no meu estado psicótico e desvalorizava, atribuíndo o meu nervosismo à fome – vá lá, filha, tem calma. Ainda falta, não ouviste a médica? Vou ver se podes beber um pouco de água.
E eu que não, que não, que a médica não sabia nada, que não queria água porra nenhuma, que chamasse a parteira e rápido ou seria mesmo ela a fazer o parto.
Mais para me acalmar do que por convicção, lá foi a minha mãe chamar a parteira. No caminho cruzou-se com o Filipe e achou que talvez fosse bom ele ir até lá acalmar-me também.

Passados quinze minutos, às 17.55H de Sexta –Feira, dia 09 de Fevereiro de 2001, com trinta e oito semanas de gestação, 3,050Kg de peso e cinquenta centímetros de comprimento, sem esforço nenhum, nasceu o Vasquinho. Trazia o cabelo em pé, a goela afiada e um conjunto de balde e esfregona para oferecer à mana que o esperava ansiosa.
Ao parto assistiu o Pai. A médica não.
Lembro-me tão bem. Está tudo tão claro na minha memória - cada emoção, cada arrepio, cada lágrima, cada sorriso. O alívio.
Parece mesmo que foi ontem.

Hoje vai ser um daqueles dias especiais em que a única coisa que o preocupa é verificar se cada pessoa que se chegue perto dele também vem devidamente munida de um presente.
Acho que sim, é uma boa preocupação.
Parabéns filho! Aproveita bem.

terça-feira, fevereiro 02, 2010

De como eu não fui presa (mas se tivesse sido eu compreendia)

Primeiro tenho de confessar um pecado:
Eu falo ao telemóvel enquanto conduzo. E como não oiço nada com o auricular, não o uso. E o alta voz é uma trampa, por isso também não uso. Falo e falo com o telefone colado ao ouvido. Pronto. Já disse.
Sei que está errado, é proibido e é perigoso, mas em abono próprio posso dizer que há coisas piores – não bebo de manhã e fico quase sempre parada enquanto me maquilho. Vá, também não falo muito, é só quando é preciso.
Aqui há tempos encontrei o meu marido à entrada da A5. Ele fez-me sinal para ir atrás dele. Já tínhamos combinado que um dia ele me ensinava um atalho complicado para fugir à rolha ali a seguir às portagens de Carcavelos.
Saímos em Oeiras e uns metrinhos à frente já eu não sabia dele.
Como não queria voltar para trás, decidi ligar-lhe a pedir orientações. Dá-me ideia que para os morcegos poderem ser cegos tiveram de roubar o sentido de orientação a algumas pessoas. Eu fui uma das gamadas. Explicar- me uma direcção em português é o mesmo que fazê-lo em mandarim ou aramaico. Digo que sim, agradeço e fico na mesma.
Parei o carro para procurar o telemóvel na minha mochila do Sport Billy, mas ela estava no chão e tirei o cinto para a apanhar. Como estava com pressa fiz a chamada e arranquei ao mesmo tempo.
O Filipe, que sabe dos meus problemas, atendeu logo e estava a esforçar-se para me orientar. Como se a minha incapacidade crónica de ir daqui para ali não bastasse, havia uma sirene em cima dos meus ouvidos que não me deixava ouvir nada do que ele dizia. Mas era tal a barulheira que decidi olhar pelo espelho para ver onde era a crise. Nessa altura oiço ao altifalante “ por favor encoste a viatura”.
Entrei em pânico. Atirei o telemóvel de pantanas, parei a "viatura" e arvorei o meu semblante mais cândido.
O guarda era uma espécie de Dunga misturado com Bruno Nogueira. Parecia simpático.
- Bom dia, minha senhora ( Ai como detesto que me tratem por “minha senhora”!)
- Bom dia, senhor guarda. (sorriso cintilante)
- Sabe porque é que a mandei parar não sabe?
- Pois, senhor guarda, era porque eu vinha ao telefone, imagino. Mas é que eu estava só a avisar na minha empresa que estou atrasada. Já viu este trânsito?
- Pois, mas reparou que está sem cinto, ou não?
- Ah, estou? É que parei aqui atrás e tinha mesmo acabado de arrancar quando os senhores apareceram.
- Hum...documentos – seus e da viatura.
Drama. Não fazia ideia nenhuma.
- Senhor guarda, deixe ver... sabe o carro é da empresa, não sei bem onde guardam essas coisas...
- Enquanto falava atirei para o chão as três toneladas de papéis e lixo que ocupavam o porta-luvas. No fundo estava uma pastinha verde. Entreguei-a ao guarda. Ele consultou-a e depois observou enfadado que aquilo era o livro de registo das revisões.
Eu desculpei-me:
- Sabe, senhor guarda, se me disser qual o aspecto daquilo que procuro é mais fácil...
O guarda devia estar a achar que eu era estranha e decidiu mudar a estratégia.
- Então dê-me antes os seus documentos, por favor. BI e carta de condução.
Aposto que explicou quais eram os meus documentos para evitar que eu fosse outra vez procurar no porta-luvas.
Para chegar a essa secção tive de escavar outra vez na mochila do Sport Billy. Encontrar a carteira foi complicado mas lá apareceu. Vasculhei todo o interior e, no meio de uma miríade de talões da Zara, da lavandaria e da farmácia lá encontrei o que ele pedia. Mas o senhor estava num dia atento e observou que as moradas dos documentos não condiziam.
Lá fiz o meu ar mais espantado, que não sabia, que era um horror, que ia mudar amanhã.
Entretanto o colega, mais velho, gorducho e sorridente, tinha aparecido e estava a observar atentamente o vidro da frente. Aproximou-se.
- Selo.
- Selo?
- Sim, selo. É obrigatório.
- Ah, o selo! Eu sei. (risinho nervoso). É que o carro é da minha empresa e não me devem ter entregue isso, tenho de ver. Não sou grande coisa com papeladas, sabe?
- E, já agora, o dístico do seguro, também não está aqui.
Parece-me que ele também já estava a ficar um bocadinho nervoso.
- Mas olhe, que o carro tem seguro pode ter a certeza, pois se é de serviço..., disse eu.
- Sim, acredito, mas onde está ele?
- Deve estar aqui na minha carteira.
Desatei outra vez a escarafunchar na carteira até que descobri um papel verde dobrado em quatro. Triunfante entreguei-lho.
- Ufa!Tome, aqui está.
Ele desdobra o papel, olha para mim como se eu fosse azul e tivesse os olhos pendurados nas orelhas e diz:
- Menina, isto é uma multa.
Aí fiquei mesmo sem saber o que fazer. Esgotaram-se-me os sorrisos cristalinos e cintilantes e o arzinho ingénuo ou apatetado, ou lá o que era.
- Vou presa?
- Devia.
E sorriu.
- Vá-se lá embora e tenha juizo.
E foi assim que não fui presa, mas se tivesse sido tinha compreendido.

sexta-feira, janeiro 29, 2010

Marketing ou estupidez?

Mesmo antes de sequer se saber como se iria chamar, já o novo gadget da Apple andava, pelas mais diversas razões, a ser mastigado e, em alguns casos cuspido, pelas bocas do mundo.

Inicialmente falou-se em iTablet ou iSlate, nomes engraçados mas poucochinhos para Steve Jobs e sus muchachos (não há mulheres no Marketing da Apple, parece-me). Então, após aturado brainstorming, supõe-se, a Apple decidiu que tinham de arranjar um nome original mas facilmente identificável com a imagem corporate da empresa, que simultâneamente fosse um tiro certeiro num público ainda relativamente pouco dado a estas inovações - as mulheres. Vai daí, pensaram, investigaram... o que é que as mulheres modernas conhecem, identificam, valorizam... não é política, não é automóveis, não é educação, deixa lá ver... isso mesmo, higiene íntima! iPad. Perfeito.
É claro que, escassos minutos após a apresentação nos media internacionais, já havia enorme sururu e o tão aguardado gadget já respondia descontraídamente pelo nome de iTampon. Faz sentido... maçã - pecado original - castigo bíblico.
Genial!
Cá para mim o a malta do Marketing está para a Apple como o Mário Soares para a ópera no S.Carlos: vão lá mas só dormem.

Se houvesse alguém competente naquela empresa, os senhores ter-se-iam lembrado do nome certo para este produto:
Supostamente o iPad é um mini computador com telemóvel e mp3, que também dá para ver filmes, ler livros e o diabo a sete. Até pode ser giro de usar, mas é mais uma coisa para ter: não substitui um PC porque lhe faltam algumas funcionalidades. Não substitui um telemóvel, pois não tem câmara. Não se substiui a um televisor e, muito menos a um livro e não tem a qualidade de uma aparelhagem de som.
Agora vejam bem: o que é que é vendido como substituto de tachos, panelas, varinha mágica, balança e o diabo a sete, mas obriga-nos a ter uma cozinha toda equipada na mesma, com forno e fritadeira e máquina de lavar loiça e frigorífico? Qual é o gadget que existe em quase todas as casas, que as mulheres conhecem, valorizam e identificam, mas neste caso, os homens também usam e adoram?
Exacto.
O iPad devia chamar-se iBimby.

Não me ouvem...

terça-feira, janeiro 26, 2010

Carta aberta

Exmos. Senhores Aprovadores de Anúncios de Rádio,
Começo por me desculpar pelo atrevimento da reclamação, pois que sou completamente leiga em matéria de eficácia publicitária (como aliás, em quase todas as restantes matérias, mas tenho gosto por opinar).
É como mãe, consumidora de rádio e de seguros que aqui me apresento hoje, com o fito de tecer um breve comentário a uma coisa que já me anda a irritar há uns dias: falo de um anúncio radiofónico que pretende vender um produto qualquer do ACP que dá direito a médico em casa por pouquíssimo dinheiro.
Para quem ainda não teve o desprazer, aqui vai uma breve súmula (passo a redundância):
Uma senhora meio tontinha nota num repente que o seu menino, uma criança presume-se, arde pura e simplesmente em febre. E que faz ela? Chama uma ambulância? Mete-o na banheira? Dá-lhe uma aspirina? Não, nada disso. Pede-lhe ajuda. Ao próprio, sim. Mas como quem fala com um bebé de meses.
Vai daí ele ajuda solícito, despachado e bem disposto, oferecendo informação sobre o produto em questão, atitude que a mãezinha agradece prontamente mas num tom que mais parece um engate.

Meus senhores, isto está tudo mal.Eu cá não sei se têm filhos a caminhar para a adolescência, mas se têm e falam com eles como a senhora do anúncio, deixem-me dizer-lhes que estão tramados - antes que dêem conta vão ter os petizes a mexer os vossos miolos com uma batedeira eléctrica sem que isso vos retire o sorriso apatetado da cara.Por outro lado, se não têm filhos, também me parece que não conhecem ninguém que os tenha. Nem passam por nenhuma criança no caminho para o emprego, no metro, no supermercado ou na pastelaria lá do bairro. E digo isto porque, se tivessem dispendido algum do vosso precioso tempo na observação do comportamento de um desses modernos bebés de boxers QuickSilver, saberiam tão bem como eu que:
a) uma mãe que se dirige ao filho com a frase “Pedrinho, estás a arder em febre o que é que eu hei-de fazer?” na minha modesta opinião, dá nas subtâncias ilícitas. E bem.
Cá para nós, pessoas normais, mesmo que a mãe esteja praticamente em apoplexia nervosa, se tiver que pedir ajuda não será concerteza ao filho delirante de febre.
Pessoal, há pediatras e convém que os filhos tenham um que os acompanhe. Se este não estiver disponível podem ligar à linha Saúde 24. Ao marido, vá, ou às vossas próprias mães. Liguem a uma amiga, tia, irmã. Liguem à vizinha do lado se tiver que ser, agora, pedir ajuda à própria criança que “arde em febre” é um bocado puxado.
No caso de não se tratar de uma criança, mas de um adolescente (no anúncio isso não fica claro – o rapaz é muito versado nas coisas da vida, mas a mãe trata-o como a um recém nascido), passa-se o mesmo, com a diferença apenas de que falar com ele como se fosse tonto ainda é mais ridículo.
b) Mesmo que num arremedo de ficção científica isso acontecesse, uma criança a arder em febre geralmente não responde de forma enérgica, como quem é apanhado no caminho entre uma partida de ténis e uma ida ao cinema: “ chama o médico do ACP”. Resposta assim talvez indicasse uma de duas situações: ou o menino já se tinha abarbatado aos mesmos comprimidos que deixaram a mãe naquele estado ou, mais realísticamente, não estava nada a arder – era só uma febrita - e a mãe é uma saloia exagerada.
c) No instante em que a supostamente moribunda criança profere as palavras milagrosas “chama o médico do ACP”, a mãezinha vê-se a braços com uma não menos divina avalancha de memória – num repente, ele é número de telefone, ele é preço, ele é horários, ele é tudo a resvalar por ela acima.
d) Ainda assim, o pior de tudo é o final, quando a mãe se dirige ao filho dengosa e titubeante como quem se insinua ao borracho de vinte e cinco aninhos que acabou de lhe mudar o pneu na berma da estrada:“Obrigada Pedrinho!”
Blharrrrghhhh!

Meus senhores, eu já disse e não sei como se faz um anúncio que funcione, mas uma coisa sei: assim não é.Diz-me o bom senso que se eu quiser fazer um bom spot de rádio, não devo fazer desfilar algumas frases desconchavadas sobre um produto, proferidas por um adulto que não acredita nele e por uma criança que nem sabe de que é que está a falar.
(impressão minha ou isto é que é o significado de demagogia?)

E pronto. Agora fico à espera da notificação do tribunal.

Nota: não garanto que as frases do anúncio sejam exactamente estas, hoje em dia a minha memória está tão boa como os meus conhecimentos técnicos sobre publicidade.

sexta-feira, janeiro 22, 2010

A nós, os putos que somos. Tchim, tchim.

Lembro-me de a minha mãe fazer trinta e dois anos. Foi a Milão com o meu pai e trouxe de lá o rosto perfeito imortalizado num quadro a carvão que ainda deve iluminar alguma parede lá de casa.
Lembro-me de o meu pai fazer quarenta anos. Alguém lhe ofereceu um porta-chaves que dizia “life beggins at 40” e a minha mãe ficou fula.
Lembro-me de achar que eles eram velhos. Quando falavam de um amigo ou conhecido "ainda novo", com quarenta e poucos, lembro-me que ria e gozava – novo?
Lembro-me de eles falarem de coisas e sitios que já não existiam e de eu achar isso deprimente.

E agora, tenho trinta e seis, muitos dos meus amigos já têm ou fazem em breve quarenta. E acho que somos giros, divertidos e, principalmente, acho que somos novos.

Atentemos por breves instantes nas mudanças que se operaram, não em nós, mas na nossa terra, nos últimos anos:

A A5, os Mac Donald’s, as Zaras, o Cascais Shopping, o Cascais Villa, o BCP, o Miragem, as Sacolinhas, a Loja das Meias, a Marina, os Cachorros, a Casa da Guia, a Telepizza – que hoje são marcos da nossa terra – nada disso existia quando éramos putos.

Não existia Lidl, nem Minipreço, nem Continente, nem Pingo Doce. Só Pão de Açucar e era um.
Não existiam 10 salas Lusomundo, mais 5 Castello Lopes, mais 5 Cinemacity.
Os Bombeiros eram no centro de Cascais.
A Farmácia Cordeiro era pequena.
O Tribunal era ao pé da estação.
O Guincho não tinha ninguém.
Tínhamos nós os Croissants.
As ruas eram sujas.

Mesmo assim existia o Juliana’s, o Palm Beach, o Yuppie, o News.
A Praça de Toiros, o liceu da Pampilheira, o Dramático, o Ok, o Estoril Sol.
O Oxford e o Miramar.

Cascais era verde e azul e areia e o único transito que tinha era o das nossas bicicletas e carrinhos de rolamentos.
E tinha estradas esburacadas. E crianças à solta. E pessoas a passear a cavalo.
E não tinha quinhentos condomínios nem milhões de habitantes e toda a gente se conhecia.

Agora sim, vê-se: a nossa terra mudou, e nós com ela. Afinal os anos passaram mesmo, nós é que não demos por isso.

Se eu disser a alguém desta geração:
“ Entras em Cascais pelo Estoril Sol, nas traseiras da estação, antes do parque de estacionamento viras à esquerda para o Hotel Nau, aí viras à direita para a Cidabela, passas o cruzamento em frente e começas a subir a rua da Nova Rede, passas à frente do Oxford e viras logo ali à direita, para o ginásio dos Columbófilos”.
Quem é que não está a ver per-fei-ta-men-te o caminho?

Exacto. Vou ali num instante meter a cabeça fora da janela e fechá-la com força. Talvez demore um bocadinho, não estranhem.

quinta-feira, janeiro 21, 2010

Chego ao meu trabalho quase sempre depois da hora. Venho bem disposta, quase como quem volta para casa. Bebo um café, às vezes fumo um cigarro e subo até ao segundo andar.
Atravesso o piso inteiro até ao meu lugar, no cantinho, mesmo ao lado da janela. É lá que está a minha mesa cinzenta, familiar e desarrumada.
No caminho cumprimento toda a gente, quase todos pelo nome (tempos houve em que eram mesmo todos).
Sento-me e num gesto automático mexo o rato para acordar o monitor. Sei que o computador estará ligado, temos um acordo que nos poupa cinco minutos todas as manhãs – o primeiro a chegar liga tudo. Nunca fui eu.

Gosto da minha mesa. Agrada-me segurança que me transmite.
É de frente para ela que passo cerca de oito horas todos os dias. E tanto que já passámos as duas!
Quando aqui me sentei pela primeira vez tinha pouco mais de vinte anos, vivia em casa dos meus pais, não tinha dinheiro, nem passaporte, nem carro, nem namorado.
Tinha o futuro inteiro.

Foi aqui que brindámos ao meu exame de condução, ao final do meu curso, ao meu primeiro carro.
Nesta mesa dormi pedaços de noites perdidas, chorei a morte de um amigo, o fim de um amor, a morte de um avô, de uma avó, de um par de colegas.

A esta mesa chegaram os meus primeiros e maravilhosos ramos de flores, o assumir do meu verdadeiro amor.
Aqui comemorei a minha primeira gravidez. Todas as nossas primeiras gravidezes. E segundas. E, em um ou dois casos, terceiras.
Nesta mesa dei murros. Pontapés. Chorei mais e outras vezes. Zanguei-me. Sorri. Ri-me desbragadamente. Cantei. Cantámos.
Nesta mesa pasmei com a queda das Torres, com o tsunami, Atocha, New Orleans... com a força monumental da natureza e do ódio dos homens pelos homens.
Aqui, mudei de casa – quatro vezes. Baptizei os meus filhos, tratei-lhes mazelas, falei com professores, médicos, pais de amigos, avós. Organizei festas, escrevi cartas.
Escutei novidades, dei novidades.
Discuti.
Abracei causas, abracei pessoas, fui solidária.
Assisti à primeira saída com uma sensação estranha.
E depois tantos saíram, outros entraram e mais saíram e cresci e compreendi que a vida continua para todos.
Aprendi a mexer num computador, a enviar e-mails, a usar a internet.
Aqui, celebrámos casamentos, reconciliações, outros casamentos.
Consolámos divórcios.
Assistimos a outras mudanças. Torci por todas, rejubilei pelas que tiveram sucesso, sofri por algumas que não.
Fiz amigos.
Iludi-me.
Desiludi-me. Desiludi.
Cresci. Crescemos.
Vimos os nossos filhos crescerem.
Aprendi a ser mais paciente, tolerante, a controlar-me, a não me levar muito a sério. A não levar a vida a sério. A não lamentar.
Testemunhei milagres. Comovi-me com a bondade, com a força do empenho, com a pujança do desejo.

A esta mesa assustei-me, preocupei-me, angustiei-me, recebi más notícias.
Celebrei, ri, diverti-me. Diverti.
Trabalhei muito.
Revoltei-me.
Recebi boas notícias. Vi receberem más. Animei.
Ajudei quem pude, como pude.
Aprendi muito do que sei. Cresci até ao que sou.

Gosto da minha mesa.
Não é apenas uma peça de mobiliário velha e nua. É um pedaço de mim. Trago-a entranhada na carne, diluída no sangue, impregnada na alma.
Já passaram quinze anos. São tantos como os que tenho de vida adulta.
É uma vida.

quarta-feira, janeiro 20, 2010

Juro...

... que se mais alguém, num raio de 75 quilómetros à minha volta, se atrever a "falar do tema", "discutir um tema", "abordar um tema" ou pior, disser a frase "tenho aqui um ou dois temas para ver contigo", eu passo-me dos carretos e enfio-lhe o indicador e o dedo médio da mão esquerda pelos olhos abaixo com tanta força que a sua cabeça vai ficar a parecer uma nuca com mamas.
Há tantas palavrinhas no Português. Tantas!

terça-feira, janeiro 19, 2010

De onde vem a sementinha, afinal?

No dia 27 de Dezembro nasceu uma filha à minha irmã Bárbara, o que faz com que me tenha nascido uma sobrinha, logo, uma prima aos meus filhos. Fomos então ao hospital visitá-las, como ditam as regras (apesar de eu ser contra).
No regresso a casa, como de costume, elevei bem alto o som dos Black Eyed Peas e cantava eu a plenos pulmões quando o ruído característico de uma discussão se elevou acima da minha extraordinária prestação musical. Baixei o som e tentei perceber o que se passava.
Vasco, 8 anos:
- Ó mãe, a Vera está a dizer que para nascerem bebés vai uma sementinha para dentro da barriga!
Vera, 5 anos:
- E vai, ó estúpido!
Vasco: - Vai nadaaaaa. A sementinha JÁ ESTÁ dentro da barriga.
Perdida de riso, dei razão à Vera, que a sementinha ia de facto para dentro da barriga, senão como é que as senhoras faziam, quando decidiam ter um bebé gritavam à sementinha para começar a crescer ou como é que era? Isto deve tê-lo feito pensar, mas ainda assim não fazia sentido para ele.
Vera, condescendente: - Vês? Eu disse-teeeee! Eu sei!
Vasco, sem ceder: - Vai como, ó parva? Engole-se a sementinha, por acaso?
Aí já estava eu quase a ter uma apoplexia de tanto conter o riso.
Vera, triunfante:
- Nããão. Abre-se a barriga, põe-se a sementinha e fecha-se a barriga. Burro!

Confusões

Aqui há uns tempos o Vasco comeu uma canja na escola, na qual tinham posto fígado. Ele detestou e comunicou-me que NUNCA MAIS comia canja na vida dele. Eu respondi que ele não tinha nada que se preocupar porque eu não costumo pôr visceras na comida, mas ele manteve-se irredutível.
Há uns dias a Teresa pediu-me para fazer canja para o jantar. Imediatamente o Vasco desatou a choramingar que não queria. Eu não me lembrava do fígado, então perguntei-lhe qual era o problema, ao que ele respondeu:
- Já disse que odeio testículos!

quinta-feira, janeiro 14, 2010

O Tuga

Todos os dias oiço comentários depreciativos ou jocosos em relação ao português típico: que é invejoso, mesquinho, forreta, imprestável, pouco civilizado, desonesto e mandrião.
O mais engraçado é que as pessoas referem-se ao Tuga como quem fala de uma espécie de animal selvagem ou praga abjecta que se reproduz alarvemente nos esgotos onde repousa depois dos raids selváticos que faz sobre a civilização, que somos nós.

Pois que atire a primeira pedra aquele que que nunca invejou a namorada do bonitão lá da escola, que nunca fingiu uma cólica para não ter de arrumar a cozinha, que nunca se abotoou com o troco errado na pastelaria lá do bairro, que nunca inventou uma avaria no carro para se baldar ao aniversário da sogra.
Que se levante de um salto aquele que nunca colou uma pastilha elástica debaixo da cadeira do escritório, que nunca gamou sombrinhas de chocolate na mercearia do Sr. Lino, que dá sempre prioridade aos peões nas passadeiras, que nunca experimentou vinte vezes seguidas a massa do bolo de chocolate com o mesmo dedo da mesma mão.

Pois eu digo, como maior orgulho: o Tuga tem características únicas e maravilhosas.
Vejamos:
O Tuga é solícito e adora ajudar o próximo:
Não haverá muitos países em que seja tão simples arranjar um emprego, quando se conhece bem o empregador. Ou em que os funcionários de uma empresa piquem sistemáticamente o ponto uns pelos outros tanto à entrada como à saída, ou em que se consiga uma consulta no médico com rapidez proporcional ao grau de amizade que se mantém com a senhora que faz as marcações.

O Tuga é poupadinho:
Aproveita quando vai jantar com os amigos para pedir o prato mais caro - a dividir por todos não pesa a ninguém; vai sempre à boleia com o vizinho, já que ele leva o carro todos os dias; come o ensopado de borrego até não restar nada e depois limpa o que fica no bigode com um bocado de pão, que depois também come; vai a doze supermercados diferentes para comprar o que está em promoção em cada um e ignora olímpicamente o que gasta em combustivel no caminho.

O Tuga tem a família sempre ao dispôr:
Tem um cunhado mecânico que poderia ter arranjado o carro praticamente de borla, se tivesse sabido a tempo; uma irmã que trabalha em casa de um actor e que poderia ter arranjado bilhetes para os U2, se tivesse sabido a tempo; um primo no ramo dos electrodomésticos que, se tivesse sabido, poderia ter arranjado um desconto simpático; uma nora hospedeira de terra que poderia ter conseguido um upgrade, se tivesse sabido a horas.

É claro que há sempre os retorcidos, os graxistas, os aldrabões. Mas esses são poucos e actuam áreas específicas como o voluntariado.
Afinal quem é que pode confiar numa pessoa que diáriamente se desloca a uma ou várias instituições degradadas e sem recursos, apenas com o objectivo de ajudar os que lá se encontram internados e sem pedir nada em troca?
Quem é que não desconfia de um vizinho que telefona religiosamente todos os dias a avisar que o cão anda a perseguir as galinhas dele mas ainda não o envenenou, nem lá foi espancar o dono, nem sequer pragueja para o aparelho?
Como é que é possível não suspeitarmos do carácter de bombeiros e gente dessa, que arrisca a própria vida para salvar a de outros que nem conhece, ainda lhe chamam incompetente e nem sequer é pago por isso?
O que vale é que são poucos.
Se eu fosse agora fazer uma música sobre isto seria assim:

“Imita os sacanas, é o que dá dinheiro
Foge do bonzinho, deve ser paneleiro
Ser decente não tráz vantagem real
Serás Tuga em Portugal
Ou serás português, mas no estrangeiro"

É, há mesmo gente que não interessa nada.

quarta-feira, janeiro 13, 2010

A sorte é um filme a cores, mas um filme sobre andebol

Hoje anda aí na página do “Tralhas da vida” um enorme sururu sobre a sorte e o que é necessário para a atrair como um íman. Para mim, antes de mais, vontade.
Concordo em absoluto com a Xica – “a sorte é um filme a cores”, mas um filme sobre andebol.
Eu explico: num jogo de andebol – ou em qualquer outro em que seja legal segurar o esférico - se estiver de costas para a bola não consigo apanhá-la (no meu caso nem que a coloquem com todo o cuidado directamente nas minhas mãos, mas isso é outra história), sendo que a bola tanto pode ser a sorte como o azar.
Se formos destemidos e lutarmos pela jogada pode ser que consigamos marcar golo, mas ao contrário, se nos colocarmos na defensiva, encolhidos, temerosos, o mais provável é levarmos com uma bolada bem assente no meio das sobrancelhas.
Portanto, recebemos aquilo que estamos de mão estendida para receber. Ora, se estivermos sempre de costas para o azar e de frente para a sorte, é natural que esta nos caia nas mãos mais frequentemente, apesar de não nos livrarmos de levar com uma bolada de azar na nuca, de vez e quando. Tudo depende da pontaria de quem atira e da nossa capacidade de nos esquivarmos.

sexta-feira, janeiro 08, 2010

Manifesto um bocadinho radical a bem do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Tenho imensas qualidades, aliás, toda eu sou práticamente só qualidades, como todos aqueles que me conhecem bem sabem, mas uma delas, talvez a mais vantajosa para a minha vida, é que sou muito pragmática. Vejo as coisas como são, tento agir em conformidade e geralmente não perco tempo a pensar no que deveriam ser.
Neste caso específico o que acontece exactamente é que há pessoas. E que essas pessoas gostam de outras pessoas. E têm relações entre si. E que essas relações são todas semelhantes na sua essência – os casais apaixonam-se, coabitam, zangam-se, reconciliam-se, sofrem e indignam-se como toda a gente. Sejam eles que tipo de casais forem – brancos, mistos, negros, velhos, internacionais, deficientes, homossexuais ou hetero.
Pessoalmente não sou fã do casamento enquanto instituição – pelo-me sinceramente pela festa, adoro tirar o mofo do trapinho, comer bem, beber melhor, rever amigos e dançar musicas foleiras até desabar exausta e com os pés encardidos – mas não acredito que o papel passado traga vantagens significativas a uma relação. Na verdade, as únicas que reconheço no casamento são as mesmíssimas que hoje os homossexuais pedem para si: direitos sucessórios, pensões, baixas de assistência à família, visitas hospitalares...
Bolas, se eu me apaixonar por outra mulher e decidirmos partilhar a nossa vida como casal, com amor e respeito uma pela outra, por que raio de carga de água é que não posso visitá-la no hospital se ela ficar doente, por que razão não poderá ela ficar com a casa que construímos e partilhamos durante a nossa vida, por que motivo não poderemos ser uma família?
Sim, porque se é certo que não acredito no casamento, não há nada em que acredite mais do que na família.
O Filipe e eu vivemos juntos há quase treze anos e o mais perto que estivemos de casar foi quando decidimos brincar às comédias românticas numa cerimónia bonita e sentimental que oferecemos a nós próprios em Las Vegas. E somos muito felizes. Temos três filhos lindos e vivemos em paz com a vida. Tanto eu como ele somos vidrados nas nossas próprias famílias e temos relações próximas com elas. Portanto, não será o matrimónio que que une ou desune as famílias, é o amor e o respeito que existe entre os seus elementos. E isso não há papel, contrato ou registo que ensine.
É por estes motivos, que, quando ponho os olhos e os ouvidos nos argumentos absolutamente arcaicos e hipócritas que por aí grassam, proferidos por personalidades que inclusivamente já foram infiéis no casamento ou já mantiveram ou mantéem relações homossexuais, só me apetece é ganir.
Quando leio pessoas cultas e pelas quais tenho respeito intelectual irem contra o casamento gay apoiadas em motivos conservadores que vão desde o conceito de casamento pressupôr a procriação ou o facto de casamento ser obrigatóriamente a união entre dois elementos de sexos diferentes, dá-me vómitos. Num mundo perfeito não haveria sofrimento, as famílias seriam todas funcionais e toda a gente teria emprego e viveria feliz e contente. Mas lá está, o Mundo está longe da perfeição só que é nele que temos de viver, apesar de tudo. Há muitos documentos que pregam a igualdade entre raças e credos, que obrigam a tratar os idosos com dignidade, que protegem as crianças acima de tudo. E todos os dias assistimos paulatinamente à violação repetida dessas normativas sem que se oiçam vozes discordantes, sem que alguém se insurja.
Eu vejo o que acontece e o que acontece, de facto, é que há tanto casamentos hetero sem descendência como relações informais com filhos; tanto casais casadíssimos que se agridem brutalmente como casais casadíssimos que se adoram durante uma vida. E todos estes podem escolher casar, não casar, divorciar-se ou continuar como lhes der mais jeito. Mas também há os casais de cidadãos homossexuais que se amam e respeitam. E que também gostavam de poder escolher. Mas não podem, devido a um mísero detalhe – não é por terem antecedentes criminosos agressivos, nem problemas psiquiátricos graves, nem por serem desonestos, manipuladores ou bêbados, esses casam à vontade – é pelo que gostam de fazer na intimidade. Dá vontade de rir.
Não gosto especialmente do Sócrates, que fique claro, mas há uma coisinha que eu gostava imenso que alguém me explicasse: se o casamento gay já estava nos planos do PS e o país deu a vitória a Sócrates, parece-me que não deveria haver discussão. Esperem! Parece que há cerca de 90.000 cidadãos que pretendem referendar essa lei pois entendem que têm de ter voto na matéria.
O aborto é uma questão de saúde pública, morrem pessoas, muitas pessoas por causa disso todos os anos. E referendou-se. E foi tudo para a praia fazendo com que a consulta não fosse vinculativa. E acabou por se referendar de novo, gastando duas vezes o dinheiro que tanta falta faz ao país.
O casamento homossexual não é uma questão de saúde pública, é uma questão de igualdade social.
Gostaria de fazer um pequeno questionário aos 90.000 cidadãos indignados:
1) Afinal o que é que têm a ver com isso?
2) Em que é que o casamento entre pessoas do mesmo sexo aquece ou arrefece a vossa vidinha?
3) Exactamente o que é que acham que vos dá o direito de opinar sobre a vida privada dos outros?
Tenho cá uma ideia. Se calhar devíamos começar a referendar outras coisas fracturantes: o castigo exemplar que merecem os maridos que agridem as mulheres, quem abandona os seus velhos ou os pais que ignoram ostensivamente os filhos, que não os ouvem e não os aceitam?
Deixem-se de falsos moralismos e hipócrisias antiquadas e preocupem-se antes com as vossas verdades e com a forma como vivem e tratam as vossas famílias. E deixem os outros viver a vida deles longe de preconceitos fúteis e sem sentido.
Tenho dito!

segunda-feira, dezembro 14, 2009

Actualidade

Um senhor chamado Massimo Tartaglia fez recentemente a um homem (apesar de não serem casados um com o outro) uma coisa que a maioria das mulheres tem vontade de fazer um pouco mais frequentemente do que de vez em quando aos maridos e que a esposa da vítima gostaria certamente de ter sido ela a fazer: afinfou com uma réplica da catedral de Milão nas ventas de Silvio Berlusconi e atirou-o para uma cama de hospital. Eu pessoalmente acho muito pesado... se calhar fazia a coisa mais maneirinha – uma Torre de Belém, por exemplo, deve ser mais fácil de manejar.

quarta-feira, novembro 18, 2009

Numa de aliviar a pressão...

...dos últimos dias, ontem à noite agarrei na minha mais velha e desandámos as duas para o CascaiShopping. Os pretextos eram dois: tirar fotocópias dos cadernos dela para levar a uma amiga que está com gripe e comprar comida para o cão.
Resolvida a primeira tarefa, abraçámos a segunda.
Se até ontem não existia para mim piores vendedores que os de timesharing, agora a pústula foi tomada por um novo tipo de larvas: os vendedores de comida para animais.
Foi assim:
Eu:
- Boa noite.
Empregado solícito:
- Boa noite.
Eu:
- Olhe, eu queria comprar comida para o meu cão e preciso de um conselho seu.
Empregado cagão, de sobrolho levantado:
- Sim?
Eu, receosa:
- A ração que nós costumamos dar ao cachorro é a Royal Canin, mas isso é o mesmo que alimentar o cão a bifes do lombo, por isso eu estava aqui a pensar se não haveria uma mais baratinha, mesmo que de qualidade ligeiramente inferior...
(tipo bife de perú, pensei eu)
Empregado empertigado:
- Ai, não. Quer dizer, ter temos, mas não são boas rações. Cá em Portugal só há cinco boas: Royal, Eukanuba... (e desata para lá a debitar mais umas marcas de que eu nunca ouvi falar).
Eu, ligeiramente irritada:
- Mas são más? Tipo causam distúrbios intestinais, fazem cair o pelo ou cegam os pobres bichos?
Empregado empertigado, em tom condescendente:
- Não, nada disso, minha senhora. Mas sabe, eu trato a minha cadela como se fosse minha filha...
(se há coisa que eu não aguento nesta vida é que me tratem por “minha senhora”)
Eu, um bocado mais irritada:
- Sabe, é que eu filhos tenho três e não os alimento a caviar e champanhe francês, mas não tarda nada não tenho dinheiro nem para lhes dar ossos moídos. Repare que eu não pretendo dar ao cachorro lixo nem restos de animais em decomposição, só queria saber se há alguma ração mais em conta, é que ele só tem ainda seis meses e já gastamos com a comidinha dele quase o mesmo que em escolas.
Empregado ainda mais condescendente:
- Tudo bem, arranjo-lhe uma mais barata. Mas está a ver aquela cadela ali?
(e aponta para um hipopótamo dourado a ressonar no meio da loja)
Se não fossem as rações boas que sempre lhe dei, ela hoje já não se mexia, coitadinha.
(e toca de chamar a morsa com nome de mulher, para perto de nós, o que causou logo um chilique na Teresa, que morre de medo até do Migas)
Empregado condescendente, muito técnico e ligeiramente irritado comigo, continua:
- Se fosse um cão pequeno, vá, até aos dez quilos, ainda podia optar por um outro alimento, mas os cães grandes - já percebi que o vosso é grande, não é? - precisam de reforçar as articulações para poderem permanecer no seio da família mais tempo e com mais qualidade de vida. Além de que os cães de grande dimensão têm muita tendência para problemas no estômago...
Eu, fula da vida, a ponto de lhe enfiar uma coleira estranguladora pela goela abaixo:
- Ok pronto, ganhou. Dê-me lá a Royal de 15 quilos, por favor.
Paguei, agarrei na saca e atravessei o shopping de uma ponta à outra com aquilo ao lombo, em cinco segundos, com a Teresa quase a correr atrás de mim.
Sou fraca, por isso garanto que para a próxima nem passo perto dele e da sua lojinha pretenciosa. Vou direitinha ao Continente.

Os dez mandamentos

Este ano a Teresa passou para o 5º e teve que mudar de escola. Após meses de intensa angústia, aturada pesquisa, contas minuciosas e estatísticas várias sobre o efeito que a decisão teria sobre a qualidade de vida de todos os elementos desta família, optámos por um colégio com qualidade de ensino reconhecida, não demasiado caro e perto da escola onde andam os outros dois.
Como o mundo não é um local perfeito, alguém se lembrou de criar a palavrinha "mas". E o mas desta situação é que o colégio é religioso.
Não é que tenha alguma coisa contra, mas tanto o Filipe como eu somos agnósticos convictos, o que apenas tornou a nossa decisão um bocadinho mais demorada. Concluímos então que mal não faria e até podia ser que lhe fizesse bem. E ela lá anda feliz e contente.
Aqui há dias, ao jantar, a Teresa mencionou que ia ter teste de Moral - pronto, têm destas coisas - que precisava de decorar os dez mandamentos e se, por acaso nós não os sabíamos.
Não querendo passar por ignorantes, lá começámos os dois: não matarás, não roubarás, não cobiçarás a mulher do próximo.
E ela, mas isso são só três!
Como nenhum de nós se lembrava de mais mandamentos, começamos a inventar: não farás mal aos animais, não poluirás as águas e as terras... e assim por diante. Não faltarás ao respeito a ninguém, não deixarás comida no prato. Apesar do ridículo, até achávamos que estes eram uns bons mandamentos e mantivemos o nosso ar compenetrado de pais responsáveis e sérios. Intenção que ela deitou por terra quando se levantou da mesa e, com um suspiro disse:
-Não inventarás os dez mandamentos...